Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina 


ABRAÇANDO A VIDA  EDUCAÇÃO POPULAR
Maristela Fantin

As experiências do Movimento em Defesa dos Direitos das Crianças e Adolescentes no Brasil  tiveram no Estatuto da Criança e Adolescente, em 1990, sinal de sua força. Hoje, na cidade de Florianópolis,  tem-se novas interlocuções e formas de continuar essa luta.
O Movimento Abraçando a vida tem sido um grupo de pessoas que  vem fazendo uma discussão sobre Infância e Adolescência, usando novas linguagens e novas formas de educação popular. São, na maioria,  mulheres, professoras, artistas, catequistas, profissionais das áreas de saúde, assistência social, educação  que, junto com crianças e adolescentes,  vêm percorrendo a cidade, convidando as pessoas a parar, pensar,  participar,  denunciar, enfim, a se comprometer com algumas lutas em defesa da vida de TODAS as crianças e adolescentes  na cidade de Florianópolis.
O ano de 1999 foi intenso de luta, arte, encontros e desafios. Esse grupo de pessoas começou pequeno e foi crescendo, foi plantando e foi colhendo. Foi semeando e foi molhando o desejo de pessoas de estar mais juntas,  num grito em DEFESA da VIDA.
Uma das primeiras atividades propostas para se fazer foi um ATO silencioso, em março, em frente ao Centro de Educação da UFSC. Ao mesmo tempo, convidava-se as pessoas para empinar uma pandorga, se trazia à tona uma dura realidade que a cidade vem enfrentando.  Numa Carta–Manifesto denuncia-se que: “ A realidade dos meninos e meninas que vivem  pelas ruas da cidade de Florianópolis tem se agravado, eles não têm  assegurados seus direitos básicos de sobrevivência. Na rua são vítimas constantes de violência, de drogas e dos preconceitos. Nos últimos anos, a negligência e o descaso das autoridades competentes têm levado muitas  crianças e adolescentes à morte...”
No silêncio as pessoas exigiam através de um abaixo-assinado  algumas medidas emergenciais tais como: “criação de espaços alternativos que atendam suas necessidades e seus direitos  de alimentação, moradia, cuidados de saúde, tratamento contra dependência de droga, atividades sócio-educativas, atendimento às famílias, formação permanente dos profissionais que atuam nesta área e fortalecimento dos conselhos tutelares com plantão e melhor infraestrutura”. Esse silêncio convida as pessoas a lutarem contra a morte de meninos e meninas de rua com seus corpos, mãos, olhos, tato e ouvidos.
Os convites continuaram a surgir, em diferentes lugares e  com diferentes vozes. A pandorga começou a ser desenhada, colorida, e a ser feita por muitas mãos. Outras formas de lutar pelos DIREITOS das crianças e adolescentes foram aglutinando  pessoas. A educação popular vai trazendo  Paulo Freire   ensinando a  dialogar com  essa realidade tão dura, fria, amarga e, ao mesmo tempo, tão bela, impermeável, contraditória.
Um Festival de Pandorgas na Universidade Federal de Santa Catarina, em março,  aglutina mais um número de pessoas que vão para a praça exigir  ações das autoridades, mas vão também construir   pandorgas, cultura, brincadeiras, com alegria na luta pela Vida.
O abaixo-assinado vai percorrendo escolas, bairros, igrejas, ruas, praças, parques e vai levando consigo a vontade de discutir  problemas tão complexos. Nesse percurso, aparece uma imensidão de indignações contra uma política neoliberal que acentua a exclusão de muitos para manter o privilégio de poucos. Vai se falando, não mais de vida boa apenas para alguns, mas  exigindo  condições dignas  de VIDA para TODOS.
Numa cidade que esconde,  empurra seus problemas de injustiças e desigualdades sociais para os becos e favelas numa política de grandes obras, viadutos, “embelezamento”, maquiagem,  vamos chegando mais perto das pessoas. Pessoas estas  que vivem problemas difíceis, mas que sentem um pulsar, uma vontade, um interesse, uma sede de tocar com suas mãos, confiantes  de que tem muito por fazer. Também acompanha a pergunta: Se eu não fizer, quem vai fazer? Ou ainda: Será que ninguém vai fazer alguma coisa? Vamos esperar de quem atitudes que  poucos se dispõem a fazer.... Essa sede de VIDA vai levando as pessoas a se encontrarem...
A discussão sobre a Infância e Adolescência  vai percorrendo no movimento Abraçando a Vida  dois caminhos: um de estudos, reflexões, pesquisa, debate no campo da educação popular, Direito, Cidadania  e que ocorre na Universidade, nas ONGs, nos sindicatos, nas ruas, nas escolas, enfim, muitos lugares. Mas as mesmas pessoas vão também percorrendo, ao mesmo tempo  outro caminho, ou seja, o desejo de falar, agir, expressar seus sentimentos, sua raiva, sua indignação, sua coragem, suas mãos que sabem dar um basta com carinho, sensibilidade, arte, poesia, ternura...
Surge então a MOSTRA-DENÚNCIA,  Arte e movimento em defesa da VIDA. Nos meses de maio, junho,  agosto, setembro e outubro, percorre diferentes lugares com o debate da violência e os direitos das crianças e adolescentes. São artistas que desafiam  revelar o silêncio, a morte, o descaso, a apatia, a dor, o sofrimento, a cumplicidade com arte, pandorgas, mãos, e muito mais. Essa Mostra percorre  espaços públicos da cidade,  como galeria de arte, escolas municipais e estaduais, escola técnica,  chegando em muitos cantos, lugares onde essa realidade vem sendo enfrentada silenciosamente, dolorosamente, amargamente por professores, pais, mães, educadores, artistas, abertos ao diálogo.
É a educação popular novamente nos proporcionando um profundo diálogo com a realidade, com as mazelas da vida individualizada cada vez mais, mas que grita  frente às  autoridades que se negam a  ouvir ... Junto com essa mostra de arte, percorria o abaixo- assinado que convidava as pessoas a assinar, exigir o fim das mortes, enfim,  mais VIDA.
O  enfrentamento com as autoridades municipais foi se tornando mais explícito. Foi  solicitado, enquanto sociedade civil, audiência, respostas. Numa ocasião chegou-se no  gabinete da prefeita com 40 pessoas solicitando espaço na sua agenda e um NADA.... e mais mortes. Uma resposta atrás da outra  com migalhas, com perfumarias, com embelezamento da cidade, para que as pessoas não vissem o lado pobre,  a fome, o frio, os doente, as filas, a exclusão materializada no privatizar a cidade. A preocupação com uma idéia liberal de cidade. Precisamos transformar a cidade como um lugar de conflitos  em um lugar  agradável, bonito,  sem autoritarismo, fascismo,  marketing,  magia...
Na verdade, a cidade se mostra com qualidade de vida  boa para um número muito pequeno de moradores, cidade com vida pela metade, para um outro número de moradores, uma cidade com pouco investimento em saúde, educação, com tolerância zero, com criança morrendo pelas calçadas... enfim , cidade com morte, droga e violência  para muitos...  Mas isso é uma outra conversa...
O Abraçando a vida vai percorrendo e dialogando com essas imagens de cidade e vai provocando um debate, um relato, um depoimento de que a cidade não vive essa maravilha que nos é apresentada... a cidade esconde muitos casos  estranhos, violentos, ignorados, que pouca gente ou quase ninguém fica sabendo...
São ONGs, sindicatos, gabinetes de vereadores, lideranças, diretores de escolas, pesquisadores, e espaços da cidade que vão sendo percorridos por uma busca de novas ações que não silencie esse grito pela VIDA. São 5.000 mil assinaturas protocoladas no gabinete da prefeita e no Conselho Municipal do Direito da Criança e do Adolescente, exigindo das autoridades providências em relação à política de investimento na área da infância e adolescência na cidade. São inúmeros atos, gestos, mãos que se somam no tecer a cidadania de todos os moradores e moradoras da cidade.
Desse fazer vai surgindo um Abraço na Vida de Todas as Crianças e Adolescentes. Um  encontro que ocorre em dois momentos, num dia de muita chuva, no largo da Alfândega, 22 de outubro e outro num dia de sol, 29 de outubro ao lado da Catedral. São encontros em que as crianças escrevem um carta à Prefeita, mostrando indignação e  cobrança também das responsabilidades  como autoridade. São  outras mãos que tocam tambores, que dançam o boi de mamão, que dançam uma ciranda, que declamam  poesias, que fazem com arte, brincadeira, com alegria, a luta  política em defesa da VIDA.
São muitas mãos, idéias, desenhos encontros, nos quatro cantos da cidade para preparar o I Encontro Abraçando a Vida no mês das crianças, que  vai tomando um corpo bonito, colorido, saudável, com olhos bem abertos e sentimentos a toda a prova... As praças de toda a cidade vão convidando para esse abraço...Assim, a vida vai sendo abraçada com diálogo, com reivindicações, com abaixo-assinados, com pipas, guirlandas... São muitas pessoas, sindicatos, escolas, ONGs que vem abraçar a vida. Não tem palavras para esse abraço...sua força permanece e convida para mais e  mais abraços...
É um emaranhado de braços, olhos, sentimentos. Chega o Natal e o desafio foi  “Abraçar a Luz no Parque da Vida”, festa realizada no parque da Luz e que encerra o ano  com  frutas, velas, sementes, presentes para a Terra de Natal. As pessoas vão chegando, acreditando,  cantando e contando um  novo fazer  de educação popular, arte, fazer VIDA.
Ao retomar  pequenas ações que formam o caminhar do ano que passou, vamos com certeza esquecendo de muitas outras... Cabe registrar os inúmeros gestos de  respeito e valorização que  as pessoas têm e cada dia  vêm  se comprometendo com  a VIDA   para TODOS.
O grupo de pesquisa Educação Popular Saúde e Cidadania esteve  presente  em ações, seja colhendo assinatura, convidando, fazendo pipas, registrando, pesquisando essa dupla relação entre educação popular e saúde seja na  luta por mais vida para todas as crianças e adolescentes da cidade. O Abraçando a Vida ensina. Ensina a descobrir jeitos diferentes  de lutar pelos direitos  de TODOS à VIDA boa, saudável, alegre, com brincadeira, arte e educação. Ensina formas de falar de violência que faz com que a gente reflita mais além que um gesto, mas omissões e negligências. O Movimento também aproxima de  pessoas sedentas de ações e compromissos mais efetivos e revela que  há muito que aprender com essa realidade que nos engole, mas nos leva a descobrir parte do seu encantamento, seu trançado...
Vamos lá,  a vida de muita gente  nos espera e nos convida a um abraço...