Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina 

 

JORNALISMO EM SAÚDE
ENTRE O ETHOS E A MÍDIA: MEDULLA

Ana Beatriz Marinho de Noronha
ana.noronha@ensp.fiocruz.br
Carlos Cesar Leal Xavier
caco@pobox.com
Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp)
Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)


A falta de uma compreensão mais exata da questão da Comunicação e, mais precisamente, do Jornalismo em Saúde resulta, geralmente, num imenso desconforto dos profissionais da Saúde para lidar com a mídia, acarretando uma enorme perda do grande potencial que a comunicação tem para a ampliação do controle social e, conseqüentemente, para o fortalecimento do SUS.

Entre o ethos e a mídia: medulla
De acordo com o Dicionário Grego-Português e Português-Grego de Isidro Pereira, existem três sentidos básicos para a palavra ethos. O primeiro – morada, instância, residência – nos  remete à idéia de ‘lugar’, ‘raiz’, e à noção de pertencimento e acolhimento. O segundo – uso, costumes –, está ligado à prática e a ações ou modos de agir segundo certos hábitos. Por fim, o terceiro – caráter –, refere-se a uma certa natureza interna e a modos de ser. Uma síntese desses três sentidos, que conjugasse as noções de ‘natureza’ (essência) e de ‘cultura’ (acidente), nos leva a uma noção de ethos como ‘um lugar e um pertencimento’, uma ‘natureza e um caráter’, e também ‘um modo de agir segundo costume’. Logo, para se analisar as práticas de jornalismo em saúde existentes e compreender a distinção entre esta e outras formas de comunicação em saúde é necessário, primeiramente, investigar seu lugar de fala; seu público; seu objeto e sua finalidade.
Um segundo passo seria entender como se relacionam os conceitos de ‘comunicação’, ‘informação’ e ‘educação’ e o conceito ampliado de Saúde (qualidade de vida). O termo informação, segundo o Dicionário de Comunicação (Barbosa & Rabaça), está relacionado ao conteúdo das mensagens e a uma determinada função, sendo retida se for for necessária e compreensível (significativa). Cícero (106 – 43 aC), no entanto, usava o termo latino informare quase como um sinônimo de ‘educar’, ‘instruir’: ‘formar no espírito’ e ‘formar o espírito’. Informar, portanto, pode ser considerado ‘educar’, se acreditarmos na educação (formação) como a prática de proporcionar o encontro do mundo com os sujeitos e destes com o mundo por meio da informação, tornando-os capazes de produzir mudanças em si e nos outros (trans-formação). Com relação à comunicação – do latim communicare: ‘tornar comum’, partilhar, repartir, trocar opiniões – um de seus significados, ela define, entre outras coisas, uma prática profissional voltada para a utilização de conhecimentos e técnicas envolvidas nos processos de troca de informações.
Reconhecer a estreita relação que acaba se constituindo entre ‘comunicar’ e ‘educar’ evitaria que os profissionais da educação comprometessem os conteúdos a serem compartilhados em sala de aula por não reconhecerem e compreenderem os processos dialógicos e interativos envolvidos em sua prática e que os profissionais da comunicação veiculassem formas vazias e destituídas de poder de produção de crítica, reflexão e transformação.
A comunicação, como prática profissional, abrange diferentes especializações e pode utilizar diferentes meios, mas não pode ser reduzida a eles. Mais do que identificar a comunicação com os meios – do latim medium (‘o que está no meio’, ‘centro’, ‘o cerne’, ‘o que está acessível a todos’) – que ela pode utilizar, devemos considerá-la como mediação – do latim mediatione (ação resultante do verbo mediare) – a fim de compreender sua forte conotação de ação completa, de integração entre partes e, por fim, como espinha dorsal – do latim medulla do corpo social.
A relação entre Comunicação e Saúde na prática da Comunicação em Saúde pode ser traçada primeiramente pelo que está fora dos seus limites, ou seja, pelo que ela ‘não é’. Comunicação em Saúde não é meramente uma prática de comunicação cujo conteúdo é a saúde; não é uma sub-área da Saúde; não é a aplicação, no pior sentido, de uma técnica (um meio) aplicada à saúde na busca de algo que se poderia dizer ‘comunicação para a saúde’; não é um simples somatório de áreas, na qual cada uma permanece estática em si mesma. A Comunicação em Saúde, como uma nova área de conhecimento, tem conformação própria e nasce no espaço de intercessão entre as outras duas, sendo muito mais do que a mera sinergia entre elas, cada uma com seus princípios e saberes.

Jornalismo em Saúde
Perceber o que o diferencia o jornalismo das outras modalidades de comunicação – finalidade, público alvo e, conseqüentemente, a linguagem que utiliza e os princípios que regem a sua prática – acaba sendo fundamental para a construção de critérios de julgamento e avaliação do jornalismo em saúde, suas motivações, implicações e conseqüências em relação à área científica e de saúde e em relação à sociedade. Uma vez caracterizado o Jornalismo em Saúde, acreditamos que qualquer análise mais específica deve ser feita a partir de três conceitos básicos.
O primeiro é o de verdade do fato jornalístico, relacionado diretamente aos mitos da objetividade, credibilidade e neutralidade do discurso jornalístico. No jornalismo, a verdade, do grego aléthea, aparece não no seu sentido latino de veritas como adequatio, identificação com uma pretensa ‘realidade’, mas no sentido de desvelamento e interpretação. A verdade não reside no fato em si e a construção da realidade se dá por meio das inúmeras versões que se tem do fato. Na impossibilidade de uma única ‘Verdade’, os jornalistas devem expressar o maior número de ‘verdades’ (versões) possíveis, a fim de aproximar o fato jornalístico da realidade. Os leitores, por sua vez, devem saber que o que está escrito é apenas uma das infinitas possibilidades e que nenhum discurso é neutro, pelo fato de ser subjetivo até quando busca a mais completa objetividade.
A segunda questão está ligada à aplicação no jornalismo do princípio da precaução – conceito balizador da ética na pesquisa científica que afirma que “na ausência da certeza científica formal, a existência de um risco de um dano sério ou irreversível requer a implementação de medidas que possam prever esse dano” – e à retomada do princípio da responsabilidade, proposto por Hans Jonas nos anos 80. Para ele, na impossibilidade de pacientes e participantes de pesquisas terem condições de entender adequadamente os riscos que lhes são propostos, caberia aos pesquisadores, a responsabilidade de informá-los e resguardá-los dos riscos previsíveis. Nesse caso, não é possível ignorar os riscos inerentes à divulgação errônea ou até mesmo da não divulgação de certas informações pelos meios de comunicação e a responsabilidade dos profissionais envolvidos na transmissão de informações para a sociedade.
Por fim, retomando a função educativa da comunicação, é preciso que analisemos a prática do jornalismo em saúde segundo sua contribuição para a formação de sujeitos capazes de transformar a sociedade, ou seja, para a construção da cidadania.

Conclusão
A utilização das categorias e conceitos propostos permite de imediato um novo olhar sobre a prática do Jornalismo em Saúde, percebendo-se com muito mais clareza de que forma esses conceitos são apropriados pelos diferentes veículos segundo seu ethos particular.
Um mesmo fato na área da saúde, portanto, será apurado, compreendido, tratado e divulgado de forma tão distinta pelos vários veículos que muitas vezes chega-se a duvidar que se trate realmente de um mesmo fato. Como já está decretada a inexistência de uma única e objetiva verdade no ‘mundo da vida’ e, conseqüentemente, no discurso jornalístico, o que poderia parecer uma falha acaba se tornando a única maneira de se chegar a um desvelamento do próprio fato por meio de suas várias versões e interpretações.
Apesar de todos os profissionais de comunicação terem consciência do poder da informação para o bem e para o mal, percebemos que o Princípio da Precaução é muitas vezes ignorado ou subordinado a outros interesses, entre eles o lucro e as ideologias. Como profissionais de jornalismo e pesquisadores da área de Comunicação, no entanto, insistimos na  necessidade de se incorporar definitivamente, na prática jornalística, esses princípios já consagrados no meio científico: o de Precaução e de Responsabilidade.
O critério ‘construção de cidadania’ é uma questão mais complexa do que nos permite este estudo. Uma coisa porém é inegável: todos os veículos chamam para si a tarefa de “construir a cidadania”, como se esta fosse uma qualidade intrínseca ao jornalismo e não uma conseqüência de uma certa prática jornalística. Retomando a estreita relação entre a comunicação e a educação e sabendo-se que não é possível haver construção de cidadania sem um intenso processo educativo, conclui-se que o jornalismo só pode de fato cooperar na formação do cidadão se promover a reflexão e o pensar-por-si, característicos da verdadeira educação.
 

Trabalho apresentado no III Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde
Julho de 2005 - Florianópolis, SC.
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