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DOSSIÊ
SAÚDE
Imprensa doente não sabe tratar da saúde
Uma pergunta inocente sobre a utilidade das vitaminas
fez o médico, normalmente afável, exaltar-se. "Na maior parte,
não servem para nada. Não há evidência científica
que sustente a vantagem terapêutica. Em tudo isso tem mais efeito
placebo do que se pode imaginar."
- Nem vitamina C?
- Não, nem vitamina C. Não se provou nada até hoje.
- Linus Pauling...?
- Por favor, não me deixe nervoso.
Mas ficou. O consultório em suspenso: a veemência tinha
virado comício na sala de espera. "Quer saber de uma coisa? Neste
país a televisão vende, com perdão da palavra, porcaria
como remédio. Todos esses produtos para emagrecer, uma loucura!
Luci, onde está o vídeo? Teve um programa de televisão
em que eu disse didaticamente o que penso."
Situação inusitada: um casal relativamente jovem e dois
homens de meia idade assistiram num aparelho suspenso a um canto da sala
à argumentação do cardiologista Maurício Wajngarten,
do Incor (Instituto do Coração da USP) e do Hospital Israelita
Albert Einstein, numa edição antiga do programa de televisão
25a Hora.
Dias depois, sempre preocupado com a maneira como a imprensa cobre sua
área de atividade, o médico resumiu o assunto em dois pontos:
- Primeiro, não deveria haver tanta avidez por gancho.
Muitas vezes se deixa de publicar uma informação importante
porque ela "não tem gancho". Segundo, a formação
do jornalista é deficiente.
A entrevista do Dr. Maurício Wajngarten, em que jornalistas e
médicos estão unidos como alvo de reprimendas indignadas,
é um dos tópicos que inauguram o Dossiê Saúde
do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA.
A doença da mídia
Saúde é hoje a segunda maior preocupação
dos brasileiros. Só perde para o emprego. Em certo sentido, talvez
seja um bom sinal. Sinal de que o povo já consegue dar maior valor
à sua própria vida, sistematicamente desprezada num país
em que a abolição da escravatura foi tardia e enganosa. Também
é sinal de que o precário atendimento médico preocupa.
Muito.
Os meios de comunicação correm atrás da sensibilidade
da chamada opinião pública, mas, na média, com uma
irresponsabilidade de arrepiar. Comparável à dos maus médicos
criticados pelo Dr. Nelson Senise, "maus profissionais que emporcalham
a classe e provocam dor e morte ao invés de evitá-la", como
se diz na abertura de uma entrevista que esse médico do Rio de Janeiro
deu ao Jornal do Brasil (23/2/97).
Ao lado de informações úteis, indispensáveis
e mesmo providenciais fornecidas pela mídia, a desinformação
jorra diariamente de uma grande cadeia de interesses articulados que vai
de jornalistas despreparados ou desprovidos de valores éticos à
indústria farmacêutica, passando por médicos que podem
ser medianamente, pouco ou nada escrupulosos, mas se unem sempre, com raríssimas
e corajosas exceções, na defesa de um corporativismo muito
mais sólido do que o das Polícias Militares, por exemplo.
O despreparo da imprensa tem uma história perceptível.
Quem acompanhou o surgimento das primeiras editorias de ciência e
saúde nos grandes jornais testemunhou que, com algumas exceções,
dependentes mais da qualidade dos profissionais do que de qualquer tipo
de planejamento sério, foi tudo improvisado. E continua sendo -
sempre com honrosas exceções.
Em recente artigo, o ombudsman da Folha de S.Paulo mostrou
como os erros são basicamente os mesmos que afetam todo tipo de
cobertura jornalística: "Informações imprecisas, oriundas
de manipulação das fontes, de ouvir dizer, são publicadas
diariamente. Com freqüência são resultado de inexperiência
do profissional, mas mesmo gente tarimbada transmite notícia falsa
sobre pessoa ou instituição, porque o profissional se enganou,
não se certificou da veracidade do fato." (Ver Ombudsman
faz anatomia.)
Neste primeiro Dossiê, foram deixados de lado a florescente indústria
de publicações especializadas e os encartes de qualidade
duvidosa publicados por revistas de grande circulação. Faltou
saúde para tratar disso.
Aberrações domingueiras
Domingo é dia gordo de matérias sobre medicina e saúde.
Dia de aberrações. "É preciso tomar Plasil para ler
as picaretagens do Jornal da Família do Globo", revolta-se
o Dr. Pedro Henrique Paiva, clínico e gastroenterologista, um dos
médicos mais respeitados do Rio de Janeiro. E relembra caricatamente,
como lhe ficaram na memória, as tais aberrações: "Coma
brócolis e dê 12".
"Quando o jornalista não erra ao reproduzir a informação
que lhe foi dada, erra ao dar o nome científico de um medicamento.
Quando, muito raramente, acerta o nome científico, erra o nome de
fantasia", diz ao OBSERVATÓRIO Pedro Henrique Paiva, que
considera a revista Veja "um caso exemplar de desinformação"
e também não poupa seus colegas: "Os artigos publicados na
própria imprensa médica raramente conseguem chegar a uma
conclusão científica rigorosa, tendo em vista sua própria
natureza de relato de experiências parciais, mas isto não
impede que sejam dados a público em tom conclusivo".
Para usar um exemplo recente da leviandade domingueira, analisa-se a
seguir uma reportagem publicada no domingo, 27 de abril de 97, pelo Jornal
do Brasil.
Manchete da página de Saúde do JB: "Ah, essa gente
polivitaminada!". Subtítulo: "O máximo: vitaminas e substâncias
energéticas reunidas num comprimido único". Depois de um
nariz-de-cera em que são apresentadas as "polivitaminas", o repórter
constata que está havendo um consumo cada vez maior de tais produtos,
e sentencia: "E isso é positivo. Alguns deles são fracos,
mas mal não vão fazer. É melhor tomar isso do que
não tomar nada".
Na segunda coluna de texto, o JB apresenta o custo da experiência
que "mal não vai fazer". A conta é dada por um empresário,
Wagner Monteiro, cuja foto, sorridente, com dois filhos pequenos igualmente
sorridentes e 16 embalagens de vitaminas e assemelhados, ocupa quase toda
a metade da página acima da dobra. "Uma espécie de autodidata
convicto, mas tranqüilo", gasta R$ 350,00 por mês com vitaminas,
polivitamínicos, proteínas, aminoácidos, energéticos,
hipercalóricos. E ainda tem um "etc." no texto. Quem escreve "etc."
em reportagem devia pagar multa.
Na terceira coluna, o repórter dignou-se reproduzir a opinião
do "outro lado", que definitivamente está virando mais um artifício,
uma mesura à consciência ("voz interior que nos adverte que
alguém pode estar olhando", como dizia o irritado H.L. Mencken),
uma formalidade, um álibi. A opinião, se tivesse sido levada
em consideração, derrubaria a reportagem. Ou melhor: motivaria
outra reportagem, muito mais séria, sobre prejuízos que podem
estar sendo causados pelas vitaminas. Sanitários e financeiros.
Eis a opinião:
"A longo prazo, não foram mostrados resultados satisfatórios
das vitaminas para a prevenção de doenças degenerativas.
Quando são substituídas por uma alimentação
saudável, há uma redução dos problemas (grifo
nosso). Não vejo vantagem nos polivitamínicos. (....) Em
excesso, [as vitaminas] podem levar a um quadro de intoxicação".
De quem é esta opinião? Do Dr. José Egídio
Paulo de Oliveira, chefe do Serviço de Nutrologia do Hospital Universitário
Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Vamos recapitular pachorrentamente o que disse o Dr. José Egídio.
Assim como o Dr. Maurício Wajngarten, o professor da UFRJ afirma
que não há comprovação segura da utilidade
das vitaminas. Que sua substituição por uma alimentação
saudável reduz os problemas. E que, tomadas em excesso (o
que acontece principalmente nos numerosíssimos casos de automedicação),
podem fazer mal. Mas o mesmo repórter que reproduziu essa opinião
abalizada, que ele mesmo foi buscar na UFRJ, escreveu, muitas linhas antes:
"Mal não vão fazer". Tomando a precaução de
estilo de ressalvar que "o ideal [não o necessário] é
que as dosagens sejam personalizadas, com acompanhamento médico".
Na quarta coluna, a reportagem revela o que está por trás
de tudo isso. Basta transcrever: "Estima-se que hoje o mercado farmacêutico
nacional de vitaminas seja da ordem de US$ 350 milhões. Desse total,
uns US$ 55 milhões são de polivitamínicos. Os importadores
dizem que vendem outros US$ 35 milhões", segundo Devaney Baccarin,
gerente da Divisão de Produtos para a Saúde do Consumidor
da Roche.
"Todo jornalista deveria estudar introdução
à metodologia científica"
Entrevista com Maurício Wajngarten
O Dr. Maurício Wajngarten cita como exemplo
das dificuldades com que se defronta a imprensa uma reportagem de Veja:
- Veja publicou, em outubro de 1996, uma reportagem sobre um
cateter usado na UTI que poderia matar os pacientes. É um cateter
usado como medidor de pressões e débito cardíaco.
Quando o jornalista da revista me telefonou, a primeira pergunta já
me deixou em estado de choque: "Cateterismo mata?" Respirei fundo. Sobre
pontos específicos, respondi: "Não sei nada disso. Espere
até a noite, para eu me informar. Vou lhe indicar colegas com grande
experiência em UTI, você fala com eles. Mas, por favor, antes
de mais nada, não confunda esse problema com cateterismo!"
O cardiologista imaginava onde a coisa poderia parar: "Se você
tem um parente na UTI, não deixe colocar um cateter. Converse muito
com o médico, para saber se não pode ser mortal." Esse foi
o tom adotado na reportagem sobre o mesmo assunto transmitida pela rede
de televisão CNN. Veja passou raspando pelo sensacionalismo.
(Ver Reportagem de Veja
sobre o cateterismo de Swan-Ganz.) Nos bastidores, algo que não
é mencionado na revista, mas o médico revela: "A venda do
cateter é um negócio de milhões de dólares
por ano. O artigo original, na publicação médica americana,
provocou queda do valor das ações da empresa fabricante."
Avidez e superficialidade
Uma combinação nada saudável, segundo o Dr. Wajngarten,
é a avidez por novidades e a "falta de aprofundamento". Antes de
afirmar-se que um remédio resolve determinado problema, é
necessário todo um procedimento de natureza científica, muito
complexo, sujeito a idas e vindas. Assim, as reportagens não deveriam
de modo algum avançar como conclusões hipóteses ainda
em exame:
- O processo de certificação de um medicamento é
complexo, sutil. Em 1996, houve o caso do Amiodarona, excelente contra
arritmia. Estudou-se se havia diminuição de mortalidade dos
indivíduos. Houve na Argentina um megatrial, um teste com
milhares de indivíduos, cujas conclusões foram positivas,
mas houve em seguida outro nos Estados Unidos em função do
qual os resultados do primeiro foram contestados. São tipos de pacientes
diferentes, doses diferentes, tempos de aplicação diferentes.
Mas no noticiário já se falava sem qualquer reserva em "novo
tipo de medicamento, a Amiodarona". Dá a impressão de que
o jornalista que leu o noticiário especializado não entendeu
nada. A conseqüência negativa é que o cliente te telefona
e pergunta por drogas novas.
A velocidade com que jornalistas se apropriam das informações,
metabolizam-nas e passam-nas adiante é assustadora, segundo o médico
do Incor. Ele conta que a discussão sobre determinados procedimentos
e medicamentos é complexa nos próprios congressos:
- Às vezes, da platéia, alguém diz "Não
concordo com isso" e toda a argumentação do expositor desaba.
Imagine-se o que acontece quando um jornalista que é leigo lê
apenas um comunicado feito pelos próprios interessados.
Soluções Mágicas
A temperatura da conversa sobe quando o foco recai nas soluções
mágicas, ditas alternativas:
- Eu diria que com US$ 4 mil por mês dá para montar uma
assessoria de imprensa que me faça aparecer em qualquer programa
de televisão, inclusive nos que têm maior audiência.
Maurício Wajngarten cita o caso de um médico conhecido
que preconiza o uso de EDTA (sigla em inglês de ácido etilenodiamintetracético)
para o paciente "não envelhecer". A chamada quelação.
"Ele aplicava um sorozinho com EDTA nos pacientes. Uma prática que
começou nos EUA, mas lá foi sendo empurrada por proibições
de um Estado para outro, até a fronteira do Novo México."
O cardiologista continua seu relato:
- Em 1995, um trabalho controlado, que durou dez anos, mostrou que não
funcionava. Fazia-se exame e constatava-se a presença de cálcio.
Quando colocavam realmente EDTA no soro, alguns pacientes tinham insuficiência
renal. E a tal quelação custava US$ 2 mil. Aí o médico
em questão parou de usar EDTA no soro. Tive um paciente que deixou
de freqüentar meu consultório para fazer esse tratamento. Um
dia, seus filhos mandaram examinar o que lhe estava sendo aplicado e constataram
que era água com açúcar. Ao preço de US$ 2
mil.
(Existem numerosos sites na Internet em defesa da quelação,
em inglês chelation; em geral, acusam o governo americano
de mentir sobre o assunto.)
Quando se vê uma reportagem no Jornal Nacional sobre as virtudes
da maratona para poupar o coração (como aconteceu no "Boa
noite" de 28/1/97), é preciso levar em conta muita coisa que não
foi dita. Que o maratonista, para começar, não faz nada do
que os outros fazem de ruim, como fumar, beber, comer gordura.
- Exercício violento para quem não está acostumado
pode ter conseqüências desastrosas - diz Wajngarten.
- O médico americano ouvido era sério, mas a reportagem
recebeu tratamento discutível. Exercício a mais é
melhor do que exercício a menos, mas a recomendação
era pouco prática (64 quilômetros de corrida por semana),
pouco convincente para a imensa maioria das pessoas que não têm
tempo ou condições. A última palavra da American Heart
Association e do General Surgeon dos EUA é: faça alguma coisa.
Mas está provado que um indivíduo destreinado que faz exercício
exagerado pela manhã corre risco sério. Um médico
alemão e pesquisadores de Harvard apresentaram conclusões
a respeito num congresso. A reportagem foi um pouco superficial e um pouco
leviana. Ninguém pode se comparar a um maratonista. Além
disso, não se pode perder de vista os interesses objetivamente envolvidos
nesse tipo de reportagem: indústrias de tênis, calção
e aparelhos, e academias de ginástica.
Rasteiras e charlatanismo
Outro prática escusa é desqualificar um tipo de tratamento
para vender outro.
- Um belo dia, no Fantástico - conta o médico do Incor
-, houve uma reportagem na qual se afirmava que ponte de safena não
resolve, porque pode entupir. Ouviram o Dr. Zerbini, que deu uma resposta
honesta. "Ponte de safena pode entupir?". "Pode." Depois, apresentava-se
um tratamento mágico alternativo ao uso de ponte de safena. Na reportagem,
um repórter aparecia diante do Incor: "Procuramos o Dr. Jatene,
mas ele não quis dar entrevista." Colegas horrorizados com a desinformação
telefonaram para o Jatene e perguntaram: "Por que você não
deu entrevista, deixou veicular aquelas barbaridades?" "Porque iriam fazer
comigo o que fizeram com o Zerbini: pegar um pedaço da declaração
e isolar do contexto." A gente sabe que a maior das mentiras é a
meia-verdade.
A temperatura continua subindo. Não provoca febre, mas o despejo
de denúncias de charlatanismo:
- Cartilagem de tubarão (anunciada por Atayde Patreze, com a
chancela acadêmica de professores da Universidade Federal do Ceará),
ipê roxo, megavitaminas, recuperação da memória,
emagrecimento, a propaganda de produtos miraculosos agora vem pela TV a
cabo, de Miami ou mesmo do Brasil. Anticelulite, comprimidos de colágeno,
soluções mágicas para problemas insolúveis.
"Tome o chá XPTO e emagreça um quilo". KH3, famoso "rejuvenescedor".
Melatonina. Calvície: é problema insolúvel, volta
e meia aparece uma solução. Tudo falso, criminoso. Xarope
Tossigripe: "Adeus à tosse". E às vezes a tosse não
é de gripe, é de câncer no pulmão. Ou de tuberculose.
Pomada contra hemorróidas, mas, vai ver, a pessoa está com
câncer na próstata.
E os grandes laboratórios?
- Todo laboratório tem seu departamento de marketing. Mas os
laboratórios éticos consideram que seu público alvo
não é o paciente e sim o médico. Já os laboratórios
como o Hemovirtus, não. Seu público alvo é o povão.
Saídas?
- Para mim, a imprensa é o que há de mais importante.
A escola vem depois. Por isso é que tem de se aprimorar cada vez
mais. Insisto em três pontos. Primeiro, não exagerar na busca
do gancho, da novidade. Depois, capacitar o jornalista. Todo jornalista
deveria estudar introdução à metodologia científica.
Finalmente, ter uma atitude ética. O que é pago, é
pago. Não pode haver propaganda disfarçada sob a rubrica
"Divulgação", ou, pior, paga por baixo do pano.
Reportagem de Veja sobre o cateterismo de Swan-Ganz
Abaixo, a íntegra da reportagem
publicada na edição de 02/10/1996 da revista Veja.
Como se constata, o texto espeta seu gancho nos riscos apresentados pelo
cateter.
"Medicina
Exame de risco
Pesquisa questiona o uso de um cateter empregado na UTI
Antonio Martins
Utilizado pela medicina como um dos maiores aliados dos cardiologistas
na UTI, o cateterismo de Swan-Ganz virou réu num artigo publicado
em revista especializada na semana passada. No artigo, que saiu no Journal
of the American Medical Association, o pesquisador Alfred Connors Jr.
afirma que, uma vez submetidos ao cateterismo Swan-Ganz, os pacientes têm
menos chance de estar vivos depois de um mês - precisamente 24% menos
do que aqueles tratados sem o cateterismo. Professor da escola de medicina
da Universidade de Virgínia, Connors tirou suas conclusões
depois de observar o tratamento dispensado a 5.700 pacientes internados
em estado grave em cinco grandes hospitais-escola dos Estados Unidos. "Esse
estudo oferece fortes evidências, não provas, de que o uso
desse cateterismo pode ser perigoso para alguns pacientes", diz o doutor
Connors.
Cateterismo é a introdução de qualquer cânula
no organismo. Faz-se cateterismo no fígado ou na bexiga, por exemplo,
mas o mais famoso deles é aquele que muitas vezes define uma cirurgia
no coração. "O autor do artigo não está tratando
daquele tipo de exame que os médicos prescrevem quando é
preciso avaliar os prós e contras à ponte de safena", avisa
o cardiologista Maurício Wajngarten, professor da Universidade de
São Paulo. O Swan-Ganz é um cateter usado em situações
graves, quando o estado geral do paciente da UTI é crítico
e exige cuidado redobrado.
Em casos assim, não basta acompanhar a pressão sanguínea
com maquinetas externas, imprecisas para tais situações.
É preciso introduzir um cateter através de um corte numa
artéria do pescoço, cuja ponta caminhará para o fundo
do coração. Assim, o médico poderá monitorar
a pressão sanguínea no interior do músculo cardíaco
e dentro dos pulmões e a força com que o sangue transita
entre os dois órgãos.
Como é um procedimento invasivo, ele pode provocar infecção
ou embolia. Por agir em órgãos vitais e em pacientes fragilizados,
o Swan-Ganz trabalha com uma margem de risco maior. O problema do estudo
do professor Connors é que sua constatação, preocupante,
é acompanhada de uma solução temerária: a suspensão
do uso desse cateter. "O Swan-Ganz dá informações
indispensáveis nos casos em que há risco de falência
múltipla de órgãos", diz o cardiologista Elias Knobel,
com a experiência de quem criou, em 1972, a UTI do Hospital Albert
Einstein, em São Paulo - e responde por ela até hoje. "Como
não existe ainda um método capaz de substituí-lo de
forma satisfatória, agir sem ele é trabalhar no escuro",
adverte Knobel. (© Veja.)
Ombudsman expõe a ferida
Anatomia de um erro
Mario Vitor Santos
São Paulo, domingo, 13 de abril de 1997 - OMBUDSMAN
Às vezes fica difícil entender como
algumas informações são apuradas e chegam às
páginas da imprensa, sem que sejam observados procedimentos básicos
de conferência. Dói mais quando essas informações
são usadas em ajuda à expressão de um preconceito,
uma idéia-feita.
Informações imprecisas, oriundas de manipulação
das fontes, de ouvir dizer, são publicadas diariamente. Com freqüência
são resultado de inexperiência do profissional, mas mesmo
gente tarimbada transmite notícia falsa sobre pessoa ou instituição,
porque o profissional se enganou, não se certificou da veracidade
do fato.
Fragilidades
Ocorrido o erro, é importante reparar os prejuízos da
maneira mais rápida, completa e transparente. A incorreção
deve ser reconhecida, se possível na edição seguinte.
Alguma satisfação deve ser dada, mesmo que ela revele
fragilidades profissionais. O jornalista - e o jornal também - deve
pedir desculpas aos envolvidos e aos leitores. Acima de qualquer consideração,
deve estar a disposição ética de admitir o erro, publicar
a verdade, minimizar o estrago.
Num texto de sexta-feira, 4 de abril, o jornalista Fernando Rodrigues
afirmava na coluna Brasília, publicada diariamente na pág.
1-2 da Folha, que o secretário da Segurança de São
Paulo, José Afonso da Silva, "um safenado que sofreu isquemia coronariana,
tem recomendação médica para evitar problemas emocionais.
Está provado que não tem o comando da PM''.
O texto concluía que o governador Covas não o demitia
por ser arrogante, teimoso e contemporizador.
Bom de coração
Em carta enviada ao jornal no mesmo dia da publicação
da coluna, amparada em atestado médico, José Afonso da Silva
demonstrava sua perfeita saúde cardíaca, não tendo
nunca se submetido a cirurgia.
No dia seguinte, 5 de abril, o Painel do Leitor publicou a carta-desmentido
de José Afonso, amparada por atestado do cardiologista Fulvio Pileggi.
Não havia comentários da Folha ou resposta do jornalista,
ao contrário do que as vezes acontece. Uma nota apenas remetia o
leitor para a seção Erramos, que dizia:
"Diferentemente do publicado na coluna Brasília de ontem, o secretário
da Segurança de São Paulo, José Afonso da Silva, não
é safenado, não sofre de isquemia coronariana, nem recebeu
orientação médica para evitar problemas emocionais''.
Ponto.
Desculpas
Só na terça-feira, depois de conferir o erro com sua fonte,
a coluna Brasília trazia um pedido formal de desculpas do colunista,
seco, sem explicações.
A medida atendia em parte preocupações do leitor Alvaro
de Almeida Caparica, de São Carlos (SP), que cobrara essa atitude
do colunista e da Folha, estranhando a lentidão.
Para o leitor, "danos à imagem privada de pessoas públicas
deveriam merecer reparações mais ativas e plenas da parte
do jornal''.
O colunista Fernando Rodrigues diz ter obtido a informação
original junto a fonte "de alto nível'' no PSDB. Alguém que
nunca lhe havia passado uma informação errada até
então: "Eu não chequei, porém, o que foi um erro gravíssimo,
indesculpável''.
O jornalista argumenta em tese que informações médicas
relativas a pessoas em postos de comando são relevantes e devem
ser divulgadas. No caso, falando ainda em teoria, ele acha que uma eventual
debilidade do coração de José Afonso deveria ser revelada,
se realmente existisse.
Na minha opinião, o colunista foi afoito, como ele mesmo admite.
Deveria ter tomado precauções duplas ao usar argumentos pretensamente
médicos para amparar considerações de natureza política
e administrativa. Um erro que deveria se transformar em lição
a ser seguida por todos.
Mas foi também preconceituoso, ao aceitar o argumento duvidoso
de que um safenado não pode ocupar funções de grande
exigência. Os exemplos de safenados com vida normal estão
aí em todos os partidos, a começar pelos próprios
caciques do PSDB, no governo, nas empresas.
A tarefa da imprensa deve ser a de oxigenar o debate, torná-lo
o mais objetivo, científico e rigoroso, não contaminá-lo
ainda mais com atraso científico e discriminação.
Colesterol
Por coincidência, a Folha publicou outra correção
médica nesta semana, relativa ao medicamento Pravacol, do laboratório
Bristol-Myers Squibb Brasil.
Há mais de dois meses, o jornalista Gilberto Dimenstein, em sua
coluna América, afirmara que esse medicamento, para controle de
colesterol, tinha sido lançado no Brasil antes de ser aprovado nos
Estados Unidos, o que demonstrava a tese de que a aprovação
e a venda de remédios no Brasil são feitas sem controle.
A correção saiu na quinta-feira passada. O Pravacol está
habilitado pelo controle norte-americano desde 1991, antes de ser comercializado
no Brasil, como afirmava carta de João Massud Filho, diretor do
laboratório.
Dimenstein diz ter confundido uma reclassificação feita
mais recentemente pelo governo americano, que agregou um novo uso ao medicamento,
com a aprovação inicial. A tese inicial do artigo de Dimenstein,
de que o Brasil é zona livre para comercialização
de qualquer medicamento, ainda subsiste, porém.
Pelo que se vê, a Folha precisa criar condições
e adotar políticas mais eficazes de checagem e de prevenção
aos erros de informação. As que existem ainda permitem erros
de fácil detecção.
Copyright 1997 Empresa Folha da Manhã
O Domingo da doença
Mauro Malin
O domingo, dia da família, é o que
logo aparece na memória do médico sanitarista David Capistrano
Filho, ex-prefeito de Santos, ex-secretário de Saúde de Santos
e de Bauru, quando o problema da cobertura jornalística dos problemas
de saúde da população lhe é proposto.
"O Fantástico, da TV Globo, é uma maneira de criar mercado
para qualquer bugiganga nova que apareça nos Estados Unidos e prometa
mundos e fundos", afirma. "Tudo isto acontece porque a cobertura jornalística
é inepta e os encarregados não têm a menor noção
do que se trata. A partir daí, tornam-se veículos de jogadas
políticas, de pessoas e de produtos farmacêuticos. É
um fenômeno mais acentuado na mídia eletrônica", explica
David Capistrano ao OBSERVATÓRIO.
Em sua entrevista, o Dr. David Capistrano critica a "demolição
do trabalho de especialistas em jornalismo científico" que, a seu
ver, produziu-se nos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo.
O OBSERVATÓRIO ouviu também o Dr. Edson Stefanin,
chefe da UTI do Hospital Sírio e Libanês, que rivaliza com
o Albert Einstein na disputa pelo título de melhor hospital do país.
Edson Stefanin alerta que a imprensa não sabe distinguir entre médicos
sérios e médicos que fazem autopropaganda, e afirma que os
médicos estão despreparados para lidar com a imprensa. Sua
proposta é um esforço para que todos os envolvidos façam
um aprendizado complementar adequado.
É o que está fazendo, nos Estados Unidos, Gabriela Scheinberg,
brasileira formada em Biomedicina em São Paulo e entrevistada pelo
OBSERVATÓRIO
por correio eletrônico. Gabriela termina um mestrado em Jornalismo
na Universidade de Boston, na área de jornais e revistas. Quando
voltar ao Brasil, pretende associar sua formação científica
com o trabalho jornalístico. O resultado costuma ser bom, como sabem
os leitores de, entre outros, Fritz Utzeri, jornalista formado em Medicina
pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro que fez carreira no Jornal
do Brasil e edita hoje o Globo Ciência, da Rede Globo de Televisão.
"Sou obrigado a ditar, soletrar, letra
por letra"
Entrevista de David Capistrano Filho
O médico David Capistrano Filho é
um dos mais respeitados e competentes sanitaristas do país. Muitos
brasileiros não têm a menor idéia disso, mas estão
vivos hoje graças a campanhas e práticas que ele ajudou a
generalizar desde que saiu da Faculdade de Medicina da UFRJ, no início
dos anos 70. Porque ele não apenas aplicou políticas enérgicas
de saúde pública, mas tratou sempre de divulgá-las
amplamente. A coleção de literatura especializada publicada
sob a égide do Cebes (Centro Brasileiro de Estudos de Saúde),
do qual ele foi um dos fundadores, tem mais de cem títulos, com
muitas reedições. Foi secretário de Saúde de
Bauru (1984-88) e de Santos (1989-92), onde sua política sanitária
prosseguiu com êxito durante seu mandato de prefeito (1993-96).
David Capistrano Filho também é jornalista, sem diploma
ou registro. Aprendeu o ofício no fogo de uma militância política
que vem da infância. Já editou revistas e jornais. Fala do
relacionamento entre imprensa e saúde do ponto de vista de quem
tem responsabilidades de cidadania. Resume numa expressão seu balanço:
"A cobertura é inepta". E descreve o quadro:
- Coisas velhas são apresentadas com retoque de novo. Os jornalistas
comprazem-se com denúncias que muitas vezes são manipuladas.
Especificamente o noticiário sobre as formas de organização
de assistência médica é profundamente influenciado
pela adesão maciça e basbaque da imensa maioria dos jornalistas
ao chamado paradigma neoliberal, que oferece como solução
mágica privatizar. Não querem saber que três quartos
da população não têm dinheiro para tratamento.
David aborda a dificuldade que tem atualmente para conversar com jornalistas.
Relembra com saudade o tempo em que na Folha de S.Paulo e no Estado
de S.Paulo havia editorias especializadas conduzidas por jornalistas
que procuravam entender, familiarizar-se com os assuntos e traduzi-los
para o conhecimento geral. Cita os nomes de José Reis e Demócrito
Moura. "Esse trabalho foi destruído. As editorias foram absorvidas
por cadernos, viraram Cidade, Cotidiano, e meteram tudo num mesmo saco."
Também a qualificação geral dos profissionais foi
caindo:
- Sou obrigado a ditar minhas declarações, soletrando,
inclusive, letra por letra, caso contrário saem absurdos, coisas
malucas. Os conceitos usados na esfera mais específica da saúde
pública são hieroglifos para esses jornalistas.
Dá como exemplo a mortalidade infantil, que não é
a morte de crianças, mas um indicador: o número de crianças
que morrem antes de completar um ano de vida, para mil nascidas vivas.
"Isto costuma sair nos jornais como porcentagem, o que multiplica por dez
a magnitude da mortalidade. Não sabem o que é prevalência
- o estoque de casos que existe sobre a população, nem incidência
- os casos novos numa população dada. Não acho que
as pessoas sejam obrigadas a saber isso, mas, já que vão
escrever, devem prestar atenção no que dizem as fontes. "
Aumentar o sofrimento
O Dr. David Capistrano acusa: os erros desorientam e aumentam o sofrimento
das pessoas. "Não se difunde que existem alternativas de tratamento
que funcionem. Não se difunde algo essencial em caso de doença
grave, que é a prática da segunda opinião, comuníssima
nos Estados Unidos. Consultar o segundo. Se o diagnóstico confere,
muito bem; se não, deve-se consultar um terceiro médico.
Aqui, os médicos resistem e a imprensa abaixa a cabeça."
Por outro lado, difundem-se notícias esperançosas vãs,
em nome de uma neutralidade valorativa que leva as pessoas a achar que
tanto faz tomar chá de cabeça de formiga como seguir um método
científico.
Cada um que se trate do jeito que bem entender, o "mercado" oferece várias
opções.
Relato de uma tragédia:
- Conheci um jornalista aqui de São Paulo, sujeito até
avançado, cabeça boa, que teve diagnóstico de leucemia
mielóide crônica. Caiu na mão de um homeopata de Campinas.
Morreu. Quando ele estava quase morrendo, a família me chamou e
contou. Tinha sido convencido pelo homeopata de que os remédios
alopáticos eram venenosos. O sujeito morreu. Eu queria processar
o médico. Acho que não se deve impedir ninguém de
recorrer a tratamento alternativo. Eu mesmo tomei (David teve leucemia
mielóide aguda, diagnosticada em 1982 e tratada com êxito
no Brasil e nos Estados Unidos). Vem uma pessoa amiga, interessada, quer
que você tome chá de confrei. Eu tomei. Um padre me fez tomar
chá de bichinhos de feijão estragado. Está bem. Mas
não deixei de fazer o tratamento. Quer seguir conselhos exóticos,
siga. Mas impedir o sujeito de fazer o tratamento... Leucemia mielóide
é uma enfermidade curável. E o jornalista morreu porque não
se tratou.
As mágicas de mestre Jeng
Eis trechos do que publicou O Estado
de S.Paulo, no caderno Seu Bairro (8/12/95; tirado de reprodução
feita pelo próprio Jeng Sheng Chau para elaboração
de peça publicitária distribuída como encarte mais
de um ano depois).
"Quando saiu da China há 30 anos, Jeng Sheng Chau não
imaginava que iria seguir a tradição ensinada por seu pai:
a cura através das ervas. (....) Homens, mulheres e crianças
vão ao seu consultório quando já estão cansados
dos médicos convencionais. O abandono desse tipo de tratamento não
acontece de uma vez. Aos poucos, o doente não sente mais necessidade
dos remédios. Para o herborista, todos os problemas físicos
têm causa emocional."
"As pessoas sempre procuram mestre Jeng por meio da indicação
de algum amigo. O mestre tem muitos pacientes famosos [cita nomes]".
"Um dos casos mais graves que o mestre Jeng tratou foi o de uma criança
com leucemia. 'Ela estava condenada a tomar remédios por toda a
vida', lembra Jeng. 'Preparei uma receita de chá e, quando voltou
ao médico, não tinha mais nada', disse."
"Vestibular não tem exame psicológico"
Entrevista de Edson Stefanin
O Dr. Edson Stefanin, chefe da UTI do Hospital
Sírio e Libanês de São Paulo, viveu em janeiro deste
ano um episódio que considera caraterístico das relações
difíceis entre médicos e jornalistas. Foi a internação
do ex-prefeito Paulo Maluf, com o nome de Paulo Maurício, para fazer
uma cirurgia de câncer da próstata.
Inútil uma pessoa como Paulo Maluf tentar ficar incógnita
num hospital de São Paulo. A primeira enfermeira que entrar no quarto
vai espalhar a notícia no mínimo para a torcida do Corinthians.
Também foi inútil tentar esconder que se tratava de câncer
da próstata. O ex-prefeito quis despistar. Raul Cutait, diretor-clínico
do hospital, que havia sido seu secretário de Saúde na Prefeitura,
distribuiu nota dizendo que se tratava de "cirurgia para correção
de obstrução prostática", mas a reportagem da Folha
de S.Paulo, por exemplo, já chegava bem perto da verdade na
primeira notícia, em 3 de janeiro: "O ex-prefeito de São
Paulo Paulo Maluf foi operado ontem, às 8h, para retirada completa
da próstata. A Folha apurou que Maluf tinha um pequeno tumor.
O órgão retirado foi submetido a exames a fim de verificar
se o tumor era benigno ou maligno, conforme a praxe nesses casos." E, adiante:
"Funcionários do hospital informaram que foi realizada uma prostatectomia
radical, cirurgia utilizada para a retirada da próstata e das vesículas
seminais. Especialistas ouvidos pela Folha afirmam que a prostatectomia
radical só é realizada quando há uma suspeita de câncer
localizado."
Na opinião de Edson Stefanin, o que deu errado na história
foi a tentativa de despistar a imprensa. "Mas a imprensa ficou lá
na porta 24 horas. Alguém acabou descobrindo que poderia ser câncer.
Os médicos não estão preparados para isso, como, mal
comparando, ninguém está preparado para ser assaltado por
alguém que fica o tempo todo à espreita."
O médico afirma que o boletim médico, em princípio,
é seco. "Se for desejo do paciente, faz-se relatório completo.
É melhor, porque todos ficam devidamente referenciados com os seguintes
elementos: antecedentes, condutas indicadas, o que foi feito, resultado
obtido e prognóstico."
Não se pode tirar o direito do paciente à privacidade.
O médico deve respeitar a ética. "Mas, quanto mais claro
o médico for, com o intuito de esclarecer, melhor. O compromisso
do jornalista é ser claro também."
Segundo Stefanin, a imprensa presta serviço se conversa com médicos
sérios da área:
- É preciso separar quem quer fazer propaganda, quem tem a síndrome
do holofote. "Meus 15 segundos de glória." Muitas vezes está
lá para fazer propaganda.
O chefe da UTI do Sírio e Libanês relata que foi a um programa
de televisão falar de UTI, explicar o significado do tratamento
intensivo. Deparou-se com o seguinte conceito, corrente na imprensa: "UTI
é um lugar onde as pessoas entram para morrer" (1):
- Vão morrer ao lado de gente que está morrendo. Mas é
o caso de se perguntar: toda a técnica e recursos especializados
são usados para isso? Quem vai morrer, morra dignamente no quarto
do hospital, em casa.
Segundo Stefanin, a medicina é uma profissão e uma ciência
que beira o charlatanismo. "O limite que a divide da picaretagem é
muito estreito. E há um comentário que se faz nos hospitais:
vestibular não tem exame psicológico. Não se avalia
a personalidade. Há médicos sem nenhuma preparação,
que vendem soluções miraculosas."
Edson Stefanin acha necessária uma denúncia séria
da estrutura da saúde. Preconiza a realização de movimentos
que aproximem médicos e jornalistas para que aprendam juntos a trabalhar.
Benefícios para os dois lados. "É preciso aprender a usar
os recursos da mídia para educar, divulgar conhecimento, promover
saúde. E dar à imprensa plenas condições para
fazer um trabalho de informação didática."
(1) Eis o que publicou a Folha de S.Paulo
em 18/2/97,
citando Darcy Ribeiro sem qualquer contestação ou ponderação:
"UTI é uma m..., UTI fede. Só fica lá quem está
querendo morrer. Um monte de gente gemendo, esperando a morte. Pedi para
o médico me dar alta. Ele não deu, então eu fugi."
Lembram-se do médico da família?
Alberto Dines
Vamos por partes, como dizia no meio da sua faina
Jack, o Estripador.
* A mídia em matéria de saúde & medicina &
ciência é, em geral, sensacionalista e simplista.
* O poder público, por falta de recursos, não tem capacidade
de desfazer as "ondas" armadas pela mídia.
* O paciente-cidadão-leitor, porque carece de uma base cultural
mais sólida, navega desnorteado, sem condições de
defender-se das manchetes alarmistas ou salvacionistas.
* Restam os médicos e, com eles, a pergunta: não poderiam
exercer também um papel de educadores e consultores?
A Arte de Curar compreende também uma Arte de Esclarecer. Acontece
que o médico de hoje, geralmente, está mais preocupado com
a Doença do que com o Doente.
Os médicos do serviço público não têm
tempo - numa consulta de 15 minutos pode-se avaliar os sintomas mais gritantes
e receitar a medicação imediata. Sem tempo para levantar
o histórico familiar, menos ainda para dois dedos de prosa capazes
de orientar o paciente.
Os médicos privados (em geral os mesmos, no expediente da tarde)
têm a agenda apertada. A grande maioria, recém-chegada de
um congresso, está preocupada com a tecnologia de ponta e a pílula
da última geração. A sala de espera cheia, não
há tempo para desempenhar o papel do "médico de família"
- lembram-se? - aquele que tratava de todos os membros da família,
conhecia todos os chiliques e achaques, tinha explicação
para tudo. Sobretudo tinha tempo e disposição para ouvir
e falar.
O médico privado, assim como o jornalista, presta um serviço
público - pode ganhar muito dinheiro mas não pode esquecer
seu compromisso com a saúde, o bem-estar e a vida do cidadão.
A maquina de faturar - em que se converteram a grande maioria dos consultórios
particulares - nada tem a ver com esta tripla missão.
O corporativismo médico brasileiro é um dos mais retrógrados
e anti-sociais. Enquanto os jornalistas já começam a auto-criticar-se
em público, os médicos brasileiros jamais se dispuseram a
discutir abertamente os descaminhos para os quais muitos colegas empurraram
a profissão. Parceiros de Deus, arrogantes, sua infalibilidade não
pode ser posta em questão.
Além disso, há o mercantilismo, em outras palavras - a
grana preta. A sempre instrutiva Veja (edição 1495)
publica em apenas duas páginas um dos maiores libelos contra a medicina
privada e seu cúmplice predileto, o jornalismo médico-mundano.
Divulgar o nome de um cliente é antiético, fere o princípio
da confidencialidade, o sigilo contratual entre o doente e aquele que deve
curá-lo. Sem entrar no mérito da matéria (a extorsão
de cobrar 1.200 reais por uma consulta que o Conselho Regional de Medicina
deveria investigar), é inimaginável que médicos sérios
numa publicação séria estejam fazendo propaganda enganosa
de seus divinos atributos curadores usando outras pessoas - sem a necessária
licença - para comprová-lo.
O pessoal da linha natureba (medicina alternativa), certamente
dará urros de felicidade ao ler as linhas acima. Mas acontece que
entre os "médicos de ouro" fotografados por Veja há
dois profissionais ortomoleculares (teoricamente alternativos, já
que os planos de saúde não reembolsam consultas com médicos
desta orientação).
Este Observador já andou num consultório de um Prof. Dr.
da linha ortomolecular - ninguém é de ferro. Sua pressa era
a mesma dos alopatas tradicionais ou dos tecnólogos vanguardistas.
Não tinha tempo para explicar e, sobretudo, ouvir. A informação
do paciente não lhe importava, ele tinha a sua verdade, o cliente,
para ele, era um ser passivo, sem direito a opinar.
Portanto, o problema da medicina privada brasileira não reside
nesta ou naquela linha terapêutica. É uma questão que
resvala no papel do médico numa sociedade como a nossa, servida
por uma imprensa como a nossa - sua consciência profissional, seu
senso de solidariedade, sua responsabilidade e, principalmente, compostura.
Reparação, nem tardia
Norma Couri
Há oito anos o dentista Maximiliano Giona
Gangemi teve um surto esquizofrênico no consultório onde trabalhava.
Internado às pressas na clínica Santa Mônica, em Petrópolis
(RJ), acabou transferido para a Pensão Margaridas do Jardim Botânico,
no Rio de Janeiro, especializada no tratamento de psicóticos em
tempo integral. Dez dias depois da internação, na manhã
de uma segunda-feira, e depois de um tratamento de sonoterapia aplicado
após forte crise, Maximiliano começou a passar mal. Foi levado
ao Hospital Miguel Couto, onde morreu na noite do mesmo dia. Tinha 25 anos.
O laudo cadavérico indicando "intoxicação exógena"
não deixou dúvidas ao pai do dentista, Giuseppe Gangemi.
Maximiliano teria sido morto por excesso de barbitúricos ministrados
pelas atendentes da clínica sob supervisão de uma das sócias,
a psiquiatra e psicanalista Carmem Dametto, 47 anos. Disposto a acabar
com a carreira da médica, Giuseppe levou o caso a julgamento no
Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro. Dois anos depois Carmem
acabou condenada pelo Cremerj a um mês de suspensão.
Prato cheio: a condenação da médica foi noticiada
no Jornal Nacional, da Rede Globo, virou manchete dos jornais do Rio e
tema de conversa em diversos programas populares de rádio sobre
a eficiência da psicologia, psiquiatria e psicanálise na cura
dos doentes - Carmem foi crucificada sem ser ouvida. Cumpriu a pena. A
Pensão Margaridas fechou, os envolvidos sofreram abalos profissionais
em suas carreiras mas nem o pai do dentista nem a médica sossegaram.
Giuseppe considerou a sentença "um prêmio, um mês de
férias". Carmem, inconformada depois de anos de carreira bem-sucedida,
seminários, congressos e livros publicados, dedicou-se com obsessão
à limpeza do seu nome. As duas partes recorreram ao Conselho Federal
de Medicina, que o remeteu novamente ao Cremerj. Giuseppe Gangemi decidiu
levar o caso à Justiça comum, acusando Carmem de assassinato.
Condenada a dois anos de prisão, ela recorreu.
A sentença final saiu no começo deste mês. A juíza
Salette Maria Polita Maccalóz, da 7a Vara de Justiça
Federal, considerou o processo um poço de irregularidades. Suspendeu
os efeitos da execução da pena impostos a Carmem, anulou
o primeiro julgamento e a condenação - embora a médica
já tivesse sido suspensa por um mês. Na sentença publicada
no Diário Oficial do dia 8/5/97, a juíza alega: "Não
lhe foi [a Carmem] permitida a produção de prova pericial,
os depoimentos e teor dos documentos foram flagrantemente distorcidos para
se encaixarem na tese condenatória, os pedidos de diligências
probatórias foram negados e no contexto do acórdão
[a médica] fôra taxada com expressões injuriosas. (....)
O processo administrativo, moral e ideologicamente, não existe,
porque duas figuras importantes se confundem numa só: o Conselho
[Regional de Medicina] é parte e julgador ao mesmo tempo".
Decidida a corrigir as manchetes de seis anos atrás ("Psiquiatra
é suspensa um mês por causar morte de paciente" - Jornal
do Brasil de 7/6/91, e "Médica é Punida com 30 Dias de
Suspensão" - O Globo do mesmo dia), Carmem tenta em vão
reabrir o caso na imprensa para discuti-lo em condições mais
justas e repetir o que disse desde o momento da morte do dentista, mas
ninguém ouviu.
"O LSD homeopático não é nem uma droga nem uma
aberração: vem sendo utilizado há anos no tratamento
dos internos da Colônia Juliano Moreira e no mundo inteiro em pacientes
que apresentem os sintomas de violência de Maximiliano Gangemi",
diz Carmem Dametto. "A medicação ministrada na Pensão
era compatível com a massa física do paciente e vinha sendo
gradativamente reduzida desde a sua transferência da clínica
de Petrópolis, onde recebeu altas doses de medicação
forte. O paciente morreu de mal-súbito, até agora inexplicável
porque só as denúncias dos familiares foram ouvidas".
Nenhum jornal ou revista reabriu o caso. Nenhum jornal de televisão
comentou a decisão recente da Justiça Federal. A violenta
morte de um paciente violento de 25 anos, sob medicação,
não requer aprofundamento.
Página virada. Ninguém se interessa em rever o que a Justiça
Federal reviu. Assunto, agora, só se o morto falasse.
Saúde: estudantes analisam jornais
capixabas
Victor Gentilli, professor de jornalismo da UFES
No Brasil, se a experiência de media watching, apesar de sua
longevidade, ainda é algo incipiente, uma novidade ainda não
de todo absorvida pela comunidade de jornalistas,
que a vê em boa medida
com um pé atrás, que dizer de praticar uma experiência
deste tipo num
estado pequeno como o Espírito Santo e ainda mais apoiado
por trabalhos de estudantes de jornalismo?
Evidente:
nossas dificuldades não são do tipo daquelas que Alberto
Dines enfrenta desde as já históricas edições
do "Jornal dos Jornais" na Folha de S. Paulo de 1975. Mas, em boa medida,
é o entusiasmo e o aproveitamento didático que eu, estudante
naqueles anos, tive pela experiência que me movimenta neste
trabalho que venho desenvolvendo de forma bissexta desde 1988 e sistemática
desde 1993.
Assim, apesar de todas as dificuldades e de alguma incompreensão,
temos procurado praticar a crítica de mídia como atividade
regular, pedagógica,de pesquisa e de extensão, no curso de
Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo.
Já realizamos várias pesquisas sobre jornalismo político,
jornalismo cultural, jornalismo da violência (recusamos o termo policial),
e estamos em fase conclusiva de um estudo sobre o jornalismo de saúde
e educação.
Este
"nariz de cera" é indispensável para explicar o trabalho
que Mauro Malin me pede para o Ecos de Lisboa e para o Dossiê Saúde.
De junho de 1996 a fevereiro de 1997, estudamos todas as notícias
que pudessem ter alguma vinculação com o tema saúde
nos jornais diários do Espírito Santo: A Gazeta e A Tribuna.
Foram catalogados 829 notícias informativas, 25 cartas de leitores,
12 artigos de opinião e 2 editoriais. A maioria do material
tratava, evidentemente, da crise da saúde no estado com seus
desdobramentos em greves e problemas de toda ordem.
Mas a idéia era ter uma visão ampla de como o tema "saúde"
era tratado pelos jornais. Assim, estudamos igualmente os noticiários
oriundos de agências noticiosas (desde o famoso Claudia Liz
até o acidente de Emerson Fittipaldi) como aqueles produzidos localmente.
O caso Claudia Liz é interessante porque estuda-se relativamente
bem o tratamento dos jornalões, mas quase sempre esquece-se
que este mesmo noticiário vai reproduzido em todo o
Brasil pelo material das agências. E se os jornalões
admitem o erro de forma discreta, aqueles que os reproduzem quando o fazem
é quase escondido. O caso do rapaz que foi agredido sexualmente
num motel, vale lembrar, ocorreu no Espírito Santo. Embora de dimensões
nacionais, os jornais capixabas produziram localmente o noticiário.
Há boas notícias no jornalismo regional. O jornal A Gazeta
tem uma repórter, Denise Gonring, especializada no assunto
e que produz, todos os domingos uma "especial", que infelizmente
vem editada abaixo do material de saúde produzido pelas agências.
O jornal A Tribuna, que, registre-se, edita diariamente nas nobres páginas
2 e 3 uma reportagem especial (que muitos dizem estar morrendo),
trata várias vezes com seriedade e competência os casos
de saúde.
Mas há problemas. Curiosamente, a Aids foi praticamente esquecida
e casos como os do dengue (quase endêmico na Grande Vitória)
são tratados ainda com algum sensacionalismo e menos prestação
de serviço do que seria o ideal.
Mas o problema localiza-se, mesmo, na ausência de diálogo
entre os jornalistas e suas fontes de informação. As
entrevistas com médicos, autoridades e jornalistas mostraram
uma dificuldade de comunicação evidente. Com
exceção das fontes oficiais, praticamente todos os outros
não confiam nos jornalistas e temem fornecer entrevistas. Segundo
as fontes entrevistadas, os jornalistas não entendem
do assunto, não sabem perguntar e distorcem as respostas.
Mesmo assim, um evento pioneiro, apoiado também pela Fundação
MacArthur e pela Universidade de São Paulo, onde estou agora iniciando
um doutorado, colocará, nos dias 5 e 6 de junho, médicos,
jornalistas e pesquisadores frente a frente. A UFES será
palco do workshop "Jornalismo, Cidadania e Saúde", onde
os resultados da pesquisa serão apresentados de forma abrangente
e serão debatidos em mesa-redonda, painéis e oficinas.
O professor Bernardo Kucinski, da ECA-USP, também coordena o evento,
que está sendo organizado pelo pesquisador Ademir Pereira
da Cruz Jr. Informações sobre o evento com Ademir (027)
3352739 no Nexo - Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão
em Comunicação da Universidade Federal
do Espírito Santo.
TV Globo e distrofia: erro rápido, conserto
lento e precário
Dionisio Rulli Soares, colunista do Jornal
ABDIM, autor do livro Esquinas da Vida
Reportagem do Jornal Nacional sobre distrofia,
5/2/97
"O Jornal Nacional começa agora... - Crianças portadoras
de uma doença rara, distrofia muscular, conseguem na Justiça
o direito de ir para os EUA fazer um tratamento. O Supremo determinou que
o Governo de Santa Catarina pague (valor em questão, US$ 150.000,00)
o custo desse tratamento..." (....)
"- Que bom, vou poder voltar a andar de bicicleta... (uma das crianças
falando)".
Final da matéria.
"Não acredito!!! Não acredito!!!" Falava sozinho...
Minha cara de surpresa foi dando lugar a uma progressiva revolta ao
imaginar como amigos, pais, crianças afetadas pela distrofia muscular
e que não têm a mesma condição de refletir sobre
um fato desta importância, receberiam uma reportagem tão mal
dirigida, editada, etc. Poderia causar tantos malefícios. Se a Globo
divulga e o governo paga, é porque é sério... Na mesma
noite foi enviado um e-mail para a Central Globo de Jornalismo alertando
que essa história não tinha sido bem contada.
Eis o teor da mensagem eletrônica:
"Distrofia é uma doença genética progressiva e
degenerativa do tecido muscular, por enquanto ainda não reversível.
Não é uma doença tão rara, existem mais de
3.000 casos registrados no Brasil. Esse 'tratamento' propagado por esse
Sr. Peter Law, não cura, não melhora a vida de ninguém.
O Supremo não pode determinar que se pague um charlatão,
quase 10 anos de tentativas todas frustradas, nenhum resultado positivo...
Não se pode induzir pessoas tão desesperadas a buscar algo
ilusório, e ainda assim ter que pagar esses dólares todos...
Vocês não podem soltar uma matéria sem ouvir um especialista
sobre o assunto..."
Texto enviado, resposta nenhuma. Concordo. Também, quem sou eu,
que base tenho sobre o assunto além de ser portador desta doença,
é óbvio que não é suficiente para crédito
algum. Dia seguinte, consultando a Dra. Mayana Zatz, chefe do Departamento
de Biologia Genética da USP, e também presidente da Abdim
(Associação Brasileira de Distrofia Muscular) - entidade
com mais de 15 anos prestando inúmeros serviços de forma
gratuita, semanalmente, para mais de 100 crianças portadoras de
distrofia.
Dra. Mayana tem a mesma posição, sendo até mais
contundente, revoltada e preocupada com a repercussão de uma notícia
dessas... Mais um dia se passa. Enviado à Globo um fax com a opinião
da Dra. Mayana. Nada de retorno, via fone, nada, novos faxes, semanas se
passaram e nada, enquanto isso na imprensa pipocavam famílias requerendo
o mesmo direito das crianças catarinenses. Transtorno na Abdim,
chuva de telefonemas, pressões, gente querendo vender tudo e ir
para lá, em busca de cura, melhora, seja o que for...
"Vamos à imprensa", então o assunto foi enviado via fax
para todas as redações de TV, ninguém deu crédito,
nada... Até que Juca Kfouri abriu um ótimo espaço
no seu programa na CNT, fomos e expusemos mais alguns fatos, CBI (Canal
Brasileiro de Informação), saiu uma ótima matéria
na IstoÉ, na Veja timidamente, no Estadão
também, todos dando espaço para a opinião firme de
Dra. Mayana. "Pura enganação, esse pseudo-tratamento já
foi abandonado por todos os cientistas do mundo todo, só ele insiste...
Ainda por cima cobra esse absurdo." Passadas algumas semanas, a Globo se
pronuncia por telefone: "Já foi feita uma nova matéria, em
breve estará no ar..." Aguardamos ansiosos, dias, semanas, e nada
de ir pro AR...
Os faxes continuavam a ser enviados para as redações das
emissoras de TV, nenhum retorno... Alguns meses depois, estávamos
quase desistindo, quando surge uma esperança, o SBT nos abre espaço
no seu TJBrasil, gravaram a matéria, prometeram que ia pro AR imediatamente...
Promessas em vão, reportagem engavetada!! A revolta crescia, estranho,
não??!! Ao mesmo tempo a crença: O que é preciso fazer
para que a Grande Imprensa brasileira possa nos ouvir... Que fazem os diretores
de pauta, editores, etc., cadê o Jornalismo sério que tem
por princípio ouvir todos os lados da mesma questão??!! Onde
estão os farejadores de notícia!!?? Tenho minhas dúvidas
sobre se o verdadeiro jornalismo e a ética se aprendem nos bancos
de faculdade.
Persiste o compromisso com o sensacionalismo
Finalmente, em 31 de maio de 1997, portanto quase quatro meses após
a referida matéria ir para o AR no JN, depois de tanta luta e transtorno
a Globo coloca na tela a matéria correta (pelo menos existe o contraditório).
Não cheguei a vê-la por inteiro, mas o que vi foi suficiente
para formar minha opinião: politicamente correta, mas ainda assim
comprometida com o sensacionalismo, sentimentalismo fantasioso desse Sr.
Peter Law (o ilusionista).
Tudo bem, ouviram o outro lado, o também americano Dr. Eric Hoffman,
dizendo da ineficácia do tratamento e do absurdo de se cobrarem
US$ 150.000,00 para se ter uma discutida "pequena melhora", está
bem, qualquer melhora é melhora, mas por quanto tempo? E a que custo?
Financeiro e físico (são centenas e centenas de aplicações
de células sadias injetadas no corpo da criança). Mostraram
a opinião de uma mãe que perdeu dois filhos (eu completo:
mais 300 mil dólares, é óbvio que o dinheiro não
é nada, se soubesse que teria melhoras realmente, pagaria 1 milhão).
Então, diz o Sr. Peter Law: "Não é cura, mas estamos
bem perto dela." Pode até ser, torço para que consiga mesmo,
afinal tenho distrofia. A questão é muito mais ética,
é moral. Não se pode brincar com a esperança, o sentimento,
o sofrimento, a agonia, o desespero, a fé e a terrível vontade,
de pais, amigos e crianças que convivem com esse problema tão
duro. Não se pode prometer algo que ainda está por vir...
e disso tirar proveito para alcançar seus lucros, mesmo que se tenha
como pano de frente a justa causa para uma doença tão difícil.
A TV Globo esqueceu ainda de mencionar que o referido Sr. Law foi expulso
da comunidade científica americana. Não são apenas
Dr. Eric Hoffman, Dra. Mayana Zatz, que se opõem a ele. São
quase que a totalidade dos cientistas de diversos países que trabalham
em prol da Distrofia. Ele está praticamente sozinho nessa. Vá
lá, ele acredita, quem sabe ele não esteja no caminho certo
(??). Mas por favor não se aproveitem de pessoas tão desesperadas
e prontas para qualquer coisa, tenham mais calma ao botar no AR, elaborem
melhor, pesquisem, ouçam o outro lado. Não poderiam ter feito
isso antes? Por que todo esse tempo?
Antes tarde do que nunca, mesmo que ao final insistissem em mostrar
a criança reafirmando: que vai poder voltar a jogar futebol - o
que não é verdade, a pequena melhora é tão
insignificante e infelizmente, nem possibilitará que deixe de andar
de cadeira de rodas, nem ao mesmo ficar de pé com suas próprias
pernas. Triste, mas é a dura realidade que as pessoas teimam em
não ver... Apesar do sensacionalismo caro, muito caro, fica o julgamento,
a razão, e o coração de quem sofre o problema. Só
não acho justo pedir dinheiro a esse governo falido, sua saúde
em tamanha miséria, e a justa Justiça do Supremo determinar
que se pague a esse Sr. Peter Law para que fique um pouco mais rico, enquanto
temos uma Abdim que sobrevive a duras penas, atendendo gratuitamente com
fisioterapia, psicologia, assistência social tantas crianças
que, em muitos casos, nem mesmo uma cadeira de rodas têm para se
locomover. Não é justo! Mas se foi para as crianças
catarinenses, todos os portadores de distrofia também possuem o
mesmo direito, não é isso que reza a Constituição?!
Com mensagens contraditórias
só se fazem esquizofrênicos
A.D.
Buscar a diversificação dos assuntos
faz parte do ofício jornalístico, recurso legítimo
até para garantir a atualidade. Mas a variedade de temas ou a necessidade
de oferecer juízos diferentes nada tem a ver com a ambigüidade
ou duplicidade no teor da informação. O público não
quer equivocar-se e os veículos de informação devem
ser inequívocos nas suas posturas.
Veja (ed. 1.497) lavrou pelo menos dois tentos em matéria
de Medicina & Saúde:
* A matéria de capa, "Da cervejinha ao alcoolismo", é
um arrasador libelo contra a omissão dos poderes públicos
e das elites (inclusive mediáticas) diante da poderosa máquina
publicitária que funciona impunemente a serviço da dependência
alcoólica (ver Circo da
Notícia).
* A entrevista nas páginas amarelas "Paraísos Artificiais",
com o escritor, jornalista e médico (especialista em saúde
pública) Moacyr Scliar é uma tremenda denúncia contra
a ilusão de que a medicina tem cura para tudo, inclusive para as
aflições da alma. Esta "medicalização da vida"
(no dizer de Ivan Ilitch), pretende uma pílula para cada estado
de espírito, numa tentativa de driblar os problemas morais e existenciais
que constituem a substância mesma da humanidade (ver trechos da entrevista).
Mas na mesma edição, com a retranca "Saúde" (pp.
90-92), há uma gritante convocação em direção
contrária: a matéria "Outono do macho" é um estímulo
aos tratamentos para reposição hormonal em homens com mais
de 50 anos. Apesar da presença de discretos pareceres médicos
contrários aos tratamentos de testosterona. O próprio subtítulo
já é um convite para esquecer os conselhos de Scliar - "Cresce
o número de homens que buscam na reposição hormonal
o vigor da juventude". Ora, leitor, se todos estão tomando a sua
dose de poção mágica, por que você não
se anima também?
O infográfico, como sempre, é mais simplista e menos sutil:
ao lado dos riscos e benefícios do tratamento, aparecem três
fotos do velho adônis Alain Dellon, com 20, 40 e 60 anos, mostrando
os estragos da idade.
Com mais algumas doses de mensagens contraditórias desse tipo,
nossa mais importante revista ilustrada vai causar uma onda nacional de
esquizofrenia.
Preceito e prática
Mauro Malin
A contradição é desta vida,
leitor, dizia um certo Machado de Assis. Não, não pretendo
dar a Veja o benefício de um vitalismo que a eximiria da
esquizofrenia apontada acima por Alberto Dines. Vou é reforçar
a idéia de que há esquizofrenia. A mesma revista que publica
a reportagem caprichadíssima de Dorrit Harazim contém, na
edição seguinte, datada de 4/6/97, um anúncio de página
dupla da grife Ellus que poderia ser assim descrito:
Na página da esquerda, um jovem todo de preto - paletó,
calça, camisa e gravata - confere o encaixe do joelho de uma moça
entre suas coxas. O rapaz, bem jovem, segura displicentemente, na mão
esquerda, um cigarro aceso.
Na página da direita, outro jovem, bem jovem, todo de preto,
despenteado, expressão bizarra, segura com a mão esquerda...
um copo de bebida.
Naturalmente, Publicidade e Redação são departamentos
diferentes. E, mesmo, ninguém é perfeito.
Por sinal, na edição em que o alerta contra o alcoolismo
é capa, e que não poupa nem a cervejinha ao falar da dependência,
a segunda capa tem um anúncio do cigarro Free, que emenda com o
corpo da revista (foto de um jovem bem jovem, bonito e saudável,
segurando um cigarrinho com a mão direita), e o texto: "Liberdade
[maiúsculas, em vermelho, atravessando as duas páginas].
Nunca me tire este gosto da boca. Se tirar, eu mordo. Baixos teores. Questão
de bom senso". Ah, sim: na terceira capa o anúncio é diferente.
É do cigarro Parliament. (Ver Circo
da Notícia.)
A contradição é mesmo desta vida.
Mas, pensando bem, a abundância de publicidade de bebidas e cigarros
é coisa antiga. O que há de novo são boas reportagens
que põem o dedo nessas feridas.
Falta formação humanística
Trechos de entrevista de Moacyr Scliar
"Veja - Como o senhor vê a tentativa da medicina
de encontrar respostas químicas para quase todos os comportamentos?
Scliar - Há nessa atitude um componente da onipotência
que por vezes contamina a pesquisa e a prática médicas. De
uma perspectiva histórica, o fenômeno é explicável
pelo fato de a medicina científica ser algo recente, que ainda inspira
um entusiasmo desmedido, como qualquer brinquedo novo.
(....)
Veja - Por que a idéia da pílula mágica faz sucesso?
Scliar - Porque parece ser o caminho mais fácil para preencher
esse vazio interior que tomou conta das pessoas neste final de século
- vazio que causa uma ansiedade exasperante. A busca da pílula mágica
corresponde ao afrouxamento das relações interpessoais, que
ficaram muito tênues, difíceis. Em geral, tem-se poucos amigos,
a família é uma chateação e os colegas de trabalho
só querem saber de puxar o seu tapete. É preciso ver, ainda,
que certas doenças e tipos de comportamento ficaram estigmatizados.
Depressão, por exemplo. As pessoas simplesmente não toleram
a depressão em si mesmas e nos outros. Como em nossa sociedade os
indivíduos são constantemente instados a mover-se, a fazer
coisas, a tomar decisões, a agir, quem fica sozinho num canto é
visto com suspeição. É curioso notar que a forma de
consideramos a doença bipolar, em que existe um pólo maníaco
e outro depressivo, obedece a uma determinação social.
O pólo maníaco é muito mais aceito pelas sociedades
competitivas do que o pólo depressivo. O sujeito que diz que pretende
construir um prédio de 500 andares ou que formará uma frota
de espaçonaves para fazer pacotes turísticos até a
Lua é visto como um empreendedor. Mas se alguém ficar quieto,
ensimesmado, não faltará quem diga que algo não está
bem, que ele deve tomar alguma providência. E daí o sucesso
de drogas como o Prozac.
Veja - Essas drogas não representam uma evolução
notável?
Scliar - É claro que existem distúrbios mentais com diagnóstico
bem definido. A depressão, em muitos casos, pode ser uma doença
grave, capaz de levar à invalidez e ao suicídio. Nesses casos,
ela precisa ser tratada com remédios. Noto, porém, que é
grande o número de pessoas que procuram médicos não
porque estejam doentes, mas porque desejam mudar o seu humor, a sua personalidade.
Querem fazer uma maquilagem de seu psiquismo, de seu estado de espírito.
o Bem de consumo prometido por muitos psiquiatras é um comportamento
standard, de uma alegria plastificada que não dá margem a
alterações de humor. Acho interessante que a substância
mágica deste final de século sejam os antidepressivos. Podia
ser um analgésico poderoso, um tranqüilizante muito forte,
mas não. Isso mostra como a depressão é o espectro
da modernidade. Para os gregos, a melancolia era um distúrbio dos
humores, um excesso do que eles chamavam de bile negra, curável
por dietas e purgas. Nada de preocupante. É a modernidade que vê
na melancolia uma ameaça à inserção social
do indivíduo, à capacidade produtiva. Evidentemente, quem
busca em remédios e drogas uma máscara para a alma precisa
lembrar que são paraísos artificiais, para usar uma expressão
do poeta francês Baudelaire. Essas substâncias podem fazer
com que o sujeito se afunde de vez e, o que é pior, com prescrição
médica.
Veja - Falta formação humanística aos médicos?
Scliar - Falta. E essa lacuna prejudica sobremaneira a relação
com o paciente. As pessoas que hoje vão a um médico o fazem
com a mesma expectativa de seus antepassados: encontrar alguém que
as ouça. Muitas vezes basta isso. No entanto, o diálogo deu
lugar a uma batelada de exames. O resultado é que o médico
conversa cada vez menos com o paciente, toca menos na pessoa que o consulta.
Houve ganho porque não há toque que substitua uma tomografia
computadorizada no caso de um tumor no cérebro. Mas, ao deixar de
ouvir e examinar com as próprias mãos o paciente, o profissional
da saúde também perdeu sua humanidade. A cultura do médico
do passado, que tinha noções de antropologia, era um leitor
ávido e muitas vezes escritor, foi substituída pela formação
estritamente tecnológica. Nesse caso, houve perda, porque não
existe tomografia computadorizada que detecte a infelicidade de um paciente
como origem daquele aperto no coração que se traduz em incômodos
físicos. Nos Estados Unidos, algumas universidades esboçam
uma reação, com um currículo composto de matérias
como história da medicina, sociologia e ética. Tentam, assim,
alargar o horizonte do estudante e, por tabela, melhorar a comunicação
com seu futuro paciente.
Veja - Apesar da busca de um comportamento padrão, nunca se fez
tanto a apologia das diferenças individuais. Como o senhor interpreta
essa contradição?
Scliar - Essas diferenças são apenas um detalhe, funcionam
como um acessório de moda. O que se propõe é uma pitada
de individualidade combinada com uma grande dose de homogeneidade. No fundo,
o que está por trás das mensagens publicitárias, da
ênfase na criatividade no trabalho, é uma espécie de
slogan esquizofrênico: 'Seja diferente: seja igual'. As ditaduras
exercem o totalitarismo mediante a prisão, a tortura, a censura,
as máquinas de extermínio. Já o que vou chamar de
totalitarismo democrático se dá por meio do consumo, que
homogeneíza padrões estéticos, de comportamento, de
gosto. Arrisco dizer que essa necessidade de padronizar tudo guarda íntima
relação com o prolongamento da adolescência, um fenômeno
visível a olho nu.
Na adolescência, todos querem pertencer à mesma tribo,
falar a mesma língua, experimentar os mesmos sentimentos. Como tais
necessidades satisfazem mais às exigências do mercado, essa
fase da vida vem sendo esticada no plano cultural e social. Esse modelo
do adolescente cheio de energia, com vontade de unir-se indissoluvelmente
a um grupo, rápido no gatilho, encanta a sociedade contemporânea.
No passado, a figura que servia de modelo era a do velho experiente. Isso
terminou porque a sabedoria foi substituída pela informação
mastigada. Hoje, ninguém está interessado em ruminar o sentido
da vida. Uma figura representativa deste nosso tempo é Bill Gates.
Ele é o eterno adolescente, o prestidigitador capaz de fornecer
respostas e sensações instantâneas."
("Paraísos artificiais", entrevista a Mario Sabino,
Veja,
28/5/97.)
Sempre te vi, nunca te amei
Victor Gentilli, jornalista, professor da UFES
- Conhece a diferença entre um médico e um jornalista?
- Não.
- É que o médico se acha Deus.
- E o jornalista?
- Tem certeza de que é!
No Espírito Santo, dias 5 e 6 de junho,
a Universidade intrometeu-se onde não foi chamada. Reuniu médicos
e outros profissionais de saúde, jornalistas, assessores, militantes
de ONGs para debater o jornalismo de saúde praticado localmente.
Mexeu num vespeiro - ou melhor, qual é mesmo o coletivo de Deus?
Anedotas à parte, o workshop Jornalismo, Cidadania
e Saúde foi incrivelmente rico, mas gerou desconforto, mal-estar,
incômodo e tensão. Afinal, um elemento estranho introduziu-se
numa relação entre duas áreas profissionais que se
relacionam bastante mas não se bicam. A experiência, que julgo
pioneira, induziu artificialmente um diálogo que em circunstâncias
normais jamais ocorreria.
Jornais e hospitais se assemelham na organização de sua
rotina. Ambos só processam fenômenos idiossincráticos,
como lembra Gaye Tuchman. Em outras palavras, o "normal", o previsível,
sem novidade, fica de fora. O que foge da normalidade, no jornal é
notícia, no hospital é paciente. Se é o mais grave
de todos, no jornal vai para a manchete, no hospital para a mais equipada
UTI. De qualquer forma, há outros espaços na primeira página
ou outras UTIs, para aqueles igualmente graves, mas não o maior
de todos. Se é simples, fica na geral, seja a editoria, seja a clínica.
Se tem alguma especificidade, vai para a especialidade e suas sub-especialidades.
Economia ou Esportes são grandes especialidades. Finanças
e Futebol, sub-especialidades. Pediatria é uma entre tantas especialidades,
igualmente com suas subs.
Os profissionais de ambas as organizações - jornais e
hospitais - trabalham com um sentido de urgência que outros profissionais
desconhecem. As operações e matérias realmente urgentes
não podem ficar para o dia seguinte (embora matéria tenha
deadline,
operação não). Tal circunstância impõe
rotinas, hierarquias, plantões, tudo muito parecido, mesmo que completamente
diferente. Tenta-se prever tudo com antecedência, para que o processo
não seja paralisado.
Embora trabalhe-se com alta previsibilidade, a organização
está sempre preparada para o imprevisível, eis a matriz da
urgência, seja ela médica ou jornalística. Além
disso, o erro muitas vezes é incorrigível. Aliás,
todo este conjunto de circunstâncias impõe uma concepção
de erro às vezes diferente daquela do cidadão comum.
O erro é sempre grave. Porque ambos os profissionais, o médico
e o jornalista, trabalham em relação direta com outros seres
humanos. Perguntam, entrevistam, atendem, enfim: dialogam com o outro e
o resultado do trabalho tem um dos seus pilares nesta relação.
O fato é que, para o homem comum, ser o "outro" na relação
com médico ou jornalista é sempre preocupante. O profissional,
domina um saber, uma técnica ou um poder que quase sempre incomoda
na relação. Tudo isso pode gerar - ou produzir a aparência
de - arrogância, prepotência etc.
Grosso modo, o médico não pode ser imperito, imprudente
ou negligente; o jornalista não pode cometer calúnia, injúria
ou difamação. A falta de rigor, a imprecisão são
erros graves, para ambos.
Apesar de todas estas semelhanças, há uma diferença
fundamental no trabalho de médicos e jornalistas. Os jornalistas
operam essencialmente as ocorrências da chamada esfera pública.
Ou melhor (pior?), seu trabalho faz as ocorrências selecionadas como
noticiáveis tornarem-se públicas. Por outro lado, os médicos
operam essencialmente na esfera privada. E quando tornam públicas
suas ocorrências, cometem delitos éticos.
A pessoa comum - que podemos chamar também de "homem privado",
de leitor, de cidadão, em geral, quer distância dos dois.
Embora consuma o produto final do trabalho do jornalista, inclusive quando
ele trata de assuntos de saúde. Porque ele sabe que, se na vida
tudo andar direito, ele tem risco quase zero de ser o "outro" do jornalista.
Uma vez ou outra, pode vir a ser o "outro" do médico. Neste caso,
a palavra escolhida já diz tudo: paciente.
O chamado "homem público" quer distância apenas do médico.
Gosta muito de um jornalista por perto. No entanto, quando freqüenta
o consultório, quer o jornalista o mais longe possível. O
"homem público" gosta do jornalista por perto apenas no seu momento
público de vida. Norberto Bobbio, este vecchio fantástico,
já mostrou em um de seus livros que a distinção público
x privado é mais complexa do que se pensa porque a expressão
público pode ter dois sentidos, radicalmente distintos: oposto de
privado e oposto de secreto. Vale a pena os jornalistas pensarem um pouco
nisso. Os médicos e os leitores, também.
Os problemas de saúde, hoje, exigem muita informação
pública, muita comunicação: Aids, dengue, meningite
e outras pandemias, epidemias ou endemias (o jornalista sabe a diferença
entre uma e outra?) têm na informação um dos seus elementos
decisivos. Esta publicização, no entanto, não pode
invadir o terreno privado. Este o elemento decisivo para a ética,
a chave que desvenda o fator unificador tanto da ética médica
quanto da ética jornalística.
o O o
O workshop dos dias 5 e 6 de junho, que me propiciou pessoalmente
estas reflexões, foi fruto de uma parceria entre o professor Bernardo
Kucinski, da ECA-USP, bolsista da Fundação MacArthur, e o
autor deste texto, coordenador de uma pesquisa sobre o noticiário
de saúde e educação nos jornais impressos diários
do Espírito Santo, A Gazeta e A Tribuna, patrocinada
pela Prefeitura Municipal de Vitória. Igualmente pesquisador do
tema, o bolsista de Iniciação Científica Ademir Pereira
da Cruz Jr. coordenou o evento.
O workshop contou com três módulos. No primeiro,
na tarde de 5 de junho, o jornalista Bernardo Kucinski apresentou seu projeto
de criação de cursos de graduação, pós-graduação
e extensão em jornalismo de saúde. O relato de uma pesquisa
que envolveu os estudantes Andréia Silva Lopes, Luciana Cristina
Pereira, Ademir Pereira da Cruz Jr. e Leonêncio Nossa Jr. foi o mote
para a discussão. O professor Victor Gentilli e o pesquisador Ademir
Pereira apresentaram os resultados parciais da pesquisa que envolveu todo
o noticiário de saúde nos dois jornais diários do
ES de julho de 1996 a fevereiro de 1997.
A pesquisa estudou todas as notícias (num total de quase 850)
que tinham relação com o tema saúde em todas as editorias.
Um dos estudos feitos foi relativo à presença de fontes.
De um modo geral, as fontes oficiais e a população em geral
são as fontes mais presentes, representando, grosso modo, 50% da
vocalização expressa no noticiário. O movimento sindical
e os especialistas na área representam juntos algo em trono de 25%
das fontes citadas. Os movimentos sociais e as Organizações
Não-Governamentais estão praticamente excluídos do
noticiário. O grupo Pela Vidda, ONG de apoio a doentes
de Aids, é a única ONG presente no noticiário. Todas
as fontes com presença marcante no noticiário foram entrevistadas
demoradamente pelos pesquisadores e evidenciaram as suas dificuldades de
relacionamento. De um modo geral, a pressa, a urgência dos jornalistas
foram muito criticados. Alguns chegaram a observar uma quase chantagem
expressa na expressão "vou publicar a matéria amanhã
e se o senhor não falar vou publicar que o senhor não quis
falar à imprensa".
Jornalismo declaratório e pautas perdidas
De forma resumida, a pesquisa apontou as seguintes conclusões:
1. A ênfase no jornalismo declaratório é ostensiva.
Ela se agrava no fato de que grande maioria das fontes são oficiais.
2. A única ONG presente, o Grupo Pela Vidda, movimenta-se
para ter presença na imprensa. ONGs importantes na área de
saúde, como Alcoólicos Anônimos, Centro de Valorização
da Vida, grupos de apoio a hansenianos, a tuberculosos, a fissurados, entre
outros, estão ausentes do noticiário.
3. Embora o estado produza material de qualidade em pesquisa de doenças
tropicais e fisiologia cardiovascular - duas pós-graduações
muito bem avaliadas pela Capes - suas pesquisas e seus pesquisadores estão
totalmente ausentes da imprensa. Perdem-se pautas excelentes sobre hanseníase,
tuberculose, malária, leishmaniose, esquistossomose e outras, praticamente
ausentes da pesquisa no período pesquisado.
4. Há uma dificuldade de diálogo muito grande entre jornalista
e fonte. Particularmente com os especialistas. A desconfiança é
mútua.
5. Apesar do espaço para o noticiário de saúde
ser relativamente grande, ele não conta com editoria própria
nem repórteres especializados. Violência, esportes e cultura,
por exemplo, têm editorias e jornalistas especializados. Saúde
divide espaços com educação, meio ambiente, transporte,
trânsito, clima, serviços, feriadões, etc. numa editoria
chamada geral ou cidades.
6. Registre-se o espaço para a saúde nas reportagens especiais
de A Tribuna (que, aliás, desmentem aqueles que dizem que
a grande reportagem morreu) e a seção Medicina publicada
aos domingos por A Gazeta. Em A Tribuna, a maioria das matérias
é assinada por Giovana Rangel. Em A Gazeta, a seção
é de responsabilidade da free-lancer fixa Denise Gonring.
Tal seção na maioria das vezes é editada sem destaque,
abaixo de uma coluna adquirida da agência JB.
Os jornalistas, com exceção das acima citadas e de uns
outros poucos, não estão preparados para a cobertura. Seja
pelas condições de trabalho, seja pela própria cultura
profissional. Da mesma forma, os profissionais de saúde não
estão sensibilizados para a importância da informação
pública produzida pelo jornalismo para a melhora das condições
de saúde da população.
Pressa X insensibilidade
No segundo dia, pudemos ver a avaliação dos participantes
diretos do noticiário.
Dia 6, uma mesa-redonda reuniu as duas editoras de geral/cidades dos
dois jornais, Tanit Mário, de A Gazeta, e Alelvi Carneiro,
de A Tribuna, a presidente do CRM (Conselho Regional de Medicina)
capixaba, Sandra Martins, os secretários municipal e estadual de
saúde, Anselmo Tose e Luís Carlos Ciciliotte (este último
subsecretário) e o coordenador da pós-graduação
em doenças infecciosas da UFES, Reinaldo Dietze.
Os problemas de comunicação apontados individualmente
nas entrevistas com os pesquisadores foram expostos num momento em que
os profissionais estavam frente a frente. Os médicos enfatizaram
os erros dos jornalistas, a pressa, o poder autoritário do jornalista.
Os jornalistas esforçaram-se por produzir explicações
para os problemas apontados. E observaram a falta de sensibilidade dos
médicos com as circunstâncias de sua atividade profissional.
Por fim, uma sessão de relatos de 'casos' extremamente rica:
assessores, jornalistas e médicos relataram suas experiências.
A iniciativa do Nexo - Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão
da Universidade Federal do Espírito Santo não se encerra
aí. O trabalho certamente terá desdobramentos em outras iniciativas.
Uma delas é um workshop sobre jornalismo e educação,
previsto para breve, com a segunda parte da pesquisa.
Imprensa não assimilou conceito
de Saúde universal
Ricardo de Menezes Macedo - presidente do Sindicato
dos Médicos de Minas Gerais
É impressionante a visão oficialista
da imprensa em relação ao tema Saúde. Entendo que
esse vício não ocorre apenas pela escassez de crítica.
Acontece que, historicamente, no Brasil, o acesso à Saúde
sempre trilhou os caminhos da produção do capital.
Na chegada do primeiro médico às terras brasileiras, em
1543, seu trabalho era voltado para a saúde dos que detinham poder
e para os que necessitavam possuir uma vida saudável a fim de que
pudessem produzir riquezas. Na industrialização do país,
quando se deu o controle de grandes epidemias, o foco da assistência
à saúde ocorreu nas indústrias e nos portos, objetivando
melhorar a qualidade de vida daqueles que produziam capital. Assim aconteceu
com os institutos previdenciários - somente os trabalhadores formais
possuíam a carteirinha do Inamps e podiam usufruir do sistema público
de saúde - e, mais recentemente, é o que pretendem os atuais
planos de saúde privados, em que só quem puder pagar terá
acesso à saúde.
Aqueles que não tinham real importância na produção
de riquezas eram os chamados indigentes, atendidos por instituições
filantrópicas e notadamente hospitais públicos, sem qualquer
proteção legal.
Foi com a Constituição de 1988 que a Saúde passou
a ter uma concepção de universalidade. Pela primeira vez,
no país, o acesso à Saúde Pública não
dependeria do papel desempenhado pelo cidadão na força de
trabalho, mas do fato de ser simplesmente gente.
Mas, por não ter ainda assimilado essa inovadora e democrática
concepção de Saúde - formalizada sob a sigla SUS (Sistema
Único de Saúde) -, a imprensa nacional continua abordando
o assunto sob a antiga concepção de Saúde enquanto
garantia para quem produz, negligenciando o principio de que Saúde
é um direito constitucional.
A assimilação de um conceito novo é sempre lenta.
Isso é compreensível. No entanto, há que se ter em
mente que o que está em jogo, no momento, é a manutenção
ou não desse sistema, já que a reforma da Saúde pretendida
pelo governo federal, notadamente na Reforma Administrativa e no projeto
de regulamentação dos planos de saúde, tem na sua
essência a privatização do sistema, abrindo a oferta
de leitos hospitalares para ser regulada pelo mercado.
O governo, alegando que a universalidade é incompatível
com a possibilidade de financiamento do sistema, propõe, através
de dois mecanismos, as Organizações Sociais e a Regulamentação
dos Planos de Saúde, uma "parceria" com o sistema privado. Com isso,
tenta-se garantir o atendimento público de Saúde apenas à
população pobre, oferecendo-lhe uma cesta básica da
Saúde e deixando os cuidados especiais para o esfomeado mercado,
o qual poderá escolher quem ocupará determinado leito hospitalar,
por exemplo. Assim é que o governo federal coloca a população
mais pobre e obviamente com menos poder político numa condição
de suposta importância, enquanto, na verdade a está condenando
à morte, por não ter o menor poder ou importância num
mercado que lhe é hostil.
O que se pretende é a absurda e desumana volta da indigência.
A supremacia do mercado sobre a própria vida. Ora, saúde
não é mercadoria! O Sistema Único de Saúde
(SUS) tem uma das legislações mais avançadas sobre
direito constitucional, controle social e eficiência por combate
às fraudes que existe em todo o mundo. No entanto, falta-lhe um
financiamento adequado para que efetivamente funcione, como pretende a
"Emenda Constitucional 169" a ser votada no próximo mês de
setembro, no Congresso Nacional.
A imprensa ainda está subordinada ao pensamento administrativo
vigente e acompanha com poucas críticas o avanço da privatização
da Saúde. Algumas Santas Casas já perderam a Misericórdia
que adotavam nos seus nomes. Isso é muito sintomático, já
que o fim da misericórdia se deu com o ingresso das instituições
filantrópicas na política de mercado. A imprensa não
pode perder a crítica, atualmente reduzida a questões morais,
para permitir a volta da indigência. Ainda não assimilaram
a Saúde como um direito fundamental.
A Europa já despertou suas atenções para a necessidade
de políticas sociais. Nos campos político e intelectual,
vários setores da sociedade se mobilizaram para o resgate do pensamento
humano, pela valorização dos direitos do trabalho e à
vida. Chegar ao primeiro mundo parece que tem outros caminhos que
não apenas a subserviência a uma economia brutalizada.
Pequenos curativos
M.M.
Veja publicou na edição de
14/5 uma reportagem ("A peso de ouro") em que consultas médicas
são apresentadas como artigos de consumo de luxo.
Anotem-se, como se fossem pequenos curativos, as seguintes imprecisões:
1. O médico cuja consulta tem preço mais elevado (Geraldo
Medeiros, R$ 1.200,00, endocrinologista), é apresentado como "professor
titular da Universidade de São Paulo", mas não o é.
Há alguns meses perdeu um concurso para titular na USP.
2. O médico Walter Guerra Peixe (consulta a R$ 280,00) foi afastado
da Sociedade Brasileira de Dermatologia.
3. A médica Mariana Jacob (geriatra, consulta a R$ 600,00) escreveu
na semana seguinte a Veja - a carta foi publicada - desmentindo
que Roberto Marinho tenha sido um de seus clientes, como está no
crédito junto a sua fotografia e no texto.
4. A reportagem não menciona que, em sua maior parte, os exames
solicitados nos consultórios-ribaltas, que tornam as consultas mais
caras, são considerados ilusórios pelos chamados "médicos
tradicionais".
Mas, como diz um dos médicos incensados por Veja, "cinqüenta
por cento da minha clientela é de artistas e políticos. Eles
dão entrevista, falam meu nome na televisão e atraem novos
pacientes".
Com certeza. Entre os luminares científicos e intelectuais citados
na revista para atestar a competência dos médicos de luxo
estão, além deles mesmos, Hebe Camargo, Luma de Oliveira,
Marcelo Serrado, Marcelo Novaes, Diogo Vilela, Luiz Fernando Guimarães,
Letícia Spiller, Luiza Brunet, Ricardo Amaral e Cláudia Raia.
Quantum
satis para Veja publicar a reportagem.
"O erro começa na pauta"
entrevista da Dra. Sandra Martins a Andréia
Silva Lopes e Ademir Pereira da Cruz Jr.
Durante um ano, quatro estudantes de jornalismo pesquisaram atentamente
o noticiário de saúde e educação nos jornais
diários do Espírito Santo. A pesquisa, apoiada pelo Facitec
- Fundo de Apoio à Ciência e Tecnologia da Prefeitura Municipal
de Vitória, buscou avaliar o noticiário sob uma série
de parâmetros. Uma das novidades da pesquisa em relação
às pesquisas de jornalismo de um modo geral foram as entrevistas
com as fontes de informação.
O OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA publica os principais pontos
de entrevista com Sandra Martins, médica pediatra, hoje presidente
do CRM-ES (Conselho Regional de Medicina) e professora de pediatria do
curso de Medicina da Universidade Federal do Espírito Santo. Os
jornalistas capixabas, grosso modo, não gostam de entrevistar Sandra.
Alegam que ela pede para ler a matéria antes, que não confia
nos profissionais de imprensa. Na entrevista, realizada em fevereiro de
1997, ela fala ainda como "especialista" no assunto, não como presidente
do CRM, pois ainda não tinha tomado posse no cargo.
Victor Gentilli
"Acho que o erro começa pela definição da pauta",
entrevista de Sandra Martins
Pesquisador - Os jornalistas vêm bem preparados para as entrevistas?
Sandra Martins - O que acontece é que o jornalista quer fazer
consulta de tudo, sobre o assunto que foi pautado, com o médico.
Tenho, muitas vezes, a impressão de que ele não leu nada
sobre o que está perguntando. Outra situação que ocorre
é ele abandonar a entrevista e começar a fazer perguntas
de seu interesse, parecendo que ele está se consultando. -Olha,
eu conheço uma pessoa que têm esse problema, a senhora sabe
o que ela poderia fazer...
Percebo também falta de embasamento do jornalista para fazer
a entrevista e interpretar as declarações. Isso acaba se
refletindo nas matérias. Por exemplo, o médico pode citar
uma descoberta científica para ilustrar uma explicação,
ou falar de um caso raro, mas é algo que todos os médicos
já estão fazendo, em qualquer sala de atendimento. Já
vi casos que os jornalistas colocam isso na matéria como sendo uma
grande descoberta, atribuindo, inclusive, ao médico entrevistado.
Isso é muito complicado, pois parece que o médico está
usando a imprensa para dizer uma coisa que todo mundo já sabe, já
disse, como se fosse uma coisa sua, uma descoberta, uma coisa única.
Pesquisador - Isso é muito comum na cobertura de Saúde
pelos jornais capixabas?
Sandra Martins - Muito. Acho que o erro começa pela pauta,
na definição dela. Parece que o jornalista nos procura mas
não sabe muito o que quer descobrir. Ele sai com uma pauta tão
abrangente que é difícil apurar alguma coisa. Aí fica
aquela situação, ele não sabe o que perguntar e o
entrevistado não sabe o que responder, fica aquele diálogo
perdido.
Pesquisador - Então, falta uma pauta mais direcionada?
Sandra Martins - Sim, mas acho que isso também é um
problema, pois para direcionar uma coisa você tem que conhecer o
geral, porque senão você perde a crítica de novo. Mas,
enfim, não vou ensinar jornalismo.
Pesquisador - O ensino de jornalismo teria alguma relação
com essa situação?
Sandra Martins - O ensino superior de modo geral tem problemas.
Falta uma maior bagagem cultural. Cultura geral, mesmo, para as pessoas
que estão na Universidade, tanto alunos como professores. E isso
se reflete no que vai ser ensinado e aprendido.
Pesquisador - Mas o que se deveria ter num curso de Jornalismo?
Sandra Martins - Muita leitura geral, desde filosofia até
leitura sobre as várias Ciências. Se nas outras formações
é importante ter essa bagagem de cultura geral, para o jornalista
é fundamental.
Pesquisador - Como seria uma matéria de Saúde que a
senhora gostaria de ler nos jornais?
Sandra Martins - Elas deveriam ser precisas e privilegiar o conteúdo.
Assim, o próprio médico poderia aprender com a cobertura
de Saúde.
Pesquisador - Como é caracterizada essa precisão nas
matérias?
Sandra Martins - Elas deveriam ser informativas, ilustrativas. Isso
acontece na Times. Inclusive, nos EUA parece que quem escreve sobre
Saúde são pessoas que têm formação na
área, pois lá não precisa ser graduado em jornalismo
para trabalhar nos jornais, basta ter feito uma especialização,
um curso de pós-graduação.
Pesquisador - Há algum jornais que apresente notícias
próximas desse modelo?
Sandra Martins - Não sei. Vejo algumas coisas interessantes
e outras desprezíveis. Mas o caráter do jornal também
é diferente. Ele é mais noticioso, cobre mais o fato, a revista
parece que aprofunda mais a discussão e fornece mais conhecimento.
Só que o jornal também deveria fazer isso.
Pesquisador - E como é sua avaliação dos jornais
capixabas, A Gazeta e A Tribuna?
Sandra Martins - Quando a notícia é sobre o que está
acontecendo vai tudo bem. Mas, quando se apresenta uma questão que
necessita ser comentada, discutida, fica complicado. Por uma questão
simples: falta de conhecimento.
Pesquisador - Como poderia ser melhorada a cobertura de saúde
pelos jornais?
Sandra Martins - O jornalista deveria se instruir mais, consultar
os arquivos, tentar entender o básico do assunto que ele pretende
escrever. Feito isso, seu trabalho será facilitado, pois ele gastará
menos tempo para elaborar a notícia, já que ele teria uma
melhor definição do que pretende escrever.
Pesquisador - Como é sua avaliação sobre o espaço
que o tema saúde ocupa nos jornais?
Sandra Martins - Podia ser melhor, mas o grande problema do jornalismo
praticado na área não é quantidade, também
é quantidade, só que o pior é a qualidade.
Vítor Buaiz: "A imprensa não
mostra as razões da crise na saúde"
Entrevista concedida a Andréia Lopes, Leonencio
Nossa Júnior e Luciana Cristina Pereira
O governador do Espírito Santo, Vítor Buaiz, reclama
do jornalismo feito de fragmentos e que, por isso, não reproduz
fielmente suas declarações, acha que a imprensa local não
faz autocrítica e precisa de um ombudsman. Para ele, a imprensa
não mostra as razões pelas quais os serviços públicos
de saúde têm problemas.
Às vésperas da Semana Santa, três estudantes de
jornalismo da UFES, pesquisadores do projeto "Avaliação Crítica
do Jornalismo Impresso Capixaba: O Noticiário de Saúde e
Educação" foram atendidos pelo governador do Espírito
Santo, Vítor Buaiz, para a entrevista abaixo.
O governador Vítor Buaiz é médico e professor universitário.
Sua história política é longa; sua vida pública
iniciou-se como presidente do Sindicato dos Médicos. Foi deputado
federal Constituinte e prefeito de Vitória, pelo PT. Durante toda
esta longa convivência, Vítor ganhou traquejo na relação
com jornalistas, dos jornais locais e dos jornalões, mas, conforme
se vê na entrevista, não perdeu a visão crítica,
o que ocorre com muitos que convivem diariamente com jornais e jornalistas.
Victor Gentilli
Como o senhor conceberia o jornalismo ideal?
É aquele jornalismo que informa a verdade para toda sociedade
e ajuda a sociedade na fiscalização dos serviços públicos
e na atuação da classe política. O jornalismo ideal
é aquele que leva a verdadeira informação, não
manipulada e que possa dar credibilidade àqueles que lêem
jornais.
Os jornais locais, A Gazeta e A Tribuna, se aproximam
desse modelo ou se afastam?
Em determinados momentos nós vemos que a imprensa local tem
alguns desvios para a tendenciosidade. Mas isso também é
muito comum na imprensa nacional.
O senhor conhece modelos de jornais nacionais que se aproximam
mais desse modelo que o senhor define como ideal?
É difícil dizer que esse modelo é ideal quando
você não tem nos jornais a figura do ombudsman. A Folha
de S. Paulo é bem autocrítica. Quanto à atuação,
a maior ou menor, do ombudsman, isso significa o melhor ou pior
jornalismo que se faz no país.
O senhor acha que os jornais capixabas abrem espaço para
uma autocrítica?
Nós não vemos esse espaço nos jornais.
Como o senhor avalia o jornalismo específico sobre saúde
e educação no Estado?
As informações muitas vezes são distorcidas. Ele
não exibe a realidade das causas que levam os serviços de
saúde e educação a não funcionarem com eficiência.
Veja por exemplo, quando se fala em atendimento à saúde,
a imprensa logo procura centrar fogo em cima do hospital São Lucas
[hospital que funciona como centro de referência para Pronto Socorro
na Grande Vitória].
Criticar o Estado é mais fácil que criticar a iniciativa
privada no noticiário de saúde?
Sem dúvida. A iniciativa privada atende quando bem entende.
O serviço público não, ele tem que atender a todos,
sem distinção. Essa questão tem sido colocada na imprensa
muitas vezes de forma distorcida e isso acaba prejudicando a análise
crítica que a sociedade faz do serviço de saúde. Além
do mais, sempre colocam o governo no centro das discussões, deixando
a União e os municípios de lado. Se não tem o recurso
financeiro do governo federal o serviço não funciona bem.
Se o município não dá atendimento nas ações
básicas de saúde, sobrecarregam-se os hospitais. Por isso,
estamos trabalhando numa campanha para incentivar as ações
básicas da medicina preventiva. Para evitar que as pessoas tenham
que recorrer ao serviço muito mais caro, que é o serviço
hospitalar.
O senhor acha que os repórteres reproduzem com fidelidade
as suas declarações?
Nem sempre. Eu estou dando uma entrevista para você e vamos supor
que ela tenha uma página. De repente o repórter pinça
uma frase que eu falei e coloca como a coisa mais importante da matéria.
Aí a entrevista fica prejudicada.
Isso acontece com muita freqüência?
Vamos dizer que isso acontece em 40% dos casos.
Então a imprensa não pratica análise investigativa?
Ela é limitada. Não cumpre totalmente, cumpre parcialmente
o seu papel.
A visão que o senhor tinha do Estado nos jornais há
dez anos, antes de o senhor ser prefeito de Vitória e governador,
é a mesma que o senhor tem hoje?
Uma coisa é a imprensa num regime autoritário, com censura.
Outra coisa é a imprensa livre. A imprensa no regime autoritário
teve um papel fundamental. Era uma trincheira de lutas para a democracia.
O senhor acha que médicos e professores encontram a imprensa
como uma mediador para negociar com o governo?
Todo setor da sociedade tem a imprensa como mediador. Isso não
significa dizer que o governo não está aberto para o diálogo
com essas categorias. O contato é feito permanentemente através
dos secretários. Só que muitas vezes os sindicalistas transmitem
à imprensa fatos que não são verdadeiros. É
uma tentativa de ganhar a opinião pública. Essa tentativa
de manipular a informação por parte dos sindicatos faz muitas
vezes com que a opinião pública fique confusa. Não
sabe de que lado está a razão: se é o governo ou o
sindicato que está falando a verdade.
A imprensa trabalha muito com o conceito da emoção
coletiva...
É claro que sim. Muitas vezes a imprensa explora isso demais.
Eu acho que a televisão, principalmente, apela para a emocionalidade.
Quando entra dentro do pronto-socorro, focaliza o paciente deitado, sangrando,
desmaiado. Isso é totalmente contra a ética jornalística
e a ética médica. Eu como médico não tenho
o direito de expor um paciente sem que a família tenha autorizado.
No ano passado, a televisão mostrou um paciente no São Lucas
tendo uma crise convulsiva. É lamentável. É profundamente
lamentável tanto da parte do médico como da parte do jornalista
que faz uma matéria dessas.
Quais seriam então as maiores dificuldades que o governo
encontra para informar a população através da imprensa?
Comunicação é uma coisa cara. Trinta segundos
na televisão custa muito dinheiro. No jornal impresso é a
mesma situação, o governo não pode ficar produzindo
matéria paga. Até mesmo porque matéria paga é
uma coisa que as pessoas olham meio de lado.
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