Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina

Médicos de homens e de almas?
Internato em saúde coletiva leva estudantes da UFSC para perto da população

Por Raquel Moysés - Jornal Universitário                                                               (Parte II)
 
A moça acompanha a velha senhora na consulta. Sente fortes dores no olho, que verte pus, e ela está muito assustada. A médica não a examina, muito menos  a olha. Sempre de cabeça baixa, escreve a receita. A acompanhante, chocada, pergunta: Você não vai sequer tocá-la, olhar para ela? Só então a médica levanta o olhar: - Você não, senhora doutora... Exasperada a moça rebate, lembra a  idade da pessoa, seu sofrimento, mas nada comove a “doutora”. A jovem nem pega a receita, segura a amiga doente  pela mão e sai do hospital enojada, chorando, em busca de um lugar para aliviar a dor do ser humano. O episódio aconteceu na capital portuguesa, Lisboa, mas poderia ter ocorrido em outro lugar do mundo ocidental, em que predomina uma prática médica biologicista centrada na indústria da doença e não no cuidado com a pessoa e a vida.

O médico cardiologista e professor de Anatomia na UFSC, Roberto Luiz  d’Ávila viveu uma das experiências mais desagradáveis da sua vida quando foi submetido a uma cirurgia, em 1996. “O cirurgião e o anestesista eram meus amigos e eu estava no hospital onde trabalho há 20 anos, mas me senti miserável, violentado na minha intimidade. Por que a sala de cirurgia tem que ser tão gelada?  Por que você tem que se vestir com aquele avental aberto,  que faz você ficar tentando esconder a genitália...?”

Naquele dia, que lembra com desgosto,o médico experiente, que faz parte do Conselho  Federal de Medicina e é diretor da Unimed, se sentiu na pele do paciente comum, desamparado. “Senti falta de alguém que me apertasse a mão e  dissesse, fique tranqüilo... Não me senti cuidado”, confidencia.

“O compromisso do médico é de curar às vezes, consolar sempre” 

Roberto diz que a  idéia do “cuidado”,  que já estava presente nesse pensamento do início do século, precisa ser resgatada. “A medicina tem que ser transformadora,  mas a universidade ainda ensina doenças aos alunos, que aprendem a diagnosticar e a tratar. É um estudo desvinculado da pessoa humana,  se fala muito pouco em filosofia, antropologia... A escola de medicina gradua excelentes técnicos em medicina, mas não forma médicos que cuidam de pessoas”.

Há alguns anos, desde que começou a se interessar por bioética, Roberto faz  a mesma pergunta  que angustia o sanitarista italiano Giovanni Berlinguer: “Por que estudantes de medicina são idealistas no início do curso e uns cínicos no final?”  Por que o aluno começa medicina querendo salvar a humanidade e aliviar o sofrimento e termina  só pensando em super-especialidades, trabalhar em grandes centros e ganhar muito dinheiro?

D’avila está fazendo uma pesquisa, inspirada na bioética, com estudantes de todas as fases do curso da UFSC e já pôde perceber que os mesmos alunos que nas primeira fases são claramente “autonomistas” - reconhecem plenamente o direito à autonomia do paciente -  no final do curso são extremamente  “legalistas”, se guiando estritamente pelo Código de Ética, Código Penal... “As respostas são muito parecidas com as de médicos com 20 anos de profissão, também entrevistados,  e que são seus profes-sores nas últimas fases do curso”.

Roberto ia ser engenheiro, mas ficou fascinado pela medicina  aos 16 anos, quando acompanhou ao hospital um sobrinho de 4 anos que havia se ferido na face. “Foi uma espécie de revelação... Fiquei na sala de sutura com ele e me encantei,  me vi atendendo naquele lugar. Mais tarde, já formado e trabalhando lá, tinha a sensação de já ter me  visto ali, cuidando de pessoas.”

Os gestos desenvoltos, que interpretam a fala, a voz possante e ao mesmo tempo doce, fazem imaginar o educador na aula de anatomia, ensinando os jovens das duas primeiras fases. Roberto  pensa que os alunos deveriam iniciar o curso no posto de saúde, em contato com as pessoas vivas. “É um equívoco começar com os cadáveres, que parecem bonecos de cera... é difícil reconhecer algo de humano neles.”

O médico diz que meninos e meninas precisam aprender desde cedo o valor do toque, do contato, do calor humano, do cuidado, da solidadariedade, do respeito. “Eu sempre digo para meus alunos que a gente só tira a roupa, só mostra a nossa intimidade para quem ama ou em quem confia... As pessoas permitirem que os médicos as toquem é uma coisa muito mágica, uma mística de energia... Tenho um paciente que me diz:  doutor, só em ser examinado já me sinto melhor”.

A percepção do cuidado é algo vital para doentes e familiares. Roberto diz que pacientes vítimas de erro dificilmente denunciam o médico se se sentiram “cuidados” por ele. Pesquisas também revelam que as médicas raramente são denunciadas. “Os pacientes vêem nelas mais atributos humanos do que nos homens. As médicas conversam mais, perguntam da família, dedicam mais tempo ao doente”, supõe.

Algumas dessas reflexões estão no livro que Roberto está escrevendo, ainda com o título provisório Por que os médicos não acertam sempre, uma versão não-acadêmica da sua dissertação de mestrado. Antes de se despedir, o autor conta que vai viajar para dar uma palestra sobre responsabilidade médica. “Os médicos ainda estão preocupados em se defenderem de processos, denúncias... Eu digo para eles, vamos discutir 'cuidado', isso resolve quase tudo...  Se não, não vejo saída,  a medicina vai se extinguir como profissão que cuida de pessoas”.

No meio dos vivos 

Depois de quase duas décadas, o projeto Ambulatório de Periferia, que funcionava em postos de saúde da capital, levando estudantes de medicina, enfermagem e nutrição para perto da população, entra oficialmente no currículo do curso de Medicina, reformado em 1998. “Foram mais de18 anos de trabalho marginal e totalmente voluntário, uma prova de paciência histórica”, avalia o médico e educador Marco da Ros, do Departamento de Saúde Pública. Agora a proposta ganha status curricular, um novo nome (Distrito Docente-Assistencial) , e o seu coordenador um título sugestivo,  preceptor do Internato em Saúde Coletiva. Através de um convênio entre o Centro de Ciências da Saúde (CCS) e a prefeitura municipal, os alunos da 10a fase vão para seis postos de saúde (Saco Grande, Itacorubi, Lagoa, Rio Tavares, Costeira e Córrego Grande). São eles, junto com alunos de enfermagem e nutrição,  que atendem os pacientes, com a supervisão de médicos do Serviço de Saúde Pública do Hospital Universitário e enfermeiros da prefeitura.

A análise do primeiro semestre de 1998 apresenta resultados surpreendentes. Quase 90% dos casos foram resolvidos nos próprios postos de sáude, onde são feitos até preventivos de câncer. Das sete mil consultas feitas  apenas 700 pessoas foram encaminhadas para especialistas e,  dessas, somente 70 para oftalmologistas. Isso significa que para atender esses postos, precisa-se em média de 2,5 consultas por semana. É também uma prova de que o atual modelo de formação, centrado na especialização, é deformante.  “É claro que experiências desse tipo criam uma certa indisposição entre os que defendem o modelo de medicina especializada, pois os números provam que não precisamos dos especialistas com tanta ênfase”, comenta Da Ros.

É curioso como a população descobre “num zás” que tem médico bom no posto de saúde. No Rio Tavares chega-se a fazer 40 consultas numa tarde e na Lagoa há sempre uma grande procura.  O som engana, mas Da Ros não faz qualquer alusão ao “melhor amigo do homem” quando diz que “a  população não procura é o médico “ao-ao”... aquele que só sabe encaminhar o paciente “ao” cardio-logista, ao pneumologista, ao...ao...”
O Internato  funciona todas as tardes de segunda, terça, quinta e sexta. As manhãs e as quartas-feiras são dedicadas a seminários e a estudos sobre sobre doenças comuns (dor de cabeça, gripe, pressão alta etc),  casos clínicos comunitários (tuberculose, alcoolismo), violência familiar,  estudos de alternativas terapêuticas como fitoterapia, acupuntura e homeopatia.

A incidência de violência levantada no ano de 98, nos seis postos, foi de 130 casos. O número é preocupante e mostra como o médico tem que se preocupar em saber, por exemplo, porque uma criança está com insônia, parou de comer, chora, ou faz xixi na cama... Uma medicina que se preocupa com a vida dela pode descobrir que por trás de tudo  há violência, estupro...

Por isso, o Internato inclui visitas domiciliares, que permitem  ver como as pessoas vivem e conhecer seus problemas. Os estudantes orientam também grupos terapêuticos de hipertensos, diabéticos, obesos,  gestantes, alcoolistas, dependentes de drogas, mães de desnutridos. “O aluno descobre o quando pode aprender com a população,  que sabe muito mais do que se imagina sobre a própria doença”, observa Da Ros.

Daniel Negreiros, que já passou pelo Internato, diz que mudou o seu olhar sobre a medicina. “Percebi a importância da saúde pública, ainda tratada de modo marginal. Se um paciente com diarréia me perguntava - posso comer abacate ?- não sabia responder. Notei, então,  que dedicamos mais tempo no curso a estudar a reto-colite ulcerativa, que é uma doença raríssima”, questiona Daniel.

O trabalho também provoca a comunidade a exigir mais dos poderes públicos. O grupo de diabéticos da Lagoa, por exemplo, quer um passeio para fazer caminhadas. Juntas, as pessoas conversam, fazem exercícios de relaxamento, tomam chá, e tudo isso ajuda a melhorar “o corpo que luta”, lembra Da Ros, citando Mário Testa, médico  sanitarista argentino, que disse: “Quando penso na revolução me dá vontade de fazer amor... Creio que tentei dar conta disso ao considerar o objeto de trabalho da medicina como o corpo que trabalha, o corpo que ama e o corpo que luta.”

Marco, que está concluindo tese sobre o ensino médico no doutorado em Educação lembra que o movimento dos sanitaristas do país surgiu só em 1976, em oposição ao complexo médico-hospitalar-industrial, o poder financeiro que se instalou na área da saúde após o golpe militar.

O ensino médico no Brasil sofreu influências decisivas dos embates que se davam lá fora. O movimento de medicina social floresceu na Europa em 1848, mas perdeu força a partir de 1896, com a descoberta da bactéria por Pasteur, que  acabou  sendo usada para uma ruptura do médico com a sociedade e  abertura de uma perspectiva de lucro, com a corrida de medicamentos e equipamentos para diagnosticar e curar a doença. A  tendência da “indústria da doença” ganha  um grande reforço em 1910, nos Estados Unidos, com  a padronização da linha positivista e biologicista proposta por Abraham Flexner, autor de uma pesquisa financiada pela Rockfeller Foundation, que leva ao fechamento de 70% das escolas médicas nos EUA não compatíveis com o modelo flexeriano.

Você já viu o fígado do leito 14...? 

Essa visão centrada no aspecto biológico, na hospitalização, no fragmento, entra nas escolas médicas brasileiras na década de 50 e se enraiza com o golpe de 64, que modifica os currículos médicos nos moldes flexerianos, com o estímulo de Golbery do Couto e Silva, diretor da Dal Chemical, produtora de matéria prima para produção de medicamentos.  “A disciplina de Terapêutica sai de cena e os médicos aprendem a medicar por amos-tras grátis”, alfineta Da Ros. As faculdades de medicina voltam-se  para o indivíduo físico e sem emoções, seguindo a teoria unicausal da doença. “A teoria da determinação social  do processo saúde-doença, a mais avançada hoje, diz que as pessoas adoecem e morrem conforme vivem, o que é determinado pelo modo como a sociedade se arranja”, explica Da Ros.

Só 140 anos após  o movimento de medicina social europeu é que se consegue colocar no papel da Constituição de 1988 a saúde pública como um dever do estado brasileiro. Mas, para sair do papel, são outros 500. “O país ainda precisa descobrir uma medicina que colabore com ‘a capacidade de reagir das pessoas’, uma  bela definição de saúde proposta pelo MST”, sonha o médico.

De 1986 para cá as grandes organizações mundiais da área de saúde dizem que o modelo faliu, mas o complexo médico-industrial está aí, forte e rijo, enquanto as gentes adoecem, esperam em filas e morrem em corredores de hospitais ou abandonadas nas ruas. Até os tiranos do Banco Mundial, que sempre ordenaram  cortar os gastos com a saúde, para sobrar dinheiro para o capital, se vêm obrigados a mudar de tática, tentando evitar a reação da “horda” dos desesperados. “É irônico perceber que o BIRD se torna uma 'aliado' do movimento sanitarista, só que nós defendemos o resgate da humanidade e eles defendem o capital”, comenta Da Ros.
O próprio governo de FHC, comandado pelo BIRD, propõe o Programa de Saúde da Família, prometendo contratar 20 mil médicos até o ano 2002, com salários de 3 mil reais. No rastro das necessidades, a UFSC está organizando a Residência Multiprofissional em Saúde da Família, que deve começar no próximo semestre, com 15 vagas.

Uma tarde na Lagoa 

Andressa Regina da Silveira está sentada na sala de espera do posto da Lagoa da Conceição com o pequeno Vitor Manoel sentadinho no colo. O filho, de dois anos, vomitou à noite e está sem comer. “O atendimento agora mudou bastante, é mais rápido, a gente recebe mais atenção, os médicos explicam tudo”. A moça, de 18 anos,  casada com um estudante de Arquitetura da UFSC, trabalha numa ‘casa de família’ e nunca procurou médico particular. “Venho aqui ou vou ao HU, onde nasceu o nenê e o atendimento é ótimo”.

Marlene Vieira, que trabalha há 20 anos no HU, está deitada, com as pernas cheias de agulhas. Ela faz acupuntura no posto para tratar  hipertensão, dores musculares, problemas em ligamentos do joelho e se sente melhor desde que começou a cura alternativa com o  médico Pedro Luiz Schmidt. Sorridente e simples, o 'Pedrão',  fala para as pessoas entenderem. “Aqui costumamos dizer que atendemos qualquer ser vivente, não precisa ser da Lagoa.  A acupuntura é muito boa para o que não funciona direito no corpo, eu comecei a usar essa terapia há 22 anos, na área de obstetrícia, para induzir o parto, virar o nenê...”

O médico do HU é supervisor do Internato na Lagoa e diz que lá os alunos têm a chance de encontrar a mesma pessoa mais de duas vezes. “Atendemos uns 35 pacientes por dia e resolvemos mais de 90% dos casos aqui. No posto fazemos preventivo de mama,  colocamos DIU, aplicamos vacina anti-rábica e realizamos até pequenas cirurgias, para extrair unhas, drenar abscessos, retirar cistos sebáceos, sinais na pele...”

Michele Dotto, 21 anos, da 5a. fase de Enfermagem, trabalha no posto como voluntária. Já fez o estágio obrigatório,  mas gosta de estar perto do povo. “Aqui o trabalho é mais humano. No hospital se trata a doença e aqui tratamos a pessoa, conhecemos a sua história, sua casa, família, isso ajuda a  fazer um trabalho melhor.”

O ambiente do posto é limpo e tranqüilo, mas enquanto Michele fala, uma paciente se impacienta porque espera uma médica que conclui uma pequena cirurgia. “Por que não me avisaram logo que tinha operação?”, pergunta, de cara amarrada. Com paciência, Nelson Rafael Bacega, de 23 anos, 10a. fase de medicina, tenta acalmá-la. O aluno, que desde a infância sonhou em ser médico, diz que no posto é diferente do hospital, “porque você coloca ‘a mão na massa’ de verdade.” Já não se sente o mesmo idealista de quando entrou no curso, “pois a situação da saúde no país desanima”, mas ainda vê a medicina como uma arte e pensa que a formação humanística do médico é essencial. Percebe alguns avanços no currículo,  mas fica desiludido com  professores que só pensam no status dos títulos e não em ensinar.  “Há mestres e PhDs com uma didática horrível. Felizmente não é a maioria, mas eu diria aos médicos que querem ensinar para fazerem seus mestrados e doutorados na área de educação”.

O modo sereno de Nelson atender a paciente irritada com a demora,  o jeito tímido, o leve sorriso que assoma aos lábios faz surgir a  nítida impressão  de que não conseguiriam transformar esse menino num 'cínico'. Na conta rápida, só falta um ano para ele deixar a escola, depois vem a residência ... e o peito se agita num frêmito de esperança e  um desejo profundo: o de estar diante de um médico de homens e de almas. 


 
Estudantes de medicina de todo o país fazem um ato em defesa da saúde pública, no Largo da Alfândega.  Encapuzada, com palavras que denunciam a fome e a morte escritas nas roupas de luto, uma aluna deita-se no chão e fica ali, inerte. O efeito mortal, na manhã gelada, vento sul cortante, toca o homem que aparenta ser um andarilho e caminha pelo calçadão. Com um gorro de lã, uma japona surrada e uma sacola plástica na mão, o homem se aproxima da figura caída no chão, a ajuda a levantar-se e a abraça. Nada de jogo de cena, mas talvez muitos passantes não tenham entendido. O homem do povo, um ser errante nas ruas da miséria, não percebeu a encenação, mas foi capaz, na pureza de um gesto e de um abraço, da solidariedade que lhe é negada todos os dias.