Grupo
Interinstitucional de Comunicação
|
Flávia Ramos "A inessenciabilidade da educação em saúde"
Ela comparou o isolamento dos educadores em saúde com a exclusão das ciências humanas no Brasil flagrada pela filósofa Marilena Chauí e simbolizada no filme "A Lista de Schindler" pela "inutilidade" de um professor de história, aos olhos da temível SS, entre os judeus arregimentados nos campos de concentração para trabalhar numa fábrica. A experiência em contabilidade acabaria salvando a vida do professor. Para Flávia Ramos, a educação em saúde é uma incumbência tão pouco clara. "Muita gente e quase ninguém faz educação em saúde. Se faz educação em saúde em qualquer lugar. A formação deste educador é feita de qualquer jeito, nas mais variadas e precárias condições. Há muito discurso na educação em saúde, pouca unanimidade e bem pouca coerência entre o que se diz e o que se faz". A professora da UFSC lembrou o silêncio imposto pela reforma do ensino de 1968 quando foi decidido o modelo de "formar para algo prático, decretando-se a extinção da formação humanista ampla e mobilizadora do livre pensar". O recente processo de modernização, prosseguiu Flávia, promoveu um aligeiramento do ensino formal e o afunilamento da pós-graduação e da pesquisa para fins com sustentação e viabilidade econômicas pré-definidas, em áreas destinadas a ajudar o País a competir no mercado internacional, por exemplo. Como frutos desses dois momentos, Flávia Ramos apontou a desarticulação entre os diversos níveis de ensino (médio, graduação e pós-graduação) e uma deficiente aderência destes à realidade na qual participam e à qual pretendem responder, e a necessidade de ruptura com páticas e paradigmas que vêm definindo as práticas educativas, assistenciais e gerenciais na saúde. "Adentramos as portas da ciência como como trabalho meio no favorecimento e obtenção de cura de corpos doentes ou do controle da doença em escala social. Não por nenhuma indeferência à técnica, instrumental imprescindível no nosso trabalho, mas por uma não sujeição desta técnica como simples apetrecho manipulável sem a consciência de sua função e escolha de sua direção, é que partimos para a construção de conhecimentos possíveis e com sentido a nós sujeitos, trabalhadores e usuários. Mas nesta busca já não somos tão necessários, não temos a mesma justificação ou pertinência e, portanto, passamos da lista dos sobreviventes para a lista dos excluídos, ou escolhidos para a exclusão ou marginalidade". Flávia pergunta: "como convencer um olhar tão discriminante sobre nossa essencialidade enquanto educadores se não estamos gerando novos produtos ou tecnologias industriais nem contribuindo para a competitividade do País no mercado internacional, nem tampouco explorando potenciais riquezas ou características de nossa diversidade natural?". Ela mesma responde afirmando estar convencida de que a diversidade que nos interessa é feita por pessoas comuns e por seus diversos e comuns modos de viver, sofrer e morrer. Segundo a professora da UFSC, a educação em geral e a educação em saúde se situam num espaço em torno do qual giram estereótipos ou visões extremas. Numa ponta está a idéia que atribui à educação o valor de determinante dos fenômenos do mundo do trabalho, ao esperar que recursos humanos modificados sem alteração das condições concretas de trabalho mdifiquem a prática, resolvendo inclusive questões de acesso e insuficiência resolutiva de instrumentos e de serviços, de fragmentação e descontinuidade da assistência. No outro extremo há os que pensam poder prescindir dos processos formadores ou entendem que os processos estão definitivamente comprometidos com a continuidade acrítica de seus próprios referenciais. Flávia adverte que esta distorção constrói um arremedo de educação "toda poderosa" ou "impassível corrompida". Em qualquer dos casos, o processo de formação fica distanciado do trabalho cotidiano dos próprios sujeitos do trabalho, adquirido "sentido social duvidoso". No entendimento da enfermeira, a questão ligada à descartabilidade e invisibilidade da educação em saúde nas práticas e serviços, que não deixa de ter referência no sentido da educação em saúde, precisa ser retomada através de um nó crítico - o de definirmos sob que critérios a educação em saúde pode ser considerada descartável. Flávia avalia que, se for pela insuficiência de nossa busca de qualidade e ressonância quanto aos anseios dos sujeitos sociais e às exigências do real, estes podem ser considerados legítimos e, para tanto, precisamos articular e explicitar nossas diferenças e unidades em torno de princípios, procedimentos e estratégias, "enfim, de desejos, discursos e ações que levem em conta as possibilidades de cuidar, gerenciar, mas, sobretudo, de pensar e criar". Mas, alerta Flávia Ramos, se for por critérios frágeis e muito comprometidos com projetos técnicos e políticos autoritários, incompetentes e de interesses parciais, "não devemos nos constranger em reclamar por respeito a nossas especificidades". Afinal, sem as devidas trocas e articulações entre educação e saúde, nossas práticas se transformam em rituais sujeitos à monotonia, à artificialidade, ao esgotamento e a fins muito restritos, não condizentes com as garantias conquistadas pelo cidadão e pelos princípios que legitimam a organização e oferta de serviços. Para a professora, ao se livrar da falsa culpa por suas diferenças, os educadores podem apreciar melhor o que os caracteriza: uma crescente abertura para a criação de referenciais teórico-metodológicos inovadores, facilitada por uma tendência mais espontânea à interdisciplinariedade. "Os educadores podem estabelecer uma pauta de perspectivas que vislumbrem dois aspectos: a dimensão educativa inerente aos processos de trabalho em saúde, seja ao nível de sua formalização nas práticas pedagógicas reconhecidas por sua delimitação ao espaço da escola ou dos serviços de assistência à saúde mas, também, pela saúde e educação se constituírem como práticas sociais que se articulam na vida de todo ser humano; a produção e socialização do saber e de seus produtos tecnológicos como condição de conquista da cidadania , o que engloba os processos de organização, participação e capacitação dos sujeitos". Este pressuposto,
observa Flávia Ramos, se contrapõe a anteriores
apreensões de cidadania; como algo a ser "concedido" ou como
atributo de sujeitos "tornados cidadãos" pela prática dos
profissionais; como conquista intermediada pela ação de profissionais
portadores, por delegação ou não, das "vozes" dos
excluídos; como sinônimo de certas participações
permitidas dentro de possibilidades de cooptação e integração
a "interesses não participados" e de saberes transmitidos até
uma medida que não ameace a manutenção da posse. "Não
estaremos rompendo com as práticas autoritárias, manipuladoras
e coercitivas pelo simples emprego da sedução e da concessão
do que imaginamos ser necessário para um "paciente" ser transformado
em "cidadão". A professora propõe o exercício de uma
autonomia construída cotidianamente nas relações com
o outro e conosco. Ela se refere à solidariedade ao diálogo
enquanto "encontro entre sujeitos com igual dignidade e capacidade de conduzir
suas vidas", mesmo com experiências, condições e universos
simbólicos diferentes. "Foi para essa possibilidade de encontro
com alguém que nos era desconhecido, com quem nos era apresentado
apenas aos pedaços, em cortes congelados, que não nos conformamos
mais com o modelo biomédico como único saber e instrumental
a subsidiar o nosso agir". Esta é, segundo a professora, a exigência
emancipatória e ética, fundada na solidariedade e diálogo,
sem a qual não poderemos falar em cidadania.
Flávia disse que a educação em saúde sem pre esteve ligada à proposta política das elites para o controle social, saneamento do espaço urbano, normatização da marginália, favorecimento dos interesses do capital estrangeiro e nacional, inclusive de campanhas americanas anti-comunistas. Ela acredita que o momento da ruptura com esta tradição acontece nos anos 70 com a educação popular e saúde. A educação sanitária surge como integrante de uma nova concepção de serviços de saúde na década de 20 - a saúde pública. A cruzada educadora tinha uma missão civilizadora e moralizante de regulamentar, controlar modos de vida e saberes estranhos à visão científica (neutralizadora) de corpo e saúde. Para ela, instituiu-se, em nome da saúde, a "tutelarização moral e intelectual da pobreza". Com o fim do regime autoritário do Estado Novo e a derrota do fascismo, nos anos 50, a educação higiênica buscou modificar-se de modo a se caracterizar como prática técnica e apolítica. Descobre a ação comunitária mas ainda não se livra da marca, deseja equiparar indivíduos incapazes, famílias desorganizadas, rebeldes aos bons hábitos, focos de doença e corrupção. Ela alinha ainda como fatos marcantes do que classificou como "período aúreo da educação sanitária, nos anos 50 a 70:
|
Frases
"A diversidade
que nos
"Não
estaremos rompendo com as práticas autoritárias, manipuladoras
e coercitivas pelo simples emprego da sedução e da concessão
do que imaginamos ser necessário para um "paciente" ser transformado
em "cidadão"
"Sem
as devidas trocas e articulações entre educação
e saúde, nossas práticas se transformam em rituais sujeitos
à monotonia, à artificialidade"
"Não
nos conformamos mais com o modelo biomédico como único saber
e instrumental a subsidiar o nosso agir"
"Educação
como atividade
|