Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina

Médicos de homens e de almas?
Escolas de Medicina se auto-avaliam e apontam rumos para a transformação do ensino médico


Por Raquel Moysés - Jornal Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina
    Em um hospital de Chapecó, oeste de Santa Catarina, o jovem vendedor de máquinas agrícolas recebe de chofre a notícia de que tem um tumor maligno dos mais impiedosos. "Não tem cura. Se você quiser pode fazer quimioterapia em Porto Alegre, mas não vai adiantar nada", diz, secamente, o médico. Desesperado, o homem de 35 anos, desata em prantos e arranca o soro, revoltado ... Quando a esposa chega, trazendo o almoço, ele está pronto. Quer voltar para casa, em Xanxerê. Debilitado, não tem forças para ir tratar-se na capital gaúcha. Não pára mais de chorar até partir, uma semana depois, deixando a mulher desesperada e três filhos pequenos. 

    A trabalhadora da UFSC vai fazer a consulta periódica preventiva. A ginecologista pergunta pouco, olha menos ainda para ela e, com pressa, pede ultra-sonografia e outros exames. No retorno, ainda sem tempo, dá o seu diagnóstico: há presença de miomas e o mais indicado é uma cirurgia radical para tirar todo o "aparelho reprodutivo". Inconformada, a moça procura outra médica. Essa, a olha nos olhos, e, com delicadeza, explica que a presença dos miomas é normal e que só precisa fazer controles a cada seis meses. Mais serena, a mulher sai do consultório com uma sensação de conforto no peito. 

   A senhora de 60 anos mora no interior do Paraná e vai para um hospital em Curitiba fazer uma cirurgia de catarata. Na hora da operação, com anestesia local, ela ouve o experiente médico, irritado, dizer palavrões e outros impropérios porque alguma coisa não dava certo com a lente que estava implantando. O resultado é desastroso e ela fica quase cega. Entra na fila do banco de olhos e espera duros e penosos meses, até que um jovem médico, respeitoso e humano, lhe devolva a visão com uma cirurgia de transplante de córnea. 

   Essas pessoas nunca foram notícia de jornal, mas há casos que ganham páginas inteiras, como o de Simone Brito, que em outubro de 1996 fez denúncia ao Conselho de Medicina de São Paulo. A agente de turismo contou em longa carta ao CRM e em entrevista à Folha de São Paulo, a "madrugada de horror" que viveu durante o parto de sua filha num hospital da capital paulista. "O médico me examinou com má vontade, foi dizendo que o bebê estava morto e me mandou calar a boca... foi falando, 'esta é viciada, tem tatuagem, cuidado." Na seqüencia, aterrorizada, Simone teve que ouvir dele: "você entendeu o que eu disse, o seu bebê está morto, só vou abrir você para tirar...que saco, esta hora da manhã ter que fazer uma cesárea..." 

   "Eu estava com nojo daquele monstro e com vontade de vomitar", contou Simome. A enfermeira disse que lhe daria um remédio e o médico cantarolava "não gasta com esse macalé, olha a boca dela, falta dente, olha esse macalééé..." Quando o bebê nasceu, não chorava e a pediatra começou a fazer massagens enquanto o médico agourava: "já morreu, não faz mal que morra, depois ela trepa de novo, essa gente só sabe trepar mesmo...Morreu aí, morreu?" Levada para outra sala, Simone ainda ouvia o tal "dr. Antonio" gritando, agredindo e chamando as pessoas de "animal". O bebê nasceu bem, mas a mãe ficou com uma enorme cicatriz vertical até o umbigo e marcas de queimaduras nas pernas e nas nádegas, pois o "doutor" usou bisturi elétrico sem proteção e a costurou com barbante. 

  Jean Claude Bernadet, no seu livro A doença, uma experiência (Companhia das Letras, 1996), narra a sua luta contra a Aids e a agonia de se sentir empurrado para o "limbo dos pré-mortos". Desabafa: "O que vai me matar não é a doença, é a rede que se está fechando em volta de mim...o médico de quem desconfio e que não dá a mínima pela ligeira dor de cabeça que sinto de uns dias para cá... as enfermeiras que conversam sobre o par de meias que uma delas comprou de um vendedor que circula pelas repartições públicas, enquanto a outra me tira sangue sem me olhar. Que não sorria se não quiser, mas porra, olhar para mim. Que enfie a meia na cabeça. O que se cria ao meu redor não tem forma, é gosmento e não tem nome. E abafa." 

   Algo em comum entre essas pessoas, públicas porque expostas em jornais e livros ou, sem nome, por preferirem o anonimato ou por não estarem mais aqui para decidir? Entre todas, personagens da vida real e não protagonistas de histórias de ficção, há um drama ou um consolo parecido: a de se sentirem agredidas e maltratadas ou confortadas e respeitadas como seres humanos por seus médicos. Entre todas elas e seus familiares, talvez, uma pergunta atordoante: por que os médicos agem de forma tão diferente, uns, humanos e dignos, outros, frios, calculistas, desumanos, quase beirando a "monstruosidade", como no caso relatado por Simone Brito? 

   O que faz um médico se debruçar sobre o corpo de um doente e lhe oferecer conforto e amor? O que leva outro a olhar para aquele corpo com indiferença, desrespeito e até repulsa? O que está acontecendo na casa desses profissionais, no mundo em que eles vivem e na escola que eles frequentaram que explique tanta diferença? 


                               "Se o homem é formado pelas 
                           circunstâncias, então é preciso criá-las 
                                 humanamente" (José Saramago)

   Na busca de algumas dessas respostas as universidades brasileiras estão realizando, desde 1991, um projeto de auto-avaliação do ensino médico. Das 92 escolas de medicina, 46 já concluíram o trabalho e, segundo informações divulgadas pela Comissão Nacional Interinstitucinal de Avaliação do Ensino Médico (Cinaem), agora estão sendo feitas oficinas e discussões para avaliar os resultados. De todo esse debate vai sair o documento apontando caminhos para um novo ensino médico no Brasil. 

   Hêider Pinto diz que experiência é inovadora no mundo, pois é a primeira vez que se tem notícia de que todas as escolas de medicina de um país se avaliam conjuntamente, socializam seus problemas e buscam rumos para a mudança. Hêider faz parte da Cinaem e será o próximo coordenador geral da Direção Executiva Nacional de Estudantes de Medicina (Denem). Ele foi eleito para a gestão do ano 2000 da entidade durante o 29O. Encontro Científico dos Estudantes de Medicina (ECEM), que aconteceu em Florianópolis e reuniu mais de três mil participantes. Para o estudante, o avanço da ciência médica tem representado uma perda da valorização do lado humano da profissão. "Hoje o que se faz é ainda uma medicina de procedimentos, não de acompanhamento. O oftalmologista, por exemplo, só examina o teu olho, não quer saber se você está ameaçado de desemprego, se o teu filho usa drogas..." O rosto deste mineiro de 22 anos, que desde os 9 "gostava de ser médico", se ilumina quando fala de medicina. Ele estuda na Universidade Estadual de Pernambuco depois de ter conseguido transferir-se de uma escola privada de Petrópolis e não se arrepende da troca. "A universidade pública tem um debate mais vivo, é mais democrática", afirma Hêider. 

   A avaliação conduzida pela Cinaem vai muito além de uma reforma curricular e preocupação com estrutura física. Ela indaga sobre modelos pedagógicos,a relação professor-aluno, a inserção do médico na sociedade. Agora o trabalho entra em uma fase que busca a transformação e o grupo defende que a construção dessa nova escola médica esteja ligada ao funcionamento efetivo do Sistema Único de Saúde. "A proposta do SUS, centrada na realidade brasileira, é fantástica e funciona muito bem, integrada com as escolas, em alguns lugares como Santos, Betim, Camagibe, Niterói, com projetos inovadores em que os alunos atendem nos postos de saúde", avalia Hêider. Ele conta que, em Niterói, por exemplo, a Universidade Federal Fluminense integrou os cursos de saúde com o SUS. "Desde o primeiro ano eles vão para os postos municipais e as aulas se dão a partir dos sujeitos reais: o paciente, a comunidade".

   As escolas de medicina devem caminhar para a formação do "cuidador", explica Hêider. "Dentro desta visão o sistema de saúde precisa permitir que o teu médico te acompanhe... Você vai saber que ele é alguém que vai ter cuidado contigo, com a tua vida". Médicos que 'cuidam' do paciente lhe dão mais segurança, além de conseguirem mais informações para o diagnóstico. Nessa visão o "paciente" é ativo e não passivo, pois o cuidado com ele não se restringe a procedimento, mas a prevenir e a promover a sua saúde e a construir um projeto terapêutico integral e consciente. Um médico cuidador se preocupa com a totalidade, com a vida, com o córrego de água poluída de onde o paciente e sua família se abastecem, o orienta a procurar conversar com a sua comunidade sobre o problema, a exigir providências dos poderes públicos. O cuidador não está preocupado em fazer um procedimento no paciente, mas em captar o seu mundo e ajudá-lo a resolver o seu problema. "Se ele não pode pagar o remédio, se está em pânico e corre o risco de perder o emprego, o problema também é meu... Talvez eu tenha que me preocupar mandando uma carta para o patrão do doente, por exemplo", comenta Hêider. 

   O primeiro contato que o estudante de medicina tem é com a morte, o cadáver, e não com a vida. "Ao estudante é dado direitos de transgressões, de furar o corpo, de ver a nudez, de conhecer os segredos das pessoas... Você só vê a hepatite do leito 142, o glaucoma do olho... Na prática ele é tragado pela prática desumana e passa a pensar que deve ser frio, não se preocupar com essas pessoas que choram, sofrem.... Com o agravante de que assistem aulas com muitos médicos que não são educadores", analisa o estudante. 

   "A medicina precisa mudar pois não forma um bom médico e ninguém está satisfeito. Por isso, o nosso pensamento, no Denem, é de fazer um movimento em defesa da vida. Defendemos os conselhos municipais de saúde e o controle social nos hospitais universitários, para que a população também tenha voz." Hêider lembra que o trabalho da Cinaem foi levado para o governo, mas o MEC insiste em manter o provão. "É impossível fazer uma avaliação construtivista quando se faz ranking de cursos e universidades. Há 70 pedidos de abertura de faculdades de medicina tramitando e o país já tem mais médicos do que recomenda a Organização Mundial de Saúde. O problema do país é modelo, sistema e não abertura de escola e hospital." 

   Hêider diz que embora haja alguns avanços localizados nas escolas médicas e no SUS, a situação da saúde no país ainda é muito complicada e agravada pelo descaso do governo e sua ideologia de estado mínimo. "Gasta-se menos com saúde no Brasil do que na Somália, proporcionalmente. O modelo centrado na hospitalização não está mais dando conta e entra-se nessa farsa de dizer que privatizar resolve tudo, quando o que deve ser revisto é o financiamento, a reforma tributária, a mudança de modelos de atendimento e as formas de participação da população." No país 80% do atendimento é pelo SUS, mas 70% dos leitos hospitalares são privados. É só ver a fila na frente dos hospitais públicos para se dar conta do drama vivido pela maioria da população. "Mas não é justo jogar toda a culpa em cima do médico e não falar no valor de uma consulta pelo SUS, que hoje é de 2 a 4 reais."

   Que modelo médico-hospitalar é esse, que movimenta 35 bilhões de dólares, tem mais médicos por habitante do que recomenda a OMS, mas mata dezenas de pessoas portadoras de problemas renais crônicos em Caruaru, Pernambuco, é responsável pela morte de idosos no Rio, e de bebês em Rondônia, só para citar três escândalos recentes? No país, o descaso com a dignidade humana e a desumanização da assistência à saúde chegou ao ponto de as pessoas serem tratadas como "meros objetos de lucro, de interesses corporativos e políticos", denuncia o professor da USP Paulo Antonio de Carvalho Fortes, autor do livro Ética e saúde. 

   Uma pesquisa feita em 1996 pela Fundação Oswaldo Cruz e Conselho Federal de Medicina revela que 54% dos médicos brasileiros trabalham mais de 12 horas, em três empregos diferentes, para ganhar uma média de R$1300 por mês. Mesmo assim 96% se dizem satisfeitos com a profissão, revelando uma predominância de escolha marcada pela vocação. 

   Eduardo Usuy Júnior, 22 anos, um dos organizadores do 29o ECEM e aluno da nona fase de Medicina na UFSC, decidiu, na fila do banco que iria fazer a inscrição para o vestibular do curso. "No fundo era o que eu queria mesmo, mas resistia a uma certa pressão da família para seguir a carreira, queria fazer uma escolha livre." Ele pensa que a sociedade ainda vê no médico um profissional superior, com status. "Mas não é bem assim. Hoje há um número excessivo de escolas médicas que não formam um médico 'pronto' para atender o paciente e apenas 40% dos formados conseguem vagas em residência médica". 

   Usuy Jr. também se preocupa com o fato de os estudantes de medicina formarem uma classe diferenciada de alunos. "O curso exige muito e ficamos enclausurados e alheios ao que se passa no mundo a maior parte do tempo. Somos também preparados a separar as emoções para lidar com situações de morte, de dor, de revolta..." Ele conta que o primeiro contato com o cadáver é algo que não se consegue imaginar sem estar lá. "A primeira aula foi terrível, eu até pensei em desistir, mas depois que coloquei as luvas e conversei com os colegas, consegui superar o choque. Os professores de Anatomia também são muito rígidos, não admitem brincadeiras desrespeitosas, que são comuns nos cursos médicos. Todo semestre participamos de uma missa em memória das pessoas que viveram naqueles corpos que se prestam agora à ciência". 

   A grande questão aberta neste debate é que não basta reformar currículos e formar professores com titulação de mestres e doutores. É preciso que eles sejam educadores afetuosos e humanos, que transpirem e inspirem humanidade na sua prática educativa transformadora. A discussão é interminável e apresenta avanços signifivativos na UFSC com o seu projeto Distrito Docente Assistencial, que leva os estudantes para juntos dos doentes, em postos de saúde da capital. Mas isso é assunto para a próxima reportagem.


O paciente tem direito a... 
- Tratamento humano, atencioso e respeitoso, por parte de todos os profissionais de saúde
- Identificação pelo nome e sobrenome - não pela doença ou por expressões desrespeitosas ou preconceituosas 
- Segurança e integridade física nos estabelecimentos de saúde, públicos e privados 
- Receber informações de maneira didática, sobre a doença e todas as etapas do tratamento 
- Ser esclarecido se o diagnóstico é experimental ou faz parte de pesquisa e recusá-lo se assim entender - direito que passa à família se o paciente não puder exprimir a sua vontade 
- Recusar procedimentos, diagnósticos e tratamento ou consentir, se devidamente informado sobre o caso 
- Consultar seu prontuário a qualquer momento e ter diagnóstico ou tratamento descrito por escrito 
- Consultas marcadas antecipadamente e tempo de espera que não ultrapasse 30 minutos 
- Identificar o profissional de saúde por crachá, com nome completo, cargo e função 
- Receber receitas legíveis 
- Exigir procedência de sangue que vá receber , exigir testes para verificar se é diabético ou se tem alergia a medicamentos 
- Conhecer em detalhes os gastos de seu tratamento 
- Ter seus segredos resguardados desde que isso não acarrete risco a terceiros ou à saúde pública 
- Acompanhante nas consultas e internações e presença do pai do bebê nos partos 
- Tratamento digno e respeitoso, mesmo após a morte

Fonte: Cartilha da Secretaria de Estado da Saúde/SP 


"Levem amor aos doentes" 
Não precisa ser santo para entender que o ser humano precisa ser visto como "humano", acima de tudo. Francesco Forgioni, o padre Pio, beatificado este ano pela igreja católica, sabia disso quando criou em San Giovanni Rotondo, na região da Puglia, Itália, a sua Casa Sollievo della Sofferenza (Casa Alívio do Sofrimento), um hospital que ensina, já na sua entrada: Levem amor aos doentes. "O meu médico antes de me curar me deve dizer uma palavra de conforto", ensinava padre Pio. Conta-se que esse homem, desconcertante na sua sábia visão crítica do mundo e dos homens, conversava um dia com médicos, sobre essa mania de se considerarem "deuses". Provocados por padre Pio, os médicos rebateram: "Mas, mesmo assim o senhor criou um hospital". Ele respondeu: "Sim, mas não criei o hospital para os médicos, o criei para os doentes."
  •  Leia  a segunda parte desta reportagem
    Internato em saúde coletiva leva estudantes da UFSC para perto da população