Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina 


As estratégias de  comunicação dos movimentos sociais na Idade Mídia
Professor Albino Rubim diz no II Encontro Estadual de Comunicação e Educação em Saúde que movimentos sociais são alternativa para reorganização da sociedade e que precisam buscar reconhecimento como atores públicos


O médico e professor da Universidade Federal da Bahia Albino Rubim disse no II Encontro Estadual de Comunicação e Educação em Saúde que os mecanismos de participação da sociedade no Sistema Único de Saúde poderão servir de exemplo para a luta pela democratização da comunicação no país. Ele analisou estratégias político-midiáticas do Greenpeace, Anistia Internacional, MST e movimento neozapatista no encerramento do encontro que reuniu em outubro do ano passado em Florianópolis jornalistas, educadores, secretários de saúde, conselheiros e lideranças de movimentos sociais de Santa Catarina. O evento debateu propostas e experiências de comunicação visando ampliar a participação da população no SUS. Albino é professor do Departamento de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, mestre em Ciências Humanas pela UFBA  e Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo.

Inicialmente o professor da UFBA definiu a sociedade civil, os movimentos sociais e as organizações não governamentais como  "atores sociais e políticos situados além do estado e do mercado". Lembrando a estruturação da sociedade a partir do estado-Nação e, mais recentemente, a organização da sociedade baseada nos princípios do mercado, Albino vislumbrou uma nova alternativa de regulação e restruturação da sociedade a partir desses novos atores que provêm dos movimentos sociais. Para ele, esses movimentos possibilitam a reorganização da sociedade a partir de critérios que não sejam orientados pelo estado nem pelo mercado. Segundo o autor alemão Harry Pross, as entidades da sociedade civil e do estado desempenham um papel não só organizativo mas colocam um conjunto de demandas e de formas de protesto. O professor Albino Rubim, porém,  diferencia as ONGs do restante da sociedade civil e dos movimentos sociais pois, além do papel de demanda e protesto, essas organizações também executam políticas públicas antes restritas ao governo. Para Pross, as ONGs buscam através do protesto chamar atenção do público para que ele  se coloque a favor daquelas demandas. As atividades de protesto têm uma dimensão comunicativa, pois querem se tornar uma coisa pública.


"O Greenpeace faz uma ação  direta espetacular. Como os anarquistas, que são contra a política representativa: 'Faça você mesmo diretamente a política' "

Apesar de ter origem nos Estados Unidos, o Greenpeace é considerado uma entidade da sociedade civil global, pois atua em mais de 150 países.  Caracterizado por atos espetaculares em que seus militantes se amarram em portões de usinas nucleares ou  impedem testes nucleares - como aconteceu no atol de Moruroa, onde teve barcos afundados -, o Greenpeace se tornou uma entidade emblemática na defesa do meio ambiente. De acordo com o professor Albino, a estratégia do movimento não é uma coisa ocasional. Foi pensada há muito tempo para obter repercussão por intermédio da mídia. Trata-se de uma "ação direta espetacular", explica Albino, lembrando que a ação direta tem origem no pensamento anarquista, contrário à política representativa, protagonizada por intermediários que são os políticos. "Faça você mesmo diretamente a política", diz a lógica do movimento anarquista. Os atos do Greenpeace têm esse caráter espetacular deliberadamente construído e possuem dimensão além do seu entorno. O protesto é feito não só ao redor de uma usina nuclear já que a mídia é convidada pelo Greenpeace e divulga o ato para o mundo.  Albino considera "muito bem constituída e muito bem desenvolvida" a estratégia política midiática do movimento, que repete os atos à exaustão sempre mudando a sua forma na busca do inusitado, como subir em lugares que são marcos de determinados países ou cidades para exibir cartazes imensos. O Greenpeace também desenvolve estudos técnicos para subsidiar alguns movimentos mas sua "marca"  é a ação direta espetacular.
"A Anistia Internacional nasceu na Inglaterra mas também é uma entidade da sociedade civil global. É o partido dos direitos humanos, mas não se alinha com nenhum partido"

O professor da UFBA também apresentou aos participantes do I Encontro Estadual de Comunicação e Educação em Saúde o exemplo de outra entidade da sociedade civil global, a Anisitia Internacional, criada na Inglaterra e com atuação em mais de cem países como referência na luta pelos direitos humanos. A Anistia não tem ação direta ou espetacular como o Greenpeace. Sua ação é mais sutil, caracterizando-se pela elaboração de trabalhos técnicos, qualificados, não politizados, que não se alinham  com nenhum partido "a não ser o partido dos direitos humanos e contra qualquer forma de agressão dos direitos humanos". A entidade ocupa posição de fonte privilegiada da mídia internacional pois detém informações extremamente bem checadas sobre os direitos humanos no mundo inteiro e  possui o que Albino define como "fino senso de oportunidade". Quando acontece, por exemplo, um golpe de estado em qualquer país, rapidamente a Anistia Internacional disponibiliza um conjunto de dados e informações sobre o assunto que a imprensa do mundo inteiro está buscando. Nos massacres de Eldorado dos Carajá e do Carandirú, a Anistia imediatamente preparou relatórios para a mídia sobre as questões fundiária e carcerária no Brasil, informando quantas pessoas foram assassinadas, quais são os problemas dos presídios e quantos conflitos aconteceram. A entidade contraria o entendimento de que toda estratégia político-midiática nos tempos contemporâneos precisa recorrer ao espetáculo.
"Com armamento limitado, os neozaptistas seriam derrotados mas, com uma série de estratégias - com o grande peso da mídia -, levaram o governo mexicano a um impasse" 
O movimento revolucionário dos indígenas do estado de Chiapas, México, que Albino Rubin chama de "neozapatistas", não constitui propriamente um movimento da sociedade civil global, como o Greenpeace ou a Anistia, porque tem um forte enraizamento local. A nacionalidade aqui é importante, observa o professor, acrescentando que a utilização da Internet pelo movimento foi muito além da simples divulgação de seus feitos, geralmente analisada nos estudos sobre a Frente Zapatista de Libertação Nacional. Albino conta que o movimento levou cerca de dez anos para se implantar na pobre região de Chiapas e desencadeou uma ação de guerrilha armada de quinze dias em janeiro de 94. Com armamento limitado, os neozapatistas certamente seriam derrotados mas, com uma série de estratégias - inclusive com o grande peso da mídia -, conseguiram bloquear a ação do exército do México, criando uma situação de impasse e negociações que perdura até hoje. Parte do território  mexicano está sob o controle dos revolucionários. O professor disse que a Internet também foi utilizada para a realização de uma ampla consulta entre simpatizantes de vários países sobre o futuro do movimento. "Eles pensaram em como se enraizar na sociedade mexicana quando terminasse a situação de conflito bélico. Havia varias opções, como se transformar num partido de esquerda, integrar o PRD (Partido da Revolução Democrática) ou se tornar um movimento social, legalizado. Gente da Suécia, do mundo todo, podia optar. Acabou ganhando a idéia  de criação de um movimento social não partidário". Para Albino, a estratégia dos neozapatistas com a rede mundial de computadores configura, "muito mais do que a divulgação, uma coisa mais orgânica, da própria organização do movimento, das decisões".
"Os comunicados dos zapatistas são bonitos. Falam das lendas dos homens de milho e dos homens sem face. Eles usam máscaras"

O professor também analisou no Encontro de Comunicação e Educação em Saúde a intervenção dos revolucionários na Imprensa, especialmente junto aos jornais mexicanos, como o La Jornada, que foi um grande dilvulgador dos comunicados do movimento. Eles enviavam os seus comunicados a cada dois dias para a Imprensa. "Alguns comunicados são muito bonitos" - observa Albino Rubim - "Alguns retomam lendas indígenas daquela região do México, dos Maias, que falam dos 'homens de ouro', dos 'homens de milho', que são homens que se rebelam e que não têm face... O comunicado trabalha esta lenda em relação aos neozpatistas já que eles são homens sem face, pois usam máscaras. Tem comunicados em que eles criam determinados personagens que não são personagens reais. São fictícios. Eles criam o 'velho Antonio', que é como se fosse um índio, um sábio, um conselheiro que é chamado a discutir, em determinados momentos, determinadas estratégias para dar determinadas soluções. Só que este velho não existe. Então eles trabalham a mídia de uma maneira muito distinta do que um movimento de esquerda trabalharia. Alguns comunicados são muito bonitos literariamente. E tiveram um altíssimo índice de aproveitamento na Imprensa".

Para explicar a complexidade da estratégia político-midiática dos neozapatistas, o professor relatou a prisão pelo movimento de um ex-governador de Chiapas, que sofreu um julgamento com a presença da mídia. Ao invés de realizar um justiçamento, como se espera de um movimento armado tradicional, eles fizeram uma exposição pública da política anti-popular do ex-governador, que era um latifundiário extremamente violento, e o libertaram. Albino Rubim também disse que o movimento neozaptista promoveu um encontro na selva reunindo cinco mil pessoas e obteve grandes espaços na Imprensa mexicana e na Imprensa internacional, quinze dias antes de uma eleição presidencial no México. Os comunicados e o palco do encontro lembravam o filme Fitzcarraldo, que conta a aventura real de uma expedição que busca construir um teatro na selva amazônica, no Brasil, chegando a transportar embarcações por terra, de um rio para outro.


"Os sem-terra são disciplinados, organizados, e têm senso de oportunidade. Invadiram as terras do Jáder Barbalho quando a mídia discutia a cassação dele" 
Outro movimento analisado pelo professor da UFBA foi o Movimento dos Sem Terra. Como os revolucionários mexicanos, o MST não é um movimento da sociedade civil global, é um movimento social enraizado num determinado país. O MST tem uma ação político-midiática bastante intensa nas suas marchas e invasões de terras e prédios públicos. Albino também destaca o senso de oportunidade dos sem-terra, sintetizado na invasão da propriedade de  Jader Barbalho, justamente quando a mídia discutia a cassação do ex-senador.  Ele explica que um ato político pode ter repercussões de vários tipos: "Uma passeata numa  rua tem uma repercussão no seu entorno, sendo conhecida por todas as pessoas que estão circulando por ali, mas pode buscar uma dimensão política muito além desse entorno". Este é o caso das marchas do MST nas estradas, diz o professor, observando que as estradas não têm nem entorno, a não ser os carros que passam em alta velocidade. As marchas são movimentos feitos para terem repercussão muito mais além do seu entorno porque são acontecimentos extremamente midiáticos. Para Albino Rubim, as marchas mexem com o conjunto de imaginários como a coluna Prestes e marchas que desencadearam revoluções em outros  países.

Os sem-terra, segundo o professor, são muito organizados e discicplinados. "Tudo é extremamente pensado: a organização, a disciplina da marcha, as bandeiras que são levadas, os bonés". Ele narrou um mutirão de limpeza realizado pelo MST durante uma marcha, num bairro pobre e populoso de Itabuna, Bahia, que acabou ganhando generosos espaços na emissora local da TV Globo, de Antonio Carlos Magalhães: "Eles mostraram que são um movimento social organizado de trabalhadores, disciplinados, e não uns baderneiros".


"Essas estratégias político-midiáticas combinam a rua e a tela, a dimensão local e a global"

Albino Rubim qualifica o MST, o Greenpeace, a Anistia Internacional e os neozapatistas como movimentos bastante diferenciados - dois são da sociedade civil global e dois são fortemente enraizados - e  extremamente consistentes, com bastante eficácia social. Desenvolvem estratégicas políticas comunicacionais  bastante diversas, "relevantes e bem formuladas, dando conta da especificidade dos movimentos e do que os movimentos querem, sem descaracterizá-los". Ao contrário, essas estratégias têm o efeito de ampliar o movimento e fazem com que o movimento esteja presente socialmente de forma muito forte. Outra conclusão do professor da UFBA é a de que tais estratégias envolvem dimensões bem distintas, pois se voltam para o espaço geográfico, para os planos de convivência, para o local,  o espaço chamado metaforicamente de "rua", e também se voltam para espaços eletrônicos, dimensões de televivência (vivências à distância, mediadas por aparatos socio-tecnológicos) e para dimensões globais. Albino chama este outro plano de "as telas", acrescentando que são estratégias político-midiáticas que investem na "rua" e na "tela", combinando essas duas dimensões.
"O silenciamento  é a pior situação de qualquer movimento. Ele tem que se tornar interlocutor, ator público"

Ele classifica as estratégias analisadas como vitoriosas porque esses movimentos conseguiram ser reconhecidos como atores sociais imprescindíveis à discussão dos seus campos de atuação - as questões indígena e agrária, o meio ambiente e os direitos humanos. "O silenciamento  é a pior situação de qualquer movimento", decreta o professor, sugerindo que a primeira estratégia político-midiática de um movimento deve ser a de buscar reconhecimento como interlocutor, como ator público. "A disputa se dá em dois planos. O primeiro plano é a existência pública. O segundo é a disputa em termos da interpretação do real. A segunda questão é ver se prevalece a versão daquele ator ou dos outros atores. Quer dizer, é ver se prevalece a versão do MST ou a do Governo sobre a reforma agrária. Esta é a segunda disputa. O MST já tem a primeira vitória. Já está reconhecido como ser que fala legitimamente sobre a reforma agrária, tem credibilidade social".

"O movimento não pode ser só midiático. Tem que ter base no geográfico" 
Definindo a contemporaneidade como sociabilidade estruturada e ambientada pela informação e comunicação, sintetizada na expressão "Idade Mídia", Albino Rubim disse que a cidade hoje é tão complexa que não se pode mais entendê-la sem um sistema de comunicação. "Os movimentos sociais precisam perceber isto", comentou ele, analisando os riscos das estratégias político-midiáticas. Uma preocupação é a de que o movimento se torne apenas midiático. "O movimento tem que ter base no geográfico", afirmou o professor, alertando, também, para o perigo da personalização do movimento. "A televisão é caracterizada pela individualização, a personalização é uma dinâmica da mídia", explicou Albino, acrerscentando que as intervenções político-midiáticas devem ser criativas mas não podem "espetacularizar" todos os atos. E devem estar relacionadas a um determinado tipo de sociedade.

A singularidade da sociedade contemporânea deriva do modo de viver e dos perfis que nós temos hoje 
Segundo Albino Rubim, todas as estratégias político-midiáticas perceberam a singularidade dessa sociedade contemporânea. Para ele, a singularidade da sociedade contemporânea deriva do modo de viver e dos perfis que nós temos hoje. "Quer dizer, o mundo contemporâneo é diferente do mundo moderno". Ele explicou que a política moderna é fundamentalmente uma "política das ruas", sempre feita fortemente nos espaços geográficos, sejam a rua, a praça ou um Parlamento, que são também espaços convivenciais. "Nós nos encontramos, nós nos defrontamos com outro em presença, quer dizer, um Parlamento é isso, ou seja, um debate em presença. Um comício na rua também é uma coisa desse tipo. Então, a política moderna é muito fortemente marcada por essas características".

De acordo com o professor da UFBA, na política contemporânea continuam a existir comícios, passeatas, debates parlamentares, mas não podemos mais acreditar que a política moderna é apenas feita na dimensão geográfica ou convivencial. A política contemporânea acrescenta novas dimensões, que estão num espaço eletrônico, compondo um plano de vivências à distância.

Para Albino, a eleição é sintomática nisso. Um exemplo prático foi a última eleição presidencial que aconteceu antes da ditadura, em 1960, quando a disputa dos votos se deu através de caravanas que percorriam as cidades brasileiras. "Os meios de comunicação apenas cobriam essas caravanas, os comícios, os atos que essas caravanas faziam. Eram todos atos em espaços geográficos convivenciais. A mídia, na verdade, era totalmente dependente disso".

Já na primeira eleição presidencial pós-Ditadura no Brasil, em 1989, o centro da eleição não eram mais os comícios e as caravanas que percorriam o Brasil. O professor lembra que "existia comício, existia caravana, existia o corpo-a-corpo da eleição, mas um dos espaços vitais da eleição foi o espaço eleitoral na televisão, o espaço eletrônico, onde a política se realizou".

Com isto Albino Rubim quer dizer que no mundo contemporâneo nós vivemos uma situação onde combinamos espaços geográficos e eletrônicos, convivências e televivências. E é justamente isto que dá uma peculiaridade ao modo de viver contemporâneo, no entendimento do professor, que emendou que "as estratégias políticas midiáticas estão sintonizadas com essa nova percepção da contemporaneidade, nesse novo modo de viver contemporâneo".

Para ele, vivemos hoje em um mundo 'glocalizado ', isto é, um mundo local, que é atravessado por fluxos globais. E acrescentou: "o que nós vivemos hoje é um mundo geográfico e eletrônico. Combinatório entre os espaços geográficos e eletrônicos". Isto é, uma combinação de convivências e televivências, é combinação do local e do global. "E as estratégias, portanto, político-comunicacionais têm de estar, na verdade, adequadas a esse mundo que se vive".


As pessoas não acompanham a vida das cidades. "Elas só sabem o que está no jornal, na rádio, na televisão, porque a cidade é tão complexa que não temos mais a capacidade de ter uma informação da cidade sem uma intermediação técnica, sócio-tecnológica". 
Para ilustrar suas posições, Albino referiu-se a um texto que leu na Revista Teoria e Debate. A revista fazia uma crítica sobre passeatas estudantis, que estariam muito preocupadas em "aparecer na mídia". Nessas manifestações muitos cartazes lembravam propagandas, como uma campanha publicitária da época que dizia "Que bonita camisa, Fernandinho!". O slogan da publicidade foi retrabalhado politicamente por estudantes de um colégio do Rio de Janeiro que fizeram uma faixa com Fernando Collor com uma camisa listrada de presidiário. "O artigo foi insensato, pois, como é que os jovens não vão fazer política lidando com a cultura que eles têm, que é a cultura da publicidade, a cultura do mundo onde estão inseridos? Não tinha como eles fazerem outra faixa para levar numa manifestação. Quer dizer, é claro que eles têm que digerir politicamente aquilo que está sendo dado para eles, que faz parte da vida deles".

Para o professor Albino Rubim, "uma manifestação que tenha um efeito na mídia está sintonizada com a sociedade". Mas o que sabemos hoje da nossa cidade, que é o nosso local de vida, não é somente a partir de comunicações interpessoais, de comunicações convivenciais frente a frente. Do nosso local, que é a cidade, nós sabemos, em boa medida, a partir de sistemas de comunicação midiatizados. Assim, as pessoas não acompanham uma boa parte da vida da cidade. "Elas só sabem o que está no jornal, na rádio, na televisão, porque a cidade é tão complexa que eu não tenho mais a capacidade de ter uma informação da cidade sem essa intermediação técnica, sócio-tecnológica", explica Albino, alertando que já passamos da etapa de viver numa cidadezinha pequena, onde todos sabem o que acontece porque passam na rua e vêem as coisas. "Essa não é mais a cidade que nós vivemos, é uma cidade complexa; por isso, nós temos que ter, então, um conjunto de sistemas de comunicação para nos deixar atualizados sobre a vida da cidade".

Em função disto, o professor observa que não se pode fazer uma crítica a um movimento que percebe, que sabe disso e que, portanto, vai agir neste sentido apesar de não ignorar que nesta visão também há riscos. "Entretanto", adverte ele, "não basta ter uma estratégia midiática". Há um grande risco, nessa estratégia, de se criar um descolamento entre o movimento que está no plano do local, do geográfico, do convivencial, e este movimento que está no plano dos espaços eletrônicos. E completa: "Se você cria um rompimento entre uma coisa e outra, você descola uma dinâmica da outra, você entra mal".


A mídia tem uma forte tendência a personalizar tudo. 
Para Rubim, o desafio é criar uma dinâmica que ao mesmo tempo dê conta da expansão do movimento num plano geográfico, combinando-a com a expansão do movimento num plano mais amplo, no plano do espaço eletrônico, por exemplo. "Se você descolar uma coisa da outra, você começa na verdade a ter um movimento que vira ficção, que está no plano puramente dos espaços eletrônicos sem nenhuma base no espaço geográfico. Aí há um complicador. É um movimento que começa a ter uma dinâmica no espaço e não tem nenhuma base no outro espaço. E isso complica a vida de qualquer movimento. Esse é um risco imenso". Há o perigo de o movimento ficar prestando atenção excessiva aos efeitos de mídia e virar apenas midiático.

Outro risco grande, segundo ele, é o da personalização. Isto porque, de acordo com Albino Rubim, a mídia tem uma forte tendência a personalizar tudo, não só pelas características de um veículo como a televisão, que é um veículo que tem muito esta característica da individualização, da singularidade, porque ela não fala de indivíduos em geral, ela fala daquele indivíduo e mostra aquele indivíduo, como também de determinadas técnicas jornalísticas que são feitas hoje.

Na opinião dele, uma técnica jornalística muito comum hoje é a da personalização. "Em vez de você trabalhar um acontecimento ou um conjunto de acontecimentos vagamente - pessoas que estão numa determinada situação de saúde, por exemplo, ‘mil pessoas morreram’ iou ‘trezentas pessoas estão doentes com uma determinada doença’ -, você pega uma dessas pessoas e exemplifica a partir de uma pessoa, personaliza aquilo que seria um dado abstrato. Isto é uma estratégia jornalística bastante utilizada hoje em dia". E é justamente isto que ele acredita que a mídia faz o tempo todo: busca a personalização. "E se o movimento deixar se personalizar demais, ele acaba enquanto movimento social e se transforma em alguns personagens midiáticos. Neste sentido, por exemplo, é muito interessante o que faz o MST, que tem várias lideranças, ou seja, ele não constituiu uma liderança que fale pelo MST sozinho. Então, todos falam, muitas lideranças falam pelo MST. Não deixaram que o movimento fosse personalizado numa pessoa só".

Um caso que, segundo ele, sintetiza bem esta visão ocorreu no México. "Ninguém entendeu direito quando o sub-comandante Marcos e os zapatistas fizeram aquela marcha para a cidade do México, que foi notícia no mundo inteiro. Mas quando o pessoal queria que ele fosse falar no Parlamento - qualquer movimento mandaria o Marcos falar -, ele mandou uma sub-comandante, que era uma índia, que foi quem falou por eles. Quebrou a lógica da expectativa da mídia e dos parlamentares de que Marcos fosse ao Parlamento".

Para Albino Rubim, é fundamental que a estratégia político-midiática esteja em consonância com o mundo em que nós vivemos, atenta aos riscos que a acompanham. Ele cita como exemplo a estratégia de espetacularização do Greenpeace, que tem um conjunto imenso de riscos. "Isto pode reduzir toda uma atividade política à produção de atos espetaculares, o que é muito complicado também porque há uma série de atividades políticas que não podem ser transformadas em espetáculos, porque tem grande parte da política que é espetacular, ela é uma política extraordinária, quer dizer, a política que rompe com a ordinária no dia-a-dia, não ordinária no sentido pejorativo".


"Se você reduz a política a uma dimensão puramente espetacularizada, você deixa de lado da política uma série de dimensões". 
Para ele, a política é uma coisa do dia-a-dia, e, por isto, não há como espetacularizar as comissões que atuam no Congresso Nacional. "Se você reduz a política a uma dimensão puramente espetacularizada, você deixa de lado da política uma série de dimensões, e é extremamente problemático fazer política desta maneira".

Concluindo seu raciocínio, Albino Rubim sentencia que cada uma dessas estratégias comporta riscos que têm que ser percebidos e analisados pois não se pode sair por aí espetacularizando todos os atos simplesmente porque isso vai garantir mídia. "Há um grande risco de se cair numa dinâmica que é só correr atrás de espetáculo".


Veja os sites dos movimentos sociais  analisados nesta matéria:


Albino Rubim lança livro sobre comunicação e política

 

O professor Albino Rubin lançou o livro "Comunicação e Política" pela Hacker Editores. A obra busca compreender o impacto de uma sociabilidade estruturada e ambientada pela mídia, característica marcante da contemporaneidade, sobre a atividade política. Ele é o resultado da pesquisa "Novas Configurações da Política na Idade Mídia" desenvolvida pelo autor com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico/CNPq.
A idéia central do trabalho é analisar as transformações acontecidas na política, cujas instituições, atores, valores, etc, em boa medida, foram constituídos na modernidade. Nessa perspectiva o livro estuda as novas espacialidades assumidas pela política contemporânea, quando a tela configura-se como um novo espaço da disputa política, que passa a ocupar um lugar cada vez mais significativo em comparação com os espaços geográficos, lugares por excelência da política moderna.
As adequações exigidas para a realização da política nessas novas espacialidades são temas analisados no livro, através do enfrentamento de questões como a espetacularização da política. As disputas e complementariedades de poderes entre o campo midiático e o político, as novas estratégias político-midiáticas, as transformações acontecidas no processo eleitoral são outras temáticas debatidas no livro, que traz ainda um panorama dos estudos de comunicação e política no mundo e, em especial, no Brasil e sugere uma bibliografia fundamental sobre o assunto.
Outras informações sobre "Comunicação e Política", inclusive sobre a aquisição do livro (R$ 16,00), podem ser obtidas na Hacker Editores, pelo telefax (0 xx 11) 3735-7028, das 10 às 17 horas, ou no site www.hacker-editores.com.br.
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