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Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina
“É preciso saber ouvir o balbuciar do outro”
Eymard Mourão Vasconcelos defende a institucionalização da Educação Popular no Sistema Único de Saúde![]()
O educador e médico sanitarista Eymard Mourão Vasconcelos(foto) afirmou que o técnico não pode abafar a voz da população e deve construir soluções a partir do diálogo e da compreensão do que já existe na vida da comunidade. “A Educação Popular é uma das formas de encarar a Educação em Saúde, de viabilizar uma construção compartilhada de soluções para problemas no campo da saúde”, disse Eymard no II Encontro Nacional dos Servidores que Atuam na Área de Educação em Saúde promovido pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) de 11 a 14 de dezembro de 2007 em Belo Horizonte. Para ele, o educador precisa superar as limitações institucionais - os chamados “caixotinhos” – e atuar na interdisciplinaridade. Eymard Mourão é membro da equipe de coordenação da Rede de Educação Popular e Saúde e da Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde (ANEPS), professor da Universidade Federal da Paraíba e autor de livros como “Educação Popular e a Atenção à Saúde da Família” e “A Saúde nas Palavras e nos Gestos”. A seguir, apresentamos uma síntese de sua fala.“Eu agradeço o convite para participar deste evento. Eu considero muito importante este trabalho da Funasa com os excluídos (populações indígenas, remanescentes de quilombos, assentamentos e reservas extrativistas). Acho que é um importante trabalho de reconstrução da sociedade com a participação dos excluídos. Isto é um sonho de muitos.Estou aqui com vontade de estabelecer parcerias. Eu participo da Rede de Educação Popular e Saúde, que já reúne em sua lista de discussão, pela internet, mais de 700 pessoas. O movimento da Rede se subdivide em outros temas e movimentos como a discussão da espiritualidade na saúde e a constituição da ANEPS, que é a Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde.
Vamos tratar aqui da interface entre a Educação em Saúde e a Educação Popular e Saúde. Conceituemos Educação em Saúde como Educação no campo da saúde, numa perspectiva de martelar fatores de risco (por intermédio da mídia e de outras ferramentas) buscando a mudança de comportamentos.
A Educação Popular, que foi sistematizada em primeiro lugar no Brasil, com o nosso jeito, hoje já é uma prática comum na América Latina. É uma prática que encanta os estrangeiros. Hoje há grupos de Educação Popular em todo o mundo. Paulo Freire é um de seus maiores expoentes. Ele fez parte de uma corrente que começou com a Ação Católica, com a Juventude Operária Católica, que veio da Europa. Mas Paulo Freire foi quem aplicou, aqui, aqueles conceitos.
NÃO DÁ PARA FAZER PROBLEMATIZAÇÃO SE JÁ SABEMOS A SOLUÇÃO
O que diferencia a Educação Popular é a fé nos homens! É muito comum a gente ouvir dizer assim: ' - Aquela comunidade não tem jeito, é todo mundo preguiçoso!'. Mas, na verdade, não é bem assim. Você vai lá, olha com atenção, e vê que tem movimentos. A brasa está lá, nós precisamos é contribuir para avivar esta brasa. Através do diálogo vamos construindo as soluções. Nós temos que pensar assim: eu tenho conhecimentos mas eu não sei qual deles tem utilidade para esta comunidade. Eu vou com a minha 'mochila' de conhecimentos e então a gente, no diálogo, descobre o que pode ser útil O técnico, o educador, gostaria que tudo fosse determinado. Vocês eram da Fundação SESP...a lógica era determinada pelo serviço. Mas a vida não é assim. Nós, educadores, caminhamos na imprevisibilidade, na busca de pessoas, de movimentos sociais. Devemos valorizar o saber que já existe sem, porém, glorificar o conhecimento popular. O estranhamento é importante. Isto é, eu estranho e problematizo. Eu tenho que ouvir o outro, e não abafá-lo. Ás vezes é apenas um balbuciar mas eu tenho que estar atento para ouví-lo. As técnicas são importantes mas, mais importante do que as técnicas, é saber ouvir. Temos que apurar este ouvir. A abordagem pode ser uma palestra mas o importante é ouvir, é fazer uma educação que nasça de tudo que já está lá na comunidade.
A problematização da Educação Popular é diferente. Não é o professor que já sabe a solução. Às vezes se faz problematização mas se já sabe a solução dos problemas...A vida é que vai dizer a solução. Toda ação é limitada, com problemas, mas não pode ter um fechamento.
É fácil anunciar mas é difícil fazer a pedagogia do diálogo. Nosso poder de técnicos costuma abafar. É preciso cuidado, atenção. É preciso compreender. Muitas vezes a comunidade é agressiva, convive com o tráfico de drogas. É preciso ver como chegar lá. Tem gente que diz assim: 'Eu saio de minha casa e vou lá para aquela comunidade mas ela não me merece. Não adianta nada o que eu falo. Ela não compra comida, compra aparelho de som...' Na verdade, é como diz aquela música: 'a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte'. Nós temos que compreender todas essas nuances. A população é muito religiosa. Não adianta eu me fechar ao que não se afina com o meu discurso religioso. Nós temos que compreender a importância, a dimensão da espiritualidade. Temos que ver o simbólico, o metafórico. Posso dialogar com o símbolo que ela está usando, lidar com o simbólico, com o inconsciente, com o que corre abaixo da linha d’água da consciência.
A gente ouve dizerem assim: 'Essa comunidade é fogo, a gente dá o dedinho e eles querem a mão toda!'. Aí bagunça tudo. Como lidar com isto? Nós não sabemos, nos acostumamos com o nosso 'caixotinho' . Mas a interdisciplinaridade é imposta de baixo para cima pois nenhuma instituição dá conta de tudo sozinha. Temos que desenvolver a arte e o saber de lidar com estas confusões, com esta complexidade.
EDUCADOR NÃO É URSINHO CARINHOSO
Fazer educação não é um anúncio de amor. Nós, os educadores, não somos ursinhos carinhosos. Se eu não recorrer à antropologia, à psicanálise, eu não entendo.
É comum se ouvir que a Educação Popular é coisa dos movimentos sociais mas, vejam só, grande parte dos movimentos são autoritários. A gente vê sindicatos e organizações políticas desenvolvendo, na verdade, estratégias para arrebanhar pessoas para seus movimentos. Isto não é Educação Popular.
Como a Educação Popular nasceu durante a ditadura militar, parece que é uma coisa dos movimentos. Mas observem que Paulo Freire começou a aplicá-la no institucional, na Prefeitura de Recife.
E mesmo que o Presidente do País tenha origem no novo sindicalismo, o que proporciona uma conjuntura mais ou menos favorável, nós percebemos como é difícil fazer prosperar a Educação Popular no Ministério da Saúde.
Mas há algumas experiências interessantes. Já temos Doutorado em Educação Popular e algumas Prefeituras, como a de Recife, já escolheram a Educação Popular como o seu jeito de fazer Educação.
É importante discutir a Educação Popular no cotidiano dos serviços, para que várias práticas sejam reorientadas pela Educação Popular. No Brasil existem muitas pessoas que fazem Educação Popular mas é preciso que este saber se generalize pelo Sistema Único de Saúde como um todo.
Muitas vezes isto pode se ampliar se a gente fizer parcerias. Que tal a gente buscar aqui uma parceria para o IV Encontro Nacional de Educação Popular e Saúde, que será realizado em abril de 2008 em Fortaleza? A Funasa pode viabilizar a participação de lideranças das comunidades em que desenvolve as suas ações educativas. Podemos começar assim, com uma parceria no encontro, e depois construirmos parcerias nos Estados. A gente também pode pensar na instituição de um processo de especialização em Educação Popular e Saúde para os técnicos da Funasa.
Estou na Educação Popular desde 1974, e acho importante destacar a importância da articulação, das parcerias. É como aquela história do beija-flor levando água no bico para apagar o incêndio na floresta. Não sei, não. O bonito é quando outros beija-flores e outros bichos também levam água...
É como a história da Educação Popular, da Rede de Educação Popular e Saúde, da ANEPS. Quando o Lula tomou posse no Governo, começamos a conversar com o Ministério da Saúde para articular os movimentos. A Rede virou uma coisa mais teórica (A ANEPS se constituiu com a Rede, com a Direção Nacional Executiva dos Estudantes de Medicina (DENEM), o Movimento de Reintegração dos Atingidos pela Hanseníase (MORHAN), o Grupo de Trabalho da Amazônia (GTA), através do Projeto Saúde e Alegria, o Movimento Popular de Saúde (MOPS), e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). A ANEPS atua articulando movimentos sociais populares, o movimento estudantil e outras práticas de educação popular e saúde, estabelecendo parcerias com universidades, instituições formadoras e gestores, além do Ministério da Saúde.).
ESTOU CANSADO DE SER ALTERNATIVO: A INSTITUCIONALIZAÇÃO
É IMPORTANTEEstou cansado de ser alternativo. Quero ser hegemônico. A institucionalização é um caminho importante para mudar, e nós queremos uma sociedade nova. Temos que estar atentos porque o Estado busca a cooptação dos movimentos. Mas nós não queremos práticas lindas, aqui e acolá...É claro que não se faz educação com portarias e gratificações mas, por outro lado, o Ministério da Saúde pode publicar 15 mil exemplares de Cadernos de Educação Popular e Saúde. Quando um movimento social vai poder bancar uma publicação deste porte? Fala-se que tudo que é instituído se congela mas eu digo que o instituinte continua. Mas é preciso cuidado: não se pode ir para dentro da instituição e não querer ouvir críticas. Na verdade, eu preciso cultivar as pessoas que vêm me criticar. A coerência é a disputa de propostas. A democracia é um sistema de gestão onde o conflito é eficaz.
Existem limitações institucionais mas, como no tempo da ditadura militar, a gente sempre encontra um jeito de enrolar o gestor, de enfrentar o 'abafa institucional'. Você sempre arruma um jeito de se manifestar.
Muitos questionam: se Lula é oriundo do movimento popular, por que não aplica o método Paulo Freire? O governo é contraditório, é fruto de coalizão. O Frei Beto não agüentou e saiu. Mas observem que os princípios de Paulo Freire estão sendo utilizados pelo Governo nas estratégias de alfabetização de adultos.
Quando a gente entra numa luta destas,em favor da Educação Popular, a gente sabe que não vai ter apoio. Quer dizer: a gente sabe que tem um discurso oficial mas não tem condições. Não existe efetivamente uma política de Educação em Saúde no nível federal. Aí o que acontece? O Programa Saúde da Família tem 28 mil unidades realizando práticas educativas espontaneamente, reproduzindo o velho. Assim, se opta por uma gestão burocrática do sistema: cada Município faz o que quer, o que pode...
O Movimento Sanitário saiu da comunidade e foi entrando no burocrático, numa disputa de espaço institucional. Mas é preciso estar atento às raízes. Estamos aqui por causa do povo. É como aquela pessoa dos movimentos sociais que foi para Brasília mas vestia a cueca furada para não esquecer das suas origens...
Eu percebo uma certa intelectualização do Movimento Sanitário. Enquanto isto, a Educação Popular vai ficando de lado... No próprio Congresso da Abrasco, o que se conseguiu foi organizar a Tenda Paulo Freire, de forma paralela ao evento.
A gente enfrenta muitas dificuldades para desenvolver a Educação Popular nas instituições mas, por outro lado, eu vejo coisas lindas nos movimentos populares: pessoas com extremas limitações que alcançam grandes resultados. Acho que a Funasa também tem nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas muitas coisas contraditórias mas interessantes. Não podemos nos deixar ficar tomados pelas dificuldades. Vejam o exemplo da flor de lótus, linda e cândida, que nasce nos pântanos.”
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