Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina 

Como os usuários do SUS definem doença, saúde, família e PSF
A assistente social e ex-coordenadora do Programa Saúde da Família em Santa Catarina Tânia Maria Sulzbach Müller elegeu o discurso de usuários do Sistema Único de Saúde da região metropolitana de Florianópolis para elaborar seu trabalho de conclusão do curso de Ciências Sociais



Um vizinho ou um cachorro pode ser considerado membro da família. As doenças podem ter como causas o sofrimento, a bruxaria, a hereditariedade ou conflitos familiares. A área de abrangência do Programa Saúde da Família pode ser bem diferente do que imaginam os técnicos e gestores da saúde. Estas foram algumas das observações efetuadas pela assistente social Tânia Maria Sulzbach Müller em seu trabalho de conclusão do curso de Ciências Sociais na Universidade Federal de Santa Catarina, em que estudou, de janeiro a abril de 2002, o discurso de pessoas que são atendidas em Postos de Saúde de Florianópolis e São Pedro de Alcântara. Ela realizou entrevistas e freqüentou salas de espera de unidades de saúde para pesquisar como os usuários do SUS concebem e percebem  saúde, doença, e como definem o que é família através de sua própria perspectiva, e como classificam a ação do PSF.
Tânia percebeu que a sala de espera dos postos constitui um rico espaço de socialização. "Algumas pessoas que o ocupam expressam sentimentos e buscam recursos que superam as ações habitualmente previstas para o atendimento do posto. Neste espaço, as interações socioculturais ocorrem a partir de trocas de informações tais como: cuidado com a saúde, receitas de comidas, local de origem, costumes, desabafos de relacionamento conjugal e familiar, situações  econômico-sociais". Profissionais disseram a Tânia que há "fregueses de carteirinha", que  procuram o posto de saúde todos os dias e, no dia em que não aparecem, mandam recado dizendo que estão doentes". Ela avalia que, para alguns usuários, a ida ao posto  representa  uma forma de estabelecer relações e a sala de espera constitui  num espaço importante que utilizam para falar de suas angústias, recomeços e vitórias diante da vida.
              - Assim, ouvindo e interagindo com outras pessoas, elas acabam superando expectativas relacionadas à função da chamada  sala de espera - comenta Tania Müller.

A pesquisa da assistente social também identificou que  alguns usuários utilizam postos de saúde diferentes dos designados pelo poder público municipal. Na verdade, a “comunidade imaginada” pelas políticas de saúde muitas vezes difere da  construção das relações concretizadas pelos usuários dos postos", de acordo com o trabalho de Tânia, que foi selecionado para a II Mostra Nacional de Produção em Saúde da Família, promovido em junho de 2004 em Brasília pelo Ministério da Saúde.