Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina
As bases da educação popular em saúde
Revista da Fiocruz sintetiza conferência do educador Miguel Arroyo no II Seminário sobre Educação Social e Saúde no Contexto da Promoção da Saúde
Diálogo entre os sujeitos, educação vista como humanização, resgate da humanidade roubada, trabalho com a totalidade das dimensões do sujeito e, finalmente, busca de matrizes pedagógicas apropriadas à formação deles. Estes foram os cinco pontos fundamentais para a educação popular em saúde destacados pelo educador Miguel Gonzalez Arroyo
durante conferência no II Seminário sobre Educação Social e Saúde no Contexto da Promoção da Saúde, realizado em agosto de 2001 na Universidade de Brasília. A conferência de Arroyo, denominada 'A prática educativa como processo de construção dos sujeitos', foi sintetizada em edição da revista 'Tema', publicada pelo Programa Radis(Reunião, Análise e Difusão de Informação sobre Saúde) da Escola Nacional de Saúde da Fundação Oswaldo Cruz(Fiocruz). A seguir, apresentamos o texto da revista, que dedicou toda a sua edição de novembro/dezembro de 2001 ao evento.Diálogo
Miguel Arroyo retoma o pensamento de Paulo Freire à luz da conjuntura atual, afirmando que “devemos recuperar a educação como diálogo de sujeitos”. Segundo ele, o diálogo entre sujeitos, síntese do processo educativo, é uma dimensão que foi perdida quando a educação foi reduzida a algo tecnicista, classificado como “adestramento”. Na cultura política e social brasileira o povo nunca foi reconhecido como sujeito. “Se pudesse repensar o título desta conferência, substituiria a palavra construção por reconhecimento de sujeitos, uma vez que todo ser humano é um sujeito em construção “, frisou. Os sujeitos devem ser vistos como agentes que têm sua história, trajetória, cultura e valores.Humanização
Na Educação Popular, educar é antes de tudo um processo de humanização. A diferença entre a concepção tecnicista e a concepção de educação popular é que a educação popular não abandona algo que está na raiz de todo ato educativo: tornar os seres humanos mais humanos. Humanizar é situar os processos e práticas educativas no cerne, nos anseios, e nas lutas dos setores populares. A educação problematiza a própria vida humana.
Os setores populares estão na fronteira da vivência e procuram o setor de saúde por uma questão básica de existir, ser ou não ser. A minoria da sociedade supera a fronteira da vivência, pode prolongar a vida e usa o setor saúde para isso. Já nos setores populares, até para viver se tem que lutar, emancipar-se. “Na fronteira, a vida carrega os sentidos humanos da dignidade, da emancipação e da justiça”, afirma Arroyo.Resgate
Se a busca pela humanização pertence ao processo, a desumanização faz parte dele. Assim, educação é o processo de resgate da humanidade roubada por fatores como a fome e o desemprego, sem cair numa visão romântica dos setores populares. A educação tem que trabalhar com esta realidade para poder transformá-la.
“O povo sofre. Se olharmos para seus corpos veremos que são corpos mutilados. Em Belo Horizonte, vi militares montados a cavalo organizando a fila de ônibus como se estivessem apartando gado”, diz Arroyo, para dar exemplo do processo de desumanização. Segundo ele, a prática da construção de sujeitos tem que partir dessa realidade, concreta e brutal, que retira das pessoas a condição de serem humanas.Sujeito total
Educar é trabalhar com a totalidade das dimensões do sujeito e não apenas com aspectos específicos como comportamento, habilitação para o trabalho, qualificação para o mercado, ou ainda conscientização política. Para Miguel Arroyo, o ser humano precisa ter autonomia e maturidade para tomar decisões. O objetivo é formar sujeitos conscientes e éticos, mas a dimensão ética implica na identificação dos valores populares.
“A partir de uma pedagogia que reconhece os valores do povo é que as velhas concepções são mudadas”, diz o educador, lembrando que deve-se partir do reconhecimento do povo como sujeito de sua própria cultura, enquanto conjunto de sujeitos culturais, estéticos. Uma das heranças populares é a estética. Tudo o que o povo faz é ritualizado, segundo Arroyo, e por meio dessa ritualização ele busca a beleza.Matrizes
Para criar eixos geradores da construção do sujeito é preciso trabalhar a partir de matrizes pedagógicas, como o corpo. Para Arroyo, se a educação e a saúde se encontram em algum lugar, este lugar é o corpo. Ele lembra ainda que outras matrizes são bastante familiares, como a palavra, que é capaz de mudar valores, consciência e hábitos. Ou como o trabalho, cujas condições mate-riais devem ser humanizadoras. “Por fim, há também as condições de convívio, de interação, onde, a partir do relacionamento e da troca de experiências, os homens se formam”, acrescenta.
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