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Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina
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Saúde deve ter veículos próprios
de comunicação
Professor de jornalismo da UFSC Francisco Karam analisa no II Encontro Estadual de Comunicação e Educação em Saúde as limitações da grande mídia e defende a segmentação da informação
O professor de jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina Francisco Karam analisou as limitações da mídia para cobrir todos os acontecimentos da sociedade e defendeu a criação de veículos de comunicação por entidades que atuam na área da saúde, como o Ministério da Saúde, as secretarias da saúde e organizações não governamentais. "Em sua ação cotidiana, no calor da hora, cobrindo três ou quatro assuntos ao mesmo tempo, lidando com uma grande carga de informações, a grande imprensa perde profundidade", observou Karam em 26 de outubro do ano passado em Florianópolis às mais de cem pessoas que participaram do II Encontro Estadual de Comunicação e Educação em Saúde. Na opinião de Karam, que é Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo e autor do livro “Jornalismo, Ética e Liberdade”, o setor saúde deve instituir meios de produção de informação e veículos internos, como jornais, revistas, emissoras e programas de rádio e televisão, ocupando espaços na mídia para divulgar o Sistema Único de Saúde e criar pautas para a imprensa. Para ele, há um interesse do público por notícias da área da saúde que não é suprido pela grande mídia, limitada por espaços reduzidos, anúncios e pela diversidade de áreas de produção de informação, que vão da engenharia a antropologia, história, economia, geopolítica esportes e polícia. O professor da UFSC recomendou às instituições da saúde encaminhar informações qualificadas para a mídia e buscar parcerias com universidades e outros institutos para estruturar meios próprios de informação.
"O jornalismo trata dos acontecimentos tal qual estão ocorrendo, no calor da hora, e, à medida em que ganha em imediaticidade, perde em profundidade"
Em sua conferência sobre o tema "Saúde, Jornalismo e Cidadania", o professor explicou que existe na mídia um campo de produção de comunicação que não é necessariamente informação profissional e qualificada porque a mídia absorve contemporaneamente um cenário público que antigamente era ocupado pelas praças públicas - "os próprios comícios vão sendo substituídos". Há programas que são meramente espetáculos, pautados não pela rentabilidade social mas pela rentabilidade econônomica, comentou Karam, citando Ratinho, Hebe Camargo, Adriana Galisteu e Luciana Gimenez. "Mas ninguém quer um tipo de censura para essa área", ressaltou ele, propondo que a informação qualificada cumpra o seu papel, que o jornalismo dentro dessa mídia tenha um papel essencial, ao contrário de meios de informação que desinformam, como escreve o uruguaio Eduardo Galeano na crônica "O Sistema", do "Livro dos Abraços".Francisco Karam classificou a imediaticidade dos acontecimentos como uma das grandezas e eventualmente uma das tragédias do jornalismo. "O jornalismo trata dos acontecimentos tal qual estão ocorrendo, no calor da hora, e, à medida em que ganha imediaticidade, perde em profundidade", explicou o professor, contando que a cada quatro anos dobra o volume de informações no mundo. "Dentro de um ou dois anos, a cada dois anos este volume vai dobrar, depois a cada ano, depois a cada seis meses", prevê ele, explicando que a tecnologia possibilita o acesso a diferentes produções, no mundo inteiro, de fatos, de versões, de acontecimentos, de diversas áreas, protagonizados por diferente grupos sociais, e que a sociedade criou um ritmo contemporâneo muito intenso, que produz em si mesmo um conjunto muito maior de fatos.
Assim, a população acaba recebendo uma supercarga de informações. Assim, segundo Francisco Karam, esta infinidade de acontecimentos poderia gerar não apenas um Diário Catarinense ou uma Folha de São Paulo mas mil Folhas ou mil Diários, configurando o que algumas pesquisas estão denominando fadiga de informações. Isto gera um stress informativo, em que as pessoas ampliam a sua ansiedade em relação a não dominar os assuntos do dia-a-dia, contou o professor de jornalismo, citando, também, a expressão déficit informacional, que representa a impossibilidade de acompanhar esse imenso volume de informações produzidas a cada 24 horas em todas as partes do mundo. "Para podermos acompanhar tudo, teríamos que ter essas 24 horas multiplicadas ao infinito", sugeriu Karam.
"A tendência de mega-fusões midiáticas com outros campos de produção acaba limitando a capacidade investigativa do jornalismo"
O professor da UFSC explicou que a mídia tende a buscar uma notícia negativa porque a emergência da negatividade é que é um fato significativo, porque rompe com a ordenação lógica e o jornalismo lida muito com isso. "Não adianta dizer 'Segunda-feira os bancos abrirão' , porque é óbvio. A notícia é 'Bancos não abrem por causa da greve', porque rompe com a ordenação lógica. Alguns jornais, como o Diário Catarinense, dizem assim em seu Manual de Redação: "Não vale para nós o lema 'má notícia, boa notícia'. Karam observa que isso em parte é verdade mas que, na intenção de resolver ou de cobrar eventualmente a solução de problemas sociais, a mídia vai atrás de denúncias. Ele contou que dezenas - em alguns casos, centenas - de pessoas telefonam e mandam e-mails diariamente para as redações reclamando de organismos, sejam da área da saúde, sejam de suturas mal feitas, de obturações dentarias mal feitas, de comidas estragadas. A mídia tem que apurar a denúncia e ouvir partes atingidas e as pessoas que são acusadas. Segundo Francisco Karam, estas informações chegam aos borbotões na mídia, e "ela vai atrás de uns, não vai atrás de outros, e é limitada por espaços, por anúncios e por um fenômeno que ocorre hoje não apenas com a área de comunicação e com a área da mídia: a concentração midiática e a fusão das megaempresas da área da comunicação com grandes empresas de outros ramos de produção". Há trinta anos em torno de cinqüenta grandes empresas internacionais conglomeradas dominavam 90% da informação divulgada em todo o mundo. Na década de 80, eram apenas 23 empresas e hoje esse número está em torno de quinze.
O professor da UFSC lembrou que a megaempresa de comunicação do Brasil, Organizações Globo, tem 23 mil empregados e é considerada pequena ao ser comparada com com alguns conglomerados de outro países, como o de Silvio Berlusconi, na Itália. "E esses conglomerados que exploram a informação jornalística", acrescentou ele, "também são proprietários de empresas como bancos, financeiras, agropecuárias, companhias aéreas, hospitais e armamentos, como é o caso de Jean-Luc Lagardère, cujos veículos na França tratam da guerra mas também obviamente tem seus interesses porque também é dono da maior empresa de armamento européia, a Matra, que vende armamento pra guerra. Esta tendência de mega-fusões midiáticas com outros campos de produção acaba limitando a capacidade investigativa do jornalismo, incluindo-se áreas da saúde como, por exemplo, o interesse das grandes indústrias farmacêuticas. Esta tendência lamentável compromete a diversidade, a pluralidade. Não é que não se trate na realidade de várias questões de interesses públicos mas compromete de alguma forma um tratamento absolutamente isento de algumas questões. É por isso que aumenta em relevância exatamente a constituição de meios próprios de produção de informação ".
"Há uma tensão entre os profissionais de saúde e os da mídia. É preciso haver uma aproximação entre as duas áreas"
Karam identifica uma tensão entre os jornalistas e as fontes. De acordo com o professor, o profissional da área da saúde muitas vezes desconfia do profissional da informação e pensa: "lá vem o fofoqueiro, lá vem o cara que vai alterar tudo o que eu disse. Eu falei duas horas para a tevê e ele só botou um minuto. Ele alterou e isto é controle ideológico, controle político". Ele explica que os jornalistas sintetizam as informações e eventualmente alteram uma palavra ou outra. Em algumas áreas de conhecimento a linguagem é muito específica e o jornalista precisa traduzí-la. Assim, exemplificou Karam, escreve-se "Tira o cavalo da chuva" ao invés de "Queira retirar o eqüino da precipitação pluviométrica". A tradução significa a mesma coisa mas há muitas reclamações da fonte. O profissional tem que fazer uma síntese de informações - isso demanda tempo e envolve a busca por três ou quatro pautas ao mesmo tempo - e às vezes a pessoa acha que há uma conspiração por trás, diz o professor, destacando a necessidade de haver uma aproximação entre as áreas da comunicação e da saúde. Para ele, as assessorias de comunicação devem fazer com que os profissionais da área da saúde percebam como funciona o mundo da informação jornalística - quem é o repórter, que apura os fatos, quem é o editor, onde é que surge o controle de informação. Da mesma forma os profissionais de informação jornalística que tratam da saúde precisam fazer alguns cursos, conhecer a linguagem da área, saber como funciona, por exemplo, o Sistema Único de Saúde.
"A informação não é mercadoria. Deve ser tratada com qualidade, ética, técnica e estética qualificada"
Definindo a informação jornalística como "a informação que busca fatos, dados, versões, opiniões, contemporâneas, imediatas, que traduz isso numa linguagem apropriada em escala massiva e planetária, dando a isso dimensão pública em períodos essencialmente curtos", o professor de jornalismo da UFSC observou que todos os códigos profissionais e de ética da informação jornalística e mesmo os empresários da comunicação dizem que o interesse público tem que estar acima de quaisquer outros interesses e que a informação não é uma mercadoria. A informação pública - argumentou Francisco Karam - deve ser tratada com qualidade, ética, técnica e estética qualificada, e precisa se disseminar por todos os suportes tecnológicos.O professor também lembrou no II Encontro Estadual de Comunicação e Educação em Saúde a importância de um tratamento específico de temas da saúde. "Os profissionais da informação precisam se identificar, evitar ao máximo utilizar câmeras escondidas, não podem entrar no hospital e levar uma criança e mostrar que não existe segurança no local, devem respeitar a fonte sendo fiéis às suas declarações e, ao mesmo tempo, precisam denunciar aquilo que atente contra o bem público".
"A informação é o elemento definidor das sociedades contemporâneas, pois possibilita a escolha consciente"
Ele considera importante que a mídia seja objeto de discussão e lamenta que a guerra de audiência traga prejuízos à cidadania: "O que compromete o mundo da mídia hoje é a pauta baseada no espetáculo, como o Ratinho e outros programas que não têm uma qualificação muito grande para tratar determinados temas, exploram muito os tabus e preconceitos, comprometendo aquilo que seria o jornalismo". Karam acredita que a discussão sobre a mídia vem crescendo e apresentou como exemplos de crítica sobre a área o Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br/), a Sala de Prensa (www.saladeprensa.org/), revistas como a Imprensa (www.uol.com.br/imprensa/) e o setor acadêmico, como a cátedra da comunicação UNESCO/UMESP,Universidade Metodista de São Paulo (http://www.metodista.br/unesco/). Citando o professor catalão Salvador Alcius, disse que a informação qualificada e ética vem sendo debatida em muitos eventos porque parece que "a informação é o elemento definidor das sociedades contemporâneas". Com a informação é possível uma participação mais capacitada, mais consciente. A informação possibilita a escolha consciente. Com a informação, acrescenta Francisco Karam, é possível existir uma espécie de debate público de controvérsias para que as pessoas possam se situar cotidianamente neste mundo que constróem todos os dias.O palestrante destacou a necessidade de políticas democráticas de comunicação no Brasil e comentou a importância do acompanhamento no Congresso Nacional do processo da instalação da tv digital, das novas concessões de rádios AM e FM e de televisão e da autorização para funcionamento de novos canais de televisão a cabo. Mesmo considerando que a legislação brasileira não é a ideal, Karam destacou a existência da TV Câmara, TV Senado, TV Assembléia e TVs universitárias, espaços conquistados por longas disputas políticas e jurídicas que envolveram a Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ) e várias instituições reunidas em formas democráticas de políticas de comunicação social. Ele comentou que a propaganda eleitoral é uma das garantias que se tem - "e muita gente reclama" - de uma certa igualdade de debates na mídia mas questionou a expressão "propaganda eleitoral gratuita" informando que em 94 a mídia deixou de arrecadar aos cofres públicos 35 milhões de dólares em impostos porque foi ressarcida pelo Governo pelo espaço ocupado pelos partidos políticos. "Este dinheiro de impostos que foi ressarcido deixou de ir para áreas de atuação social que cabe ao ao estado intervir como saúde e educação".
O professor ainda observou que os profissionais da mídia são profissionais extremamente qualificados, que buscam a informação, mas muitas vezes operam com limitações, são circunscritos, têm restrições de diversos tipos, que podem ser economicas , ideológicas e políticas.