Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina 

Profissionais da saúde não sabem lidar com a morte
A conduta dos profissionais de saúde diante da possibilidade da morte do paciente foi abordada em reportagens do jornal A Notícia, de Joinville, e da revista do Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina. "Os profissionais da saúde devem entender que a morte é uma conseqüência natural da vida e não um fracasso do tratamento médico. Deve ser ressaltado que morrer dignamente é morrer sem dor", disse ao jornal AN Rachel Duarte Moritz, que teve dois trabalhos destacados pela imprensa: "O efeito da informação sobre a conduta dos profissionais de saúde diante da morte", e "Aceitação e conhecimento do tema morte ou morrer, dos alunos dos cursos de Medicina e de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina”. Veja, a seguir, as matérias


A Notícia - Joinville/SC - 6 de outubro de 2002
Ortonásia: a busca por uma morte no tempo certo
Entrevista com Rachel Duarte Moritz

                                               Por Domingos de Abreu Miranda

A ciência tem permitido ao homem estender a vida por um tempo acima das expectativas de seus ancestrais. Há cerca de cem anos, a vida média do brasileiro era de 33 anos; hoje, ela já é mais que o dobro disso. Apesar destes avanços, a vida é finita e hoje se discute não tanto os meios de prolongá-la, mas como fazer com que o paciente tenha uma morte com dignidade, o que nos meios científicos é conhecida como ortotanásia.
A professora Rachel Duarte Moritz, do departamento de clínica médica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), apresentou, no dia 11 de outubro, a tese de doutorado "O efeito da informação sobre a conduta dos profissionais de saúde diante da morte". Em seus 20 anos acompanhando os doentes terminais do Hospital Universitário, Rachel viu tanto profissional quanto familiar indignado pela morte do paciente, sem compreender que "a morte é uma conseqüência natural da vida e não um fracasso do tratamento médico".
Pela ortotanásia, o que se preconiza é a morte no tempo certo. Em sua tese de doutorado e nesta entrevista para A Notícia, Rachel Moritz trata da conduta dos profissionais de saúde diante da morte e a decisão de suspender tratamentos considerados fúteis ou inúteis.

A Notícia - Os hospitais públicos e privados estão preparados para oferecer um final de vida digno?
Rachel Moritz - Não são os hospitais que devem se preparar para oferecer um final de vida digno, mas, sim, os profissionais da saúde que cuidam dos pacientes terminais. Para que isso ocorra, esses profissionais devem entender que a morte é uma conseqüência natural da vida e não um fracasso do tratamento médico. Deve ser ressaltado que morrer dignamente é morrer sem dor, acompanhado de uma pessoa de estima e, quando possível, no ambiente domiciliar.

AN - Como distinguir entre a tecnolatria (excesso de tecnologia para prolongar a agonia da morte) e a ortotanásia, que é a "arte" de morrer bem, no tempo e lugar certos?
Rachel - Melhor seria a utilização do termo distanásia, definido como a morte lenta e com sofrimento, do que a tecnolatria. A distanásia pode ser decorrente da administração de tratamentos considerados inúteis em decorrência de uma obstinação terapêutica. A cultura ocidental afasta o homem da morte e, conseqüentemente, o profissional da área médica, formado para tratar e curar, tem dificuldade para aceitar a morte dos seus pacientes, o que o leva em muitas situações à obstinação terapêutica. A ortotanásia, por outro lado, seria a morte no seu tempo certo.

AN - Como se deu o seu envolvimento com este trabalho com doentes terminais?
Rachel - Trabalho em UTI há cerca de 20 anos e tenho constatado que o desenvolvimento tecnológico, associado ao medo do erro médico e de processos ético-legais, tem, em certas ocasiões, levado o médico à prática da distanásia. Foi essa constatação que me levou a estudar sobre a morte e o morrer nas UTIs.

AN - Em linhas gerais, o que trata a sua tese de doutorado "O efeito da informação sobre a conduta dos profissionais de saúde diante da morte"?
Rachel - A minha tese visou a verificar a conduta dos profissionais de saúde diante da morte, do morrer e da recusa ou suspensão de tratamentos considerados fúteis ou inúteis e, após um debate sobre esse tema, avaliar a eventual mudança dessa conduta.

AN - Como é a vida entre pacientes com uma carga de angústias tão pesada? A senhora também não fica abalada emocionalmente com o sofrimento das pessoas, muitas pedindo para abreviar as suas vidas?
Rachel - Em todos os trabalhos existem momentos de satisfação e também de angústia. As UTIs não são locais somente de dor. A mortalidade nessas unidades varia de 25% a 30%, portanto, a maioria dos pacientes recebe alta e, muitos deles, voltam a trabalhar e exercer o seu papel na sociedade, o que nos traz muita alegria. É importante ser lembrado que os pacientes de UTI, principalmente aqueles mais gravemente enfermos, estão sedados e, na maioria das vezes, são submetidos a ventilação mecânica, o que os impede de falar. Além do mais, o paciente nessas unidades está agudamente enfermo ou sofre uma intercorrência aguda de uma patologia crônica, não possuindo, nesse momento, capacidade de decisão. Entretanto, é impossível ser afastado o envolvimento emocional do profissional da UTI com seus pacientes e familiares, o que, em circunstâncias restritas, leva a uma enorme angústia.

AN - Como saber o tempo certo para morrer, "sem abreviar ou prolongar artificialmente o tempo de vida", conforme defende a ortotanásia?
Rachel - Essa é uma questão difícil, tanto do ponto de vista ético quanto legal. Entretanto, as decisões tomadas em equipe, baseadas em critérios médicos bem definidos e com a aceitação dos pacientes, se possível, e de seus familiares, terão mais chance de serem acertadas.

AN - Muitos pacientes pedem para abreviar a sua vida por causa do sofrimento físico. Por que no Brasil a dor é tratada com tanto descaso?
Rachel - Muitas vezes, as medicações analgésicas são pouco prescritas pelo excesso de zelo do profissional médico, que teme pelos seus efeitos colaterais. Esse pode ser um motivo pelo qual os pacientes, mesmo internados em hospital, queixam-se de dor.

AN - O que é mais importante para um doente terminal: o alívio da dor ou oferecer um pouco de esperança?
Rachel - Certa vez, tive um paciente que, após sua alta da UTI, ao conversar com a equipe desse setor sobre a morte, disse: "Não se morre com dignidade, se vive com dignidade e se morre sem dor". Sob o meu ponto de vista, o controle da dor é essencial para o tratamento de um paciente, corrobora com essa afirmação a escolha do tema para a minha tese de mestrado que foi "Sedação e analgesia em UTI". Também considero essencial a comunicação da verdade para o paciente e seus familiares.

AN - Por que na maioria dos hospitais há tanta insensibilidade dos profissionais médicos com a angústia dos pacientes no momento em que eles mais precisam de apoio?
Rachel - Muitas vezes, os profissionais, como já foi mencionado, preparados para curar, fogem da morte e, conseqüentemente, não fornecem aos seus pacientes o apoio indispensável durante o morrer.

AN - Em alguns hospitais do País estão sendo criados os centros de medicina paliativa "Hospice", que visa a dar um tratamento mais humano para os pacientes terminais. A senhora acredita que dentro de pouco tempo os hospitais mudarão a sua postura nesta área?
Rachel - Se continuarmos debatendo sobre a morte e o morrer, tanto no ambiente hospitalar quanto domiciliar, poderemos mudar a nossa conduta sobre esse tema.

AN - A senhora, em algum momento, pensou que é válido aliviar o sofrimento de um doente abreviando a sua vida? Na Holanda isto já é legal com a aprovação da lei que permite a eutanásia.
Rachel - No Brasil, a eutanásia é ilegal e, portanto, deve haver, inicialmente, um amplo debate sobre esse tema, principalmente abordando aspectos ético-legais. Somente após esse debate poderemos firmar as nossas convicções sobre o tema.

(Texto acessado no arquivo de A Notícia no  endereço http://www.an.com.br/2002/out/06/1ger.htm)



Revista do CREMESC - Maio/Junho 2002
Pesquisa avalia como os novos médicos lidam com a morte
Dor e impotência são sentimentos comuns nas pessoas que perdem algum amigo ou familiar. É um momento delicado, de estresse máximo na vida de qualquer um. Mas se lidar esporadicamente com uma morte é difícil, como se sentem aqueles que trabalham diariamente com a possibilidade da morte, como os médicos? Será que os profissionais da área da saúde estão preparados para esta dura realidade? Existe alguma possibilidade de preparar alguém para lidar com a perda de um paciente? Para responder estas perguntas, o Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina inicia nesta edição uma reportagem especial sobre o assunto, abrindo espaço para um renovado debate sobre os eternos desafios da medicina: a Vida e a Morte. Como forma de iniciar a discussão, a Revista do CREMESC divulga, de maneira exclusiva, alguns dos resultados do trabalho das formandas em Medicina Suzana Clasen Moritz, Rachel Duarte Morítz e Josiane Martins, que pesquisaram sobre “Aceitação e Conhecimento do Tema Morte ou Morrer, dos Alunos dos Cursos de Medicina e de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina”. As constatações finais não deixam dúvida sobre a necessária abordagem da questão:
  • impotência e tristeza são os sentimentos que mais atingem os 158 acadêmicos pesquisados, diante da morte dos enfermos.
  • a maioria deles se sente despreparada para lidar com o fato.
  • tanto o curso de Medicina como o de Enfermagem da UFSC não preparam seus alunos para lidar com a morte de pacientes.
Professores também estão despreparados
Se encarar a morte é difícil, manter uma relação com o paciente que vai morrer também não é uma tarefa fácil. Conversar, examiná-lo, responder aos seus questionamentos ou de sua família exige preparo. Atualmente, o único parâmetro, modelo dos estudantes, é a relação dos professores e outros profissionais de saúde já graduados. Mas se esses profissionais não aprenderam a lidar com a situação, por também terem recebido pouco treinamento durante sua formação, não se pode esperar que os estudantes se comportem de forma diferente.
Até os dias atuais, a morte tem sido considerada como um insucesso de tratamento, um fracasso da equipe de saúde, trazendo angústias para aqueles que a presenciam. isto porque, durante sua formação, os estudantes de medicina, por exemplo, recebem mais ênfase no lado científico e laboratorial do que na relação médico e paciente, o que dificulta o contato no momento terminal, que pode gerar conflitos íntimos que angustiam os profissionais envolvidos com o tratamento diante da perspectiva da morte, já que a função destes profissionais é promover a saúde.
Ter maior orientação no estudo da antropologia, a fim de perceber as crenças e valores dos pacientes, podendo assim identificar suas expectativas diante da possibilidade da morte é uma das opções sugeridas no trabalho das formandas. Se os profissionais da saúde discutissem com seus doentes o cuidado que estes esperam receber nos últimos dias de vida, antes de seu estado tornar-se realmente grave, talvez amenizasse o desconforto. Como recebem pouco treinamento nas escolas médicas, os profissionais sentem dificuldade de lidar com a morte e protelam a abordagem desse assunto.
Outra questão levantada no trabalho, importante de ressaltar, é que o ensino da ética não traz as respostas do que é certo ou errado, mas proporciona conhecimento e ferramentas necessárias para a boa prática, para fazer escolhas que correspondam aos valores e credos das pessoas envolvidas.

Nova abordagem sobre o tema
A partir de Século XX, o homem, cada vez mais passou a morrer sozinho, ou seja, fora do ambiente familiar, na maioria das vezes nos hospitais. No ano 2000, sete entre 10 mortes ocorreram em hospitais ou clínicas. Este fato faz com que a “morte moderna” seja qualificada por características como um ato prolongado gerado pelo desenvolvimento tecnológico, fato científico gerado pelo aperfeiçoamento da monitoração e passivo, já que as decisões não pertencem exclusivamente ao enfermo. Estas características contribuem para o despreparo emocional e intelectual sobre a realidade da morte que, em hospitais, talvez sirva para proteger a família de presenciá-la. E uma abordagem mecânica, centrada nos equipamentos, uma maneira dos profissionais e familiares reprimirem e lutarem contra as ansiedades despertadas por um paciente terminal ou gravemente doente, de não se recordarem de sua falta de onipotência, das limitações e da sua própria mortalidade.

(A Revista do CREMESC é editada por Lena Obst e Denise Christians)


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