Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina 

 

Quando o sonho de consumo se torna ou não um pesadelo:
uma reflexão sobre
o consumo enquanto fonte de prazer e desprazer
 

Ana Paula Bragaglia
apbragaglia@yahoo.com.br
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Doutorado em Psicologia Social



I. Considerações iniciais: conceitos e contextualizações

As considerações aqui colocadas são o resultado de um contínuo exercício reflexivo que tem por objetivo encontrar respostas para o seguinte questionamento: especificamente quais comportamentos de consumo de um indivíduo inserido na sociedade contemporânea podem mais provavelmente alimentar ou provocar algum tipo de desconforto para o mesmo?
Os “comportamentos de consumo”, para este estudo, consistem no conjunto de pensamentos e ações voltados a uma finalidade última de obter uma mercadoria em troca da entrega de uma quantia de dinheiro a quem a oferece. Por mercadorias, entende-se aqui tanto os bens tangíveis, ou seja, cujo uso implica no contato com a forma física do produto em questão, como uma peça de roupa ou um celular; quanto os intangíveis, como encontros a serem providenciados por uma “agência de relacionamentos”, histórias infantis narradas via telefone, ou as mais diversas simbologias associadas aos produtos lançados no mercado.
Acredito que este tipo de análise seja bastante relevante nos tempos atuais principalmente por duas razões.
Primeiramente por que, como será esclarecido adiante, pelo menos nas sociedades capitalistas ocidentais, o consumo de mercadorias tornou-se muito mais freqüente que em outros tempos, seja no que se refere à quantidade de bens comprados ou de situações de compra vivenciadas. Ilustra bem o atual contexto, o apontamento de Bauman (1999, p. 88-89) de que “se os nossos ancestrais filósofos, poetas e pregadores morais refletiram se o homem trabalha para viver ou vive para trabalhar, o dilema sobre o qual mais se cogita hoje em dia é se é necessário consumir para viver ou se o homem vive para poder consumir”.
Além disso, justifica este artigo o fato de que, quando se trata de uma análise crítica sobre consumo, o que parece ser continuamente encontrado são reflexões generalistas que precisam ser melhor detalhadas para que sejam classificadas de acordo com eventos específicos, tornando-se, desse modo mais fiéis à realidade em foco.
Afirmar, por exemplo, que atualmente o consumo é um atentado à liberdade e um consentimento à padronização das subjetividades, bem como levantar que o consumo é um ato de cidadania e de expressão é um tanto insuficiente para entender todo o processo. É preciso refletir, por exemplo, sobre que tipos específicos de comportamento de consumo e de ferramentas de estímulo ao consumo favoreceriam algum tipo de prejuízo ao sujeito e quais não o propiciariam, bem como sobre que mal-estar seria este e por que assim estaria sendo caracterizado; sobre que atos de cidadania e expressão são estes e se eles de fato reverteriam apenas em benefícios aos indivíduos. Da mesma forma, é preciso insistir nas mesmas perguntas mesmo quando não surgem as respostas. Como destaca Featherstone (1995, p. 10) a respeito dos filósofos da Escola de Frankfurt que teceram análises primorosas sobre o consumo e os meios de comunicação de massa, “de modo geral, considera-se que esses autores olham com desprezo para a cultura de massa degradada e não têm nenhuma simpatia pela integridade dos prazeres das classes populares (…) posição (…) ardorosamente endossada pela onda pós-modernista (…) [no entanto] algumas das questões levantadas pelos proponentes da Teoria Crítica – por exemplo, ‘como discriminar os valores culturais’ ou ‘como fazer julgamentos estéticos’ – bem como sua associação com as questões práticas relativas a ‘como deveríamos viver’, não foram realmente superadas, mas simplesmente deixadas de lado”.
Como as práticas de estímulo ao consumo, ou seja, as ferramentas de marketing, entre elas a publicidade, são alvo de críticas, não em raros momentos, generalistas, é preciso depurar a análise também sobre as mesmas. Este enfoque, no entanto, será adotado com exclusividade em outra ocasião, destacando, aqui, sobre esta questão, apenas as reflexões preliminares sobre que tipo de abordagem mercadológica pareceria facilitar o sofrimento psíquico relacionado ao consumo.
Nota-se que este artigo é integralmente fruto de um exercício de abstração, ou seja, seus resultados não partem de uma pesquisa empírica. Isso não significa nem o desmerecimento das reflexões aqui apresentadas nem a ausência de necessidade de comprovação das teorias aqui levantadas através da realização de pesquisas junto a consumidores. Como aponta Featherstone (1991, p. 12), “não há nada de errado com a teoria especulativa de alto nível, exceto quando ela passa a se apresentar e legitimar como algo que está ultrapassando a pequisa empírica, ou que está conseguindo desacreditá-la como uma necessidade”. Com base nesta visão, então, outros trabalhos deverão buscar, através de pesquisas junto a consumidores, a comprovação de que os comportamentos aqui discutidos tendem a alimentar uma sensação de prazer ou desprazer, no intuito de chegar o mais próximo possível da verdade nas análises sobre consumo com o enfoque aqui adotado.
 

II. A sociedade de consumo contemporânea: características e origens

Para refletir sobre prazer e desprazer propiciado por comportamentos de consumo freqüentes atualmente, é preciso antes entender exatamente o que é a atual cultura de consumo e no que ela difere de sua formatação original. Campbell, Lipovetsky e Charles, Slater, e Bauman, alguns dos autores reconhecidos que se dedicaram a mapear características e origens da atual cultura de consumo e dos demais campos da sociedade contemporânea, trazem esclarecimentos suficientes para entedermos essa trajetória.
Segundo Lipovetsky e Charles (2004), a sociedade de consumo atual é aquela do “hiperconsumo”. Mas o que seria isso afinal? A sociedade “hiperconsumista” seria aquela em que os atos de consumo e a lógica de consumo estão presentes em “parcelas cada vez maiores da vida social”, ou seja, em que “até o não-econômico – família, religião, sindicalismo, escola, procriação, ética – é permeado pela mentalidade do homo consumericus” (Op. Cit., p. 25, 122). Analisando a fundo esta assertiva, é possível entender tal sociedade de duas maneiras.
Primeiramente, como aquela em que elementos antes inimagináveis enquanto mercadorias ou palcos de consumo, são agora colocados à venda, ganham muito mais mercado, ou passam a sediar cotidianamente transações mercadológicas. Nesse contexto então, encontra-se no mercado para aquisição mediante a troca por dinheiro, por exemplo, a possibilidade de ter filhos, a formação universitária, “souvenirs” religiosos, a própria adesão a uma igreja, bem como, nota-se escolas, universidades, igrejas, os mais diversos elementos da arquitetura urbana e áreas mais isoladas recheadas de mercadorias à venda diretamente ou sob a forma de anúncios. A respeito deste último cenário, afirma Klein (2003, p. 111), por exemplo, que as marcas parecem “estar por toda parte – nos shows da garotada, ao lado delas no sofá, no palco com seus heróis, em seus grupos de discussão on-line e em seus campos de futebol e quadras de basquete”, e até mesmo em escolas e universidades, um espaço antes imune ao universo mercadológico.
Além disso, tais afirmações de Lipovetsky e Charles ilustram uma sociedade em que situações bastante presentes nas práticas de consumo, como descartar rapidamente um objeto comprado para adquirir outro novinho em folha, ou se pautar predominantemente na embalagem para adquirir um produto são adaptadas para outros campos da vida.
Um destes campos seria, por exemplo, o afetivo. Segundo uma lógica de consumo, então, parceiros seriam escolhidos predominantemente por sua aparência física em detrimento de seus valores, de aspectos da personalidade não expressados via objetos de consumo, bem como seriam vistos como um corpo que pode proporcionar prazer e não como uma subjetividade, isto é, não como um mundo a ser conhecido e partilhado nem que seja por um curto período. É desta maneira que compreendo, por exemplo, a citação de Coelho (2005) de que “a sexualidade do homem pós-moderno tende, então, a se constituir em efêmeras ‘monogamias seriais’ comprimidas em sua, cada vez mais, brevíssima existência, e que acabam por dar a ele seu simulacro de ‘encontro amoroso’”, já que escaparia deste contexto o que se chama efetivamente de sentimento. Dessa forma, então, tem-se invertida a proposição de Kant (2002, p. 58-59) de que “o homem (…) existe como um fim em si mesmo, e não apenas como meio para uso arbitrário desta ou daquela vontade”.
Segundo Lipovetsky e Charles (2004, p. 24), a atual sociedade de consumo começou a se formar por volta de 1950, quando entram em cena tanto a produção e o consumo de massa em resposta à consolidação de tecnologias de transporte, comunicação, de técnicas mercadológicas (“marketing, grandes lojas, marcas, publicidade”), da “lógica da moda”, que foram se constituindo gradualmente após a 1880 (1), bem como, quando passa a ser difundida mais fortemente a “ideologia individualista hedonista”. Como continuam os autores (Op. cit., p. 61), trata-se de “toda uma cultura que incita à satisfação imediata das necessidades, estimula a urgência dos prazeres, enaltece o florescimento pessoal, coloca no pedestal o paraíso do bem-estar, do conforto e do lazer” fortalecida tanto pelo “excesso (de bens, de imagens, de solicitações hedonistas)” como pela “ausência (de sentido, de valor, de projeto histórico)”.
Slater vai ainda mais adiante nos primórdios desta sociedade.
Segundo o autor (2001, p. 25; 27), a primeira revolução no consumo data do século XVI, quando o mercantilismo marca uma primeira revolução comercial que propicia a intensificação do consumo de novas mercadorias até então não usuais, como cortinas, espelhos, cadeiras, mesas, louças, café, chocolate, entre outras.
Também neta mesma época surge o sistema da moda, ou seja, a possibilidade de ascensão social através da aquisição de mercadorias e estilos e não apenas por hereditariedade, tradição, sistema este que ganha força após o século XIX com, por exemplo, o enfraquecimento do poder da igreja e conseqüentemente derrocada das denominadas “leis suntuárias”, as quais, criadas entre XIV e XVI e anunciadas anualmente, continham cláusulas que regulamentavam tipos de comida, roupas e outros objetos de consumo, classificando oficialmente quais eram típicos de reis, e quais destinavam-se à plebe. (Slater, 2001, p. 29).
E no final do século XVIII e no século XIX, além das duas revoluções industriais que marcaram a época, ideiais de movimentos aparentemente contraditórios, como o Iluminismo, precursor do liberalismo e neoliberalismo, e o Romantismo dão ainda mais respaldo a esta cultura consumista. (Op. cit., p. 42) Ao pregar a liberdade de escolha de modelos de subjetividade em detrimento à submissão a doutrinas institucionais, o Iluminismo se encaixa numa visão otimista do consumo como sinônimo de liberdade individual, já que é palco do exercício de escolhas por parte do sujeito. (Op. cit., p. 46) E, como afirma Campbell, no século XVIII, “o movimento intelectual e estético que fora rotulado de romantismo, juntamente com seu precursor, o sentimentalismo”, mais perceptíveis depois de 1750, cujos resultados práticos foram, por exemplo, o surgimento do romance literário, a valorização do “amor romântico”, e ainda o “aparecimento da moda européia ocidental”, foram importantes fatores da revolução do consumo deflagrada naquele período. Afinal, uma vez que tais contextos estimulavam o prazer através da imaginação, ou seja, o prazer obtido não de algo concreto, mas sim, imaginário, as mercadorias também passariam a ser vistas como promissoras fontes de prazer, uma vez que, além do benefício utilitário ligado a seus atributos técnicos, poderiam oferecer ainda vantagens abstratas como a sensação de identificação, de lembrança de alguma experiência vivida, de frustração amenizada, entre outras do plano que o autor chama de “imaginativo”. (Op. cit., p. 109-111; 143)
É importante aprofundar a explicação sobre a sensação, anteriormente apontada, de “ausência”, de “vazio”, que contribui para alimentar a sociedade de consumo contemporânea. Analisando autores como Lefebvre, Bauman, Lipovetsky e Charles, e Slater, este sentimento de “ausência” corresponderia a um sentimento constante de insuficiência ou indecisão em relação a escolhas tomadas, e ainda, de instabilidade. Explica-se detalhamente tais enfoques.
Primeiramente, trata-se da sensação de falta de uma verdade absoluta e imutável que explique o sentido dos atos humanos, ou, como bem definiu Lefebvre (1969, p. 265), de “um vazio mal preenchido pelos dogmatismos e pelos atos de fé, ideologias mantidas através da instituição e de autoridade, levadas ao paroxismo no declínio das ideologias”. Mais especificamente falando, tal “ausência” se explicaria pela sensação de indecisão quanto a que caminho adotar em momentos diversos da vida. A questão é ter ou não ter um filho se não se possui um marido? Pois já não há mais uma ideologia predominante que levante previamente uma resposta negativa. Como não há mais modelos predominantes de subjetividade, pode-se optar por ter esse filho com um amigo, através de inseminação artificial, por meio da adoção, ou simplesmente não se ter, já que não é mais a maternidade o padrão mais ecoado de subjetividade feminina. Está feita a confusão. Forma-se a sensação de que a decisão certa poderia ser a que não foi tomada e, portanto, um vazio constante ocasionado por esta incerteza.
Zizek (1999) ilustra bem esta sensação de desconforto deflagrada pela profusão de oportunidades, de novidades oferecidas pela sociedade contemporânea, quando comenta sobre o “superego pós-moderno”. Afirma o filósofo que, nesta sociedade em que o indivíduo não é mais obrigado a se deter a uma tradição, a um modelo dominante de pensamento e onde há inúmeras possibilidades – algumas vezes aparentes – de felicidade, “a submissão se torna prazer e o gozo transforma-se em dever”. Isso por que, diante do exercício um tanto árduo de se auto-constituir continuamente (já que a sociedade é mais do que nunca mutante, como será explicado a seguir), poupar o pensamento e adotar, sem refletir, uma escolha que o outro sugere (como comprar por impulso o que está sendo ofertado), ou seja, “submeter-se”, passa a ser um alívio; porém, em contrapartida, como há o contínuo oeferecimento de modelos diversos de felicidade (ou, remetendo ao que será discutido aqui, de várias facetas de um mesmo modelo ligado ao consumo) expressos em mercadorias, inovações científicas e tecnológicas variadas anunciadas aos quatro cantos como “imperdíveis”, o sujeito se sente angustiado por não se lançar à experência anunciada. Como continua Zizek (1999), “o superego inverte o kantiano ‘você pode porque deve’, transformando-o em ‘você deve, por que pode’, e ilustra tal comportamento com uma inovação “pós-moderna” bem popular, quando destaca, por exemplo, que “agora que o Viagra pode responsabilizar-se pela ereção, você não tem escapatória: deve fazer sexo sempre que possível e, se não o fizer, deve sentir-se culpado por isso”.
Além disso, entende-se esta ausência como um sentimento intensificado de instabilidade, de descontinuidade que proporciona no sujeito um sensação persistente de que suas conquistas, suas decisões talvez não perdurem por muito tempo, e sendo assim, um novo desgaste reflexivo poderá estar por vir. Como destaca Lefebvre (1969, p. 265), “o mundo mudou muito e muda cada vez mais e muito mais” e, no que se refere a cenários mais específicos, como destacam Lipovestky e Charles (2004, p. 71), “com a precarização do emprego e o desemprego persistente, crescem  os sentimentos de vulnerabilidade, a insegurança profissional e material, o medo da desvalorização dos diplomas, as atividades subqualificadas, a degradação da vida social”. Dessa forma, irrompe a sensação de que nenhum projeto estará finalizado, completo; de que, portanto, mais do que nunca, há um vazio nítido a ser preenchido.
A reflexão de Slater (2001, p. 94) colocada abaixo condensa os apontamentos aqui colocados sobre estes dois significados do “vazio” contemporâneo.

A instabilidade da identidade no mundo pós-tradicional requer que estejamos inevitavelmente envolvidos num ‘projeto reflexivo do eu’: esse projeto é reflexivo porque envolve uma autofiscalização, auto-exame, planejamento e ordenamento ininterruptos de todos os elementos de nossa vida, aparências e desempenhos a fim de combiná-los numa narrativa coerente chamada ‘eu’. Temos de interpretar o passado e planejar o futuro em relação a uma identidade que estamos procurando constituir em um presente social particularmente imediato e transitório.
 

É a busca da eliminação desta angústia que transforma este vazio num importante propulsor da atual sociedade de consumo. (Slater, 2001, p. 94) Na busca do alívio imediato para um mal-estar que parece ter se tornado ainda mais incômodo que em outros tempos, opta-se pela imediatez do bem-estar (não raras vezes de curto prazo) do consumo, seja adquirindo mercadorias ou inserindo na lógica de mercado o que originalmente nela não se enquadra, como é o caso dos afetos.
Tendo-se traçado aqui um panorama desta sociedade contemporânea de consumo e de suas origens, parte-se agora para a parte central deste artigo, ou seja, para uma tentativa de classificação dos comportamentos de consumo como favoráveis ou desfavoráveis ao prazer almejado pelo indivíduo que os exercem.
 

III. Comportamentos de consumo como fontes de prazer e desprazer: uma tentativa de classificação

Segundo Featherstone (1995), há três teorias principais sobre cultura de consumo.
Uma delas se dedica a estudar a cultura de consumo enquanto ferramenta primordial do sistema capitalista, associando-a à idéia de liberdade e igualdade, e, opostamente, de opressão. O primeiro enfoque se justifica com as idéias de que, com tal cultura, o que antes era restrito a alguns pela tradição agora pode ser comprado mesmo por quem não tem um berço nobre, e de que entra em cena um maior número de opções de escolha (conceito, supõe-se aqui, de “liberdade” para tais teóricos). Já o enfoque de opressão se justifica pela idéia de que a cultura de consumo se formaria às custas da manipulação de uma maioria, ou seja, da implantação de ações de sedução ao consumo das quais esta maioria dificilmente consegue escapar, por uma minoria que almeja a aquisição de vantagens. (Op. cit., p. 31)
A segunda visão sobre o tema destaca que as motivações principais do consumo são o estabelecimento de vínculos e distinções sociais e que a satisfação almejada com o consumo acaba anulando-se já que depende da exibição das diferenças obtidas, as quais, ao serem exibidas, ficam passíveis de imitação. (Op. cit., p. 31)
E uma última abordagem se debruça sobre a idéia de que o consumo não é motivado pelos aspectos técnicos, pelas vantagens funcionais dos produtos, mas sim pelos prazeres emocionais que eles proporcionam. (Op. cit., p. 31)
São estes os três prismas percebidos a partir da citação do autor (Op. cit., p. 31), colocada a seguir.

Este capítulo identifica três perspectivas fundamentais sobre cultura de consumo. A primeira é a concepção de que a cultura de consumo tem como premissa a expansão da produção capitalista de mercadorias, que deu origem a uma vasta acumulação capitalista de cultura material na forma de bens e locais de compra e consumo. Isso resultou na proeminência cada vez maior do lazer e das atividades de consumo nas sociedades capitalistas ocidentais contemporâneas, fenômenos que embora sejam bem-vistos por alguns, na medida em que teriam resultado em maior igualitarismo e liberdade individual, são considerados por outros como alimentadores da capacidade de manipulação ideológica e controle “sedutor” da população, prevenindo qualquer alternativa “melhor” de organização das relações sociais. “Em segundo lugar, há a concepção mais estritamente sociológica de que a relação entre a satisfação proporcionada pelos bens e seu acesso socialmente estruturado é um jogo de soma zero, no qual satistação e status dependem da exibição e da conservação das diferenças em condições de inflação. Nesse caso, focaliza-se o fato de que as pessoas usam as mercadorias de forma a criar vínculos ou estabelecer distinções sociais. Em terceiro lugar, há a questão dos prazeres emocionais do consumo, os sonhos e desejos celebrados no imaginário cultural consumista e em locais específicos de consumo que produzem diversos tipos de excitação física e prazeres estéticos.

É a partir da análise destas teorias de consumo que as críticas em relação ao mesmo são construídas.
Pelo que pude perceber no decorrer de várias leituras, é comum criticar o consumo, valendo-se, entre outros, dos seguintes argumentos: 1) O consumo alimenta o vazio do indivíduo em vez de preenchê-lo; 2) O consumo alimenta a redução de autonomia do sujeito e conseqüente padronização; 3) O consumo alimenta o culto à aparência física.
Pois bem. A partir de agora, tais críticas serão dissecadas para se tentar compreender exatamente onde e como em cada um destes contextos há uma fonte de desprazer relacionada ao consumo, e portanto, coerência na formulação de tais contestações, bem como para, paralelamente, buscar entender se os comportamentos de consumo referente às mesmas parecem favoráveis apenas a uma sensação de prazer no sujeito que os executa.

Fontenelle (2002) é uma das autoras que defende a primeira crítica aqui destacada, ao afirmar que o consumo pode significar apenas uma continuidade do sentimento de vazio de identidade e não sua eliminação. (Op. cit., p. 303) E como relatam Bauman e a autora, o consumo teria entrado mais ativamente em cena hoje em dia como tentativa do sujeito de amenizar tal sentimento de vazio atualmente mais propenso a intensificar-se. Segundo o autor (Bauman, 2001, p. 95), “a compulsão-transformada-em-vício de comprar é uma luta morro acima contra a incerteza aguda e enervante e contra um sentimento de insegurança incômoda e estupidificante”. E, como afirma Fontenelle, “as pessoas sabem que a propaganda é falsa e o meio publicitário sabe que o público sabe” porém inúmeras pessoas precisam muito destas imagens para se constituir porque elas acreditam “na existência do vazio que ela [a marca] promete preencher” e vêem no consumo um preenchimento imediato. (FONTENELLE, 2002, p. 250-251).
Antes de analisar esta crítica, é preciso ressaltar que não vejo problema algum no fato de uma pessoa querer amenizar um desprazer persistente com algo diferente do que origina este desprazer.
Como afirma Kant, “há (…) um fim do qual se pode dizer que todos os seres humanos o perseguem realmente (…) um propósito que não só podem ter, mas que podem pressupor com segurança que todos o têm por uma necessidade natural (…) esse propósito é a felicidade”. Na busca desta felicidade, entendida aqui como sinônimo de bem-estar ou prazer, o sujeito que vivencia algum mal-estar difícil de ser sanado, como o relacionado aos contextos da contemporaneidade, busca formas de amenizá-lo.
Assim, da mesma forma que entram em cena amigos, família, amores, também surge o interesse por objetos e situações de consumo para amenizar situações de desprazer.
O problema aqui ocorre quando a pessoa, em vez de complementar, substitui a reflexão sobre a causa da sensação de desprazer e sobre as possíveis soluções que a eliminariam, bem como a ação para arrancar tal mal-estar, pelo apego aos amigos, à família, ao consumo, a um amor, já que o esquecimento de tal mal-estar é mais fácil, mais imediato do que o árduo exercício de refletir sobre tais questões. Agora, se, por exemplo, sei que a causa do meu mal-estar é uma sensação de desamparo, solidão, por saber que mais do que nunca nada garante que o que consquistei perdurará, e se estou mobilizado a solucioná-lo, não estarei consumindo para deixar de refletir e agir e, dessa forma, apenas prorrogando o desprazer, mas estarei, sim, apenas vivenciando de forma mais imediata sensações de prazer também enquanto o problema não está resolvido. Afinal, baseando-se na fala de Kant colocada anteriormente, o que todos buscam é viver com o máximo de prazer possível, independente do nível de dificuldade que se está experimentando – com respeito à vida alheia, ressalva-se – já que é o bem-estar, a felicidade, a finalidade da vida em todas as suas fases.
Qual é o problema, então, nestas circunstâncias, em se lançar a prazeres mais imediatos, ou seja, não obtidos mediante muito esforço ou a longo prazo? Não estão – felizmente! – os mais diversos momentos da nossa vida recheados também deste tipo de prazer? Há algo de errado, por exemplo, em uma pessoa que sabe que a causa de um grande desgosto é não ter concretizado o sonho de ser advogada, mas que está se dedicando a estudar para entrar na faculdade, querer, além de namorar ou almoçar no domingo com a família, também comprar aquele home theater que lhe proporcionará assistir filmes, uma coisa que adora, com uma qualidade de imagem e som que torna o ato muito mais prazeroso? Preservadas a ação e a reflexão relacionadas, de fato, à raiz do problema vivenciado, acredito que não.
Fontenelle (2002, p. 307; 321) afirma que um comportamento de consumo freqüente na sociedade atual refere-se no consumo pautado no nome da marca, uma vez que este indica permanência dentro de um universo de efemeridade onde estão inseridos diversos outros símbolos para a construção da subjetividade. A autora não se refere a um apego à própria mercadoria, já que as mercadorias saem de cena cada vez mais rapidamente neste quadro de capitalismo avançado. Da mesma forma, não está falando de uma dependência a uma determinada imagem simbólica de marca, já que, como foi visto anteriormente, nem ela é estável neste processo, alterando-se de acordo com modificações de imagem implantadas pela concorrência, frente a mutações nos gostos dos consumidores, entre outros fatores. Trata-se aqui de um apego a um nome da marca, que é constante, às diversas simbologias a ele associadas. (Op. cit., p. 321) Dito com mais detalhes, interpretando a análise da autora, trata-se enfim no apego a uma simbologia implícita de estabilidade, segurança, que confere conforto diante de um mundo tão instável. Com base nos mesmos argumentos colocados anteriormente, também este tipo de consumo só parece alimentar uma frustração vivenciada, no caso, a angústia da instabilidade, se a pessoa desconhece as reais causas do seu mal-estar e não está agindo para efetivamente erradicá-lo, optando por se voltar a esta prática de consumo com a intenção de afastar a reflexão e a ação mediante tal questão.
Na verdade, é a ausência do exercício de autonomia em relação ao consumo o que está implícito nos comportamentos aqui apresentados aparentemente propícios ao desprazer. É  sobre esta postura de autonomia ou de ausência de autonomia frente ao consumo que se referem as próximas reflexões.

Os filósofos da Escola de Frankfurt são importantes expoentes da disseminação da crítica de que cultura de consumo alimenta a padronização, a redução de autonomia do sujeito, a tomar por base, por exemplo, a análise de Marcuse (1967, p. 29), colocada a seguir, a respeito da indústria cultural.
A nossa insistência na profundidade e eficácia desses controles é passível da objeção de que superestimamos grandemente o poder de doutrinação dos ‘meios de informação’ e de que as pessoas sentiriam e satisfariam por si as necessidades que lhes são agora impostas. A objeção foge ao âmago da questão. O precondicionamento não começa com a produção em massa de rádio e televisão e com a centralização de seu controle. As criaturas já entram nessa fase já sendo de há muito receptáculos precondicionados; a diferença decisiva está no aplanamento do contraste (ou conflito) entre as necessidades dadas e as possíveis, entre as satisfeitas e as insatisfeitas. (MARCUSE, 1967, p. 29)

Entende-se aqui autonomia no sentido adotado por Kant (Abbagnamo, p. 97-98) de “capacidade de determinar-se em conformidade com uma lei da razão”. Isso, entende-se aqui, significa a postura do indivíduo de não adotar escolhas (de pensamentos e ações) sem antes refletir sobre tal ato, ou seja, refletir com profundidade sobre as opções de escolha existentes que podem ser melhor do que a escolha observada, o que implica numa postura de duvidar se a escolha observada é realmente a melhor opção. Dessa forma, como continua Kant, o sujeito poderá, inclusive, optar por desistir de tal ato, e, em função disso, ter uma vontade autônoma de seus desejos, de seus instintos, os quais, como afirma o filósofo (2002, p. 80), corresponde justamente ao que denomina “heteronomia”. Entendo, portanto, que a pauta desta reflexão seriam as motivações e as conseqüências do ato em questão, uma vez que as informações que poderiam tornar a vontade do sujeito independente de seu desejo, instinto, parecem provir destes dois campos, bem como, como já mencionei, as outras possibilidades de escolha além da primeiramente vislumbrada pela pessoa.
Acredito que o exercício desta autonomia deva ser defendido por que assim como afirma Kant (2002) em seu célebre texto “Resposta à pergunta ‘O que é esclarecimento”, é através deste uso da razão e conseqüente ampliação de suas possibilidades de escolha, o que pode garantir aos sujeitos maior proteção para evitar frustrações mais intensas que um possível desprazer ocasionado pelo “cansaço reflexivo” – termo de minha autoria – do próprio exercício da autonomia. Isso por que, como já foi exposto, ao se lançar a um exercício reflexivo, o sujeito estará automaticamente refletindo sobre outras escolhas a serem adotadas além da que despertou nele um interesse prévio, o que diminurá as chances de ter uma sensação ainda mais prazerosa do que a que seria, talvez, propiciada pela opção de escolha inicial.
Este exercício da autonomia em relação ao consumo não é desafio para intelectuais e não é continuamente praticado atualmente nas cidades que vivem a típica cultura de consumo. Prova disso é o fato de uma revista brasileira (Galileu) voltada para a população em geral abordar na matéria de capa, intitulada “O fantástico mundo do marketing”, questões como por que é comum cair nas armadilhas do marketing e a importância de realizar um “consumo consciente”. (Artoni, 2005, p. 39) Seria este “consumo consciente” o comportamento de autonomia em relação ao consumo, o qual o comunicólogo Edison Silva (Artoni, 2005, p. 39) destaca no trecho a seguir, enfatizando sua simplicidade. Diz o autor que “se fizéssemos a nós mesmos algumas perguntinhas simples, certamente teríamos um consumo mais consciente: o que estou comprando? Por que estou comprando? Qual é a minha real necessidade? Qual é a promessa do produto? Qual é a garantia de que ela será cumprida?”. Reforçando o que foi comentado anteriormente, pode-se sugerir que tais perguntas referem-se a motivações, conseqüencias de atos de consumo e, de quebra, outras possibilidades de satisfação além da mercadoria ofertada.
Um dos resultados da ausência de autonomia em relação ao consumo, como ressaltaram os frankfurtianos, poderia ser sim a padronização, ou seja, a manifestação de formas de subjetividades similares pelo fato de os indivíduos que as expressam adotarem, por exemplo, modelos difundidos em mídias de massa ou simplesmente feitos em série, como determina o capitalismo avançado. Demonstraria esse tipo de comportamento, por exemplo, um sujeito que, para expressar não só através de atos, mas também da aparência física, seu estilo crítico, reflexivo, contestador, passasse a optar pelos modelos mais difundidos para as massas, associados a tais valores. Um destes modelos poderia ser roupas de marcas que demonstram uma atitude de rebeldia (entre elas, pelo menos no que se refere à década de 80, a Bennetton, que veiculava anúncios polêmicos e/ou anti-discriminatórios como padre beijando freira, mãe branca amamentado criança negra, entre outros). Em vez de se lançar a um exercício criativo para demonstrar seu estilo por meio da aparência, e, desta forma, por exemplo, criar o seu próprio modelo de roupa – rasgando uma calça, usando uma jóia que lembre uma participação sua em alguma mobilização, colocando um chapéu usado por  algum de seus ídolos, etc. – este sujeito adotou os mesmos símbolos que talvez um grande número de pessoas adotaria com a mesma finalidade que a sua.
Apesar disso, caso essa padronização seja consciente, isto é, fruto de uma negação prévia destes símbolos massificados primeiramente apreciados, o que leva ao questionamento sobre se eles seriam de fato a opção mais interessante a adotar para se expressar, e não do instinto, do impulso de acompanhar a moda do momento sem saber as razões de tal postura, houve aí, mesmo que de forma pouco criativa, o exercício da autonomia em relação ao consumo.
Ao refletir sobre a relevância do “outro”, ou dos  “outros significativos” na vida do ser humano, Taylor (2000, p. 246-247) afirma que “precisamos de relacionamentos que nos preencham, mas não que nos definam”. Com essa afirmação, o autor defende que não há prejuízo em buscarmos nos preencher, por exemplo, com um amor, mas sim, em optarmos por adotar perfis de subjetividade alheios, sem se lançar a um exercício reflexivo – autonomia - sobre que outros perfis seriam mais prazerosos, que outras escolhas poderiam trazer mais bem-estar. Da mesma forma, caso, antes de optar sem divergências pelas escolhas ofertadas no mercado, o sujeito tenha se lançado a esse exercício reflexivo, efetivou-se aí um comportamento de consumo que não parece alimentar fontes de desprazer.
Diante desta argumentação, caso o sujeito demonstre o comportamento autônomo aqui defendido, não vejo razão para contestar, por exemplo, o fato de uma pessoa consumir por se identificar com a simbologia apresentada pela campanha (como consumir Pepsi Twist e não Coca-Cola apenas por que a imagem conferida à primeira marca é de rebeldia, criatividade, juventude – transmitida por exemplo por meio de propagandas nonsense em que limãos falam! – e a da segunda marca remete à tradição, estagnação. Da mesma forma, não me parece negativo, nestas circunstâncias, a pessoa consumir por associar o produto a alguma lembrança aprazível da infância, para fazer uma homenagem a alguém, do tipo, comprar as roupas do cantor preferido para que ele perceba como o sujeito em questão aprecia seu trabalho. Como foi relatado no parágrafo acima, se a pessoa efetuou um exercício reflexivo antes de realizar tais escolhas, culminou por vislumbrar outras opções de escolhas que poderiam lhe porporcionar prazer, ela foi sim autônoma em relação ao consumo e, desta forma, não está adotando um comportamento que necessariamente estimule mal-estar.
Logicamente, não se defende aqui que a ação por instinto, que representa sem dúvida um ato de espontaneidade, deva ser de uma vez por todas evitada. Mas como, a exemplo das reflexões de Kant, parece ser a razão que amplia as possibilidades de escolha do indivíduo, pelo menos nas ocasiões em que é mais propícia uma possível sensação de desprazer como conseqüenção da não reflexão, como no caso do comportamento de consumo, a autonomia no sentido aqui colocado, acredita-se, deve ser efetivamente exercida.

Parte-se agora para a discussão sobre a idéia de que o consumo alimenta o culto à aparência. O trecho de Adorno (1985, p. 156), reproduzido abaixo, ilustra a existência deste tipo específico de crítica.

(...) personality significa para elas [as pessoas inseridas na indústria cultural] pouco mais do que possuir dentes deslumbrantemente brancos e estar livres do suor das axilas e das emoções. Eis aí o triunfo da publicidade na indústria cultural, a mimese compulsiva dos consumidores, pela qual se identificam às mercadorias culturais que eles, ao mesmo tempo, decifram muito bem.

Para ver até que ponto a preocupação com a aparência cultivada pelo consumo é uma fonte de desprazer para o indivíduo, é preciso, antes, entender o que seria aparência no sentido adotado nestas análises.
Pois bem. Entende-se como este sentido de aparência, especificamente a aparência física, ou seja, os meios tangíveis que o indivíduo utiliza para expressar a sua subjetividade, isto é, os suportes físicos – corpo, objetos, mercadorias – que o sujeito utiliza para expressar a si mesmo e/ou aos outros os produtos de sua razão e de seu instinto.
Acredita-se aqui que o problema não é preocupar-se com a aparência física, pois ela faz parte da liguagem humana. Como aponta Da Matta, “há símbolos no capitalismo tanto quanto há simbologias e mitologias entre os índios do Amazonas”. (Rocha, 1985, p. 9) E, como afirma Campbell (2001, p. 261), “para os românticos (...) o mito e o símbolo continham mais verdade do que qualquer observação mais cuidadosa, fiel ao modelo, da realidade”. Desde os primórdios, até mesmo para expressar preceitos religiosos, o homem se vale da aparência no sentido acima colocado. Como lembra Haug (1997, p. 68), já desde o final da Idade Média, percebia-se a “estética de encantamento das igrejas católicas”, caracterizada, por exemplo, pela construção de templos de arquitetura ostensiva, pela realização de cultos em que objetos suntuosos eram utilizados, entre outras formas de expressão.
Percebo duas possíveis fontes de desprazer no culto à aparência física através do consumo: a) quando esta aparência é priorizada em relação a outras formas de subjetivação do indivíduo, e, b) quando esta aparência não corresponde àquilo que este indivíduo de fato é. Resume estes dois tipos de culto à aparência física a serem explicados a seguir, entre outras, a afirmação de Slater (2001, p. 193) de que “agora asseguramos uma identidade e uma posição social exclusivamente através do signo-mercadoria, e não através de nossa posição social nos referentes estruturais da sociedade, como a classe” e ainda, a análise de Featherstone (1991, p. 136) de que, hoje comumente “deixa-se de focalizar o estilo de vida com base nas relações de classe ou de vizinhança e passa-se a ver o estilo de vida como a estilização ativa da vida, onde a coerência e a unidade dão lugar à exploração lúdica das experiências transitórias e dos efeitos estéticos superficiais”.
O primeiro pressuposto remete ao comportamento muito comum hoje em dia de um indivíduo definir outro quase que exclusivamente em função desta aparência física, mais especificamente, em função de seus objetos de consumo e do corpo propriamente dito. Estariam adotando este comportamento, por exemplo, sujeitos que deixam de se envolver com tal pessoa por que ela usa um tênis de uma marca que não confere tanto status, ou, que possui um modelo de celular antiquado.
A matéria “O poder do design”, publicada recentemente na revista Veja (Carelli, 2004) enfatiza como esta prática está naturalizada. É o que consta nitidamente no trecho abaixo. (Carelli, 2004, p. 84)

“Só as pessoas fúteis não fazem julgamentos baseados na aparência. O verdadeiro mistério do mundo são as coisas visíveis, não as invisíveis”. A frase acima, escrita pelo autor irlandês Oscar Wilde (1854-1900), atravessou um século sendo repetida apenas como uma provocação e soando para muitos quase como um insulto. Pois bem, neste começo de século e milênio ela define uma atitude que tem enorme peso nas relações pessoais e que é fundamental na definição de sucesso ou fracasso de carreiras, empresas e produtos.

Enfim, como consta no artigo, “mais do que nunca a aparência física é levada em conta não apenas no terreno do amor e do sexo, mas em todos os relacionamentos pessoais”. (Op. cit., p. 89) Um destes campos seria o do trabalho, no qual não mais apenas o vestuário é avaliado, mas sim a própria beleza natural do candidato. Segundo um dos entrevistados, o economista Markus Mobius, da Universidade de Harvard e autor do livro Why Beauty Matters (Por que beleza importa), “’beleza evoca confiança e ser confiável, hoje, se traduz em melhores salários’”. Esta foi a conclusão do estudioso após uma pesquisa realizada com diversas empresas americanas, através da qual pôde perceber que “as pessoas mais bonitas – e não apenas as mais bem vestidas ou educadas – ganham mais do que aquelas a quem falta esse atributo”. (Op. cit., p. 89) Sendo assim, como continua o texto, “para os menos belos, restam os recursos hoje disponíveis, que incluem desde cosméticos até cirurgias pláticas”, ramo que, não à toa, “movimenta anualmente 160 bilhões de dólares no mundo”. (Op. cit., p. 89)
Considera-se aqui tal postura – de definir os outros prioritariamente pelos elementos da aparência física – como possível fonte de desprazer por que o sujeito que a exerce pode compreender a subjetividade de outra pessoa de uma forma diferente da que esta deseja expressar (discriminação), uma vez que ele estaria reduzindo o seu conhecimento sobre os outros à classificação da subjetividade em função de objetos específcos por eles manuseados, como produtos e marcas. Além disso, tal comportamento pode prejudicar o próprio “discriminador” por que poderá estar perdendo oportunidades de bem-estar que a pessoa “discriminada” poderia lhe proporcionar com suas idéias não perceptíveis a um primeiro olhar.
O que está implícito nesta forma de comportamento é o que chamo aqui de “classificação inflexível dos símbolos da aparência física”, que consiste na crença, pelo sujeito, de que o significado que aplica aos símbolos que o cercam, como as mercadorias e produtos midiáticos, são exclusivos a tais símbolos. Em outras palavras, que a simbologia que desperta o interesse em um sujeito por outro sujeito, como por exemplo, sucesso profissional, reconhecimento social, ou demonstração de afeição, só pode ser transmitida exclusivamente ou pelo menos prioritariamente por elementos que compreendem a aparência física do sujeito avaliado. No que se refere ao consumo, tais elementos seriam especificamente as mercadorias enquanto objetos, situações e marcas.
Vamos à discussão sobre a segunda fonte de desprazer relacionada à aparência física, ou seja, ao comportamento de cultivar a aparência física para parecer ter um aspecto identitário que, na verdade, não se tem e sim se almeja ter. Alguns exemplos de tal comportamento: uma iniciativa absurda (mas verídica!) de possuir apenas a fachada de uma estante com as lombadas dos livros e não as obras propriamente ditas com uma intenção de parecer exercer uma prática intelectual que, na verdade, não se exerce; e ainda, uma prática mais corriqueira de uma pessoa vestir uma camisa do Che Guevara ou ter um estilo punk com a intenção de ser vista como alguém que preocupa-se com causas sociais ou tem uma atitude de contestação, de crítica, de romper padrões, enquanto, efetivamente, não dispõe de tais atitudes.
Acredita-se que este tipo específico de culto á aparência é uma possível fonte de desprazer por que, ao agir desta forma, o sujeito pode, primeiro, construir ilusões a seu respeito por parte das pessoas com quem se relaciona e, segundo, alimentar um vazio de identidade, já que estaria vivenciando apenas um simulacro do que deseja ser. Em suma, ao contentar-se apenas com esta aparência física, o indivíduo deixa de exercer mais intensamente sua autonomia ou exercício reflexivo sobre outras manifestações de subjetividade referentes ao que deseja ser que podem lhe proporcionar mais prazer do que os elementos de aparência física adotados, e assim tende a perder oportunidades de vivenciar ainda maior bem-estar.
Como esta aparência é o que garante com mais imediatez a percepção dos outros em relação a uma dada pessoa, nota-se que, na preocupação com a aparência, entra em cena a preocupação com a imagem que o outro está tendo de nós.
Como afirma Taylor (2000, p. 241), não é o fato de uma pessoa levar em conta outra pessoa para construir sua subjetividade, mas sim, no modo como se dá esta consideração. Afinal, como destaca o autor (Op. cit., p, 241; 246), “‘identidade’ designa algo como uma compreensão de quem somos, de nossas características definitórias fundamentais como seres humanos” e o processo de construção desta identidade é “fundamentalmente dialógico”, ou seja, aprendemos os mais diversos “modos de expressão por meio dos quais nos definimos” através de “intercâmbios com outras pessoas”, as quais, como foi mencionado anteriormente, constituem os chamados “outros significativos”. A importância do outro é tanta nessa trajetória que “o não-reconhecimento ou o reconhecimento errôneo podem causar danos, podem ser uma forma de opressão, aprisionando alguém numa modalidade de ser falsa, distorcida e redutora”. (Op. cit., p. 241)
Nota-se uma possível fonte de desprazer nesta preocupação por reconhecimento, por exemplo, especificamente quando, como destaca Slater (2001, p. 90-91), entra em cena um “eu exageradamente socializado” que pensa da seguinte forma: “minha idéia de mim mesmo é mais a idéia que faço de como meu vizinho me vê”. É esta filosofia que pode estar guiando os dois comportamentos aqui criticados de culto à aparência física pautados inclusive no consumo: é por que se importa acima de tudo com a opinião alheia que o sujeito se contenta apenas com uma subjetividade superficial, exteriorizada, já que é esta a que mais rapidamente é reconhecida pelo seu grupo de aspiração. E, desta forma, lembrando a fala de Taylor anteriormente destacada, em vez de estar preenchendo o sujeito, o outro o estará definindo, contexto que talvez intensifique as chances de desprazer em função das razões também já comentadas. (Cf. p. 16)
Lipovetsky (2004, p. 121) defende que, nos dias atuais, não seria tanto esta preocupação com o que os outros pensam, esta necessidade de reconhecimento o que estimularia o consumo. O que de fato estimularia seria o vazio, uma necessidade de prazer, de preenchimento, para afastar a angústia da sociedade contemporânea, intensificada atualmente pelas razões já apresentadas nas análises anteriores referentes a este aspecto da subjetividade “pós-moderna”. O trecho a seguir demonstra claramente a visão do autor, a qual, de  acordo com o que já foi retratado aqui, parece ter muita coerência com a realidade atualmente vivenciada. (Lipovetsky, 2004, p. 121)

Consome-se muito mais para satisfazer o eu (saúde, repouso, boa forma, sensações, viagens) do que para ganhar o reconhecimento de outrem (…) Claro, permanecem as lógicas de honraria, mas elas são apenas parte de um conjunto muito mais amplo e não poderiam ser a razão definitiva da escalada consumista. Hoje, o que se busca no consumo é, antes de tudo, uma sensação viva, um gozo emotivo, que se liga menos às exigências de padrão de vida que à própria experiência do prazer da novidade.

IV. Conclusão

 As reflexões aqui levantadas culminam na conclusão de que o consumo não é totalmente “vilão”, nem totalmente “mocinho” na história da contemporaneidade.
Os comportamentos de consumo específicos que possivelmente se traduziriam como fontes de desprazer pelo fato de perpetuar um vazio existencial sentido com freqüência na época contemporânea seriam aqueles em que o sujeito: 1) consome para esquecer da sensação de desprazer, de vazio existencial que vivencia; 2) consome para parecer algo que não é, mas que gostaria de ser, o que implica numa visão de que acredita que só a aparência física é suficiente para ser o que deseja ser, isto é, que uma “subjetividade exteriorizada” resume todo o seu eu. Estes dois grupos de comportamentos estarão sendo favorecidos pelo não exercício da autonomia, isto é, pela postura de o sujeito não realizar um exercício reflexivo sobre reais motivações e possíveis conseqüências de seu ato de consumo bem como sobre outras possibilidades de escolha para se satisfazer além do que observa nas ofertas mercadológias.
Por poder favorecer uma sensação de mal-estar, estas práticas seriam, portanto, exemplos do que Mattéi (2002) chama de “barbárie interior” típica da época contemporânea. Como afirma o autor (Op. cit., p. 12), “a barbárie [atual] não remete a uma invasão da violência que viria do exterior revivar nossa intimidade, e sim a essa própria intimidade a partir do momento em que ela se apresenta como autônoma e arrogante”. Ou seja, essa barbárie não seria causada principalmente por forças externas, isto é, por outro indivíduo ou grupo de indivíduos que tentaria impor com violência algo, mas sim pelo próprio sujeito, quando este abandona a busca de sentido para suas ações e pensamentos, isto é, a busca de conhecimento sobre suas decisões, o que afasta a possibilidade de eliminar tanto um mal-estar em si mesmo quanto um mal-estar alheio. (Mattéi, 2002)
É isso o que se pode entender, por exemplo, da análise de Mattéi (Op. cit., p. 65; 175; 270) de que esta barbárie interior corresponde a “tormentos [que] são menos de brutalidade que de langor, de violência que de abandono” ou quando afirma que a substituição do “apelo à razão” pelo “apelo aos fatos”, definida por Marcuse como “filosofia fascista”, desemboca “na constatação da abdicação do pensamento que equivale exatamente ao que considero [o autor] aqui a barbárie da reflexão [ou “interior”]”, ou ainda, quando destaca que “o ato de pensar define assim não o critério lógico, mas o critério ético da humanidade” em que “a alma se reúne e reúne os outros em torno de si”.
No entanto, caso o exercício reflexivo do sujeito ou sua autonomia seja preservado em seus comportamentos de consumo (pois é isso que garante maiores chances de o sujeito eliminar mal-estar ou intensificar bem-estar, pelo menos no caso do consumo, já que permite a este sujeito perceber outras possibidades de satisfação talvez mais gratificantes que a primeiramente apreciada no mercado), a utilização de mercadorias como formas de expressão de subjetividade, de comunicação parece, por si só, não implicar em mal-estar. O que pode ocorrer aqui é, sim, a adoção de uma linguagem talvez não muito criativa, já que os modelos mercadológicos são dirigidos a uma massa (isso se o sujeito não retrabalhar tais modelos, como, por exemplo, transmitir seu estilo de rebeldia utilizando roupas da Forum, porém aplicando às mesmas a criação pessoal de grafitar a peça). Isso, por si só, parece não trazer prejuízo a este indivíduo, e sim, apenas, a não admiração de pessoas que apreciam a demonstração de criatividade intensa (como é o meu caso), o que não necessariamente acarreta em mal-estar, já que felicidade de alguém não depende do reconhecimento, admiração de todos, e sim de pessoas previamente reconhecidas, admiradas pelo sujeito em questão.
Expressadas estas primeiras análises, parte-se, em estudos futuros, para a reflexão sobre outros comportamentos de consumo mais propícios ao desprazer, bem como, lembrando o que foi destacado no início deste artigo, para pesquisas empíricas que comprovem as teorias aqui registradas, e ainda, para o mapeamento de ferramentas de marketing que parecem alimentar comportamentos mercadológicos possivelmente estimuladores de uma sensação de mal-estar.



 (1) Analisando Iamamoto, Isotani e Endo (1999), nota-se que esta delimitação cronológica se justifica pela ocorrência da Segunda Revolução Industrial entre 1860 e a I Guerra Mundial, quando, de fato, as invenções tecnológicas tiveram um salto em função da utilização do petróleo e da eletricidade e não apenas da energia do carvão transferida para as máquinas a vapor, bem como, deixaram de ser restritas a seu país mentor, a Inglaterra, o que teve influência evidente na intensificação de uma sociedade de consumo.


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Rio de Janeiro -  Julho / 2005


 


Trabalho apresentado no III Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde
Julho de 2005 - Florianópolis, SC
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