Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina
Falta comunicação entre as comunidades pobres e os governos
Líder comunitário Antonio Joel de Paula destaca no II Encontro Estadual de Comunicação e Educação em Saúde a importância da articulação com órgãos públicos e constata ausência de meios de comunicação nas comunidades carentes
O líder comunitário Antonio Joel de Paula diz que faltam órgãos de comunicação que retratem a realidade das comunidades carentes da capital catarinense. “Florianópolis não é só praia bonita, tem a periferia que é pobre”, reclamou ele no II Encontro Estadual de Comunicação e Educação em Saúde realizado em outubro no Hotel Valerim em Florianópolis. Antonio, que é conselheiro do Centro de Atividades Chico Mendes, organização comunitária que assiste crianças carentes em Florianópolis, apresentou no evento a visão da comunidade sobre as políticas públicas na área da saúde e disse que os vereadores e o secretário municipal da saúde não conhecem a realidade vivida pela população de baixa renda.
Natural de Caçador, SC, onde foi conselheiro de sindicato de trabalhadores em oficinas e madeireiras, ele também desempenhou na capital catarinense as atividades de conselheiro municipal de saúde e conselheiro do Orçamento Participativo, de 1994 a 95, na administração do prefeito Sérgio Grando. Também foi presidente da Associação Comunitária Novo Horizonte e vice-presidente da Associação de Pais e Professores da Escola América Dutra Machado.
Leia, a seguir, a íntegra da palestra de Antonio, que subsidiou no encontro a Oficina "Organizações sociais e o SUS", orientada pelas professoras da UNIVALI Águeda Wendhausen e Teresa Gaio.
"Nós criamos uma comissão de meio ambiente. É um trabalho que a gente vem desenvolvendo há nove anos. É uma luta grande porque a nossa área era a mais pobre de Florianópolis"
"Eu vou falar da minha comunidade e de outras comunidades também, da comissão do meio ambiente que abrange três comunidades, as comunidades Chico Mendes, Nossa Senhora da Glória e Novo Horizonte. É um trabalho que a gente vem desenvolvendo há nove anos. É uma luta muito grande porque a área dessas comunidades, principalmente a Chico Mendes, há uns quatro ou cinco anos, era a mais pobre de Florianópolis em questão de saúde, educação e problema de lixo, que era um caso muito sério. Então a gente se reuniu nessas comunidades com a participação de assistentes sociais, da gestão anterior da prefeitura, lideranças, moradores e presidentes de associações, criando a comissão de meio ambiente. Hoje a realidade é outra: se 70% era lixo, hoje tem só 20% de lixo dentro da comunidade. Foi uma parceria com a prefeitura, com a COMCAP, a companhia de limpeza urbana. Hoje se trabalha com os próprios moradores, que estão desempregados ... a gente tem um convênio, de três em três meses, que paga um salário mínimo para eles. A gente criou lá naquela comunidade os agentes comunitários de saúde. A gente criou o projeto. Começamos com três pessoas e hoje estamos com 30 agentes comunitários. Aquele pessoal trabalha também no desenvolvimento da saúde da comunidade. São atividades que muito contribuem com as comunidades.
"Aquela articulação com os órgãos públicos era uma grande conquista do povo. Mas o governo municipal desestabilizou os movimentos sociais"
Nós também conseguimos na nossa região uma creche, que hoje nós perdemos espaço. Por quê? Porque o governo municipaldesestabilizou os movimentos sociais, chamando para si a responsabilidade, para fazer as coisas como ele quer, sem discussão com o movimento popular. Era uma grande conquista do povo aquela articulação. Hoje o povo não tem mais aquela articulação com o órgão municipal e com o próprio governo estadual. E a responsabilidade com o povo é de todos os níveis de governo, federal, estadual e municipal. Então está faltando aquela comunicação dentro das comunidades. Também existia dentro daquelas comunidades o conselho local da saúde, onde a gente discutia uma vez por semana todos os problemas da saúde e levava para o Conselho Municipal de Saúde. Hoje não existe mais. Então estamos lá sem comunicação. Quando se senta em mesas com os vereadores, com o secretário da saúde, eles acham que o que povo fala não é realidade... Mas eles não conhecem a realidade, eles não andam na comunidade para ver a realidade. A gente andou com algumas pessoas na terça-feira com alguns moradores e gente do município para eles verem como é a realidade. Aí eles começaram a ver como é a realidade, como é que aquele povo vive. Tem a questão dos ratos, animais... Onde está o direito do cidadão na saúde, na educação? Onde está o direito da sua área de lazer, que não existe?
"Eu resgatei aqui um jornal de 95 que saiu na nossa comunidade. Ele morreu na casca porque nós não tivemos contribuição"
Eu resgatei aqui um jornal de 1995 que saiu na nossa comunidade, 'Comunicando a Vida", que morreu na casca porque nós não tivemos contribuição. E este jornal seria a grande comunicação entre a comunidade e os governos.
A realidade não é aquilo que se fala, que está tudo às mil maravilhas. Eu estive numa conferência em Belo Horizonte onde eu fui conhecer a Lagoa da Pampulha. Na frente é uma beleza. Se você dá a volta por trás, você vê que está se destruindo a natureza. Eu entreguei para o ministro José Sarney Filho, do Meio Ambiente, uma cartilha que a gente fez sobre o nosso trabalho. 'Só falam das belezas de Florianópolis, das bonitezas, o senhor não conhece a realidade. Só falam das praias, mas a periferia, ela está sendo esquecida'. Quando eu participei do Orçamento Participativo, em Florianópolis, tinha a relação das comunidades e das suas necessidades. A nossa comunidade era a primeira em termos de pobreza mas lá na praia, no cantinho da Daniela, tinha também uma comunidade pobre e tiraram aquele povo de lá. Para tirar o povo lá da praia, colocaram lá perto do Rio Vermelho... Morro da Caixa, que é por aqui, eu também gostaria que os senhores caminhassem por ali, para ver a situação da população. Nos falta é comunicação. Não é só o índio que está esquecido. A população pobre está esquecida, também. Falta mais empenho dos nossos governos em olhar a nossa população.
"Antigamente se dizia: 'O que está faltando é segurança, educação e saúde'. Hoje falta mais dois: 'moradia e trabalho' "
Comunicação é muito importante dentro da comunidade... e nós não temos. Hoje nós temos no nosso bairro, o Monte Cristo, uma população de quase 25 mil habitantes. A comunidade Chico Mendes faz divisa com São José... E nós não temos nada em termos de comunicação. Uma vez nós colocamos lá dentro da comunidade trinta estudantes da universidade. A universidade não saí, agora é que ela está saindo dentro das comunidades. Mas era difícil a gente tirar o pessoal das universidades. Então, quando aqueles trinta estudantes foram lá na comunidade, tinha gente dando pulo para não pisar no barro... Falta o básico para a nossa população. Educação, saúde... antigamente se dizia: 'O que está faltando é segurança, educação, saúde...' Hoje se diz mais dois: moradia e trabalho. É o que falta. Mas, se olhar para o interior do estado, aí tem que pensar em políticas do governo estadual, do governo federal... Este povo que está aí nas nossas comunidades carentes, não é culpa dele. É culpa dos nossos governos. Se dessem assistência, eles jamais sairiam do interior. Jamais estariam aumentando os bolsões de pobreza, as favelas. Nós pagamos o salário de cada vereador, de cada deputado. Nós elegemos eles. Eles têm obrigação de olhar pela população.
"'Não adianta ter posto de saúde se não tiver recursos humanos para trabalhar'"
A saúde hoje está um caos. A gente enfrenta fila. Chega lá no posto de saúde às cinco horas, às cinco e meia, e fica esperando, enquanto o médico chega às vezes às oito horas... Conversando com um médico, ele diz que o tempo básico para atender um paciente é dez minutos. Mas hoje é um minuto. Só dá uma olhadinha e pronto. O material humano hoje dentro dos postos de saúde é pouco, é precário. Eu participei de umas reuniões com o Flávio Magajewski, que era secretário de saúde de Florianópolis, e a gente pedia para ele: 'Nós queremos posto de saúde'. E ele respondia: 'Não adianta ter posto se não tiver recursos humanos para trabalhar'. E esta é a realidade. Hoje nós temos posto. Nós ganhamos um posto, foi conquista, resultado de muita luta e união. Mas não se tem o material humano. Para atender as nove comunidades que o posto vai abranger é preciso ter no mínimo umas três ou quatro equipes de trabalho. As pessoas têm dificuldade para trabalhar lá. Não tem espaço, é um amontoado. O usuário fica tudo na chuva, no sol, no frio, esperando pela consulta do médico...
"A nossa comunidade não sai na mídia. E a população tem que estar nas linhas dos jornais... Se abrir espaço, o povo vai ter a sua voz"
A nossa comunidade não sai na mídia. Na mídia eu vejo mais o centro. E a população tem que estar nas linhas dos jornais... É preciso abrir espaço. Se abrir, o povo vai ter a sua voz, a sua vez de falar. É preciso respeitar o direito de cada cidadão. Onde está o direito do cidadão? Uma vez eu escutei uma piada sobre um caboclo que estava com um problema, com diarréia. Aí ele chegou na farmácia e pediu um remédio. Demoraram para atender e ele acabou fazendo as necessidades nas calças. Aí ele saiu. Na rua, uma pessoa perguntou para ele onde era a farmácia. Ele respondeu: 'Olha, é só seguir este risquinho aqui...' A nossa realidade é esta. Como é que a gente enfrenta a situação dos postos de saúde, da emergência do hospital? O dinheiro tem o seu valor. Se o cidadão não consegue atendimento no SUS e tem dinheiro, aí ele paga a sua consulta. Mas, se não tem dinheiro, fica aí esperando três, quatro meses, até um ano. A pessoa acaba morrendo."