Grupo Interinstitucional de Comunicação
e Educação em Saúde de Santa Catarina 
DOENÇA DE MENINO

     Audalio Dantas
           audalio@uol.com.br
 
 

Na sala-quarto-cozinha, Elza Barbosa Dias só sabia contar, em choro e revolta, as horas de padecimento do filho. O caixãozinho branco enfeitado de galões prateados estava sobre a única mesa da casa, Charles de olhos semi-abertos, todo coberto de flores, algumas roxas, da cor de seu rosto pequeno e descarnado. Ao lado, quase encostado na mesa, o berço vazio. As duas camas em que dormem as outras seis crianças, os irmãos de Charles, serviam de assento para o grupo que velava o morto: o pai Severino, a madrinha Dijanete, os meninos de casa e uns poucos da vizinhança. O silêncio só era rompido pelo choro da mãe debruçada sobre o caixão e pelos sons, meio grunhidos, que André Valério emitia enquanto girava sem parar em torno de si mesmo. André, de sete anos, teve uma doença que ninguém sabe dizer qual, quando ainda era bebê como o irmãozinho Charles. Escapou mas ficou assim, débil mental. A mãe botava os olhos de sua piedade sobre o filho morto e sobre o filho vivo. E chorava pelos dois.
A história dos sofrimento de André é muito longa. Mas a de Charles é curta: pegou uma mofineza, vomitava tudo o que comia. Tomou chá de canela, chá de carambola, tomou até remédio de farmácia, mas nada adiantou. Quando a mãe saiu para procurar médico grátis, não encontrou. Voltou para casa com a certeza de que o filho iria morrer. Estava com essa doença de menino, igual à que mata os filhos de muitas outras mães, ali no Beberibe, bairro do Recife. Uma tal de desidratação como dizem os que conseguem chegar aos hospitais.
Charles morreu de madrugada. Severino e sete crianças silenciosas o levaram ao cemitério na tarde do mesmo dia. Uma caminhada longa, de 6 quilômetros, que deixou as crianças cansadas (Severino fazia-as andar depressa, senão iam encontrar o cemitério fechado). Para os meninos acompanhantes, o enterro foi só canseira e tristeza, não houve nem aquela compensação de que fala o poeta João Cabral de Mello Neto:
Festa meio excursão meio piquenique ao ar livre, boa para dia sem classe: nela as crianças brincam de boneca e, aliás, com uma boneca de verdade.
Charles só foi enterrado naquele dia porque Severino mandou a comadre Dijanete ir correndo ao cemitério, dar o aviso antes que terminasse o expediente. Em vida e em morte, Charles foi perseguido por essa questão de expediente, de horário. Mesmo na véspera de morrer, sábado  pela manhã, quando a desidratação estava no ponto mais grave, ele não foi examinado pelo médico porque não havia expediente no ambulatório da CTU (Companhia de Transportes Urbanos, do município), onde Severino trabalha como motorista de ônibus. Expediente, só na segunda-feira, Charles morreu no domingo. Médico nenhum soube de sua morte. O atestado de óbito, Severino conseguiu com a casa funerária que cuidou do enterro.
Na conta do coveiro, Charles Barbosa Dias foi o anjo número 10 da semana, no cemitério de Beberibe. Como o caixãozinho chegou atrasado, já ao anoitecer, Charles foi, de todas as crianças menores de um ano que morreram naquele dia no Brasil, a última a ser enterrada. Nesse domingo, 28 de dezembro de 1969, Charles foi o anjo nacional 1.468. Porque todo dia morrem  1.468 crianças brasileiras.
Beberibe, o bairro em que Charles nasceu e viveu sete meses, aparece como uma enorme mancha marrom, nos mapas feitos pelos médicos, da Pesquisa Interamericana da Saúde, órgão da ONU. A pesquisa vem sendo feita em três bairros do Recife – Casa Amarela, Beberibe e Encruzilhada, com uma população total calculada em 392.000 habitantes. E o marrom indica as áreas onde as condições de vida são as piores, onde a maioria das casas não tem privada nem água encanada, e onde os índices de mortalidade são, naturalmente, os mais altos. No bairro de Charles, a mancha marrom ocupa cerca de 90 por cento da área total. Ele nasceu e morreu nessa cor que virou símbolo da miséria.
No mesmo dias em que enterraram Charles, as gêmeas Marilene e Marileide completavam um mês de vida em Amaraji, cidadezinha de uns 6.000 habitantes, a 80 quilômetros do Recife. Nos braços da mãe, Emília Maria da Silva, as duas menininhas provocavam admiração das vizinhas:
- Tão minguadinhas. Só Deus pra fazê umas coisinhas dessas vivê.
A mãe exibia suas crianças vivas como se elas fossem o resultado de um milagre. Dois milagres, quilo e meio cada um.
Em Amaraji, que fica na Zona da Mata, de extensos canaviais, a região mais rica de Pernambuco, não se sabe em que proporção se opera o milagre da sobrevivência. Rara é a família que não tenha pelos menos um anjo no céu. Como cidade, pouco difere das outras da região, onde vive mais de 1,5 milhão de habitantes, a maioria sofrendo de um mal endêmico – a fome. No centro, a pracinha e três ou quatro ruas calçadas, casas de alvenaria alinhadas em cores vivas. Fora desse miolo, as casas vão perdendo o alinhamento e a cor, vão-se mostrando em barro escuro, em chão batido.
Foi numa dessas casas tristes que nasceram Marilene e Marileide. A cana-de-açúcar que rodeia tudo é uma verde e doce paisagem que essas meninas poderão ver – de seu meio marrom e sujo -, se conseguirem sobreviver. A possibilidade não é maior e nem menor do que a de muitas outras crianças que nascem em Amaraji. Ou em qualquer um dos quarenta municípios da Zona da Mata, onde as estatísticas de mortalidade infantil são quase impossíveis.
Sabe-se mais ou menos quantos morrem, mas não de podem estabelecer os índices corretos em relação aos que sobrevivem. Por uma razão muito simples: registrar filhos é um luxo muito caro para a maioria dos trabalhadores da cana. O registro de uma criança custa 5 contos, mais do que um homem ganha (NCr$3,40) por dia de trabalho. Por isso é possível contar a morte e impossível contar a vida. O registro da morte é obrigatório. E foi por essa razão que Amaraji apareceu nos jornais do Recife – e depois em revistas, até do estrangeiro – como o município campeão de mortalidade infantil do país que, por sua vez, apresenta uma das taxas mais elevadas do mundo. A notícia dizia que todas as crianças nascidas de junho a dezembro de 1968 haviam morrido antes de completar um ano de idade. Porém, há mais um dado.
Gérson Jefferson Barbosa, senhor de engenho e assistente de administração do posto de saúde de Amaraji, mostra os números reais, exatos e desconcertantes: por eles se verifica que, na verdade, morreram mais crianças do que nasceram, pois, para 79 registros de nascimento, havia 121 certidões de óbito. A explicação para tamanho disparate: quando a criança morre com menos de um ano de idade, os pais são obrigados a fazer simultaneamente os registros de nascimento e de óbito. Se a criança morre com mais de um ano, eles só precisam tirar certidão de óbito e economizam o dinheiro de um papel. E anjo de um documento só. A conclusão de uma enfermeira do posto:
- Eles só existem oficialmente depois que morrem.
De janeiro a novembro de 1969, o cartório de Amaraji, registrou o nascimento de 89 e a morte de 221 crianças, das quais 76 com menos de um ano de vida. Quantos nasceram realmente no município, ninguém sabe. Mas a proporção de mortos por nascidos pode ser avaliada facilmente no meio miserável das famílias. Três delas, entrevistadas ao acaso, contavam estes números: a primeira, oito filhos (três mortos); a segunda, dezoito (sete mortos); e a terceira treze (cinco mortos). Foram quinze mortos em 39 nascidos, um índice de mais de 40 por cento.
A presença tão constante da morte entre as crianças de Amaraji tem uma causa principal, comum, em maiores ou menores proporções, a quase todo o Brasil: a fome. Em Amaraji ninguém levantou dados, mas no Recife, maior cidade do nordeste e a que conta com maiores recursos médicos na região, uma pesquisa revelou desnutrição de segundo e terceiro graus em 69 por cento dos casos de óbito estudados. A desnutrição do primeiro grau, normal mesmo nos centros urbanos, não chega ser grave. Uma criança de um ano, com desnutrição de segundo grau, pode chegar a pesar cerca de 6 quilos, quando o ideal seria entre 9 e 10,700 quilos. Com menos de 6 quilos, a criança de um ano já está em terceiro grau e caminha para a morte por desnutrição.
A Pesquisa Interamericana de Mortalidade na Infância, que revelou esses dados, vem sendo feita há um ano e meio por uma equipe dirigida pelo Professor Fernando Figueira e pelo Dr. Roberto Nunes da Silva, do Instituto de Medicina Infantil de Pernambuco, de acordo com um programa da Organização Mundial da Saúde em vários países americanos. Um de seus principais objetivos é estudar as causas reais da morte de crianças menores de cinco anos. E uma das causas reais encontradas é justamente a fome. Com base nos dados já obtidos, diz o Professor Fernando Figueira:
- Embora os números sejam ainda parciais e portanto passíveis de restrições, exibem uma realidade cruel e assustadora.
Se é cruel no Recife, cidade onde se encontram serviços médicos razoáveis, é muito mais em Amaraji, onde o único posto de saúde, desaparelhado, mal pode atenuar as conseqüências que a fome provoca no organismo das crianças. Na região, onde as condições permitem uma alimentação à base de feijão, farinha e charque, as pessoas recebem apenas metade das calorias necessárias. O médico (um só para os 17.000 habitantes do município), Victor Rojas Nogales, boliviano de 27 anos formado pela Universidade Federal de Pernambuco, está há dois anos em Amaraji, tempo suficiente para tomar consciência de que é um doutor de papel, ou seja, um passador de receitas inúteis, pois a quase totalidade da população não tem condições de comprar os remédios. Os que o posto recebe dão para atender a cerca de 30 por cento dos casos, mas nem sempre são os indicados para cada doença. O médico dá o que tem, numa tentativa de cura por aproximação.
Freqüentemente, ele assiste à morte de crianças por falta de remédio ou de meios para interná-las nos hospitais do Recife. Quase todos os casos de internamento se transformam em dramas que envolvem os pais da criança e o médico. A morte de uma menina com pneumonia foi um desses dramas muitas vezes repetido, o Dr. Victor preencheu uma guia de internamento, entregou à mãe, que ficou onde estava, os olhos fixos na criança arquejante. Foi chamada à realidade pela voz do médico:
- A menina precisa ser internada com urgência. Se não for, morre.
A mulher não disse nada. Levantou-se, ajeitando nos braços a criança descamada (a pneumonia juntou-se à desnutrição de segundo grau), atravessou a praça e tomou o rumo da Nova Descoberta, o bairro mais miserável de Amaraji. No dia seguinte, o Dr. Victor recebeu a notícia de que uma criança estava morrendo num casebre da Nova Descoberta. Correu para lá, já encontrou a menina morta.
- Eu não disse que precisava levar para o hospital?
- Sim, sinhô, mas não tinha jeito, não.
No rosto marcado da mulher havia apenas tristeza. A menina morta em cima de um banco de madeira era o sétimo anjo da casa onde nasceram dez. Já não havia lágrimas para ela. Só a tristeza sem muita expressão no rosto da mãe, uma velha de 26 anos. Foi um dos primeiros casos que o Dr. Victor acompanhou. Ele teve a impressão nítida de que ali ninguém dava importância à morte de uma criança, a morte encarada sem muita emoção, porque freqüente e farta.
- Morreu de quê?
- Doença de menino.
A menina tinha morrido, porque não havia dinheiro para remédio nem para a passagem de ônibus até o Recife. Algumas vezes, uma criança doente consegue chegar a tempo ao hospital; é quando o carro da Prefeitura, uma camioneta rural que também já serviu de carro mortuário, está desocupado. O prefeito de Amaraji, José Gomes, tem duas metas que pretende ver realizadas até o fim de seu governo: conseguir uma ambulância e água encanada e tratada para a cidade (atualmente apenas dezessete das 1.300 casas recebem água de um encanamento provisório).
Na maternidade construída pelo Estado e pronta para entrar em funcionamento há mais de um ano, o prefeito já não faz fé. Recebeu a informação de que não funcionará, pois descobriram que a manutenção seria muito cara (como maternidade ou como pequeno hospital). Difícil é entender por que gastaram tanto dinheiro na construção, no aparelhamento e até na placa de bronze para a festa de inauguração que não houve. Tanto dinheiro daria para comprar várias ambulâncias.
A falta de uma ambulância diminuiu as possibilidades de Raquel, garotinha de um ano e meio, escapar da morte. Ela morreu na semana do Natal. De sarampo.
O Dr. Victor não chegou a ver Raquel. Amara, a mãe da menina, explicava, alguns dias depois, por que não a levou nem ao posto de saúde:
- O sarampo acochou forte, era um perigo ela tomá vento.
O perigo definitivo veio com a morte. O médico tem quase certeza de ter sido causada por pneumonia, que atacou depois do sarampo. Sarampo é doença que não devia matar. Mata muito no Brasil, principalmente nessa região, da cana-de-açúcar, porque quando ataca sempre conta com uma aliada: a desnutrição.
- Há pouco tempo – diz o Dr. Victor -, uma epidemia de sarampo matou muita criança aqui. Só escaparam as que se apresentavam razoavelmente nutridas.
Outro médico, o Dr. Malaquias Batista, do Instituto de Nutrição da Universidade Federal de Pernambuco, faz pesquisas há mais de cinco anos na Zona da Mata, onde o órgão mantém dois Centros de Recuperação Nutricional e presta assistência a dois outros, mantidos pelo Estado e por instituições religiosas. O quadro, nessa área, é dramático.
- Das crianças entre um e quatro anos de idade – informa o Dr. Batista -, 20 por cento são desnutridas de segundo a terceiro grau. Apenas 30 por cento poderiam ser consideradas normais.
O sarampo, que provocou a morte de Raquel e de centenas de outras crianças da Zona da Mata, não agiu sozinho. Na pesquisa feita no Recife pela equipe do Instituto de Medicina Infantil (1.044 causas de morte), o sarampo veio em segundo lugar, com 209 óbitos. Só perdeu para a gastrenterite, que matou 267.
Amara, mãe de Raquel, não sabe que o sarampo é uma doença benigna, que isoladamente não podia matar sua filha. Na verdade, Amara ignora muitas outras coisas dentro de seu mundo. Não sabe a própria idade, nem o nome completo. É Amara, só, mulher amarga. Filha de Maria e neta de Severina.
Sua grande preocupação, naquele dia, era o Zé Zaquié, irmão gêmeo de Raquel, derreado também pelo sarampo ardente em febre. José Ezequiel, olhos fundos e sem brilho de vida na cara mirrada, era um morto-vivo nos braços de Amara. Mãe e filho compunham um retrato tirado em Biafra.
O Dr. Victor só precisou olhar o menino para avaliar a gravidade de seu estado.
- Precisa internar. A senhora quer internar?
- Sei não. Vamo vê o que o Amaro diz.
Amaro, marido de Amara, estava longe, no alto de um morro, derrubando madeira que a cana-de-açúcar não conseguiu engolir. Talvez dormisse por lá mesmo e só voltasse no dia seguinte. E, sem ele, Amara não podia decidir nada. O médico escreveu uma receita, era preciso dar um antibiótico ao menino, com urgência. Como não havia no porto, o jeito era comprar na farmácia. Amara só tinha jeito de coçar a cabeça, angustiada, porque dinheiro não havia. Quando o marido voltasse, talvez. Mas Zé Zaquié não podia esperar, o médico comprou o remédio. Gesto praticamente inútil, pois ele sabia que, mesmo internado e, recebendo toda a assistência necessária, o menino tinha poucas possibilidades de sobreviver.
Quando Amaro chegou da mata, começou a estudar as possibilidades de levar Zé Zaquié para o Recife. Difícil. Mesmo para ele, caboclo disposto. Salvar o menino seria mais uma luta, como as que ele vem enfrentando desde que desistiu de limpar e cortar cana e resolveu plantar roça. Plantou três vezes, em terra arrendada, mas, toda vez que ia colher, os donos da terra arranjavam um pretexto para expulsá-lo. Foi à Justiça, não conseguiu justiça, mas não parou de lutar: quando não está derrubando mata para vender madeira, está cuidando de uma nova roça, a quarta de sua vida. Dessa vez espera chegar à colheita. Como espera poder arranjar um jeito de levar Zé Zaquié para um hospital do Recife. Mas Amaro considera:
- Só se Deus reservou ele para morrer dessa doença.
Os olhos parados de Zé Zaquié, o sopro curto de sua respiração, a tosse guardada no fundo do peito, sem força para sair – tudo nele dizia que era difícil fugir ao destino de morrer antes que o pai encontrasse um jeito de levá-lo ao Recife.
Maria José teve nove filhos numa casa de barro, coberta de palha de cana. Três de suas crianças morreram porque o pai, que trabalha num engenho limpando cana, não encontrou jeito de levá-los para o hospital do Recife. Maria tem 29 anos, mas parece ser avó de seus seis filhos vivos que, por sua vez, parecem muito mais novos do que são. O mais velho, de catorze anos, parece ter oito. O penúltimo, de dois anos, ainda não anda; é um menino de barriga muito grande, passa o dia pedindo leite; que raramente consegue. É o José Marcos, cuja ficha no posto de saúde indica um estado agudo de verminose. Se ele não for tratado, como não são os outros meninos que a verminose ataca em Amaraji, vai morrer. A mãe tem quase certeza disso, porque um de seus três filhos morreu da mesma doença.
- Morreu botando as bichas pela boca.
Preocupação maior tem a menorzinha, menina de nove meses. O leite em pó que entra em casa é minguado, contado em pequenas doses só para “essa menina, senão ela não tira um ano”. Como aconteceu com o Marcos José, um que morreu com seis meses.
- Ele num tinha mais nem carne em cima dele, parecia um velhinho. Parecia que ele tinha saído da cova, de tão magrinho que tava.
Foi um caso de diarréia. O menino não teve jeito de se acostumar com papa de farinha de mandioca sem leite.
Mas há os que resistem, como Elisabete, filha menor de Maria Ana de Brito. Já está com um ano e nove meses e come feijão com farinha, quando há dessa comida em casa. Muitos dias de sua vida foram vencidos com garapa de água e açúcar. Açúcar que os vizinhos, quando tinham, davam em colheres, pois em Amaraji, que produz tanta cana, o açúcar é muito mais caro do que no Recife.
Maria Ana de Brito teve treze filhos, cinco morreram. O marido foi embora quando a menorzinha, que conseguiu escapar tomando garapa, começava a engatinhar. Para não deixar que os oito filhos morram de fome, Maria tem feito o impossível. Mas há dias em que impossível não há. É quando vem o desespero:
- Ando dum canto pra outro, caço serviço, peço o de comer pelas casas, uns não tem, outros num tem obrigação de dá. Caço a terra debaixo dos pés, num encontro. Aí eu imagino matá eles tudinho antes que a fome mate.
Maria Ana se lembra de Deus nessa horas. Deus – ela considera – já levou cinco, deixa os oito viver como ele for servido.
Mais anjos no céu e mais conformada ainda é Severina. Severina da Conceição, mulher gasta, amarela, que teve dezoito filhos e Deus chamou sete. Todos anjinhos, menos uma menina que morreu aos dez anos, com uma “dor de banda”. Só esta foi ao médico, na hora de morrer. Os outros, garante Severina, morreram porque tinham de morrer.
- Doença de menino.
O marido de Severina, Alcides Luís, corta cana desde que se entende por gente. Na safra consegue ganhar até 25 contos por semana, mas no “inverno”, quando o trabalho é só limpar, a semana que dá mais dá 10 contos. Sorte que os dois meninos maiores, o Zé Amaro e o Ciço, já dão uma demão. Além disso, Seu Raul, o dono do Engenho Animoso, onde ele é morador, deixa plantar roça de mandioca, uns pés de banana. Seu Raul é um homem muito bom. Porque a maioria não deixa plantar nada, a não ser cana.
Severina, mulher acostumada a ver filhos morrer, estava com uma menina de quinze dias nos braços. A menina morrer, virar anjo como os outros, era uma coisa que Severina encarava como normal. Porque para ela, a sorte das crianças se explica:
- Menino adoece e morre.
Tentativa de salvá-los, sempre se fez. Severina e muitas outras mães de Amaraji costumam levar os filhos doentes para Seu Zé de Sena benzer. Zé de Sena, velho rezador, que mora no caminho do Engenho Animoso, conhece oração forte para tudo que é doença. Nos filhos de Severina e em muitos outros, as rezas falharam, mas isso tem explicação:
- Eles tinha que morrê.
Zé de Sena vive sentado o dia inteiro, olhando para o tempo pelo buraco que serve de única porta em seu rancho de palha. Vive sempre sentado porque não pode levantar. A perna esquerda não deixa, tem uma ferida enorme a lhe comer as carnes, do pé ao joelho. Onde a ferida não chegou, a carne murchou, “secou até em riba, nos quartos”. Zé de Sena reclama da ferida, mas o pior mesmo é um “indigesto medonho” que tem uma dor nas tripas, acompanhada de febre alta.
Com todos esses padecimentos, não pode rezar nenhuma reza forte em causa própria. É um mistério que ele mesmo não sabe explicar. Mas a sua imagem – a de um trapo humano – consegue despertar a fé em outras criaturas. Ele reza para gente, para bicho, para planta. Dos viventes, os que aparecem mais em seu rancho são os meninos, que apanham muitas doenças: mau-olhado, ventre caído, moléstia do tempo. E há uma, a de cura quase impossível, tão feia que Zé de Sena, quando reza para menino que está com ela, omite o nome. É para não dar mais força à condenada. Informando, ele baixa a voz e diz o nome da doença:
- É a molesta soturna!
Essa moléstia, pelo jeito com que o rezador explica, é uma síntese de todas as outras que atacam as crianças. Zé de Sena diz que ela tem muitas “qualidades”, dá de todo jeito: de tremer, de bater, de espumar, de ficar quieto e parado sem bulir os olhos. Difícil o cristãozinho que pega a maldita escapar. Mesmo com a reza forte de Zé de Sena, reza inspirada nos astros, que tem toda a força das ‘águas mareantes”, águas fortes, do centro do mar e da lua, junto com a “estrela mareante”.
O que dá uma doença tão brava assim, não se sabe. Pode ser que seja a fome? Zé de Sena não sabe direito:
- Menino veve com muita fraqueza. É só tomá um susto, pega a molesta.
A molesta soturna e os mistérios de Zé de Sena preocupam muito os poucos médicos que trabalham na Zona da Mata. O Dr. Malaquias Batista, que corre pelas estradas que cortam os canaviais, desconhece essa doença misteriosa, mas sabe de uma que ajuda a todas as outras. Ele atende nos dois Centros de Recuperação Nutricional mantidos pelo Instituto de Nutrição nas cidades de Ribeirão e Água Preta e nos de Gameleira (da Secretaria da Saúde) e Primavera (mantido por uma associação protestante). Nesses centros (há projeto para mais sete), o remédio que as crianças tomam é simples: comida.
Há quem critique esse tipo de serviço, não só pela pequena quantidade de crianças que pode atender, como pela possibilidade de todo o esforço ser perdido a partir do momento em que o doente volta para casa, onde não há mais o que comer. O Dr. Batista diz:
- Como a situação é de emergência, com esse trabalho ganhamos tempo contra a morte. Na fase de recuperação criamos nutricionais na criança e assim temos oportunidade de reduzir uma parte da moralidade em que o componente é a desnutrição.
No posto que funciona em Primavera, cidadezinha a cerca de 15 quilômetros de Amaraji, tem-se um retrato perfeito do que se pode chamar de doença da fome. São 26 crianças, todas desnutridas de segundo e terceiro graus. E terceiro grau pode matar, mesmo que não haja outra doença para ajudar. No centro de recuperação, muitas crianças entre um e dois anos não falam nem andam. Arrastam-se, como pequenos animais silenciosos. Na hora da comida, arrastam-se mais depressa. A comida boa que não podem comer em casa é uma mágica força de atração, apesar de ser feita com os componentes comuns da região. O cardápio do almoço, pode ser, por exemplo, feijão, arroz, abóbora, picadinho de charque e ovo.
O Dr. Fernando Figueira, do Instituto de Medicina Infantil, acha que na luta contra a fome, que mata tantas crianças no Brasil, muito mais tem de ser feito, é necessária uma luta em termos de mobilização nacional.
- De nada valem medidas tímidas ou de contemporização. É preciso que se interprete a situação como se estivesse em risco a própria soberania nacional. Que se unam todas as forças e que se façam todos os esforços na luta contra esta vergonha: a criança faminta.
Comadre Nenzinha, uma das sete parteiras curiosas de Amaraji, que cuidou das gêmeas Marilene Marileide, já fez nascerem mais quinhentas crianças e garante que nenhuma morreu durante o parto. Mas, que se criem todas, ela sabe que é impossível. Já pegou criança de todo jeito, de todas as posições – “travessado, de invés, sentado”.
Para chegar a ser parteira de gente, Nenzinha treinou primeiro com os bichos. Fazia muitos benefícios aos animais em horas difíceis. Partos de vacas, de cabras, de porcos. Uma vez chegou a tirar três cabritinhos que estavam atravessados. E os bichinhos se criaram, cresceram gordos, comendo capim.
Com gente é diferente. Menino nasce direitinho, só que muitos, não se criam, como os bichos. A razão, comadre Nenzinha não sabe direito:
- Sei não. Só sei que eles adoece e morre.
 
 

Reportagem publicada na revista Realidade - fevereiro/1970, consta do livro “O Circo do Desespero” (Editora Símbolo, São Paulo, 1976)