Nos anos 80, o Brasil
atravessou
o período chamado transição
democrática, abrindo
novos caminhos na busca de apagar as marcas do autoritarismo
do regime
militar. Foi um período de intensas lutas sociais: pela
anistia
e retorno dos exilados, pela reabertura e
legalização dos
sindicatos, pelo fim da censura.
Entram em cena novos atores.
Trabalhadores
do campo e da cidade, moradores, pobres da periferia, mulheres,
educadores
e estudantes que se organizavam em diferentes movimentos
sociais.
Lutavam contra a carestia, por saúde,
educação, transporte,
moradia, terra, tornando-se a expressão de
resistência
à ditadura militar. Buscavam
participação nos
espaços públicos, prefeituras, secretarias,
conselhos, colegiados,
enfim espaços que através dos quais fosse
possível
controlar e fiscalizar as ações governamentais.
É
nesse contexto que surge o Movimento Diretas-Já (1983-1984),
as
mobilizações na elaboração
da Nova Constituição
(1987-1988), e as inúmeras
contestações frente ao
governo Collor (1992) que resultaram no primeiro impedimento
(impeachment)
de um presidente brasileiro civil eleito e deposto por
corrupção.
A intensa atuação
dos movimentos sociais no Brasil, nesse período,
possibilitou um
conjunto de experiências onde foram gestadas novas
práticas
sociais e políticas, não sendo no campo da
saúde diferente.
A história de luta nesse setor, no Brasil, acompanhando as
mobilizações
existentes, foi marcada por momentos de muita
efervescência.
O direito à saúde, à
democratização
dos serviços públicos de saúde e
à qualidade
do atendimento eram as bandeiras de luta tanto dos
profissionais
da área engajados no Movimento de Reforma
Sanitária como
do Movimento Popular de Saúde, organizado por
lideranças
populares e comunitárias espalhadas em todo o
país.
De um lado, a
contestação
do sistema de saúde dominante e das políticas de
saúde
de caráter privativista e elitista implementadas pelo regime
militar,
de outro lado, a sede de participação popular de
lideranças
comunitárias que reivindicavam uma nova política
de saúde,
bem como a garantia de participação popular na
gestão
da saúde nas esferas públicas estatais. Muitas
experiências
de conselho de saúde, com participação
direta de lideranças
da comunidade, foram realizadas nas periferias das grandes cidades,
como,
por exemplo, na Zona Leste de São Paulo, cuja
análise resultou
em uma pesquisa que realizei, fruto da
Dissertação
de Mestrado “A prática educativa do Movimento de
Saúde na
Zona Leste da cidade de São Paulo: experiência de
dois Conselhos
Populares de Saúde”
(PUC-SP,1988), que se traduziram
em verdadeiros focos de resistência e de
gestação de
novas formas de intervenção popular, de
relação
médico-paciente, de relação do
conselho popular de
saúde com políticas de saúde vigentes.
O balanço dos anos 80 e
início
dos 90 permite afirmar que os Movimentos Populares de Saúde
de então
contribuíram de forma decisiva e significativa na
formulação
de novas políticas para essa área. No entanto, o
cenário
dos anos 90 é diferente. O projeto neoliberal que vem sendo
implementado
no país tem gerado inúmeras dificuldades em
vários
campos. De um lado, a dificuldade de enfrentamento dos movimentos
frente
ao novo papel do Estado, que vai retirando-se de cena, diminuindo sua
responsabilidade
com atendimento à saúde e transferindo-a ao setor
privado.
Com isso quero dizer que há um esgotamento de
velhas formas
de luta e necessidade de criar outros mecanismos para enfrentar as
políticas
do Estado e pensar mediações na
relação entre
serviço público e o serviço privado.
Essa questão
diz respeito aos dilemas e desafios do conjunto dos
movimentos sociais
alternativos do país. De outro lado, verifica-se a crise de
paradigmas
explicativos e a real dificuldade de pensar e elaborar
alternativas.
Percebe-se que essa
situação
crítica e de incertezas repercute nas lutas por
saúde, revela-se
na desorganização daqueles movimentos que
cresceram e germinaram
nos anos 80 e início dos anos 90. Poderíamos
dizer que há
uma certa fragilização das
forças progressistas
no contexto nacional, que classifico como um momento de
redefinições.
Isso significa dizer que é um momento de replanejar novas
estratégias,
buscar novas formas de produção de conhecimento e
de intervenção
na realidade.
Nesse contexto e com essas
intenções
surge o que tem sido denominado Movimento de
Educação Popular
e Saúde, com origem nos anos 80, mas que ganha um
caráter
diferenciado nos anos 90. Seu processo de
constituição
veremos a seguir.
1. Movimento de Educação Popular e Saúde
O Movimento de
Educação
Popular e Saúde nasce a partir de vários
espaços que
aglutinavam pessoas de diferentes áreas, tendo em comum a
problemática
da saúde. Organizam-se fóruns de debate sobre
a temática
da saúde coletiva e nesse processo germina alguns
frutos.
Um aspecto que quero aqui desenvolver é a
constituição
de um espaço de construção de um novo
campo de conhecimento
e de um outro movimento de gestação de novas
experiências.
Observa-se aí a necessidade de uma profunda
relação
entre educação popular e saúde.
É no interior
desse compromisso que se situa este artigo,
buscando apresentar
melhor Educação Popular e
Saúde no interior
das experiências de luta que vêm
ocorrendo em Santa
Catarina e em todo o Brasil.
Nos anos 90, surge um novo
movimento
que reflete novas necessidades e desperta novos questionamentos no
campo
da educação e saúde: trata-se do
Movimento de Educação
Popular e Saúde. Esse movimento nasce no Rio de Janeiro no
interior
do grande Simpósio Inter-Americano de
Educação
para a Saúde, organizado pela
Organização Panamericana
pela Saúde - OPAS, em 1990, reunindo profissionais de
saúde
de todo o continente. Na ocasião, alguns profissionais de
saúde
do Brasil apontavam a necessidade de um espaço diferente,
que possibilitasse
aprofundar os desafios das práticas em saúde numa
relação
direta com a educação. Desde então
muito vem sendo
feito nessa perspectiva, buscando pensar os
múltiplos cruzamentos
entre teoria e prática no campo da saúde e no
campo da educação.
Esse novo Movimento de
Educação
Popular e Saúde reúne diferentes grupos
sociais que
buscam juntos refletir, agir, encontrar novas perspectivas na luta por
saúde e educação. Esses grupos
são formados
por lideranças comunitárias e populares e por
profissionais
da saúde e professores e pesquisadores das
Universidades e
Programas de Formação e das
Pós-Graduações
nas áreas de educação e
saúde.
Um primeiro grupo, vindo do campo
dos Movimentos Sociais, inclui várias
lideranças de
bairro, membros de Conselhos de Saúde, setores das Pastorais
vinculados
à Igreja Católica, entre outras
atividades que estão
no cerne de todo o Movimento que luta por saúde neste
país
nas mais diversas formas e espaços de conflito.
Há um grande
leque de pessoas, grupos e associações que atuam
nos Movimentos
de Saúde, Movimentos Ecológicos, Movimento de
Mulheres, Movimento
Negro, Movimentos em Defesa dos Direitos das Crianças e
Adolescentes,
Movimentos de Juventude, Organizações
Não- Governamentais
– ONGs que encontram, em determinados momentos,
espaços e
pontos de inter-relação na luta por
saúde, compreendida
aqui no seu sentido mais amplo.
Um segundo grupo, que
denomino de profissionais de saúde, reúne
inúmeros
profissionais de diversas áreas, seja da saúde
especificamente
ou de áreas próximas, que atuam nos
serviços de saúde,
hospitais, centro de saúde, saúde preventiva, ou
profissionais
que atuam em áreas de apoio, de
comunicação, de campanhas
de prevenção como AIDS, Drogas,
Hipertensão, Diabetes,
entre outros, como nos programas de saúde,
Programa da Saúde
da Mulher, Programa Saúde da Família, ou ainda em
Campanhas
contra Epidemias como dengue, malária, cólera,
etc. Também
estão incluídos grupo de profissionais
da área
da educação, professoras de todos os
níveis, desde
Educação Infantil até a universidade e
pós-graduação,
que conseguem visualizar novas dimensões do
trabalho educativo,
associando a sua relação com a saúde e
com a cultura.
Um terceiro grupo de
pesquisadores
das áreas da saúde e
educação popular
vem, juntamente com outros grupos da sociedade em geral,
realizando
encontros, articulações, fóruns,
seminários,
da âmbito nacional, estadual, regional e local, elaborando
publicações,
entre outras atividades. O objetivo primeiro é estabelecer
um diálogo
permanente entre conhecimentos, práticas,
experiências
de Educação Popular e Saúde.
Esse grupo
composto por professores universitários que atuam
nas áreas
de Educação Popular, Saúde
Coletiva, Enfermagem,
Medicina Preventiva, entre outras, que vem participando
ativamente
de várias atividades realizadas pelo Movimento. Esses
pesquisadores
participam de grupos de pesquisa em diversas Universidades,
entre
elas Univ. Estadual de Campinas- UNICAMP, Escola Nacional de
Saúde
Pública - FIOCRUZ, Univ. Estadual de São Paulo -
USP, Univ.
Federal da Paraíba, Univ. Federal de Santa Catarina, Univ.
Federal
Fluminense, entre outras, e vêm atuando sistematicamente
neste campo
da Educação Popular e Saúde.
Por ser uma
combinação
de vários grupos com interesses comuns, mas com
particularidades,
faz-se necessário conhecer melhor cada um deles,
identificá-los
no interior desse Movimento, relacionar suas
motivações
e perspectivas, para investigar
elementos
que sustentam suas relações entre si.
Só dessa
forma, poderemos conhecer profundamente esse processo que
está em
curso. Essas, no entanto, são questões que estou
ainda investigando.
O Movimento tem sido articulado
e alimentado especialmente através de alguns eventos.
São
esses eventos - encontros, seminários e debates - que se
constituem
como o espaço aglutinador de inúmeras
experiências
em educação popular e saúde
que vêm ocorrendo
no Brasil nas últimas duas décadas. Um primeiro
fórum
de discussão e reflexão foi o I Encontro Nacional
de Educação
Popular e Saúde, que se realizou na
cidade de São
Paulo, em 1991, durante a gestão da Prefeitura do
Partido
dos Trabalhadores, com a participação de
aproximadamente
250 pessoas de todas as regiões do país.
Nesse evento,
construído
junto à gestão municipal, participaram desde
agentes comunitários
de saúde, raizeiros, pessoas que conhecem ervas
medicinais,
lideranças dos movimentos de saúde de todo o
país,
bem como lideranças do movimento de mulheres, de ONGs que
vinham
lutando numa perspectiva de educação popular e
saúde.
Também estavam presentes os mais diversos profissionais de
saúde,
desde enfermeiros, odontólogos, médicos (com
diversas especialidades),
nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos,
professores e
pesquisadores, que durante uma semana estiveram debatendo e
proporcionando
um amadurecimento frente à luta por
educação
popular e saúde.
Como resultado do Encontro,
formou-se uma Comissão Nacional de
Articulação de
Educação Popular e
Saúde com objetivo
de manter acesa a perspectiva de fortalecer os espaços de
aprendizagem,
troca, acúmulo e reflexões sobre
educação
popular e saúde. Desde então, essa
Comissão
tem realizado e participado de várias atividades e publicado
o jornal
Boletim Nacional da Articulação entre
Educação
Popular e Saúde que circula trimestralmente desde 1992.
Através
dos membros da Comissão Nacional de
Articulação
de Educação Popular e Saúde,
observa-se o desenvolvimento
de inúmeros projetos e encontros estaduais ou
regionais, alimentando
a discussão entre saúde e
educação e propiciando
novos encontros para solidificar a aproximação
entre as diferentes
áreas. Alguns eventos específicos e
regionalizados
ocorreram nesse período, entre eles os I e II Encontro de
Educação
Popular e Saúde, na cidade do Rio de Janeiro (1991 e
1993),
Encontro Mineiro de Educação Popular e
Saúde (1994),
Encontro Catarinense de Educação Popular e
Saúde (1997),
entre outras atividades.
O Movimento de
Educação
Popular e Saúde, articulado em Santa Catarina, Rio
de Janeiro,
Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e em outros estados,
é
fruto de um longo movimento por saúde que ocorre no
país.
Nesse sentido, quando se fala em movimento de
saúde está
se referindo às inúmeras lutas que se
desenvolveram na história
dos anos 70, 80 e 90. No interior da luta por saúde, brota
esse
Espaço-Movimento composto por diferentes interesses, mas que
aglutinam
suas práticas em espaços da sociedade civil, no
processo
de construção de cidadania e saúde e
que na sua grande
maioria tem como foco de articulação a defesa do
Sistema
Único de Saúde de qualidade para toda a
população.
Esaa luta ganha importância porque são os mais
pobres, os
excluídos, que ficam agonizando nas filas dos hospitais ou
são
as vítimas preferenciais de epidemias como a dengue.
As diversas experiências de
luta pela saúde em Santa Catarina, além de
defender o Sistema
Único de Saúde como proposta de
saúde coletiva,
tem se caracterizado por uma trajetória de luta pela
saúde
que se diferencia de outros estados do Brasil. Em Santa Catarina, as
experiências
de luta por saúde vêm sendo travadas em diferentes
espaços
da sociedade civil, no parlamento, nos serviços de
saúde,
nas universidades e espaços de
formação profissional,
nos espaços da religiosidade, nos espaços dos
movimentos
populares. Há um diálogo entre sujeitos
organizados em diferentes
esferas da sociedade civil, envolvidos profundamente, não
só
com as lutas por mais saúde mas que vêm
enfrentando conflitos
das mais diversas naturezas. Por exemplo, estiveram presente no I
Encontro
Catarinense de Educação Popular
representantes do Movimento
dos Sem-Terra, do Fórum Popular de Saúde, da
Pastoral da
Saúde, da Comissão Parlamentar de
Saúde da Assembléia
Legislativa do Estado de Santa Catarina e
Associação
Catarinense dos Ostomizados, Movimento Comunitário de SC,
Movimento
Popular de Saúde, entre outros profissionais e pesquisadores
que
aprofundam o debate sobre as lutas por saúde.
Fica clara a repercussão
dessa nova articulação em torno da
temática da Educação
Popular e Saúde, que vem ganhando
espaços, quer seja
nas associações de pesquisadores da
área da educação
- na Associação Nacional de
Pesquisadores em
Educação (ANPEd), quer seja na área de
saúde
coletiva - na Associação Brasileira de
Saúde Coletiva
(ABRASCO), quer seja no interior dos debates entre categorias
específicas,
na Associação Brasileira de Enfermagem
(ABEn).
Importante registrar que esses
eventos
desenvolvem uma outra relação entre a
sociedade civil,
movimentos populares, grupos organizados que lutam pela
saúde, profissionais
de saúde e pesquisadores das universidades,
associações,
ONGs, entre outros. Na verdade, os inúmeros encontros,
fóruns,
grupos de estudo e grupos de ação direta acionam
um outro
caráter aglutinador que foge das estruturas conhecidas
até
então. Não se caracterizam como meros encontros
científicos,
nem como encontros de militantes ou de profissionais. Trata-se de algo
novo, de uma nova articulação com um outro
perfil. Movido
por um outro amálgama, esse espaço-movimento
proporciona
reflexão, aprofundamento, intervenção,
como também
de socialização de várias
pesquisas, tendo como
núcleo gerador o binômio saúde e
educação
popular.
2.Caminhos do diálogo entre Educação Popular e Saúde - constituição de um campo
O Movimento de
Educação
Popular e Saúde vem trilhando caminhos muito interessantes
que merecem
ser aprofundados. A necessidade de aproximação
saúde
e educação era um desejo e uma necessidade
explícita,
mas ficava a pergunta: como aproximar diferentes práticas e
reflexões
sobre dois campos tão complexos? De um lado, havia uma
distância
a ser superada e a necessidade de estabelecer alguns
elementos de
mediação que pudessem construir um terreno comum
para a discussão
e apontar os caminhos para reflexões e
intervenções
conjuntas. De outro lado, havia um acúmulo na
reflexão quer
seja da história de luta por saúde no
país, assim
como as inúmeras lutas por uma nova
concepção
de educação que constituía um ponto na
linha no horizonte.
Era como se fossem "matrizes referenciais" que deviam ser consideradas
ou submetidas a uma nova re-leitura tanto dos movimentos de
saúde
e resoluções de Conferências Nacionais
de Saúde,
lutas pela implementação do Sistema
Único de Saúde–SUS,
como na cobrança das responsabilidades do Estado frente ao
direito
à saúde. Esses aspectos desafiam o
cruzamento da problemática
da saúde com as experiências de
educação popular.
No bojo do processo de
construção
de conhecimento sobre Educação Popular e
Saúde percebo
um abrir de fronteiras nesses campos do conhecimento e da
cultura,
tanto do ponto de vista da educação popular, como
do ponto
de vista da saúde coletiva. Mas é preciso
construir mediações,
analisar os vários discursos, as várias
representações,
redimensionando-as.
Na realidade, o que é
necessário
é uma delicada relação
dialética, onde as novas
propostas teóricas indicam novos olhares sobre o trabalho
popular,
mas que também a inserção no
meio popular nos
ajuda a selecionar quais destas propostas possam nos servir nas duas
tarefas;
mas ao mesmo tempo, nos permitindo também elaborar
teoricamente
a partir desta inserção, conforme
afirma Valla
( 1998)
Nas experiências
populares
de educação, cujo eixo central é
a luta por
saúde, a concepção de
saúde-doença tem
sido a mais ampla possível e ganha novos enfoques. Permeia
uma concepção
ampla dos determinantes de saúde, desde o cuidado com o
corpo até
a visão de saúde associada à terra,
à moradia,
às políticas agrícolas e
políticas sociais,
ao meio ambiente, à qualidade de vida,
educação, solidariedade,
cooperação, arte,
participação e cidadania.
Esse redimensionamento do sentido do que é saúde
provoca
uma ampliação do sentido da luta,
não restringindo
seus espaços e reivindicações apenas
em torno da saúde,
mas articulando-a com a sociedade, vinculando a luta por
saúde
num contexto pela cidadania.
A meu ver, está em curso
entre os grupos que lutam por saúde um redimensionamento do
conceito
de saúde e com isso passam a percebê-la
também como
um processo de formação, conhecimento,
informação,
educação e comunicação. A
partir dessa visão
de saúde, intimamente relacionada com conquista de melhor
qualidade
de vida, esses grupos apropriam-se do processo de busca de
formação,
conhecimento, forma e estratégia de
mudar a postura
frente ao processo saúde-doença. Assim,
fortalecem as inúmeras
lutas por saúde que vão na
direção de transformar
essa sociedade excludente numa sociedade mais justa, humana,
solidária.
No coração desses movimentos, nos encontros,
percebe-se
um campo novo sendo construído em torno da
temática entre
educação popular e saúde, que tem se
configurado como
espaço-movimento de troca, de
construção de conhecimento
e de ação.
A
aproximação
Educação Popular e Saúde provocou
mudanças
significativas no debate e na reflexão dessas
temáticas.
De um lado, porque implica não só diferenciar
diversas concepções
de saúde, mas pensar na relação do
indivíduo,
grupos ou coletividades e formas de apreensão de novas
concepções
de saúde. Não bastam pesquisas que
reconheçam quais
as representações de
saúde-doença de determinado
grupo, mas como fazer, quais as estratégias de
intervenção
que possibilitem uma mudança nas ações
ou concepções
destes grupos. Aqui entra a mediação da
educação
popular que vai fornecer instrumentos para que o diálogo
aconteça
e frutifique.
Os problemas ganham novos
enfoques,
uma vez que o universo de reivindicações
é ampliado
e permeia desde espaços coletivos, práticas
educativas, assim
como contempla as relações que ultrapassam o
caráter
circunscrito à saúde–doença,
que precisam ser levadas
em conta. Assim, a saúde passa de um enfoque
prioritariamente biológico
e causal para um enfoque social, cultural, mas sobretudo para um
enfoque
educativo no campo da ação para além
da prevenção,
de mudanças de prática frente à
saúde individual
e coletiva.
Como vimos, o Movimento
Educação
e Saúde é tanto um espaço de luta como
um fórum
articulador de pesquisas. Ao mesmo tempo que dialoga com os Movimentos
Sociais que lutam por saúde, dialoga
também com profissionais
de saúde que atuam nesse campo. A
articulação
de diferentes grupos possibilita a reflexão de
práticas educativas,
práticas sociais, práticas de saúde.
Nesse sentido,
são essas múltiplas
relações que se estabelecem
entre educação popular e saúde no
interior desse Movimento
que, no meu entender, vão delineando um
novo campo de
conhecimento.
Embora cada área
específica
tenha acumulado uma bagagem vivida e solidificada e um corpo
teórico
hegemônico, tem surgido e intensificado, a partir das
experiências,
dos encontros sobre educação popular e
saúde, a necessidade
de pesquisas, bem como a elaboração de novos
suportes teóricos
para melhor analisá-las e compreendê-las.
Nesse novo campo de conhecimento,
multiplicam-se os desafios para melhor compreender as
práticas de
saúde e as práticas educativas. Como resgatar com
profundidade
experiências de diálogo entre
saúde individual
e saúde coletiva, relação corpo e
sociedade, entre
público e privado, entre cultura e ciência,
erudito e popular?
Aumentam as exigências de
pesquisas nesse campo
que sirvam de subsídios para novas práticas e
novas teorias
frente às mudanças que ocorrem no campo da
saúde,
campo da educação, campo da sociedade
em geral.
Mas não partimos do zero.
Há uma produção teórica
alternativa que precisamos
resgatar. No campo da
educação, Paulo Freire
é o grande inspirador de novas reflexões que
vêm fundamentar
uma busca de aprofundamento da chamada educação
popular.
Assim, com uma concepção de Paulo Freire,
educação
é essencialmente transformadora de práticas, de
consciência.
Pressupõe o diálogo, o reconhecimento do saber do
outro,
a necessidade de ouvir e compreender o ponto de vista do
outro.
No campo da educação
popular outro grande estudioso é Brandão, que vem
produzindo
importantes estudos sobre a temática da
educação
popular.
Brandão assinala que As culturas existem em processos e em
conflitos.
Na cultura do povo há significados latentes de identidade de
classe
e de compreensão crítica do real que compete a um
trabalho
político através da cultura desvelar,
reforçar, ou
devolver. Assim, acrescenta, ganha
sentido e força
a dimensão dialogal que é a própria
vida das inúmeras
experiências atuais de educação popular
como práticas
que não querem possuir outro projeto histórico
senão
o da emancipação plena das classes populares a
quem aspiram
servir desde um setor específico de trabalho: o do saber
.
(Brandão,1985:72)
A Educação Popular
e Saúde fertiliza o debate, ao levar em conta as
relações
estabelecidas
entre o mundo da cultura e o mundo da vida, os saberes produzidos a
partir
das experiências concretas de luta, possibilitando fazer
novas leituras
da questão da saúde e potencializando a
reflexão.
Caracteriza-se como prática educativa, ou como
educação
popular quando estamos construindo cidadania e dignidade e
para tal
necessitamos acreditar na nossa capacidade de nos tornarmos
sujeitos
individuais e coletivos com critérios de
análise próprios
(Fantin, 1997). Quando falamos de Educação
Popular
estamos nos referindo a inúmeras
experiências populares,
práticas, metodologias, mecanismo de
operação,
instrumentos de análise, reflexões de
significado que
orientam práticas de saúde, práticas
educativas,
concepções de saúde, -
representações
entre outros espaços de socialização
de saber.
O termo Popular foi
incorporado
como adjetivo ao termo educação porque
representou, no passado,
e ainda muitas vezes representa, um universo amplo
de práticas
que desejam dialogar profundamente com esses significados dados
às
práticas culturais.
Muitas vezes o Popular
foi considerado como a negação do erudito, ou
seja, um adjetivo
para cultura, educação,
música, saúde,
casa, movimento entre outros, caracterizando de
diferentes
formas, práticas bastante diversas. O que acontece ainda com
freqüência
é que o termo Popular tem sido
confundido com
significados atribuídos a tudo aquilo que se aproxime de
conceitos
como pobreza – com violência, com
doenças, com ausência
de vida digna, feiura, sujeira, grosseria, estupidez,
ignorância,
etc. ( Fantin, 1997) Esse movimento vem estudando e redimensionando o
conceito
de popular justamente pela sua importância em se tratando de
um novo
campo de conhecimento.
3. Por onde trilham nossos passos e se encontram nossas mãos
O Movimento de
Educação
Popular e Saúde vem trilhando caminhos que trazem na sua
essência
muitos desafios. No interior da luta por saúde, germina
entre outros
movimentos esse espaço-movimento que
aglutina práticas
e conhecimentos num processo de
construção de cidadania
e saúde e que na sua grande maioria tem como foco de
articulação
a defesa do Sistema Único de Saúde de qualidade
para toda
a população.
A temática da
educação
popular e saúde tem se configurado um
espaço-movimento de
construção de conhecimento e de
ação.
No interior desses encontros, percebe-se novo campo sendo
construído.
Nesse sentido temos essa história como ponto de partida para
trilhar
outros passos e potencializar a aproximação
bastante fértil
e desafiadora no cruzamento da problemática da
saúde com
as experiências de educação popular.
Somente nos últimos anos
esse universo vem sendo desbravado e verdadeiras pedras preciosas
estão
sendo descobertas, transformando a busca num processo instigante.
Alguns
autores como Valla e Vasconcelos são exemplos de
pesquisadores que
vêm tematizando essa nova realidade no Brasil.
Valla, no artigo “Apoio
social e
Saúde: Buscando compreender a fala das classes populares
“, aponta
que existe uma fala, ou ainda diversas falas das classes populares, das
favelas, das lideranças dos Movimentos Sociais, que muitas
vezes
não são compreendidas pelos profissionais de
saúde,
técnicos das repartições
públicas, intelectuais
que, na sua maioria, têm curso
universitário. Essa fala
precisa ser compreendida e certas
posturas muitas vezes
refletem uma concepção que não
reconhece a desigualdade
de saberes entre tipos diferentes de agentes, pois a categoria de
construção
desigual de conhecimento tem como implícito origens,
histórias
e formações diferentes entre uma
liderança popular
e um profissional universitário. A
construção desigual
indica diferenças nos saberes e não
necessariamente uma hierarquia
dos saberes. “ ( Valla, 1998).
Já Eymard Vasconcelos no
texto recente “Crise e
Redefinição da Educação
Popular em Saúde nos anos 90”, nos Anais do I
Encontro Catarinense
de Educação Popular e Saúde em
Novembro de 1997, comenta
que: Pode-se afirmar que uma grande parte das experiências de
educação
popular em saúde estão hoje voltadas para a
superação
do fosso cultural existente entre os serviços de
saúde, as
organizações não governamentais, o
saber médico
e mesmo as entidades representativas dos movimentos sociais
de um
lado e, de outro lado, a dinâmica de adoecimento e
de cura
do mundo popular. Nesse sentido, afirma um grande pensador dessa
temática:
Fazem-no a partir de uma perspectiva de compromisso com os interesses
políticos
das classes populares, mas reconhecendo, cada vez mais, a sua
diversidade
e heterogeneidade. Priorizam a relação com os
movimentos
sociais por serem expressões mais elaboradas desses
interesses.
Atuando a partir de problemas de saúde
específicos ou de
questões ligadas ao funcionamento global dos
serviços,
buscam entender, sistematizar e difundir a
lógica, o
conhecimento e os princípios que regem a subjetividade de
atores
envolvidos.
Há um longo percurso a ser
trilhado, mas faz-se necessário ampliar esse referencial
para aprofundar
a relação entre Educação
Popular e Saúde.
Alguns autores têm realizado novas análises,
contribuindo
com a edificação de novas teses e chaves de
leituras teóricas
que procuram dar conta da complexidade do tema.
No interior dessa complexidade
muitos
desafios são tecidos. Na verdade, são
desafios do Movimento
de Educação Popular e Saúde que,
partindo das
experiências locais, buscam potencializar seu
caráter
de articulação, de produção
de conhecimento
e de intervenção na luta por saúde.
Esse tem sido
o processo desencadeado nos eventos estaduais e nacionais que
permitem
visualizar que um novo caminho para além das lutas
em saúde
está sendo traçado a partir da
articulação
da saúde e educação popular,
produzindo novos
conteúdos e novas práticas sociais. É
nesse caminho
que percebo esse espaço-reflexão-movimento se
constituindo
e, desse modo, vejo um tecer de um novo pano feito
a muitas
mãos e um entrecruzar de passos dos diferentes
grupos que
compõem esse universo de teorias e
ações concretas
na luta por educação popular e saúde.
Referências
Bibliográficas
BRANDÃO, Carlos Rodrigues,
Educação Popular , Brasiliense, São
Paulo,1985:72
FANTIN, Maristela, Práticas
Educativas do Movimento de Saúde da Zona Leste da
Cidade
de São Paulo: Experiência de Dois Conselhos
Populares
de Saúde, Dissertação de Mestrado em
Educação
defendida na Pontifícia Universidade Católica de
São
Paulo, São Paulo, 1988
_______ Construindo Cidadania e
Dignidade: Experiências Populares de
Educação e Participação
no Morro do Horácio, Ed. Insular,
Florianópolis, 1997
FREIRE, Paulo, Pedagogia do
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