Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina 

Oficina analisou limitações na prática do controle social
Representantes dos usuários estão desarticulados e sua fala é silenciada por gestores e profissionais de saúde. Muitas deliberações dos conselheiros não são respeitadas pelo Executivo. Questões como estas foram discutidas na oficina "Organização Social e o SUS" orientada pelas  professoras da Universidade do Vale do Itajaí, Agueda Wendhausen e Teresa Gaio. A atividade  do II Encontro Estadual de Comunicação e Educação em Saúde buscou valorizar a participação e integração dos movimentos sociais para consolidação do controle social


As professoras de saúde coletiva da Universidade do Vale do Itajaí, Agueda  Wendhausen e Teresa Gaio,  coordenaram no dia 27 de outubro de 2001 a Oficina 2 no II Encontro Estadual de Comunicação e Educação em Saúde  tratando do tema "Organização  Social e o SUS". Veja, a seguir, o texto das professoras da UNIVALI.

"O objetivo da oficina foi o de  discutir as possibilidades de controle social a partir do que tem sido o exercício de sua prática para os atores sociais envolvidos. A oficina em questão buscou valorizar a participação e integração dos movimentos sociais para consolidação do controle social.
Os participantes eram conselheiros de saúde de várias cidades, estudantes e profissionais de saúde e de comunicação. Partindo da dinâmica da “teia”, que foi construída pelo grupo com um “rolo de barbante”, foi possível a visibilidade concreta de uma rede. Explorou-se, então, o tema da rede em dois sentidos: - o do necessário estabelecimento de relações/diálogo na construção da participação em saúde; capacidade de lidar com a rede de poderes/saberes que atravessam o exercício da participação. Este foi o mote para iniciarmos a discussão sobre a participação nos conselhos de saúde .
 Mesmo reconhecendo os conselhos de saúde não como o único mas como um importante instrumento para a participação social em saúde, não podemos pensar este espaço sem articulá-lo aos diversos poderes/saberes que o atravessam, e que podem “calar” ou “fazer falar” determinadas verdades, de modo que a participação pode, também, voltar-se contra a democracia. Dito de outro modo, sabemos que há vários problemas no sentido de concretizar a participação dos segmentos que compõem o conselho: a cultura latino-americana da não participação, o abismo que se instala  entre leigos e “competentes” (técnicos), o conselho como espaço de legitimação (e não de controle) das políticas municipais/estaduais de saúde, etc.

Os participantes da oficina foram divididos. Um grupo encenou a análise de dois hipotéticos problemas em uma reunião de um conselho municipal de saúde, assumindo os diversos papéis dos segmentos representados - usuários, gestores e profissionais de saúde. O segundo grupo observou seu comportamento. Em seguida, fizemos uma reflexão a respeito dos elementos limitantes para a prática do controle social, quais sejam:
 

  • Conselheiros não possuem informações necessárias para decidir ou deliberar sobre temas trazidos à discussão. Há aí duas questões. Uma se relaciona ao fato de que as informações vindas de âmbito governamental são retidas total ou parcialmente, restringindo a atuação do conselho. A outra, ao fato de que o conselheiro não está suficientemente instrumentalizado para discutir e propor sobre as questões pertinentes à sua função.
  • O espaço de poder dos conselhos oscila entre práticas democráticas e autocráticas, momentos deliberativos e consultivos, em que, dependendo da clareza dos participantes, há tendências que podem ser vitoriosas. Tais momentos podem gerar uma tensão tal cuja imagem evocada é a de um cabo de guerra em que cada segmento “puxa para um lado”, expressando-se, assim, nossa dificuldade de lidar com as diferentes perspectivas e com o conflito, inerente às práticas participativas.
  • De modo geral os conselheiros usuários se pronunciam pouco, delegando sua  fala a alguns representantes que passam a ser porta-vozes deste segmento. Uma das razões para que tal fato se perpetue é o uso de uma linguagem cifrada, utilizada principalmente pelo segmento governamental e dos profissionais de saúde, que acaba por silenciar a fala dos leigos.
  • Há desarticulação dentro dos segmentos, principalmente dos usuários, que parecem não se organizar em torno de suas reivindicações. Considerando que possuem 50% dos votos dentro do conselho, este poder legal não se consolida, muitas vezes pela falta de discussão prévia com seus pares. Foi relatada uma sensação de abandono e solidão do conselheiro em relação ao segmento que representa, de modo que muitas vezes parece estar representando a si mesmo.
  • Há uma ambigüidade do governo que institui a participação via conselhos mas não respeita suas deliberações, de modo que muitas vezes todo tempo perdido em discussões e deliberações torna-se improdutivo, deixando uma sensação de impotência e de esforço inútil.
  • Levantou-se que existem várias formas de manipulação presentes nas práticas dos conselhos, dentre elas a má condução das reuniões, tornando-as tão ritualísticas que não há possibilidade de mudar o rumo imposto pela presidência do conselho, na maioria vezes o secretário da saúde. Há, ainda, a manipulação pela  não programação prévia de pautas para as reuniões, assim como o imediatismo para a aprovação de matérias importantes, principalmente nas questões orçamentárias.


A seguir propusemos uma discussão grupal buscando propostas para superar os problemas levantados. Estas são algumas delas:

  • Capacitação dos conselheiros.
  • Formação de conselhos locais de saúde.
  • Simplificação da linguagem utilizada nas reuniões dos conselhos, evitando-se o uso de siglas como PPA, PPI, NOAS  etc.
  • Criar cargo eletivo para presidente do conselho (em muitos casos é necessário haver mudança na lei de criação do conselho nos municípios).
  • Fornecimento de material de legislação em saúde aos conselheiros para uso constante  na sua atuação.
  • Criação de secretaria executiva autônoma e mesa diretora nos conselhos.
  • Garantia da realização de micro-conferências regionais.
  • Conscientização imediata de futuros conselheiros quanto ao seu papel.
  • Interiorizar as plenárias estaduais de saúde.
  • Indicação de Gerente do Fundo Municipal de Saúde pelo conselho (a proposta suscitou polêmica no evento pois, enquanto alguns conselheiros relataram problemas causados por gerentes descomprometidos com a saúde, outros argumentaram que a indicação é atribuição do Executivo municipal).
  • Abertura de rubrica no Fundo Municipal de Saúde para atividades do Conselho Municipal de Saúde (além de viabilizar o funcionamento efetivo do Conselho, a medida evitaria que conselheiros se obrigassem a efetuar despesas pessoais para custear compromissos fora de seu município).
  • Garantia de liberação do conselheiro de seu trabalho para participar do Conselho  de Saúde de preferência no horário comercial, para que sua participação não seja tão cansativa.
  • Articulação de segmentos em torno de reivindicações comuns (esta articulação deve ocorrer antes das reuniões do conselho).
  • Programação da pauta da reunião com antecedência e divulgação prévia para os conselheiros.
  • Criação de jornal próprio dos conselhos de saúde, com ampla divulgação municipal e/ou estadual.
  • Criação de homepage dos conselhos de saúde.
  • Solicitação de horário nas rádios para os Conselhos.
  • Reivindicação de espaço adequado e definido para as reuniões.
  • Encaminhamento destas propostas para a Plenária Nacional de Conselhos de Saúde.”
Águeda Wendhausen - Teresa Gaio

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