Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina
"O jeito que se organiza a sociedade determina doença e morte"(Marco Da Ros)

Médico, professor do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina e doutorando em Educação, Marco Da Ros apresentou no dia 2/7 o tema " Que Educação fazer? Como fazer? Por que fazer?" propondo aos participantes do I Encontro Estadual de Comunicação e Educação em Saúde uma reflexão sobre as propostas de educação em desenvolvimento no setor saúde. "Não estamos fazendo educação libertadora", avaliou Marco, observando que as propostas existentes têm sido opressoras, imprimindo regras ligadas ao aspecto biológico. "O médico é educado pela unicausalidade", comentou o professor da UFSC, citando pesquisa internacional que relaciona incidência e desenvolvimento de doenças como diabetes, hipertensão e câncer do pulmão com o estado civil dos pacientes. De acordo com o estudo, quem é solteiro tem 2,5 vezes mais chances de desenvolver o câncer de pulmão do que os casados. Sempre comparados aos casados, os viúvos têm quatro vezes mais possibilidades de desenvolver a doença e os desquitados, oito vezes. Na hipertensão, a progressão é aritmética: solteiros, viúvos e desquitados têm, respectivamente, 2, 3 e 4 vezes mais chances de desenvolver a doença do que quem é casado. Marco também apresentou um gráfico sobre a tuberculose, revelando que a redução de casos da doença está historicamente mais ligada à melhoria de condições de trabalho do que a descobertas científicas como remédios e vacinas. Na opinião de Marco, precisamos pensar de forma mais ampla. Precisamos ver como as pessoas vivem. Não podemos ficar limitados ao processo biológico, bacteriano, verticalizado, temos que pensar a multicausalidade. "O jeito que se organiza a sociedade determina a doença e morte", explicou o médico, acrescentando que devemos estudar a organização social e as determinantes sociais do processo saúde-doença. Fazer educação em saúde sem discutir modos de produção é manipular a população, na sua opinião. O professor propôs um questionamento aos participantes do encontro, sugerindo que o capitalismo se suicidaria se efetivamente fizesse política social. Marco Da Ros disse que a sociedade molda nosso jeito de ser e abordou o processo de construção do conhecimento. Educar é a forma de fazer as pessoas verem as coisas de uma determinada maneira. Ele disse que os educadores precisam saber mais, conhecer mais. "O que podemos passar para o outro se o nosso conhecimento é limitado?", indagou o professor, ressaltando que não devemos ser alienados no nosso conhecimento e sim socializá-lo com outras áreas, integrar para poder crescer. A educação em saúde precisa ser construída junto com a população: é preciso ver como a população pensa, como ela sente, sugeriu Marco. Não podemos ficar só estudando, precisamos ter a prática, observou. A educação deve buscar a cidadania, não a formação de consumidores, argumentou o professor. Precisamos desestabilizar verdades estabelecidas, combatendo os velhos modelos higienistas, bacteriologistas, verticalizados, e acabar com os guetos produtores de conhecimentos, fragmentados, como a saúde do trabalhador separada da educação em saúde ou do planejamento.
O professor ainda sugeriu aos presentes no encontro a leitura da obra, disponível em espanhol, "A Gênese e o Desenvolvimento de um Fato Científico", de Ludwik Fleck.