Grupo Interinstitucional de Comunicação
e Educação em Saúde de Santa Catarina 



DOSSIÊ SAÚDE

Imprensa doente não sabe tratar da saúde


Uma pergunta inocente sobre a utilidade das vitaminas fez o médico, normalmente afável, exaltar-se. "Na maior parte, não servem para nada. Não há evidência científica que sustente a vantagem terapêutica. Em tudo isso tem mais efeito placebo do que se pode imaginar."

- Nem vitamina C?

- Não, nem vitamina C. Não se provou nada até hoje.

- Linus Pauling...?

- Por favor, não me deixe nervoso.

Mas ficou. O consultório em suspenso: a veemência tinha virado comício na sala de espera. "Quer saber de uma coisa? Neste país a televisão vende, com perdão da palavra, porcaria como remédio. Todos esses produtos para emagrecer, uma loucura! Luci, onde está o vídeo? Teve um programa de televisão em que eu disse didaticamente o que penso." 

Situação inusitada: um casal relativamente jovem e dois homens de meia idade assistiram num aparelho suspenso a um canto da sala à argumentação do cardiologista Maurício Wajngarten, do Incor (Instituto do Coração da USP) e do Hospital Israelita Albert Einstein, numa edição antiga do programa de televisão 25a Hora. 

Dias depois, sempre preocupado com a maneira como a imprensa cobre sua área de atividade, o médico resumiu o assunto em dois pontos: 

- Primeiro, não deveria haver tanta avidez por gancho. Muitas vezes se deixa de publicar uma informação importante porque ela "não tem gancho". Segundo, a formação do jornalista é deficiente. 

A entrevista do Dr. Maurício Wajngarten, em que jornalistas e médicos estão unidos como alvo de reprimendas indignadas, é um dos tópicos que inauguram o Dossiê Saúde do OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

A doença da mídia

Saúde é hoje a segunda maior preocupação dos brasileiros. Só perde para o emprego. Em certo sentido, talvez seja um bom sinal. Sinal de que o povo já consegue dar maior valor à sua própria vida, sistematicamente desprezada num país em que a abolição da escravatura foi tardia e enganosa. Também é sinal de que o precário atendimento médico preocupa. Muito.

Os meios de comunicação correm atrás da sensibilidade da chamada opinião pública, mas, na média, com uma irresponsabilidade de arrepiar. Comparável à dos maus médicos criticados pelo Dr. Nelson Senise, "maus profissionais que emporcalham a classe e provocam dor e morte ao invés de evitá-la", como se diz na abertura de uma entrevista que esse médico do Rio de Janeiro deu ao Jornal do Brasil (23/2/97). 

Ao lado de informações úteis, indispensáveis e mesmo providenciais fornecidas pela mídia, a desinformação jorra diariamente de uma grande cadeia de interesses articulados que vai de jornalistas despreparados ou desprovidos de valores éticos à indústria farmacêutica, passando por médicos que podem ser medianamente, pouco ou nada escrupulosos, mas se unem sempre, com raríssimas e corajosas exceções, na defesa de um corporativismo muito mais sólido do que o das Polícias Militares, por exemplo. 

O despreparo da imprensa tem uma história perceptível. Quem acompanhou o surgimento das primeiras editorias de ciência e saúde nos grandes jornais testemunhou que, com algumas exceções, dependentes mais da qualidade dos profissionais do que de qualquer tipo de planejamento sério, foi tudo improvisado. E continua sendo - sempre com honrosas exceções. 

Em recente artigo, o ombudsman da Folha de S.Paulo mostrou como os erros são basicamente os mesmos que afetam todo tipo de cobertura jornalística: "Informações imprecisas, oriundas de manipulação das fontes, de ouvir dizer, são publicadas diariamente. Com freqüência são resultado de inexperiência do profissional, mas mesmo gente tarimbada transmite notícia falsa sobre pessoa ou instituição, porque o profissional se enganou, não se certificou da veracidade do fato." (Ver Ombudsman faz anatomia.)

Neste primeiro Dossiê, foram deixados de lado a florescente indústria de publicações especializadas e os encartes de qualidade duvidosa publicados por revistas de grande circulação. Faltou saúde para tratar disso. 

Aberrações domingueiras

Domingo é dia gordo de matérias sobre medicina e saúde. Dia de aberrações. "É preciso tomar Plasil para ler as picaretagens do Jornal da Família do Globo", revolta-se o Dr. Pedro Henrique Paiva, clínico e gastroenterologista, um dos médicos mais respeitados do Rio de Janeiro. E relembra caricatamente, como lhe ficaram na memória, as tais aberrações: "Coma brócolis e dê 12". 

"Quando o jornalista não erra ao reproduzir a informação que lhe foi dada, erra ao dar o nome científico de um medicamento. Quando, muito raramente, acerta o nome científico, erra o nome de fantasia", diz ao OBSERVATÓRIO Pedro Henrique Paiva, que considera a revista Veja "um caso exemplar de desinformação" e também não poupa seus colegas: "Os artigos publicados na própria imprensa médica raramente conseguem chegar a uma conclusão científica rigorosa, tendo em vista sua própria natureza de relato de experiências parciais, mas isto não impede que sejam dados a público em tom conclusivo".

Para usar um exemplo recente da leviandade domingueira, analisa-se a seguir uma reportagem publicada no domingo, 27 de abril de 97, pelo Jornal do Brasil.

Manchete da página de Saúde do JB: "Ah, essa gente polivitaminada!". Subtítulo: "O máximo: vitaminas e substâncias energéticas reunidas num comprimido único". Depois de um nariz-de-cera em que são apresentadas as "polivitaminas", o repórter constata que está havendo um consumo cada vez maior de tais produtos, e sentencia: "E isso é positivo. Alguns deles são fracos, mas mal não vão fazer. É melhor tomar isso do que não tomar nada". 

Na segunda coluna de texto, o JB apresenta o custo da experiência que "mal não vai fazer". A conta é dada por um empresário, Wagner Monteiro, cuja foto, sorridente, com dois filhos pequenos igualmente sorridentes e 16 embalagens de vitaminas e assemelhados, ocupa quase toda a metade da página acima da dobra. "Uma espécie de autodidata convicto, mas tranqüilo", gasta R$ 350,00 por mês com vitaminas, polivitamínicos, proteínas, aminoácidos, energéticos, hipercalóricos. E ainda tem um "etc." no texto. Quem escreve "etc." em reportagem devia pagar multa.

Na terceira coluna, o repórter dignou-se reproduzir a opinião do "outro lado", que definitivamente está virando mais um artifício, uma mesura à consciência ("voz interior que nos adverte que alguém pode estar olhando", como dizia o irritado H.L. Mencken), uma formalidade, um álibi. A opinião, se tivesse sido levada em consideração, derrubaria a reportagem. Ou melhor: motivaria outra reportagem, muito mais séria, sobre prejuízos que podem estar sendo causados pelas vitaminas. Sanitários e financeiros.

Eis a opinião:

"A longo prazo, não foram mostrados resultados satisfatórios das vitaminas para a prevenção de doenças degenerativas. Quando são substituídas por uma alimentação saudável, há uma redução dos problemas (grifo nosso). Não vejo vantagem nos polivitamínicos. (....) Em excesso, [as vitaminas] podem levar a um quadro de intoxicação". De quem é esta opinião? Do Dr. José Egídio Paulo de Oliveira, chefe do Serviço de Nutrologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Vamos recapitular pachorrentamente o que disse o Dr. José Egídio. Assim como o Dr. Maurício Wajngarten, o professor da UFRJ afirma que não há comprovação segura da utilidade das vitaminas. Que sua substituição por uma alimentação saudável reduz os problemas. E que, tomadas em excesso (o que acontece principalmente nos numerosíssimos casos de automedicação), podem fazer mal. Mas o mesmo repórter que reproduziu essa opinião abalizada, que ele mesmo foi buscar na UFRJ, escreveu, muitas linhas antes: "Mal não vão fazer". Tomando a precaução de estilo de ressalvar que "o ideal [não o necessário] é que as dosagens sejam personalizadas, com acompanhamento médico". 

Na quarta coluna, a reportagem revela o que está por trás de tudo isso. Basta transcrever: "Estima-se que hoje o mercado farmacêutico nacional de vitaminas seja da ordem de US$ 350 milhões. Desse total, uns US$ 55 milhões são de polivitamínicos. Os importadores dizem que vendem outros US$ 35 milhões", segundo Devaney Baccarin, gerente da Divisão de Produtos para a Saúde do Consumidor da Roche. 

"Todo jornalista deveria estudar introdução à metodologia científica"

Entrevista com Maurício Wajngarten


O Dr. Maurício Wajngarten cita como exemplo das dificuldades com que se defronta a imprensa uma reportagem de Veja

- Veja publicou, em outubro de 1996, uma reportagem sobre um cateter usado na UTI que poderia matar os pacientes. É um cateter usado como medidor de pressões e débito cardíaco. Quando o jornalista da revista me telefonou, a primeira pergunta já me deixou em estado de choque: "Cateterismo mata?" Respirei fundo. Sobre pontos específicos, respondi: "Não sei nada disso. Espere até a noite, para eu me informar. Vou lhe indicar colegas com grande experiência em UTI, você fala com eles. Mas, por favor, antes de mais nada, não confunda esse problema com cateterismo!"

O cardiologista imaginava onde a coisa poderia parar: "Se você tem um parente na UTI, não deixe colocar um cateter. Converse muito com o médico, para saber se não pode ser mortal." Esse foi o tom adotado na reportagem sobre o mesmo assunto transmitida pela rede de televisão CNN. Veja passou raspando pelo sensacionalismo. (Ver Reportagem de Veja sobre o cateterismo de Swan-Ganz.) Nos bastidores, algo que não é mencionado na revista, mas o médico revela: "A venda do cateter é um negócio de milhões de dólares por ano. O artigo original, na publicação médica americana, provocou queda do valor das ações da empresa fabricante."

Avidez e superficialidade

Uma combinação nada saudável, segundo o Dr. Wajngarten, é a avidez por novidades e a "falta de aprofundamento". Antes de afirmar-se que um remédio resolve determinado problema, é necessário todo um procedimento de natureza científica, muito complexo, sujeito a idas e vindas. Assim, as reportagens não deveriam de modo algum avançar como conclusões hipóteses ainda em exame: 

- O processo de certificação de um medicamento é complexo, sutil. Em 1996, houve o caso do Amiodarona, excelente contra arritmia. Estudou-se se havia diminuição de mortalidade dos indivíduos. Houve na Argentina um megatrial, um teste com milhares de indivíduos, cujas conclusões foram positivas, mas houve em seguida outro nos Estados Unidos em função do qual os resultados do primeiro foram contestados. São tipos de pacientes diferentes, doses diferentes, tempos de aplicação diferentes. Mas no noticiário já se falava sem qualquer reserva em "novo tipo de medicamento, a Amiodarona". Dá a impressão de que o jornalista que leu o noticiário especializado não entendeu nada. A conseqüência negativa é que o cliente te telefona e pergunta por drogas novas.

A velocidade com que jornalistas se apropriam das informações, metabolizam-nas e passam-nas adiante é assustadora, segundo o médico do Incor. Ele conta que a discussão sobre determinados procedimentos e medicamentos é complexa nos próprios congressos:

- Às vezes, da platéia, alguém diz "Não concordo com isso" e toda a argumentação do expositor desaba. Imagine-se o que acontece quando um jornalista que é leigo lê apenas um comunicado feito pelos próprios interessados. 

Soluções Mágicas

A temperatura da conversa sobe quando o foco recai nas soluções mágicas, ditas alternativas: 

- Eu diria que com US$ 4 mil por mês dá para montar uma assessoria de imprensa que me faça aparecer em qualquer programa de televisão, inclusive nos que têm maior audiência.

Maurício Wajngarten cita o caso de um médico conhecido que preconiza o uso de EDTA (sigla em inglês de ácido etilenodiamintetracético) para o paciente "não envelhecer". A chamada quelação. "Ele aplicava um sorozinho com EDTA nos pacientes. Uma prática que começou nos EUA, mas lá foi sendo empurrada por proibições de um Estado para outro, até a fronteira do Novo México." 

O cardiologista continua seu relato:

- Em 1995, um trabalho controlado, que durou dez anos, mostrou que não funcionava. Fazia-se exame e constatava-se a presença de cálcio. Quando colocavam realmente EDTA no soro, alguns pacientes tinham insuficiência renal. E a tal quelação custava US$ 2 mil. Aí o médico em questão parou de usar EDTA no soro. Tive um paciente que deixou de freqüentar meu consultório para fazer esse tratamento. Um dia, seus filhos mandaram examinar o que lhe estava sendo aplicado e constataram que era água com açúcar. Ao preço de US$ 2 mil.

(Existem numerosos sites na Internet em defesa da quelação, em inglês chelation; em geral, acusam o governo americano de mentir sobre o assunto.)

Quando se vê uma reportagem no Jornal Nacional sobre as virtudes da maratona para poupar o coração (como aconteceu no "Boa noite" de 28/1/97), é preciso levar em conta muita coisa que não foi dita. Que o maratonista, para começar, não faz nada do que os outros fazem de ruim, como fumar, beber, comer gordura. 

- Exercício violento para quem não está acostumado pode ter conseqüências desastrosas - diz Wajngarten.
- O médico americano ouvido era sério, mas a reportagem recebeu tratamento discutível. Exercício a mais é melhor do que exercício a menos, mas a recomendação era pouco prática (64 quilômetros de corrida por semana), pouco convincente para a imensa maioria das pessoas que não têm tempo ou condições. A última palavra da American Heart Association e do General Surgeon dos EUA é: faça alguma coisa. Mas está provado que um indivíduo destreinado que faz exercício exagerado pela manhã corre risco sério. Um médico alemão e pesquisadores de Harvard apresentaram conclusões a respeito num congresso. A reportagem foi um pouco superficial e um pouco leviana. Ninguém pode se comparar a um maratonista. Além disso, não se pode perder de vista os interesses objetivamente envolvidos nesse tipo de reportagem: indústrias de tênis, calção e aparelhos, e academias de ginástica. 

Rasteiras e charlatanismo

Outro prática escusa é desqualificar um tipo de tratamento para vender outro.

- Um belo dia, no Fantástico - conta o médico do Incor -, houve uma reportagem na qual se afirmava que ponte de safena não resolve, porque pode entupir. Ouviram o Dr. Zerbini, que deu uma resposta honesta. "Ponte de safena pode entupir?". "Pode." Depois, apresentava-se um tratamento mágico alternativo ao uso de ponte de safena. Na reportagem, um repórter aparecia diante do Incor: "Procuramos o Dr. Jatene, mas ele não quis dar entrevista." Colegas horrorizados com a desinformação telefonaram para o Jatene e perguntaram: "Por que você não deu entrevista, deixou veicular aquelas barbaridades?" "Porque iriam fazer comigo o que fizeram com o Zerbini: pegar um pedaço da declaração e isolar do contexto." A gente sabe que a maior das mentiras é a meia-verdade.

A temperatura continua subindo. Não provoca febre, mas o despejo de denúncias de charlatanismo:

- Cartilagem de tubarão (anunciada por Atayde Patreze, com a chancela acadêmica de professores da Universidade Federal do Ceará), ipê roxo, megavitaminas, recuperação da memória, emagrecimento, a propaganda de produtos miraculosos agora vem pela TV a cabo, de Miami ou mesmo do Brasil. Anticelulite, comprimidos de colágeno, soluções mágicas para problemas insolúveis. "Tome o chá XPTO e emagreça um quilo". KH3, famoso "rejuvenescedor". Melatonina. Calvície: é problema insolúvel, volta e meia aparece uma solução. Tudo falso, criminoso. Xarope Tossigripe: "Adeus à tosse". E às vezes a tosse não é de gripe, é de câncer no pulmão. Ou de tuberculose. Pomada contra hemorróidas, mas, vai ver, a pessoa está com câncer na próstata.

E os grandes laboratórios? 

- Todo laboratório tem seu departamento de marketing. Mas os laboratórios éticos consideram que seu público alvo não é o paciente e sim o médico. Já os laboratórios como o Hemovirtus, não. Seu público alvo é o povão.

Saídas?

- Para mim, a imprensa é o que há de mais importante. A escola vem depois. Por isso é que tem de se aprimorar cada vez mais. Insisto em três pontos. Primeiro, não exagerar na busca do gancho, da novidade. Depois, capacitar o jornalista. Todo jornalista deveria estudar introdução à metodologia científica. Finalmente, ter uma atitude ética. O que é pago, é pago. Não pode haver propaganda disfarçada sob a rubrica "Divulgação", ou, pior, paga por baixo do pano. 

Reportagem de Veja sobre o cateterismo de Swan-Ganz
Abaixo, a íntegra da reportagem publicada na edição de 02/10/1996 da revista Veja. Como se constata, o texto espeta seu gancho nos riscos apresentados pelo cateter.



"Medicina
Exame de risco
Pesquisa questiona o uso de um cateter empregado na UTI
Antonio Martins

Utilizado pela medicina como um dos maiores aliados dos cardiologistas na UTI, o cateterismo de Swan-Ganz virou réu num artigo publicado em revista especializada na semana passada. No artigo, que saiu no Journal of the American Medical Association, o pesquisador Alfred Connors Jr. afirma que, uma vez submetidos ao cateterismo Swan-Ganz, os pacientes têm menos chance de estar vivos depois de um mês - precisamente 24% menos do que aqueles tratados sem o cateterismo. Professor da escola de medicina da Universidade de Virgínia, Connors tirou suas conclusões depois de observar o tratamento dispensado a 5.700 pacientes internados em estado grave em cinco grandes hospitais-escola dos Estados Unidos. "Esse estudo oferece fortes evidências, não provas, de que o uso desse cateterismo pode ser perigoso para alguns pacientes", diz o doutor Connors.

Cateterismo é a introdução de qualquer cânula no organismo. Faz-se cateterismo no fígado ou na bexiga, por exemplo, mas o mais famoso deles é aquele que muitas vezes define uma cirurgia no coração. "O autor do artigo não está tratando daquele tipo de exame que os médicos prescrevem quando é preciso avaliar os prós e contras à ponte de safena", avisa o cardiologista Maurício Wajngarten, professor da Universidade de São Paulo. O Swan-Ganz é um cateter usado em situações graves, quando o estado geral do paciente da UTI é crítico e exige cuidado redobrado.

Em casos assim, não basta acompanhar a pressão sanguínea com maquinetas externas, imprecisas para tais situações. É preciso introduzir um cateter através de um corte numa artéria do pescoço, cuja ponta caminhará para o fundo do coração. Assim, o médico poderá monitorar a pressão sanguínea no interior do músculo cardíaco e dentro dos pulmões e a força com que o sangue transita entre os dois órgãos.

Como é um procedimento invasivo, ele pode provocar infecção ou embolia. Por agir em órgãos vitais e em pacientes fragilizados, o Swan-Ganz trabalha com uma margem de risco maior. O problema do estudo do professor Connors é que sua constatação, preocupante, é acompanhada de uma solução temerária: a suspensão do uso desse cateter. "O Swan-Ganz dá informações indispensáveis nos casos em que há risco de falência múltipla de órgãos", diz o cardiologista Elias Knobel, com a experiência de quem criou, em 1972, a UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo - e responde por ela até hoje. "Como não existe ainda um método capaz de substituí-lo de forma satisfatória, agir sem ele é trabalhar no escuro", adverte Knobel. (© Veja.)



Ombudsman expõe a ferida

Anatomia de um erro 

Mario Vitor Santos
São Paulo, domingo, 13 de abril de 1997 - OMBUDSMAN

Às vezes fica difícil entender como algumas informações são apuradas e chegam às páginas da imprensa, sem que sejam observados procedimentos básicos de conferência. Dói mais quando essas informações são usadas em ajuda à expressão de um preconceito, uma idéia-feita.

Informações imprecisas, oriundas de manipulação das fontes, de ouvir dizer, são publicadas diariamente. Com freqüência são resultado de inexperiência do profissional, mas mesmo gente tarimbada transmite notícia falsa sobre pessoa ou instituição, porque o profissional se enganou, não se certificou da veracidade do fato.

Fragilidades 

Ocorrido o erro, é importante reparar os prejuízos da maneira mais rápida, completa e transparente. A incorreção deve ser reconhecida, se possível na edição seguinte. 

Alguma satisfação deve ser dada, mesmo que ela revele fragilidades profissionais. O jornalista - e o jornal também - deve pedir desculpas aos envolvidos e aos leitores. Acima de qualquer consideração, deve estar a disposição ética de admitir o erro, publicar a verdade, minimizar o estrago.

Num texto de sexta-feira, 4 de abril, o jornalista Fernando Rodrigues afirmava na coluna Brasília, publicada diariamente na pág. 1-2 da Folha, que o secretário da Segurança de São Paulo, José Afonso da Silva, "um safenado que sofreu isquemia coronariana, tem recomendação médica para evitar problemas emocionais. Está provado que não tem o comando da PM''.

O texto concluía que o governador Covas não o demitia por ser arrogante, teimoso e contemporizador. 

Bom de coração 

Em carta enviada ao jornal no mesmo dia da publicação da coluna, amparada em atestado médico, José Afonso da Silva demonstrava sua perfeita saúde cardíaca, não tendo nunca se submetido a cirurgia.

No dia seguinte, 5 de abril, o Painel do Leitor publicou a carta-desmentido de José Afonso, amparada por atestado do cardiologista Fulvio Pileggi. Não havia comentários da Folha ou resposta do jornalista, ao contrário do que as vezes acontece. Uma nota apenas remetia o leitor para a seção Erramos, que dizia:

"Diferentemente do publicado na coluna Brasília de ontem, o secretário da Segurança de São Paulo, José Afonso da Silva, não é safenado, não sofre de isquemia coronariana, nem recebeu orientação médica para evitar problemas emocionais''. Ponto.

Desculpas 

Só na terça-feira, depois de conferir o erro com sua fonte, a coluna Brasília trazia um pedido formal de desculpas do colunista, seco, sem explicações.

A medida atendia em parte preocupações do leitor Alvaro de Almeida Caparica, de São Carlos (SP), que cobrara essa atitude do colunista e da Folha, estranhando a lentidão.

Para o leitor, "danos à imagem privada de pessoas públicas deveriam merecer reparações mais ativas e plenas da parte do jornal''.

O colunista Fernando Rodrigues diz ter obtido a informação original junto a fonte "de alto nível'' no PSDB. Alguém que nunca lhe havia passado uma informação errada até então: "Eu não chequei, porém, o que foi um erro gravíssimo, indesculpável''.

O jornalista argumenta em tese que informações médicas relativas a pessoas em postos de comando são relevantes e devem ser divulgadas. No caso, falando ainda em teoria, ele acha que uma eventual debilidade do coração de José Afonso deveria ser revelada, se realmente existisse.

Na minha opinião, o colunista foi afoito, como ele mesmo admite. Deveria ter tomado precauções duplas ao usar argumentos pretensamente médicos para amparar considerações de natureza política e administrativa. Um erro que deveria se transformar em lição a ser seguida por todos.

Mas foi também preconceituoso, ao aceitar o argumento duvidoso de que um safenado não pode ocupar funções de grande exigência. Os exemplos de safenados com vida normal estão aí em todos os partidos, a começar pelos próprios caciques do PSDB, no governo, nas empresas. 

A tarefa da imprensa deve ser a de oxigenar o debate, torná-lo o mais objetivo, científico e rigoroso, não contaminá-lo ainda mais com atraso científico e discriminação.

Colesterol 

Por coincidência, a Folha publicou outra correção médica nesta semana, relativa ao medicamento Pravacol, do laboratório Bristol-Myers Squibb Brasil.

Há mais de dois meses, o jornalista Gilberto Dimenstein, em sua coluna América, afirmara que esse medicamento, para controle de colesterol, tinha sido lançado no Brasil antes de ser aprovado nos Estados Unidos, o que demonstrava a tese de que a aprovação e a venda de remédios no Brasil são feitas sem controle.

A correção saiu na quinta-feira passada. O Pravacol está habilitado pelo controle norte-americano desde 1991, antes de ser comercializado no Brasil, como afirmava carta de João Massud Filho, diretor do laboratório. 

Dimenstein diz ter confundido uma reclassificação feita mais recentemente pelo governo americano, que agregou um novo uso ao medicamento, com a aprovação inicial. A tese inicial do artigo de Dimenstein, de que o Brasil é zona livre para comercialização de qualquer medicamento, ainda subsiste, porém.

Pelo que se vê, a Folha precisa criar condições e adotar políticas mais eficazes de checagem e de prevenção aos erros de informação. As que existem ainda permitem erros de fácil detecção.

Copyright 1997 Empresa Folha da Manhã

O Domingo da doença 

Mauro Malin

O domingo, dia da família, é o que logo aparece na memória do médico sanitarista David Capistrano Filho, ex-prefeito de Santos, ex-secretário de Saúde de Santos e de Bauru, quando o problema da cobertura jornalística dos problemas de saúde da população lhe é proposto. 

"O Fantástico, da TV Globo, é uma maneira de criar mercado para qualquer bugiganga nova que apareça nos Estados Unidos e prometa mundos e fundos", afirma. "Tudo isto acontece porque a cobertura jornalística é inepta e os encarregados não têm a menor noção do que se trata. A partir daí, tornam-se veículos de jogadas políticas, de pessoas e de produtos farmacêuticos. É um fenômeno mais acentuado na mídia eletrônica", explica David Capistrano ao OBSERVATÓRIO.

Em sua entrevista, o Dr. David Capistrano critica a "demolição do trabalho de especialistas em jornalismo científico" que, a seu ver, produziu-se nos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo.

O OBSERVATÓRIO ouviu também o Dr. Edson Stefanin, chefe da UTI do Hospital Sírio e Libanês, que rivaliza com o Albert Einstein na disputa pelo título de melhor hospital do país. Edson Stefanin alerta que a imprensa não sabe distinguir entre médicos sérios e médicos que fazem autopropaganda, e afirma que os médicos estão despreparados para lidar com a imprensa. Sua proposta é um esforço para que todos os envolvidos façam um aprendizado complementar adequado.

É o que está fazendo, nos Estados Unidos, Gabriela Scheinberg, brasileira formada em Biomedicina em São Paulo e entrevistada pelo OBSERVATÓRIO por correio eletrônico. Gabriela termina um mestrado em Jornalismo na Universidade de Boston, na área de jornais e revistas. Quando voltar ao Brasil, pretende associar sua formação científica com o trabalho jornalístico. O resultado costuma ser bom, como sabem os leitores de, entre outros, Fritz Utzeri, jornalista formado em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro que fez carreira no Jornal do Brasil e edita hoje o Globo Ciência, da Rede Globo de Televisão.



"Sou obrigado a ditar, soletrar, letra por letra" 
Entrevista de David Capistrano Filho

O médico David Capistrano Filho é um dos mais respeitados e competentes sanitaristas do país. Muitos brasileiros não têm a menor idéia disso, mas estão vivos hoje graças a campanhas e práticas que ele ajudou a generalizar desde que saiu da Faculdade de Medicina da UFRJ, no início dos anos 70. Porque ele não apenas aplicou políticas enérgicas de saúde pública, mas tratou sempre de divulgá-las amplamente. A coleção de literatura especializada publicada sob a égide do Cebes (Centro Brasileiro de Estudos de Saúde), do qual ele foi um dos fundadores, tem mais de cem títulos, com muitas reedições. Foi secretário de Saúde de Bauru (1984-88) e de Santos (1989-92), onde sua política sanitária prosseguiu com êxito durante seu mandato de prefeito (1993-96).

David Capistrano Filho também é jornalista, sem diploma ou registro. Aprendeu o ofício no fogo de uma militância política que vem da infância. Já editou revistas e jornais. Fala do relacionamento entre imprensa e saúde do ponto de vista de quem tem responsabilidades de cidadania. Resume numa expressão seu balanço: "A cobertura é inepta". E descreve o quadro:

- Coisas velhas são apresentadas com retoque de novo. Os jornalistas comprazem-se com denúncias que muitas vezes são manipuladas. Especificamente o noticiário sobre as formas de organização de assistência médica é profundamente influenciado pela adesão maciça e basbaque da imensa maioria dos jornalistas ao chamado paradigma neoliberal, que oferece como solução mágica privatizar. Não querem saber que três quartos da população não têm dinheiro para tratamento. 

David aborda a dificuldade que tem atualmente para conversar com jornalistas. Relembra com saudade o tempo em que na Folha de S.Paulo e no Estado de S.Paulo havia editorias especializadas conduzidas por jornalistas que procuravam entender, familiarizar-se com os assuntos e traduzi-los para o conhecimento geral. Cita os nomes de José Reis e Demócrito Moura. "Esse trabalho foi destruído. As editorias foram absorvidas por cadernos, viraram Cidade, Cotidiano, e meteram tudo num mesmo saco." 

Também a qualificação geral dos profissionais foi caindo: 

- Sou obrigado a ditar minhas declarações, soletrando, inclusive, letra por letra, caso contrário saem absurdos, coisas malucas. Os conceitos usados na esfera mais específica da saúde pública são hieroglifos para esses jornalistas. 

Dá como exemplo a mortalidade infantil, que não é a morte de crianças, mas um indicador: o número de crianças que morrem antes de completar um ano de vida, para mil nascidas vivas. "Isto costuma sair nos jornais como porcentagem, o que multiplica por dez a magnitude da mortalidade. Não sabem o que é prevalência - o estoque de casos que existe sobre a população, nem incidência - os casos novos numa população dada. Não acho que as pessoas sejam obrigadas a saber isso, mas, já que vão escrever, devem prestar atenção no que dizem as fontes. "

Aumentar o sofrimento

O Dr. David Capistrano acusa: os erros desorientam e aumentam o sofrimento das pessoas. "Não se difunde que existem alternativas de tratamento que funcionem. Não se difunde algo essencial em caso de doença grave, que é a prática da segunda opinião, comuníssima nos Estados Unidos. Consultar o segundo. Se o diagnóstico confere, muito bem; se não, deve-se consultar um terceiro médico. Aqui, os médicos resistem e a imprensa abaixa a cabeça." 

Por outro lado, difundem-se notícias esperançosas vãs, em nome de uma neutralidade valorativa que leva as pessoas a achar que tanto faz tomar chá de cabeça de formiga como seguir um método científico. Cada um que se trate do jeito que bem entender, o "mercado" oferece várias opções. 

Relato de uma tragédia: 

- Conheci um jornalista aqui de São Paulo, sujeito até avançado, cabeça boa, que teve diagnóstico de leucemia mielóide crônica. Caiu na mão de um homeopata de Campinas. Morreu. Quando ele estava quase morrendo, a família me chamou e contou. Tinha sido convencido pelo homeopata de que os remédios alopáticos eram venenosos. O sujeito morreu. Eu queria processar o médico. Acho que não se deve impedir ninguém de recorrer a tratamento alternativo. Eu mesmo tomei (David teve leucemia mielóide aguda, diagnosticada em 1982 e tratada com êxito no Brasil e nos Estados Unidos). Vem uma pessoa amiga, interessada, quer que você tome chá de confrei. Eu tomei. Um padre me fez tomar chá de bichinhos de feijão estragado. Está bem. Mas não deixei de fazer o tratamento. Quer seguir conselhos exóticos, siga. Mas impedir o sujeito de fazer o tratamento... Leucemia mielóide é uma enfermidade curável. E o jornalista morreu porque não se tratou. 



As mágicas de mestre Jeng

Eis trechos do que publicou O Estado de S.Paulo, no caderno Seu Bairro (8/12/95; tirado de reprodução feita pelo próprio Jeng Sheng Chau para elaboração de peça publicitária distribuída como encarte mais de um ano depois).

"Quando saiu da China há 30 anos, Jeng Sheng Chau não imaginava que iria seguir a tradição ensinada por seu pai: a cura através das ervas. (....) Homens, mulheres e crianças vão ao seu consultório quando já estão cansados dos médicos convencionais. O abandono desse tipo de tratamento não acontece de uma vez. Aos poucos, o doente não sente mais necessidade dos remédios. Para o herborista, todos os problemas físicos têm causa emocional." 

"As pessoas sempre procuram mestre Jeng por meio da indicação de algum amigo. O mestre tem muitos pacientes famosos [cita nomes]".

"Um dos casos mais graves que o mestre Jeng tratou foi o de uma criança com leucemia. 'Ela estava condenada a tomar remédios por toda a vida', lembra Jeng. 'Preparei uma receita de chá e, quando voltou ao médico, não tinha mais nada', disse." 

"Vestibular não tem exame psicológico" 

Entrevista de Edson Stefanin

O Dr. Edson Stefanin, chefe da UTI do Hospital Sírio e Libanês de São Paulo, viveu em janeiro deste ano um episódio que considera caraterístico das relações difíceis entre médicos e jornalistas. Foi a internação do ex-prefeito Paulo Maluf, com o nome de Paulo Maurício, para fazer uma cirurgia de câncer da próstata. 

Inútil uma pessoa como Paulo Maluf tentar ficar incógnita num hospital de São Paulo. A primeira enfermeira que entrar no quarto vai espalhar a notícia no mínimo para a torcida do Corinthians. Também foi inútil tentar esconder que se tratava de câncer da próstata. O ex-prefeito quis despistar. Raul Cutait, diretor-clínico do hospital, que havia sido seu secretário de Saúde na Prefeitura, distribuiu nota dizendo que se tratava de "cirurgia para correção de obstrução prostática", mas a reportagem da Folha de S.Paulo, por exemplo, já chegava bem perto da verdade na primeira notícia, em 3 de janeiro: "O ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf foi operado ontem, às 8h, para retirada completa da próstata. A Folha apurou que Maluf tinha um pequeno tumor. O órgão retirado foi submetido a exames a fim de verificar se o tumor era benigno ou maligno, conforme a praxe nesses casos." E, adiante: "Funcionários do hospital informaram que foi realizada uma prostatectomia radical, cirurgia utilizada para a retirada da próstata e das vesículas seminais. Especialistas ouvidos pela Folha afirmam que a prostatectomia radical só é realizada quando há uma suspeita de câncer localizado." 

Na opinião de Edson Stefanin, o que deu errado na história foi a tentativa de despistar a imprensa. "Mas a imprensa ficou lá na porta 24 horas. Alguém acabou descobrindo que poderia ser câncer. Os médicos não estão preparados para isso, como, mal comparando, ninguém está preparado para ser assaltado por alguém que fica o tempo todo à espreita."

O médico afirma que o boletim médico, em princípio, é seco. "Se for desejo do paciente, faz-se relatório completo. É melhor, porque todos ficam devidamente referenciados com os seguintes elementos: antecedentes, condutas indicadas, o que foi feito, resultado obtido e prognóstico."

Não se pode tirar o direito do paciente à privacidade. O médico deve respeitar a ética. "Mas, quanto mais claro o médico for, com o intuito de esclarecer, melhor. O compromisso do jornalista é ser claro também."

Segundo Stefanin, a imprensa presta serviço se conversa com médicos sérios da área:

- É preciso separar quem quer fazer propaganda, quem tem a síndrome do holofote. "Meus 15 segundos de glória." Muitas vezes está lá para fazer propaganda.

O chefe da UTI do Sírio e Libanês relata que foi a um programa de televisão falar de UTI, explicar o significado do tratamento intensivo. Deparou-se com o seguinte conceito, corrente na imprensa: "UTI é um lugar onde as pessoas entram para morrer" (1):

- Vão morrer ao lado de gente que está morrendo. Mas é o caso de se perguntar: toda a técnica e recursos especializados são usados para isso? Quem vai morrer, morra dignamente no quarto do hospital, em casa.

Segundo Stefanin, a medicina é uma profissão e uma ciência que beira o charlatanismo. "O limite que a divide da picaretagem é muito estreito. E há um comentário que se faz nos hospitais: vestibular não tem exame psicológico. Não se avalia a personalidade. Há médicos sem nenhuma preparação, que vendem soluções miraculosas."

Edson Stefanin acha necessária uma denúncia séria da estrutura da saúde. Preconiza a realização de movimentos que aproximem médicos e jornalistas para que aprendam juntos a trabalhar. Benefícios para os dois lados. "É preciso aprender a usar os recursos da mídia para educar, divulgar conhecimento, promover saúde. E dar à imprensa plenas condições para fazer um trabalho de informação didática."
 
 

(1) Eis o que publicou a Folha de S.Paulo em 18/2/97, citando Darcy Ribeiro sem qualquer contestação ou ponderação: "UTI é uma m..., UTI fede. Só fica lá quem está querendo morrer. Um monte de gente gemendo, esperando a morte. Pedi para o médico me dar alta. Ele não deu, então eu fugi." 



Lembram-se do médico da família? 
Alberto Dines

Vamos por partes, como dizia no meio da sua faina Jack, o Estripador. 

* A mídia em matéria de saúde & medicina & ciência é, em geral, sensacionalista e simplista. 

* O poder público, por falta de recursos, não tem capacidade de desfazer as "ondas" armadas pela mídia. 

* O paciente-cidadão-leitor, porque carece de uma base cultural mais sólida, navega desnorteado, sem condições de defender-se das manchetes alarmistas ou salvacionistas.

* Restam os médicos e, com eles, a pergunta: não poderiam exercer também um papel de educadores e consultores?

A Arte de Curar compreende também uma Arte de Esclarecer. Acontece que o médico de hoje, geralmente, está mais preocupado com a Doença do que com o Doente. 

Os médicos do serviço público não têm tempo - numa consulta de 15 minutos pode-se avaliar os sintomas mais gritantes e receitar a medicação imediata. Sem tempo para levantar o histórico familiar, menos ainda para dois dedos de prosa capazes de orientar o paciente.

Os médicos privados (em geral os mesmos, no expediente da tarde) têm a agenda apertada. A grande maioria, recém-chegada de um congresso, está preocupada com a tecnologia de ponta e a pílula da última geração. A sala de espera cheia, não há tempo para desempenhar o papel do "médico de família" - lembram-se? - aquele que tratava de todos os membros da família, conhecia todos os chiliques e achaques, tinha explicação para tudo. Sobretudo tinha tempo e disposição para ouvir e falar.

O médico privado, assim como o jornalista, presta um serviço público - pode ganhar muito dinheiro mas não pode esquecer seu compromisso com a saúde, o bem-estar e a vida do cidadão. A maquina de faturar - em que se converteram a grande maioria dos consultórios particulares - nada tem a ver com esta tripla missão.

O corporativismo médico brasileiro é um dos mais retrógrados e anti-sociais. Enquanto os jornalistas já começam a auto-criticar-se em público, os médicos brasileiros jamais se dispuseram a discutir abertamente os descaminhos para os quais muitos colegas empurraram a profissão. Parceiros de Deus, arrogantes, sua infalibilidade não pode ser posta em questão.

Além disso, há o mercantilismo, em outras palavras - a grana preta. A sempre instrutiva Veja (edição 1495) publica em apenas duas páginas um dos maiores libelos contra a medicina privada e seu cúmplice predileto, o jornalismo médico-mundano. Divulgar o nome de um cliente é antiético, fere o princípio da confidencialidade, o sigilo contratual entre o doente e aquele que deve curá-lo. Sem entrar no mérito da matéria (a extorsão de cobrar 1.200 reais por uma consulta que o Conselho Regional de Medicina deveria investigar), é inimaginável que médicos sérios numa publicação séria estejam fazendo propaganda enganosa de seus divinos atributos curadores usando outras pessoas - sem a necessária licença - para comprová-lo.

O pessoal da linha natureba (medicina alternativa), certamente dará urros de felicidade ao ler as linhas acima. Mas acontece que entre os "médicos de ouro" fotografados por Veja há dois profissionais ortomoleculares (teoricamente alternativos, já que os planos de saúde não reembolsam consultas com médicos desta orientação).

Este Observador já andou num consultório de um Prof. Dr. da linha ortomolecular - ninguém é de ferro. Sua pressa era a mesma dos alopatas tradicionais ou dos tecnólogos vanguardistas. Não tinha tempo para explicar e, sobretudo, ouvir. A informação do paciente não lhe importava, ele tinha a sua verdade, o cliente, para ele, era um ser passivo, sem direito a opinar. 

Portanto, o problema da medicina privada brasileira não reside nesta ou naquela linha terapêutica. É uma questão que resvala no papel do médico numa sociedade como a nossa, servida por uma imprensa como a nossa - sua consciência profissional, seu senso de solidariedade, sua responsabilidade e, principalmente, compostura. 



Reparação, nem tardia
Norma Couri

Há oito anos o dentista Maximiliano Giona Gangemi teve um surto esquizofrênico no consultório onde trabalhava. Internado às pressas na clínica Santa Mônica, em Petrópolis (RJ), acabou transferido para a Pensão Margaridas do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, especializada no tratamento de psicóticos em tempo integral. Dez dias depois da internação, na manhã de uma segunda-feira, e depois de um tratamento de sonoterapia aplicado após forte crise, Maximiliano começou a passar mal. Foi levado ao Hospital Miguel Couto, onde morreu na noite do mesmo dia. Tinha 25 anos.

O laudo cadavérico indicando "intoxicação exógena" não deixou dúvidas ao pai do dentista, Giuseppe Gangemi. Maximiliano teria sido morto por excesso de barbitúricos ministrados pelas atendentes da clínica sob supervisão de uma das sócias, a psiquiatra e psicanalista Carmem Dametto, 47 anos. Disposto a acabar com a carreira da médica, Giuseppe levou o caso a julgamento no Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro. Dois anos depois Carmem acabou condenada pelo Cremerj a um mês de suspensão. 

Prato cheio: a condenação da médica foi noticiada no Jornal Nacional, da Rede Globo, virou manchete dos jornais do Rio e tema de conversa em diversos programas populares de rádio sobre a eficiência da psicologia, psiquiatria e psicanálise na cura dos doentes - Carmem foi crucificada sem ser ouvida. Cumpriu a pena. A Pensão Margaridas fechou, os envolvidos sofreram abalos profissionais em suas carreiras mas nem o pai do dentista nem a médica sossegaram. Giuseppe considerou a sentença "um prêmio, um mês de férias". Carmem, inconformada depois de anos de carreira bem-sucedida, seminários, congressos e livros publicados, dedicou-se com obsessão à limpeza do seu nome. As duas partes recorreram ao Conselho Federal de Medicina, que o remeteu novamente ao Cremerj. Giuseppe Gangemi decidiu levar o caso à Justiça comum, acusando Carmem de assassinato. Condenada a dois anos de prisão, ela recorreu.

A sentença final saiu no começo deste mês. A juíza Salette Maria Polita Maccalóz, da 7a Vara de Justiça Federal, considerou o processo um poço de irregularidades. Suspendeu os efeitos da execução da pena impostos a Carmem, anulou o primeiro julgamento e a condenação - embora a médica já tivesse sido suspensa por um mês. Na sentença publicada no Diário Oficial do dia 8/5/97, a juíza alega: "Não lhe foi [a Carmem] permitida a produção de prova pericial, os depoimentos e teor dos documentos foram flagrantemente distorcidos para se encaixarem na tese condenatória, os pedidos de diligências probatórias foram negados e no contexto do acórdão [a médica] fôra taxada com expressões injuriosas. (....) O processo administrativo, moral e ideologicamente, não existe, porque duas figuras importantes se confundem numa só: o Conselho [Regional de Medicina] é parte e julgador ao mesmo tempo".

Decidida a corrigir as manchetes de seis anos atrás ("Psiquiatra é suspensa um mês por causar morte de paciente" - Jornal do Brasil de 7/6/91, e "Médica é Punida com 30 Dias de Suspensão" - O Globo do mesmo dia), Carmem tenta em vão reabrir o caso na imprensa para discuti-lo em condições mais justas e repetir o que disse desde o momento da morte do dentista, mas ninguém ouviu. 

"O LSD homeopático não é nem uma droga nem uma aberração: vem sendo utilizado há anos no tratamento dos internos da Colônia Juliano Moreira e no mundo inteiro em pacientes que apresentem os sintomas de violência de Maximiliano Gangemi", diz Carmem Dametto. "A medicação ministrada na Pensão era compatível com a massa física do paciente e vinha sendo gradativamente reduzida desde a sua transferência da clínica de Petrópolis, onde recebeu altas doses de medicação forte. O paciente morreu de mal-súbito, até agora inexplicável porque só as denúncias dos familiares foram ouvidas".

Nenhum jornal ou revista reabriu o caso. Nenhum jornal de televisão comentou a decisão recente da Justiça Federal. A violenta morte de um paciente violento de 25 anos, sob medicação, não requer aprofundamento.

Página virada. Ninguém se interessa em rever o que a Justiça Federal reviu. Assunto, agora, só se o morto falasse. 


           Saúde: estudantes analisam jornais
             capixabas

                       Victor Gentilli, professor de jornalismo da UFES
 

                    No Brasil, se a experiência de media watching, apesar de sua   longevidade, ainda é algo incipiente, uma novidade ainda não de     todo absorvida pela comunidade de jornalistas, que a vê em boa medida
 com um pé atrás, que dizer de praticar uma experiência deste tipo num
 estado pequeno como o Espírito Santo e ainda mais apoiado por trabalhos  de estudantes de jornalismo? 

            Evidente: nossas dificuldades não são do tipo daquelas que Alberto Dines  enfrenta desde as já históricas edições do "Jornal dos Jornais" na Folha de S. Paulo de 1975. Mas, em boa medida, é o entusiasmo e o aproveitamento didático que eu, estudante naqueles anos, tive pela  experiência que me movimenta neste trabalho que venho desenvolvendo de forma bissexta desde 1988 e sistemática desde 1993.

             Assim, apesar de todas as dificuldades e de alguma incompreensão, temos  procurado praticar a crítica de mídia como atividade regular, pedagógica,de pesquisa e de extensão, no curso de Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo. Já realizamos várias pesquisas sobre jornalismo  político, jornalismo cultural, jornalismo da violência (recusamos o termo policial), e estamos em fase conclusiva de um estudo sobre o jornalismo de saúde e educação. 

            Este "nariz de cera" é indispensável para explicar o trabalho que Mauro Malin me pede para o Ecos de Lisboa e para o Dossiê Saúde. 

             De junho de 1996 a fevereiro de 1997, estudamos todas as notícias que pudessem ter alguma vinculação com o tema saúde nos jornais diários do Espírito Santo: A Gazeta e A Tribuna. Foram catalogados 829 notícias informativas, 25 cartas de leitores, 12 artigos de opinião e 2 editoriais. A  maioria do material tratava, evidentemente, da crise da saúde no estado  com seus desdobramentos em greves e problemas de toda ordem. 

             Mas a idéia era ter uma visão ampla de como o tema "saúde" era tratado pelos jornais. Assim, estudamos igualmente os noticiários oriundos de  agências noticiosas (desde o famoso Claudia Liz até o acidente de Emerson Fittipaldi) como aqueles produzidos localmente. O caso Claudia   Liz é interessante porque estuda-se relativamente bem o tratamento dos   jornalões, mas quase sempre esquece-se que este mesmo noticiário vai   reproduzido em todo o Brasil pelo material das agências. E se os jornalões  admitem o erro de forma discreta, aqueles que os reproduzem quando o fazem é quase escondido. O caso do rapaz que foi agredido sexualmente  num motel, vale lembrar, ocorreu no Espírito Santo. Embora de dimensões  nacionais, os jornais capixabas produziram localmente o noticiário. 

             Há boas notícias no jornalismo regional. O jornal A Gazeta tem uma  repórter, Denise Gonring, especializada no assunto e que produz, todos os  domingos uma "especial", que infelizmente vem editada abaixo do material de saúde produzido pelas agências. O jornal A Tribuna, que, registre-se, edita diariamente nas nobres páginas 2 e 3 uma reportagem especial (que  muitos dizem estar morrendo), trata várias vezes com seriedade e  competência os casos de saúde. 

             Mas há problemas. Curiosamente, a Aids foi praticamente esquecida e  casos como os do dengue (quase endêmico na Grande Vitória) são tratados ainda com algum sensacionalismo e menos prestação de serviço  do que seria o ideal. 

             Mas o problema localiza-se, mesmo, na ausência de diálogo entre os  jornalistas e suas fontes de informação. As entrevistas com médicos,  autoridades e jornalistas mostraram uma dificuldade de comunicação   evidente. Com exceção das fontes oficiais, praticamente todos os outros   não confiam nos jornalistas e temem fornecer entrevistas. Segundo as   fontes entrevistadas, os jornalistas não entendem do assunto, não sabem  perguntar e distorcem as respostas. 

             Mesmo assim, um evento pioneiro, apoiado também pela Fundação   MacArthur e pela Universidade de São Paulo, onde estou agora iniciando   um doutorado, colocará, nos dias 5 e 6 de junho, médicos, jornalistas e   pesquisadores frente a frente. A UFES será palco do workshop   "Jornalismo, Cidadania e Saúde", onde os resultados da pesquisa serão  apresentados de forma abrangente e serão debatidos em mesa-redonda,  painéis e oficinas. O professor Bernardo Kucinski, da ECA-USP, também coordena o evento, que está sendo organizado pelo pesquisador Ademir  Pereira da Cruz Jr. Informações sobre o evento com Ademir (027)    3352739 no Nexo - Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão em    Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo. 

TV Globo e distrofia: erro rápido, conserto lento e precário

Dionisio Rulli Soares, colunista do Jornal ABDIM, autor do livro Esquinas da Vida

Reportagem do Jornal Nacional sobre distrofia, 5/2/97

"O Jornal Nacional começa agora... - Crianças portadoras de uma doença rara, distrofia muscular, conseguem na Justiça o direito de ir para os EUA fazer um tratamento. O Supremo determinou que o Governo de Santa Catarina pague (valor em questão, US$ 150.000,00) o custo desse tratamento..." (....)

"- Que bom, vou poder voltar a andar de bicicleta... (uma das crianças falando)".

Final da matéria.
 
 

"Não acredito!!! Não acredito!!!" Falava sozinho...

Minha cara de surpresa foi dando lugar a uma progressiva revolta ao imaginar como amigos, pais, crianças afetadas pela distrofia muscular e que não têm a mesma condição de refletir sobre um fato desta importância, receberiam uma reportagem tão mal dirigida, editada, etc. Poderia causar tantos malefícios. Se a Globo divulga e o governo paga, é porque é sério... Na mesma noite foi enviado um e-mail para a Central Globo de Jornalismo alertando que essa história não tinha sido bem contada.

Eis o teor da mensagem eletrônica:

"Distrofia é uma doença genética progressiva e degenerativa do tecido muscular, por enquanto ainda não reversível. Não é uma doença tão rara, existem mais de 3.000 casos registrados no Brasil. Esse 'tratamento' propagado por esse Sr. Peter Law, não cura, não melhora a vida de ninguém. 

O Supremo não pode determinar que se pague um charlatão, quase 10 anos de tentativas todas frustradas, nenhum resultado positivo... Não se pode induzir pessoas tão desesperadas a buscar algo ilusório, e ainda assim ter que pagar esses dólares todos... Vocês não podem soltar uma matéria sem ouvir um especialista sobre o assunto..." 

Texto enviado, resposta nenhuma. Concordo. Também, quem sou eu, que base tenho sobre o assunto além de ser portador desta doença, é óbvio que não é suficiente para crédito algum. Dia seguinte, consultando a Dra. Mayana Zatz, chefe do Departamento de Biologia Genética da USP, e também presidente da Abdim (Associação Brasileira de Distrofia Muscular) - entidade com mais de 15 anos prestando inúmeros serviços de forma gratuita, semanalmente, para mais de 100 crianças portadoras de distrofia. 

Dra. Mayana tem a mesma posição, sendo até mais contundente, revoltada e preocupada com a repercussão de uma notícia dessas... Mais um dia se passa. Enviado à Globo um fax com a opinião da Dra. Mayana. Nada de retorno, via fone, nada, novos faxes, semanas se passaram e nada, enquanto isso na imprensa pipocavam famílias requerendo o mesmo direito das crianças catarinenses. Transtorno na Abdim, chuva de telefonemas, pressões, gente querendo vender tudo e ir para lá, em busca de cura, melhora, seja o que for... 

"Vamos à imprensa", então o assunto foi enviado via fax para todas as redações de TV, ninguém deu crédito, nada... Até que Juca Kfouri abriu um ótimo espaço no seu programa na CNT, fomos e expusemos mais alguns fatos, CBI (Canal Brasileiro de Informação), saiu uma ótima matéria na IstoÉ, na Veja timidamente, no Estadão também, todos dando espaço para a opinião firme de Dra. Mayana. "Pura enganação, esse pseudo-tratamento já foi abandonado por todos os cientistas do mundo todo, só ele insiste... Ainda por cima cobra esse absurdo." Passadas algumas semanas, a Globo se pronuncia por telefone: "Já foi feita uma nova matéria, em breve estará no ar..." Aguardamos ansiosos, dias, semanas, e nada de ir pro AR...

Os faxes continuavam a ser enviados para as redações das emissoras de TV, nenhum retorno... Alguns meses depois, estávamos quase desistindo, quando surge uma esperança, o SBT nos abre espaço no seu TJBrasil, gravaram a matéria, prometeram que ia pro AR imediatamente... Promessas em vão, reportagem engavetada!! A revolta crescia, estranho, não??!! Ao mesmo tempo a crença: O que é preciso fazer para que a Grande Imprensa brasileira possa nos ouvir... Que fazem os diretores de pauta, editores, etc., cadê o Jornalismo sério que tem por princípio ouvir todos os lados da mesma questão??!! Onde estão os farejadores de notícia!!?? Tenho minhas dúvidas sobre se o verdadeiro jornalismo e a ética se aprendem nos bancos de faculdade.
 
 

Persiste o compromisso com o sensacionalismo

Finalmente, em 31 de maio de 1997, portanto quase quatro meses após a referida matéria ir para o AR no JN, depois de tanta luta e transtorno a Globo coloca na tela a matéria correta (pelo menos existe o contraditório). Não cheguei a vê-la por inteiro, mas o que vi foi suficiente para formar minha opinião: politicamente correta, mas ainda assim comprometida com o sensacionalismo, sentimentalismo fantasioso desse Sr. Peter Law (o ilusionista). 

Tudo bem, ouviram o outro lado, o também americano Dr. Eric Hoffman, dizendo da ineficácia do tratamento e do absurdo de se cobrarem US$ 150.000,00 para se ter uma discutida "pequena melhora", está bem, qualquer melhora é melhora, mas por quanto tempo? E a que custo? Financeiro e físico (são centenas e centenas de aplicações de células sadias injetadas no corpo da criança). Mostraram a opinião de uma mãe que perdeu dois filhos (eu completo: mais 300 mil dólares, é óbvio que o dinheiro não é nada, se soubesse que teria melhoras realmente, pagaria 1 milhão). 

Então, diz o Sr. Peter Law: "Não é cura, mas estamos bem perto dela." Pode até ser, torço para que consiga mesmo, afinal tenho distrofia. A questão é muito mais ética, é moral. Não se pode brincar com a esperança, o sentimento, o sofrimento, a agonia, o desespero, a fé e a terrível vontade, de pais, amigos e crianças que convivem com esse problema tão duro. Não se pode prometer algo que ainda está por vir... e disso tirar proveito para alcançar seus lucros, mesmo que se tenha como pano de frente a justa causa para uma doença tão difícil.

A TV Globo esqueceu ainda de mencionar que o referido Sr. Law foi expulso da comunidade científica americana. Não são apenas Dr. Eric Hoffman, Dra. Mayana Zatz, que se opõem a ele. São quase que a totalidade dos cientistas de diversos países que trabalham em prol da Distrofia. Ele está praticamente sozinho nessa. Vá lá, ele acredita, quem sabe ele não esteja no caminho certo (??). Mas por favor não se aproveitem de pessoas tão desesperadas e prontas para qualquer coisa, tenham mais calma ao botar no AR, elaborem melhor, pesquisem, ouçam o outro lado. Não poderiam ter feito isso antes? Por que todo esse tempo?

Antes tarde do que nunca, mesmo que ao final insistissem em mostrar a criança reafirmando: que vai poder voltar a jogar futebol - o que não é verdade, a pequena melhora é tão insignificante e infelizmente, nem possibilitará que deixe de andar de cadeira de rodas, nem ao mesmo ficar de pé com suas próprias pernas. Triste, mas é a dura realidade que as pessoas teimam em não ver... Apesar do sensacionalismo caro, muito caro, fica o julgamento, a razão, e o coração de quem sofre o problema. Só não acho justo pedir dinheiro a esse governo falido, sua saúde em tamanha miséria, e a justa Justiça do Supremo determinar que se pague a esse Sr. Peter Law para que fique um pouco mais rico, enquanto temos uma Abdim que sobrevive a duras penas, atendendo gratuitamente com fisioterapia, psicologia, assistência social tantas crianças que, em muitos casos, nem mesmo uma cadeira de rodas têm para se locomover. Não é justo! Mas se foi para as crianças catarinenses, todos os portadores de distrofia também possuem o mesmo direito, não é isso que reza a Constituição?! 


Com mensagens contraditórias
só se fazem esquizofrênicos 
A.D.

Buscar a diversificação dos assuntos faz parte do ofício jornalístico, recurso legítimo até para garantir a atualidade. Mas a variedade de temas ou a necessidade de oferecer juízos diferentes nada tem a ver com a ambigüidade ou duplicidade no teor da informação. O público não quer equivocar-se e os veículos de informação devem ser inequívocos nas suas posturas.

Veja (ed. 1.497) lavrou pelo menos dois tentos em matéria de Medicina & Saúde:

* A matéria de capa, "Da cervejinha ao alcoolismo", é um arrasador libelo contra a omissão dos poderes públicos e das elites (inclusive mediáticas) diante da poderosa máquina publicitária que funciona impunemente a serviço da dependência alcoólica (ver Circo da Notícia).

* A entrevista nas páginas amarelas "Paraísos Artificiais", com o escritor, jornalista e médico (especialista em saúde pública) Moacyr Scliar é uma tremenda denúncia contra a ilusão de que a medicina tem cura para tudo, inclusive para as aflições da alma. Esta "medicalização da vida" (no dizer de Ivan Ilitch), pretende uma pílula para cada estado de espírito, numa tentativa de driblar os problemas morais e existenciais que constituem a substância mesma da humanidade (ver trechos da entrevista).

Mas na mesma edição, com a retranca "Saúde" (pp. 90-92), há uma gritante convocação em direção contrária: a matéria "Outono do macho" é um estímulo aos tratamentos para reposição hormonal em homens com mais de 50 anos. Apesar da presença de discretos pareceres médicos contrários aos tratamentos de testosterona. O próprio subtítulo já é um convite para esquecer os conselhos de Scliar - "Cresce o número de homens que buscam na reposição hormonal o vigor da juventude". Ora, leitor, se todos estão tomando a sua dose de poção mágica, por que você não se anima também?

O infográfico, como sempre, é mais simplista e menos sutil: ao lado dos riscos e benefícios do tratamento, aparecem três fotos do velho adônis Alain Dellon, com 20, 40 e 60 anos, mostrando os estragos da idade.

Com mais algumas doses de mensagens contraditórias desse tipo, nossa mais importante revista ilustrada vai causar uma onda nacional de esquizofrenia. 
 

Preceito e prática

Mauro Malin

A contradição é desta vida, leitor, dizia um certo Machado de Assis. Não, não pretendo dar a Veja o benefício de um vitalismo que a eximiria da esquizofrenia apontada acima por Alberto Dines. Vou é reforçar a idéia de que há esquizofrenia. A mesma revista que publica a reportagem caprichadíssima de Dorrit Harazim contém, na edição seguinte, datada de 4/6/97, um anúncio de página dupla da grife Ellus que poderia ser assim descrito:

Na página da esquerda, um jovem todo de preto - paletó, calça, camisa e gravata - confere o encaixe do joelho de uma moça entre suas coxas. O rapaz, bem jovem, segura displicentemente, na mão esquerda, um cigarro aceso.

Na página da direita, outro jovem, bem jovem, todo de preto, despenteado, expressão bizarra, segura com a mão esquerda... um copo de bebida. 

Naturalmente, Publicidade e Redação são departamentos diferentes. E, mesmo, ninguém é perfeito. 

Por sinal, na edição em que o alerta contra o alcoolismo é capa, e que não poupa nem a cervejinha ao falar da dependência, a segunda capa tem um anúncio do cigarro Free, que emenda com o corpo da revista (foto de um jovem bem jovem, bonito e saudável, segurando um cigarrinho com a mão direita), e o texto: "Liberdade [maiúsculas, em vermelho, atravessando as duas páginas]. Nunca me tire este gosto da boca. Se tirar, eu mordo. Baixos teores. Questão de bom senso". Ah, sim: na terceira capa o anúncio é diferente. É do cigarro Parliament. (Ver Circo da Notícia.)

A contradição é mesmo desta vida. 

Mas, pensando bem, a abundância de publicidade de bebidas e cigarros é coisa antiga. O que há de novo são boas reportagens que põem o dedo nessas feridas. 



Falta formação humanística 
Trechos de entrevista de Moacyr Scliar

"Veja - Como o senhor vê a tentativa da medicina de encontrar respostas químicas para quase todos os comportamentos?

Scliar - Há nessa atitude um componente da onipotência que por vezes contamina a pesquisa e a prática médicas. De uma perspectiva histórica, o fenômeno é explicável pelo fato de a medicina científica ser algo recente, que ainda inspira um entusiasmo desmedido, como qualquer brinquedo novo.

(....)

Veja - Por que a idéia da pílula mágica faz sucesso?

Scliar - Porque parece ser o caminho mais fácil para preencher esse vazio interior que tomou conta das pessoas neste final de século - vazio que causa uma ansiedade exasperante. A busca da pílula mágica corresponde ao afrouxamento das relações interpessoais, que ficaram muito tênues, difíceis. Em geral, tem-se poucos amigos, a família é uma chateação e os colegas de trabalho só querem saber de puxar o seu tapete. É preciso ver, ainda, que certas doenças e tipos de comportamento ficaram estigmatizados. Depressão, por exemplo. As pessoas simplesmente não toleram a depressão em si mesmas e nos outros. Como em nossa sociedade os indivíduos são constantemente instados a mover-se, a fazer coisas, a tomar decisões, a agir, quem fica sozinho num canto é visto com suspeição. É curioso notar que a forma de consideramos a doença bipolar, em que existe um pólo maníaco e outro depressivo, obedece a uma determinação social.

O pólo maníaco é muito mais aceito pelas sociedades competitivas do que o pólo depressivo. O sujeito que diz que pretende construir um prédio de 500 andares ou que formará uma frota de espaçonaves para fazer pacotes turísticos até a Lua é visto como um empreendedor. Mas se alguém ficar quieto, ensimesmado, não faltará quem diga que algo não está bem, que ele deve tomar alguma providência. E daí o sucesso de drogas como o Prozac.

Veja - Essas drogas não representam uma evolução notável?

Scliar - É claro que existem distúrbios mentais com diagnóstico bem definido. A depressão, em muitos casos, pode ser uma doença grave, capaz de levar à invalidez e ao suicídio. Nesses casos, ela precisa ser tratada com remédios. Noto, porém, que é grande o número de pessoas que procuram médicos não porque estejam doentes, mas porque desejam mudar o seu humor, a sua personalidade. Querem fazer uma maquilagem de seu psiquismo, de seu estado de espírito. o Bem de consumo prometido por muitos psiquiatras é um comportamento standard, de uma alegria plastificada que não dá margem a alterações de humor. Acho interessante que a substância mágica deste final de século sejam os antidepressivos. Podia ser um analgésico poderoso, um tranqüilizante muito forte, mas não. Isso mostra como a depressão é o espectro da modernidade. Para os gregos, a melancolia era um distúrbio dos humores, um excesso do que eles chamavam de bile negra, curável por dietas e purgas. Nada de preocupante. É a modernidade que vê na melancolia uma ameaça à inserção social do indivíduo, à capacidade produtiva. Evidentemente, quem busca em remédios e drogas uma máscara para a alma precisa lembrar que são paraísos artificiais, para usar uma expressão do poeta francês Baudelaire. Essas substâncias podem fazer com que o sujeito se afunde de vez e, o que é pior, com prescrição médica.

Veja - Falta formação humanística aos médicos?

Scliar - Falta. E essa lacuna prejudica sobremaneira a relação com o paciente. As pessoas que hoje vão a um médico o fazem com a mesma expectativa de seus antepassados: encontrar alguém que as ouça. Muitas vezes basta isso. No entanto, o diálogo deu lugar a uma batelada de exames. O resultado é que o médico conversa cada vez menos com o paciente, toca menos na pessoa que o consulta. Houve ganho porque não há toque que substitua uma tomografia computadorizada no caso de um tumor no cérebro. Mas, ao deixar de ouvir e examinar com as próprias mãos o paciente, o profissional da saúde também perdeu sua humanidade. A cultura do médico do passado, que tinha noções de antropologia, era um leitor ávido e muitas vezes escritor, foi substituída pela formação estritamente tecnológica. Nesse caso, houve perda, porque não existe tomografia computadorizada que detecte a infelicidade de um paciente como origem daquele aperto no coração que se traduz em incômodos físicos. Nos Estados Unidos, algumas universidades esboçam uma reação, com um currículo composto de matérias como história da medicina, sociologia e ética. Tentam, assim, alargar o horizonte do estudante e, por tabela, melhorar a comunicação com seu futuro paciente.

Veja - Apesar da busca de um comportamento padrão, nunca se fez tanto a apologia das diferenças individuais. Como o senhor interpreta essa contradição?

Scliar - Essas diferenças são apenas um detalhe, funcionam como um acessório de moda. O que se propõe é uma pitada de individualidade combinada com uma grande dose de homogeneidade. No fundo, o que está por trás das mensagens publicitárias, da ênfase na criatividade no trabalho, é uma espécie de slogan esquizofrênico: 'Seja diferente: seja igual'. As ditaduras exercem o totalitarismo mediante a prisão, a tortura, a censura, as máquinas de extermínio. Já o que vou chamar de totalitarismo democrático se dá por meio do consumo, que homogeneíza padrões estéticos, de comportamento, de gosto. Arrisco dizer que essa necessidade de padronizar tudo guarda íntima relação com o prolongamento da adolescência, um fenômeno visível a olho nu.

Na adolescência, todos querem pertencer à mesma tribo, falar a mesma língua, experimentar os mesmos sentimentos. Como tais necessidades satisfazem mais às exigências do mercado, essa fase da vida vem sendo esticada no plano cultural e social. Esse modelo do adolescente cheio de energia, com vontade de unir-se indissoluvelmente a um grupo, rápido no gatilho, encanta a sociedade contemporânea. No passado, a figura que servia de modelo era a do velho experiente. Isso terminou porque a sabedoria foi substituída pela informação mastigada. Hoje, ninguém está interessado em ruminar o sentido da vida. Uma figura representativa deste nosso tempo é Bill Gates. Ele é o eterno adolescente, o prestidigitador capaz de fornecer respostas e sensações instantâneas."

("Paraísos artificiais", entrevista a Mario Sabino, Veja, 28/5/97.)

Sempre te vi, nunca te amei 

Victor Gentilli, jornalista, professor da UFES


- Conhece a diferença entre um médico e um jornalista?

- Não.

- É que o médico se acha Deus.

- E o jornalista?

- Tem certeza de que é!

No Espírito Santo, dias 5 e 6 de junho, a Universidade intrometeu-se onde não foi chamada. Reuniu médicos e outros profissionais de saúde, jornalistas, assessores, militantes de ONGs para debater o jornalismo de saúde praticado localmente. Mexeu num vespeiro - ou melhor, qual é mesmo o coletivo de Deus?

Anedotas à parte, o workshop Jornalismo, Cidadania e Saúde foi incrivelmente rico, mas gerou desconforto, mal-estar, incômodo e tensão. Afinal, um elemento estranho introduziu-se numa relação entre duas áreas profissionais que se relacionam bastante mas não se bicam. A experiência, que julgo pioneira, induziu artificialmente um diálogo que em circunstâncias normais jamais ocorreria.
 
 

Jornais e hospitais se assemelham na organização de sua rotina. Ambos só processam fenômenos idiossincráticos, como lembra Gaye Tuchman. Em outras palavras, o "normal", o previsível, sem novidade, fica de fora. O que foge da normalidade, no jornal é notícia, no hospital é paciente. Se é o mais grave de todos, no jornal vai para a manchete, no hospital para a mais equipada UTI. De qualquer forma, há outros espaços na primeira página ou outras UTIs, para aqueles igualmente graves, mas não o maior de todos. Se é simples, fica na geral, seja a editoria, seja a clínica. Se tem alguma especificidade, vai para a especialidade e suas sub-especialidades. Economia ou Esportes são grandes especialidades. Finanças e Futebol, sub-especialidades. Pediatria é uma entre tantas especialidades, igualmente com suas subs.

Os profissionais de ambas as organizações - jornais e hospitais - trabalham com um sentido de urgência que outros profissionais desconhecem. As operações e matérias realmente urgentes não podem ficar para o dia seguinte (embora matéria tenha deadline, operação não). Tal circunstância impõe rotinas, hierarquias, plantões, tudo muito parecido, mesmo que completamente diferente. Tenta-se prever tudo com antecedência, para que o processo não seja paralisado.

Embora trabalhe-se com alta previsibilidade, a organização está sempre preparada para o imprevisível, eis a matriz da urgência, seja ela médica ou jornalística. Além disso, o erro muitas vezes é incorrigível. Aliás, todo este conjunto de circunstâncias impõe uma concepção de erro às vezes diferente daquela do cidadão comum.

O erro é sempre grave. Porque ambos os profissionais, o médico e o jornalista, trabalham em relação direta com outros seres humanos. Perguntam, entrevistam, atendem, enfim: dialogam com o outro e o resultado do trabalho tem um dos seus pilares nesta relação. O fato é que, para o homem comum, ser o "outro" na relação com médico ou jornalista é sempre preocupante. O profissional, domina um saber, uma técnica ou um poder que quase sempre incomoda na relação. Tudo isso pode gerar - ou produzir a aparência de - arrogância, prepotência etc.

Grosso modo, o médico não pode ser imperito, imprudente ou negligente; o jornalista não pode cometer calúnia, injúria ou difamação. A falta de rigor, a imprecisão são erros graves, para ambos.

Apesar de todas estas semelhanças, há uma diferença fundamental no trabalho de médicos e jornalistas. Os jornalistas operam essencialmente as ocorrências da chamada esfera pública. Ou melhor (pior?), seu trabalho faz as ocorrências selecionadas como noticiáveis tornarem-se públicas. Por outro lado, os médicos operam essencialmente na esfera privada. E quando tornam públicas suas ocorrências, cometem delitos éticos.

A pessoa comum - que podemos chamar também de "homem privado", de leitor, de cidadão, em geral, quer distância dos dois. Embora consuma o produto final do trabalho do jornalista, inclusive quando ele trata de assuntos de saúde. Porque ele sabe que, se na vida tudo andar direito, ele tem risco quase zero de ser o "outro" do jornalista. Uma vez ou outra, pode vir a ser o "outro" do médico. Neste caso, a palavra escolhida já diz tudo: paciente.

O chamado "homem público" quer distância apenas do médico. Gosta muito de um jornalista por perto. No entanto, quando freqüenta o consultório, quer o jornalista o mais longe possível. O "homem público" gosta do jornalista por perto apenas no seu momento público de vida. Norberto Bobbio, este vecchio fantástico, já mostrou em um de seus livros que a distinção público x privado é mais complexa do que se pensa porque a expressão público pode ter dois sentidos, radicalmente distintos: oposto de privado e oposto de secreto. Vale a pena os jornalistas pensarem um pouco nisso. Os médicos e os leitores, também. 

Os problemas de saúde, hoje, exigem muita informação pública, muita comunicação: Aids, dengue, meningite e outras pandemias, epidemias ou endemias (o jornalista sabe a diferença entre uma e outra?) têm na informação um dos seus elementos decisivos. Esta publicização, no entanto, não pode invadir o terreno privado. Este o elemento decisivo para a ética, a chave que desvenda o fator unificador tanto da ética médica quanto da ética jornalística.
 
 

o O o
 
 

O workshop dos dias 5 e 6 de junho, que me propiciou pessoalmente estas reflexões, foi fruto de uma parceria entre o professor Bernardo Kucinski, da ECA-USP, bolsista da Fundação MacArthur, e o autor deste texto, coordenador de uma pesquisa sobre o noticiário de saúde e educação nos jornais impressos diários do Espírito Santo, A Gazeta e A Tribuna, patrocinada pela Prefeitura Municipal de Vitória. Igualmente pesquisador do tema, o bolsista de Iniciação Científica Ademir Pereira da Cruz Jr. coordenou o evento.

O workshop contou com três módulos. No primeiro, na tarde de 5 de junho, o jornalista Bernardo Kucinski apresentou seu projeto de criação de cursos de graduação, pós-graduação e extensão em jornalismo de saúde. O relato de uma pesquisa que envolveu os estudantes Andréia Silva Lopes, Luciana Cristina Pereira, Ademir Pereira da Cruz Jr. e Leonêncio Nossa Jr. foi o mote para a discussão. O professor Victor Gentilli e o pesquisador Ademir Pereira apresentaram os resultados parciais da pesquisa que envolveu todo o noticiário de saúde nos dois jornais diários do ES de julho de 1996 a fevereiro de 1997. 

A pesquisa estudou todas as notícias (num total de quase 850) que tinham relação com o tema saúde em todas as editorias. Um dos estudos feitos foi relativo à presença de fontes. De um modo geral, as fontes oficiais e a população em geral são as fontes mais presentes, representando, grosso modo, 50% da vocalização expressa no noticiário. O movimento sindical e os especialistas na área representam juntos algo em trono de 25% das fontes citadas. Os movimentos sociais e as Organizações Não-Governamentais estão praticamente excluídos do noticiário. O grupo Pela Vidda, ONG de apoio a doentes de Aids, é a única ONG presente no noticiário. Todas as fontes com presença marcante no noticiário foram entrevistadas demoradamente pelos pesquisadores e evidenciaram as suas dificuldades de relacionamento. De um modo geral, a pressa, a urgência dos jornalistas foram muito criticados. Alguns chegaram a observar uma quase chantagem expressa na expressão "vou publicar a matéria amanhã e se o senhor não falar vou publicar que o senhor não quis falar à imprensa".
 
 

Jornalismo declaratório e pautas perdidas

De forma resumida, a pesquisa apontou as seguintes conclusões:
 

1. A ênfase no jornalismo declaratório é ostensiva. Ela se agrava no fato de que grande maioria das fontes são oficiais.

2. A única ONG presente, o Grupo Pela Vidda, movimenta-se para ter presença na imprensa. ONGs importantes na área de saúde, como Alcoólicos Anônimos, Centro de Valorização da Vida, grupos de apoio a hansenianos, a tuberculosos, a fissurados, entre outros, estão ausentes do noticiário.

3. Embora o estado produza material de qualidade em pesquisa de doenças tropicais e fisiologia cardiovascular - duas pós-graduações muito bem avaliadas pela Capes - suas pesquisas e seus pesquisadores estão totalmente ausentes da imprensa. Perdem-se pautas excelentes sobre hanseníase, tuberculose, malária, leishmaniose, esquistossomose e outras, praticamente ausentes da pesquisa no período pesquisado.

4. Há uma dificuldade de diálogo muito grande entre jornalista e fonte. Particularmente com os especialistas. A desconfiança é mútua. 

5. Apesar do espaço para o noticiário de saúde ser relativamente grande, ele não conta com editoria própria nem repórteres especializados. Violência, esportes e cultura, por exemplo, têm editorias e jornalistas especializados. Saúde divide espaços com educação, meio ambiente, transporte, trânsito, clima, serviços, feriadões, etc. numa editoria chamada geral ou cidades.

6. Registre-se o espaço para a saúde nas reportagens especiais de A Tribuna (que, aliás, desmentem aqueles que dizem que a grande reportagem morreu) e a seção Medicina publicada aos domingos por A Gazeta. Em A Tribuna, a maioria das matérias é assinada por Giovana Rangel. Em A Gazeta, a seção é de responsabilidade da free-lancer fixa Denise Gonring. Tal seção na maioria das vezes é editada sem destaque, abaixo de uma coluna adquirida da agência JB.

Os jornalistas, com exceção das acima citadas e de uns outros poucos, não estão preparados para a cobertura. Seja pelas condições de trabalho, seja pela própria cultura profissional. Da mesma forma, os profissionais de saúde não estão sensibilizados para a importância da informação pública produzida pelo jornalismo para a melhora das condições de saúde da população.
 

Pressa X insensibilidade

No segundo dia, pudemos ver a avaliação dos participantes diretos do noticiário.

Dia 6, uma mesa-redonda reuniu as duas editoras de geral/cidades dos dois jornais, Tanit Mário, de A Gazeta, e Alelvi Carneiro, de A Tribuna, a presidente do CRM (Conselho Regional de Medicina) capixaba, Sandra Martins, os secretários municipal e estadual de saúde, Anselmo Tose e Luís Carlos Ciciliotte (este último subsecretário) e o coordenador da pós-graduação em doenças infecciosas da UFES, Reinaldo Dietze. 

Os problemas de comunicação apontados individualmente nas entrevistas com os pesquisadores foram expostos num momento em que os profissionais estavam frente a frente. Os médicos enfatizaram os erros dos jornalistas, a pressa, o poder autoritário do jornalista. Os jornalistas esforçaram-se por produzir explicações para os problemas apontados. E observaram a falta de sensibilidade dos médicos com as circunstâncias de sua atividade profissional.

Por fim, uma sessão de relatos de 'casos' extremamente rica: assessores, jornalistas e médicos relataram suas experiências.

A iniciativa do Nexo - Núcleo de Estudos, Pesquisa e Extensão da Universidade Federal do Espírito Santo não se encerra aí. O trabalho certamente terá desdobramentos em outras iniciativas.

Uma delas é um workshop sobre jornalismo e educação, previsto para breve, com a segunda parte da pesquisa. 



Imprensa não assimilou conceito de Saúde universal 
Ricardo de Menezes Macedo - presidente do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais


É impressionante a visão oficialista da imprensa em relação ao tema Saúde. Entendo que esse vício não ocorre apenas pela escassez de crítica. Acontece que, historicamente, no Brasil, o acesso à Saúde sempre trilhou os caminhos da produção do capital.

Na chegada do primeiro médico às terras brasileiras, em 1543, seu trabalho era voltado para a saúde dos que detinham poder e para os que necessitavam possuir uma vida saudável a fim de que pudessem produzir riquezas. Na industrialização do país, quando se deu o controle de grandes epidemias, o foco da assistência à saúde ocorreu nas indústrias e nos portos, objetivando melhorar a qualidade de vida daqueles que produziam capital. Assim aconteceu com os institutos previdenciários - somente os trabalhadores formais possuíam a carteirinha do Inamps e podiam usufruir do sistema público de saúde - e, mais recentemente, é o que pretendem os atuais planos de saúde privados, em que só quem puder pagar terá acesso à saúde.

Aqueles que não tinham real importância na produção de riquezas eram os chamados indigentes, atendidos por instituições filantrópicas e notadamente hospitais públicos, sem qualquer proteção legal.

Foi com a Constituição de 1988 que a Saúde passou a ter uma concepção de universalidade. Pela primeira vez, no país, o acesso à Saúde Pública não dependeria do papel desempenhado pelo cidadão na força de trabalho, mas do fato de ser simplesmente gente.

Mas, por não ter ainda assimilado essa inovadora e democrática concepção de Saúde - formalizada sob a sigla SUS (Sistema Único de Saúde) -, a imprensa nacional continua abordando o assunto sob a antiga concepção de Saúde enquanto garantia para quem produz, negligenciando o principio de que Saúde é um direito constitucional.

A assimilação de um conceito novo é sempre lenta. Isso é compreensível. No entanto, há que se ter em mente que o que está em jogo, no momento, é a manutenção ou não desse sistema, já que a reforma da Saúde pretendida pelo governo federal, notadamente na Reforma Administrativa e no projeto de regulamentação dos planos de saúde, tem na sua essência a privatização do sistema, abrindo a oferta de leitos hospitalares para ser regulada pelo mercado.

O governo, alegando que a universalidade é incompatível com a possibilidade de financiamento do sistema, propõe, através de dois mecanismos, as Organizações Sociais e a Regulamentação dos Planos de Saúde, uma "parceria" com o sistema privado. Com isso, tenta-se garantir o atendimento público de Saúde apenas à população pobre, oferecendo-lhe uma cesta básica da Saúde e deixando os cuidados especiais para o esfomeado mercado, o qual poderá escolher quem ocupará determinado leito hospitalar, por exemplo. Assim é que o governo federal coloca a população mais pobre e obviamente com menos poder político numa condição de suposta importância, enquanto, na verdade a está condenando à morte, por não ter o menor poder ou importância num mercado que lhe é hostil.

O que se pretende é a absurda e desumana volta da indigência. A supremacia do mercado sobre a própria vida. Ora, saúde não é mercadoria! O Sistema Único de Saúde (SUS) tem uma das legislações mais avançadas sobre direito constitucional, controle social e eficiência por combate às fraudes que existe em todo o mundo. No entanto, falta-lhe um financiamento adequado para que efetivamente funcione, como pretende a "Emenda Constitucional 169" a ser votada no próximo mês de setembro, no Congresso Nacional.

A imprensa ainda está subordinada ao pensamento administrativo vigente e acompanha com poucas críticas o avanço da privatização da Saúde. Algumas Santas Casas já perderam a Misericórdia que adotavam nos seus nomes. Isso é muito sintomático, já que o fim da misericórdia se deu com o ingresso das instituições filantrópicas na política de mercado. A imprensa não pode perder a crítica, atualmente reduzida a questões morais, para permitir a volta da indigência. Ainda não assimilaram a Saúde como um direito fundamental.

A Europa já despertou suas atenções para a necessidade de políticas sociais. Nos campos político e intelectual, vários setores da sociedade se mobilizaram para o resgate do pensamento humano, pela valorização dos direitos do trabalho e à vida. Chegar ao primeiro mundo parece que tem outros caminhos que não apenas a subserviência a uma economia brutalizada. 



Pequenos curativos 
M.M.


Veja publicou na edição de 14/5 uma reportagem ("A peso de ouro") em que consultas médicas são apresentadas como artigos de consumo de luxo.

Anotem-se, como se fossem pequenos curativos, as seguintes imprecisões:

1. O médico cuja consulta tem preço mais elevado (Geraldo Medeiros, R$ 1.200,00, endocrinologista), é apresentado como "professor titular da Universidade de São Paulo", mas não o é. Há alguns meses perdeu um concurso para titular na USP. 

2. O médico Walter Guerra Peixe (consulta a R$ 280,00) foi afastado da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

3. A médica Mariana Jacob (geriatra, consulta a R$ 600,00) escreveu na semana seguinte a Veja - a carta foi publicada - desmentindo que Roberto Marinho tenha sido um de seus clientes, como está no crédito junto a sua fotografia e no texto.

4. A reportagem não menciona que, em sua maior parte, os exames solicitados nos consultórios-ribaltas, que tornam as consultas mais caras, são considerados ilusórios pelos chamados "médicos tradicionais". 

Mas, como diz um dos médicos incensados por Veja, "cinqüenta por cento da minha clientela é de artistas e políticos. Eles dão entrevista, falam meu nome na televisão e atraem novos pacientes".

Com certeza. Entre os luminares científicos e intelectuais citados na revista para atestar a competência dos médicos de luxo estão, além deles mesmos, Hebe Camargo, Luma de Oliveira, Marcelo Serrado, Marcelo Novaes, Diogo Vilela, Luiz Fernando Guimarães, Letícia Spiller, Luiza Brunet, Ricardo Amaral e Cláudia Raia. Quantum satis para Veja publicar a reportagem.
 

"O erro começa na pauta" 

entrevista da Dra. Sandra Martins a Andréia Silva Lopes e Ademir Pereira da Cruz Jr.


Durante um ano, quatro estudantes de jornalismo pesquisaram atentamente o noticiário de saúde e educação nos jornais diários do Espírito Santo. A pesquisa, apoiada pelo Facitec - Fundo de Apoio à Ciência e Tecnologia da Prefeitura Municipal de Vitória, buscou avaliar o noticiário sob uma série de parâmetros. Uma das novidades da pesquisa em relação às pesquisas de jornalismo de um modo geral foram as entrevistas com as fontes de informação. 

O OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA publica os principais pontos de entrevista com Sandra Martins, médica pediatra, hoje presidente do CRM-ES (Conselho Regional de Medicina) e professora de pediatria do curso de Medicina da Universidade Federal do Espírito Santo. Os jornalistas capixabas, grosso modo, não gostam de entrevistar Sandra. Alegam que ela pede para ler a matéria antes, que não confia nos profissionais de imprensa. Na entrevista, realizada em fevereiro de 1997, ela fala ainda como "especialista" no assunto, não como presidente do CRM, pois ainda não tinha tomado posse no cargo. 

Victor Gentilli 
 

"Acho que o erro começa pela definição da pauta", entrevista de Sandra Martins 

Pesquisador - Os jornalistas vêm bem preparados para as entrevistas?
Sandra Martins - O que acontece é que o jornalista quer fazer consulta de tudo, sobre o assunto que foi pautado, com o médico. Tenho, muitas vezes, a impressão de que ele não leu nada sobre o que está perguntando. Outra situação que ocorre é ele abandonar a entrevista e começar a fazer perguntas de seu interesse, parecendo que ele está se consultando. -Olha, eu conheço uma pessoa que têm esse problema, a senhora sabe o que ela poderia fazer...

Percebo também falta de embasamento do jornalista para fazer a entrevista e interpretar as declarações. Isso acaba se refletindo nas matérias. Por exemplo, o médico pode citar uma descoberta científica para ilustrar uma explicação, ou falar de um caso raro, mas é algo que todos os médicos já estão fazendo, em qualquer sala de atendimento. Já vi casos que os jornalistas colocam isso na matéria como sendo uma grande descoberta, atribuindo, inclusive, ao médico entrevistado. Isso é muito complicado, pois parece que o médico está usando a imprensa para dizer uma coisa que todo mundo já sabe, já disse, como se fosse uma coisa sua, uma descoberta, uma coisa única. 

Pesquisador - Isso é muito comum na cobertura de Saúde pelos jornais capixabas?
Sandra Martins - Muito. Acho que o erro começa pela pauta, na definição dela. Parece que o jornalista nos procura mas não sabe muito o que quer descobrir. Ele sai com uma pauta tão abrangente que é difícil apurar alguma coisa. Aí fica aquela situação, ele não sabe o que perguntar e o entrevistado não sabe o que responder, fica aquele diálogo perdido. 

Pesquisador - Então, falta uma pauta mais direcionada?
Sandra Martins - Sim, mas acho que isso também é um problema, pois para direcionar uma coisa você tem que conhecer o geral, porque senão você perde a crítica de novo. Mas, enfim, não vou ensinar jornalismo. 

Pesquisador - O ensino de jornalismo teria alguma relação com essa situação?
Sandra Martins - O ensino superior de modo geral tem problemas. Falta uma maior bagagem cultural. Cultura geral, mesmo, para as pessoas que estão na Universidade, tanto alunos como professores. E isso se reflete no que vai ser ensinado e aprendido. 

Pesquisador - Mas o que se deveria ter num curso de Jornalismo?
Sandra Martins - Muita leitura geral, desde filosofia até leitura sobre as várias Ciências. Se nas outras formações é importante ter essa bagagem de cultura geral, para o jornalista é fundamental. 

Pesquisador - Como seria uma matéria de Saúde que a senhora gostaria de ler nos jornais?
Sandra Martins - Elas deveriam ser precisas e privilegiar o conteúdo. Assim, o próprio médico poderia aprender com a cobertura de Saúde.

Pesquisador - Como é caracterizada essa precisão nas matérias?
Sandra Martins - Elas deveriam ser informativas, ilustrativas. Isso acontece na Times. Inclusive, nos EUA parece que quem escreve sobre Saúde são pessoas que têm formação na área, pois lá não precisa ser graduado em jornalismo para trabalhar nos jornais, basta ter feito uma especialização, um curso de pós-graduação. 

Pesquisador - Há algum jornais que apresente notícias próximas desse modelo?
Sandra Martins - Não sei. Vejo algumas coisas interessantes e outras desprezíveis. Mas o caráter do jornal também é diferente. Ele é mais noticioso, cobre mais o fato, a revista parece que aprofunda mais a discussão e fornece mais conhecimento. Só que o jornal também deveria fazer isso. 

Pesquisador - E como é sua avaliação dos jornais capixabas, A Gazeta e A Tribuna?
Sandra Martins - Quando a notícia é sobre o que está acontecendo vai tudo bem. Mas, quando se apresenta uma questão que necessita ser comentada, discutida, fica complicado. Por uma questão simples: falta de conhecimento. 

Pesquisador - Como poderia ser melhorada a cobertura de saúde pelos jornais?
Sandra Martins - O jornalista deveria se instruir mais, consultar os arquivos, tentar entender o básico do assunto que ele pretende escrever. Feito isso, seu trabalho será facilitado, pois ele gastará menos tempo para elaborar a notícia, já que ele teria uma melhor definição do que pretende escrever. 

Pesquisador - Como é sua avaliação sobre o espaço que o tema saúde ocupa nos jornais?
Sandra Martins - Podia ser melhor, mas o grande problema do jornalismo praticado na área não é quantidade, também é quantidade, só que o pior é a qualidade. 


Vítor Buaiz: "A imprensa não
mostra as razões da crise na saúde"

Entrevista concedida a Andréia Lopes, Leonencio Nossa Júnior e Luciana Cristina Pereira


O governador do Espírito Santo, Vítor Buaiz, reclama do jornalismo feito de fragmentos e que, por isso, não reproduz fielmente suas declarações, acha que a imprensa local não faz autocrítica e precisa de um ombudsman. Para ele, a imprensa não mostra as razões pelas quais os serviços públicos de saúde têm problemas.

Às vésperas da Semana Santa, três estudantes de jornalismo da UFES, pesquisadores do projeto "Avaliação Crítica do Jornalismo Impresso Capixaba: O Noticiário de Saúde e Educação" foram atendidos pelo governador do Espírito Santo, Vítor Buaiz, para a entrevista abaixo.

O governador Vítor Buaiz é médico e professor universitário. Sua história política é longa; sua vida pública iniciou-se como presidente do Sindicato dos Médicos. Foi deputado federal Constituinte e prefeito de Vitória, pelo PT. Durante toda esta longa convivência, Vítor ganhou traquejo na relação com jornalistas, dos jornais locais e dos jornalões, mas, conforme se vê na entrevista, não perdeu a visão crítica, o que ocorre com muitos que convivem diariamente com jornais e jornalistas.

Victor Gentilli
 

Como o senhor conceberia o jornalismo ideal?
É aquele jornalismo que informa a verdade para toda sociedade e ajuda a sociedade na fiscalização dos serviços públicos e na atuação da classe política. O jornalismo ideal é aquele que leva a verdadeira informação, não manipulada e que possa dar credibilidade àqueles que lêem jornais.

Os jornais locais, A Gazeta e A Tribuna, se aproximam desse modelo ou se afastam?
Em determinados momentos nós vemos que a imprensa local tem alguns desvios para a tendenciosidade. Mas isso também é muito comum na imprensa nacional.

O senhor conhece modelos de jornais nacionais que se aproximam mais desse modelo que o senhor define como ideal?
É difícil dizer que esse modelo é ideal quando você não tem nos jornais a figura do ombudsman. A Folha de S. Paulo é bem autocrítica. Quanto à atuação, a maior ou menor, do ombudsman, isso significa o melhor ou pior jornalismo que se faz no país.

O senhor acha que os jornais capixabas abrem espaço para uma autocrítica?
Nós não vemos esse espaço nos jornais.

Como o senhor avalia o jornalismo específico sobre saúde e educação no Estado?
As informações muitas vezes são distorcidas. Ele não exibe a realidade das causas que levam os serviços de saúde e educação a não funcionarem com eficiência. Veja por exemplo, quando se fala em atendimento à saúde, a imprensa logo procura centrar fogo em cima do hospital São Lucas [hospital que funciona como centro de referência para Pronto Socorro na Grande Vitória].

Criticar o Estado é mais fácil que criticar a iniciativa privada no noticiário de saúde?
Sem dúvida. A iniciativa privada atende quando bem entende. O serviço público não, ele tem que atender a todos, sem distinção. Essa questão tem sido colocada na imprensa muitas vezes de forma distorcida e isso acaba prejudicando a análise crítica que a sociedade faz do serviço de saúde. Além do mais, sempre colocam o governo no centro das discussões, deixando a União e os municípios de lado. Se não tem o recurso financeiro do governo federal o serviço não funciona bem. Se o município não dá atendimento nas ações básicas de saúde, sobrecarregam-se os hospitais. Por isso, estamos trabalhando numa campanha para incentivar as ações básicas da medicina preventiva. Para evitar que as pessoas tenham que recorrer ao serviço muito mais caro, que é o serviço hospitalar.

O senhor acha que os repórteres reproduzem com fidelidade as suas declarações?
Nem sempre. Eu estou dando uma entrevista para você e vamos supor que ela tenha uma página. De repente o repórter pinça uma frase que eu falei e coloca como a coisa mais importante da matéria. Aí a entrevista fica prejudicada.

Isso acontece com muita freqüência?
Vamos dizer que isso acontece em 40% dos casos.

Então a imprensa não pratica análise investigativa?
Ela é limitada. Não cumpre totalmente, cumpre parcialmente o seu papel.

A visão que o senhor tinha do Estado nos jornais há dez anos, antes de o senhor ser prefeito de Vitória e governador, é a mesma que o senhor tem hoje?
Uma coisa é a imprensa num regime autoritário, com censura. Outra coisa é a imprensa livre. A imprensa no regime autoritário teve um papel fundamental. Era uma trincheira de lutas para a democracia.

O senhor acha que médicos e professores encontram a imprensa como uma mediador para negociar com o governo?
Todo setor da sociedade tem a imprensa como mediador. Isso não significa dizer que o governo não está aberto para o diálogo com essas categorias. O contato é feito permanentemente através dos secretários. Só que muitas vezes os sindicalistas transmitem à imprensa fatos que não são verdadeiros. É uma tentativa de ganhar a opinião pública. Essa tentativa de manipular a informação por parte dos sindicatos faz muitas vezes com que a opinião pública fique confusa. Não sabe de que lado está a razão: se é o governo ou o sindicato que está falando a verdade.

A imprensa trabalha muito com o conceito da emoção coletiva...
É claro que sim. Muitas vezes a imprensa explora isso demais. Eu acho que a televisão, principalmente, apela para a emocionalidade. Quando entra dentro do pronto-socorro, focaliza o paciente deitado, sangrando, desmaiado. Isso é totalmente contra a ética jornalística e a ética médica. Eu como médico não tenho o direito de expor um paciente sem que a família tenha autorizado. No ano passado, a televisão mostrou um paciente no São Lucas tendo uma crise convulsiva. É lamentável. É profundamente lamentável tanto da parte do médico como da parte do jornalista que faz uma matéria dessas.

Quais seriam então as maiores dificuldades que o governo encontra para informar a população através da imprensa?
Comunicação é uma coisa cara. Trinta segundos na televisão custa muito dinheiro. No jornal impresso é a mesma situação, o governo não pode ficar produzindo matéria paga. Até mesmo porque matéria paga é uma coisa que as pessoas olham meio de lado.