
Convênio
cria curso de extensão em educação para jornalistas
O I Fórum
Mídia & Educação foi encerrado com a assinatura
do convênio de cooperação técnico pedagógica
entre a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
e o Instituto Ayrton Senna, que visa uma experiência inédita:
a criação de uma extensão univeritária para
jornalistas, voltado para Educação. O fórum "Mídia
e Educação: Perspectivas para a Qualidade da Informação"
reuniu de 11 a 13 de novembro de 1999 em São Paulo profissionais
para discutir como melhorar a cobertura do tema educação.
Entre os participantes jornalistas estavam repórteres, editores,
diretores de redação e assessores de imprensa. Representado
as fontes, participaramm profissionais de universidades, de organizações
do governo e da sociedade civil. Os
principais objetivos do fórum foram o aumento quantitativo da cobertura
da educação, a melhoria de sua qualidade e a diversificação
da pauta.
O ponto de
partida foi uma pesquisa com 62 jornais realizada pelo Núcleo
de Estudos sobre Mídia e Política da Universidade de Brasília,
a pedido da Agência de Notícias dos Direitos da Infância
(ANDI), do Instituto Ayrton Senna, do Ministério da Educação,
do Unicef, do Fundescola e do Consed. O encerramento contou também
com a participação do Ministro da Educação,
Paulo Renato de Souza. Entre os mencionados estava o Projeto Aprendiz,
devido à sua cobertura on-line do evento.
Conclusões dos grupos
Uma plenária,
com o objetivo de apresentar as conclusões finais dos três
os grupos de discussão, foi realizada na manhã de sábado
(13/11). Participaram da mesa o coordenador Manuel Manrique e as relatoras
Patrícia Portela e Rachel Melo, do Unicef, além de Âmbar
de Barros, da Andi (Agência de Notícia dos Direitos da Infância).
Após a apresentação do relatório, a plenária
foi aberta para debate.
Dentre os 30
participantes que se manifestaram na discussão, destaca-se o professor
Antônio Carlos Gomes da Costa. "Reformas no ensino não são
mais feitas apenas por meio de LDBs (Lei de Diretrizes e Bases); os verdadeiros
agentes de mudança hoje são a mídia, a sociedade civil,
a escola e também o poder público", afirmou. "Esse congresso
teve um potencial de impacto maior do que qualquer outro realizado neste
ano sobre a educação no Brasil", concluiu o educador.
Grupo 1
Jornalismo
educacional não pode ser maniqueísta
"Educar para o exercício da cidadania". A partir dessa definição, o grupo que debateu o conceito de jornalismo educacional de qualidade formulou seu relatório final, apresentado no último dia do Fórum Educação e Mídia - Perspectivas para a Qualidade da Informação.
Segundo seus participantes, o jornalismo educacional não deve tratar suas pautas de maneira maniqueísta. O "processo" que envolve a história que está sendo abordada não pode ser desprezado.
"Não devemos apenas apontar os resultados, negativos ou positivos", disse Rogério Oliveira, do jornal O Estado, de Florianópolis (SC).
As reportagens devem ser, na verdade, ferramentas para a reflexão do leitor, não deixando de abordar os aspectos regionais do país, a família, a escola e a comunidade em questão, segundo os participantes.
O jornalista de educação, para o grupo, dever dar voz a todos os atores envolvidos na pauta, ter uma visão interdisciplinar e consciência de seu papel social. Conhecer seu público leitor é algo fundamental para que o profissional possa adequar sua linguagem.
"A reportagem de educação tem que ter seu foco no leitor cidadão, na sua mobilização", finalizou Ângela Santos, da TV Cultura.
(Alexandre Le
Voci Sayad)
Grupo 2
Jornais
regionais são os mais deficitários
O grande problema no tratamento da Educação feito atualmente pela imprensa nacional é a falta de capacitação dos jornalistas, em especial os da imprensa regional. Essa é a conclusão que o grupo de debates sobre o contexto da cobertura jornalística atual chegou, durante o segundo dia de trabalho do Fórum Mídia & Educação.
Mesmo que editores e empresas de comunicação saibam do crescente interesse de seus leitores pelo tema, ainda não há o investimento necessário para isso. As reportagens normalmente são feitas pelos repórteres iniciantes e mal-preparados. Isso resulta na cobertura cheia de estatísticas e dados oficiais. " É tudo tratado como dado, estatística tem apelo, mas não tem fundamento," comentou Carlos Augusto Abicalil, da Confederação nacional dos Trabalhadores em Educação.
Essa característica é típica de veículos de alcance regional. Em meios de comunicação de circulação nacional, há um maior investimento, melhor infra-estrutura e conseqüentemente uma melhor cobertura de Educação.
Ainda com o foco na imprensa regional, a conclusão do grupo foi que também é necessário pensar no papel das agências de notícias dentro desse processo. Esse tipo de veículo vende reportagens para outros jornais, e algumas às vezes são responsáveis por mais de 50% do material editorial que é lido no interior do país. Pela sua própria natureza, o texto das agências é mais "pasteurizado" , faltando a contextualização necessária a um jornalismo de Educação de qualidade.
O papel do governo e das assessorias de imprensa nesse cenário tem sido ambíguo. Enquanto o governo federal profissionalizou a assessoria de imprensa do MEC, rendendo a alta porcentagem de matérias sobre o ministério verificada pelo relatório, o mesmo ainda não aconteceu nos âmbitos estadual e municipal, dificultando, mais uma vez, o trabalho do repórter da imprensa local.
Já o fornecimento de informações por organizações da sociedade civil muitas vezes não é levado em conta, por causa da falta de credibilidade de muitas organizações não governamentais iniciantes. As mais consolidadas também recebem críticas por serem tratadas como donas da verdade absoluta.
Uma das propostas de mais destaque veio de Nádja Vladi, do jornal A Tarde, de Salvador: "A população pode ter um melhor acesso ao veículo a partir de conselhos de leitores, que possam servir como fonte alternativa ao governo. Eu sei que as melhores matérias que fiz esse ano foram propostas por um conselho desses, composto por adolescentes."
(Natasha Madov
e Miguel Vieliczko) Grupo
3
Estratégias
para a melhoria da qualidade da informação
O grupo definiu que a inter-relação entre Comunicação e Educação deva ser reconhecida como um novo campo de intervenção social e atuação profissional. "Esta inter-relação tem potencial para transformar a sociedade em direção à cidadania", diz o relatório. Segundo as recomendações, o papel educativo da mídia deve ser estimulado em todas as editorias, e não apenas nas matérias de Educação.
Durante a Plenária, a editora do caderno para adolescentes do Correio da Bahia, Liliane Reis, levantou os resultados de uma pesquisa com os leitores:
" As matérias sobre sexo e música são as favoritas. Mas o adolescente não lê sobre escola e educação por considerar o tema muito chato."
Pedro Paulo Carneiro, da TVE do Rio, afirma que a falta de atratividade das matérias de educação é um problema generalizado, e que os jornalistas devem ter a preocupação de mudá-lo.
"Precisamos criar um formato mais atraente, que seduza o leitor", afirma Liliane. O relatório construído coletivamente pelos participantes do fórum será publicado na forma de um guia e distribuído entre empresas de comunicação, organizações de classe, ONGs e entidades do governo.
Na Plenária foi discutida ainda a possibilidade de criar um site na internet, disponibilizando o documento a todos os interessados. O site poderia conter ainda um espaço de discussão permanente, bibliografia, e links relacionados ao tema "mídia e educação".
Leia, a seguir, os principais pontos definidos no relatório do Grupo 3
Formação
dos profissionais de comunicação
- Flexibilizar os currículos de comunicação, inserindo
conhecimentos e práticas da área educacional e possibilitando
a atuação do jornalista como "educomunicador";
- Enfatizar disciplinas humanistas como ética, direitos humanos,
política, economia, questões ambientais, tecnológicas
e de temas sociais;
- Incentivar a formação permanente dos profissionais de Comunicação
e Educação através de parcerias entre empresas, universidades,
ONGs, entidades representativas e governo;
- Estimular, nas faculdades, a prática da reportagem e o debate
sobre a relação entre Comunicação e Educação.
Empresas
de comunicação
- Facilitar o acesso dos repórteres à internet;
- Investir na prática do jornalismo investigativo;
- Desenvolver projetos editoriais que abordem educação, comunicação
e cidadania;
- Promover o trabalho de jornalistas especializados em Educação
e editorias ou cadernos específicos.
Assessorias
de imprensa:
- Facilitar o acesso dos assessores à internet;
- Criar nas faculdades disciplinas voltadas para a formação
de assessores e curso de pós-graduação sobre o tema;
- As empresas de assessoria devem contratar somente profissionais formados
em comunicação social, para facilitar o contato com os profissionais
das redações e a compreensão da especificidade de
cada veículo;
- Continuar o debate e a busca da construção de uma identidade
do assessor de imprensa, um dos papéis indispensáveis para
o fluxo da informação.
Sociedade
civil
- Reconhecer a imprensa sindical, empresarial, científica, acadêmica
e institucional como elemento de democratização da informação
e estimular os profissionais desses veículos a se qualificarem sobre
o tema Educação;
- Contribuir para o processo de legalização das emissoras
de baixa potência (rádios comunitárias);
- Estimular que os jornalistas diversifiquem as vozes presentes no noticiário,
identificando e buscando novas fontes para que se evite a criação
de "fontes oficiais";
- Criar um guia de fontes;
- Formar o educador como leitor crítico dos meios;
- Criar uma rede de discussão sobre mídia para o Terceiro
Setor.
Tatiana Heise)
Ao levantarem possíveis recomendações para a pauta da educação, os grupos discutiram o surgimento de um novo profissional da mídia e do ensino - o educomunicador.
Angela Schaun, do Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo, alimentou a discussão com os conceitos definidos em uma pesquisa realizada pela USP.
O educomunicador atua em meios de comunicação, organizações não-governamentais, escolas, secretarias de educação, institutos e fundações. Seu papel principal e formar cidadãos critícos e participativos. Um educomunicador jornalista, por exemplo, tem a preocupação didática de formar, e não apenas informar o público.
Por natureza, o educomunicador se caracteriza pelo desejo de transformar a sociedade e pelo olhar diferenciado sobre o cotidiano. No caso dos jornalistas, esse olhar se traduz na disposição de mudar a pauta na rua, se preciso, ao inves de forjar a realidade para impor o olhar determinado pelo editor.
(Tatiana Heise)