Grupo Interinstitucional de Comunicação
e Educação em Saúde de Santa Catarina 
I Encontro Estadual Saúde e Doença na Mídia
Florianópolis, 19 de maio de 2000
 

A empurroinformação na saúde

                         Por Audálio Dantas

"Alguém já disse que os jornalistas são especialistas em assuntos gerais. Tudo bem, podem até ser, ou acreditar que são, mas uma “especialização” desse tamanho não é para qualquer um. Além disso, não convém exagerar, julgar-se um sabe-tudo, onipotente ao ponto de se enquadrar numa anedota contada por Victor Gentilli, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. Respondendo sobre a diferença entre um médico e um jornalista, algum sábio informa: o médico acha que é Deus e o jornalista tem certeza de que é.

              Certamente um jornalista poderá obter sucesso na profissão mesmo sem se imaginar em tais alturas. Melhor será, contudo, que diante das exigências e das urgências do dia-a-dia procure manter-se com os pés no chão, buscando o máximo de informação sobre os assuntos que deverá reduzir a uma notícia ou a uma reportagem. Isso não dispensa, claro, um bom arsenal de conhecimento, aquele que se adquire na escola e fora dela.

              Despido daquele sentimento de onipotência e de arrogância que ataca um bom número de colegas, é possível ao jornalista acumular informação que o coloque não na condição de um especialista em assuntos gerais, mas na de profissional bem informado. O que não é pouco. Aliás, é essencial. E quando ele não conhece alguma coisa, nada mais simples do que perguntar. Muito repórter sabichão deixa de fazer um trabalho decente por não exercitar a arte da pergunta, por achar que sabe das coisas.

              Cito sempre um velho e sábio repórter, Acácio Ramos, da antiga Folha de São Paulo. “Repórteres – dizia ele – são seres que perguntam.”

              Quem pergunta quer saber, diz a sabedoria do povo. Um bom repórter, presume-se, é aquele que é capaz de produzir a informação correta. Um repórter sabido, pode-se acrescentar, é o que se coloca na condição de quem não sabe para, assim, saber mais. Pode perguntar até em cima do óbvio.

              José Hamilton Ribeiro, meu colega dos tempos da revista Realidade, exerce como poucos a arte de perguntar. Pergunta como quem não sabe nada do assunto sobre o qual vai informar. Faz isso para poder informar direito. Certa vez, destacado para fazer uma reportagem sobre a saúde bucal dos brasileiros, começou por entrevistar um catedrático de odontologia da USP. Primeira pergunta: “Professor, o que é dente?”

              Assim perguntando José Hamilton tornou-se um dos maiores repórteres brasileiros. É doutor em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina, por notório saber no exercício da arte de perguntar e de fazer um bom uso das respostas. E preside a Associação Brasileira de Jornalismo Científico.

              Todas essas conversas – se fosse um lide, nos moldes clássicos, eu já estaria reprovado – pode ter a serventia de uma introdução ao tema que está em discussão neste Encontro. Tratando-se de comunicação e saúde, nada mais apropriado do que partirmos de uma pergunta cuja resposta, por óbvia, seria desnecessária: o que é saúde?

              Fazendo um bom uso da resposta, um bom repórter seguirá perguntando e certamente chegará a outras perguntas, mais abrangentes, uma  das quais deve estar nas preocupações dos participantes deste Encontro: como vai a saúde no Brasil? Em cima desta, outra: como a população é informada sobre saúde?

              Chegamos, assim, ao centro da questão. Um amplo e enriquecedor debate tem envolvido profissionais de serviços públicos e privados de saúde, comunicadores e educadores, além de representantes de organizações não-governamentais.

              Dessa discussão surgem algumas constatações, como a de que os meios de comunicação dedicam cada vez mais espaço à cobertura do assunto saúde. Mas, conforme enfatizado neste Encontro Estadual Saúde e Doença na Mídia, a informação levada à população é quase sempre superficial e em grande parte pautada por atos governamentais.

              Outra constatação é a de que, no meio do jogo de interesses que junta veículos, indústria farmacêutica, hospitais, planos de saúde, médicos e, naturalmente, o governo, aparecem os jornalistas, muitos das quais não estão isentos de pecado. No mínimo, são pecadores por falta de preparo.

              Por aí vicejam os que se acreditam  especialistas em assuntos gerais e, em vez de informação correta entregam droga, como se fossem balconistas de farmácia que passam à frente produtos classificados como BO – bom para otários.

              Além de prática do que podemos chamar de empurroinformação, observando-se no noticiário sobre saúde uma tendência a se privilegiar a divulgação de certos procedimentos médicos e de produtos da moda, consumidos pelos setores privilegiados da população. Ficam de fora, na vala comum da desinformação, as doenças, digamos, sem charme como as que afetam a maioria que depende dos serviços públicos de saúde.

              Os pecados dos jornalistas são muitos. O maior deles é certamente a arrogância, o uso autoritário do ilusório poder de que dispõem, mesmo que este seja eventual, visto que quem manda mesmo, no atacado, são os donos dos meios de comunicação. No caso específico do tratamento que a maioria dá ao assunto saúde os jornalistas poderiam ganhar indulgências se procurassem entender melhor a sua importância para a população.

              Nesse sentido, os sindicatos de jornalistas poderiam dar importante contribuição, promovendo debates em conjunto com as entidades que se dedicam ao estudo das questões ligadas a saúde e comunicação. É o que está fazendo, por exemplo, o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, que participa da organização deste encontro realizado pelo Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina.

              Um dos temas de que têm se ocupado essas entidades – a democratização dos meios de comunicação de massa – é velho conhecido nosso e não diz respeito exclusivamente a informação sobre saúde. É assunto de interesse dos jornalistas e, de modo mais amplo, de toda a sociedade.

              Nos anos 80, ainda sob a ditadura militar, a Federação Nacional dos Jornalistas, da qual eu era o presidente, promoveu o debate de questão, em conjunto com entidades da área de ensino de comunicação. Lutávamos por políticas democráticas de comunicação. Essa luta, evidentemente, não terminou. Só para lembrar: uma das nossas propostas, a de criação do Conselho Nacional de Comunicação, foi parar na Constituição de 1988. E lá está parada até hoje, no artigo 224, pendente de regulamentação.

              Assim, uma discussão sobre o comportamento da mídia em relação à saúde não pode ser dissociada do papel que ela desempenha em relação ao poder.

              Convém não esquecer que, se temos o poder da mídia – e esse é de fundamental importância para a sociedade – temos também uma mídia do poder. Com as exceções de praxe, pode-se falar que, depois do “Consenso de Washington” temos o “consenso da mídia” em relação ao modelo neoliberal adotado pelo nosso e pela maioria dos governos da América Latina. Cabe aqui uma pergunta: a avassaladora campanha em favor das privatizações terá poupado os serviços públicos de saúde? David Capistrano, médico e jornalista, lembra numa entrevista ao Observatório da Imprensa: “O noticiário sobre as formas de organização de assistência médica é profundamente influenciado pela adesão maciça e basbaque da imensa maioria dos jornalistas ao chamado paradigma neoliberal, que oferece como solução mágica privatizar. Não quer saber dos três quartos da população que não têm dinheiro para tratamento”.

              Em outra entrevista, Ricardo Menezes de Macedo, presidente do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais, fala na “visão oficialista” da imprensa em relação ao tema saúde. Não assimila (a imprensa) a concepção de universalidade da qual o instrumento é o SUS – Sistema Único de Saúde. E acrescenta:... “o que está em jogo é a manutenção ou não desse sistema, já que a reforma da saúde pretendida pelo governo federal, notadamente na Reforma Administrativa e no projeto de regulamentação dos planos de saúde, tem na sua essência a privatização do sistema”.

              Não será essa visão oficialista que impede, por exemplo, o aprofundamento da discussão sobre certos problemas de saúde pública que persistem em um país que se orgulha de ser a décima economia do mundo? Noticiar o vexame de termos de volta a febre amarela 60 anos depois que, pelo menos oficialmente, ela foi erradicada, não basta. Cabe, aqui, repetir aquela pergunta: Como vai a saúde no Brasil?

              Vai mal, sabemos todos. Mas por quê? Aí está o xis da questão. Dá-se destaque às escaramuças entre os ministros da Saúde e da Fazenda, por causa de verbas subtraídas aos serviços públicos de saúde, mas não se bota a mão na massa para informar que o dinheiro que falta à saúde vai para o saco sem fundo do pagamento da dívida pública, e dos juros da dívida pública, conforme determinado pelo Fundo Monetário Internacional.

              Outro dia um jornal gastou uma página inteira sobre o embate entre os dois ministros. A certa altura dizia que o da saúde representa “o outro lado da política econômica”. Pode até ser, mas seria interessante que se perguntasse qual é o lado do presidente da República. As evidências são de que não é o lado, digamos, bom do ministro da Saúde. Ainda na semana passada o presidente vetou um dispositivo do Orçamento da União que garantia ao SUS uma suplementação de recursos de R$ 1 bilhão.

              Essas coisas acontecem, os ministros das áreas econômica e social continuam a divergir mas elas não deixam de acontecer. Às vezes, quando um ministro do “lado bom” abre a boca e despeja palavras candentes contra a equipe econômica, tem-se a impressão de que quem está falando não é um membro do governo brasileiro, mas de Marte. Há cerca de dois meses o ministro da Saúde disse com todas as letras que o governo brasileiro não investe mais recursos em programas sociais porque se submete aos critérios de cálculo de déficit público impostos pelo FMI.

              Alguém acredita que a equipe econômica adota tais critérios sem o conhecimento do presidente da República? Segundo o ministro da Saúde, o FMI aceita que critérios diferentes sejam adotados na Europa, onde as dívidas das empresas públicas, ao contrário do que ocorre no Brasil, não entram no cálculo do déficit. Conclusão do ministro: o critério rígido do FMI só vale “para os trouxas do Hemisfério Sul”.
Somos nós.

              Um detalhe perverso dessa história, lembrado pelo ministro da Saúde: para evitar o aumento do déficit, nossas empresas de saneamento básico deixam de investir em obras que poderiam melhorar as condições de saúde da população. E o que significa a falta de investimentos em saneamento? Que continuemos a ostentar, sem nenhuma vergonha, um dos maiores índices de mortalidade infantil das Américas. São 42 crianças mortas por mil nascidos vivos, segundo relatório do Unicef, órgão das Nações Unidas. Na Argentina são 22 e no Chile, 12. Os dados da mesma pesquisa do Unicef apontam que 24% da população não conta com serviços de água encanada e 30% não dispõe de esgotos sanitários. Na zona rural essa situação é dramática: 75% das moradias não têm água encanada.

              As divergências entre ministros não impedem que a política econômica e todas as suas durezas continuem a fazer vítimas entre pobres. Mais do que isso, a contribuir com o aumento do número de pobres. Pesquisa recente da Fundação Seade, de São Paulo, mostra que o número de famílias faveladas aumentou 47% na Capital, desde o início do Plano Real. A mortalidade infantil, segundo dados da Pastoral da Criança da CNBB, aumentou mais de 100% entre 1998 e 1999. Os índices de mortalidade correm ao lado de desemprego.

              Creio que o tempo de que disponho já foi ultrapassado. Mas não quero terminar sem antes fazer uma referência a uma das muitas questões levantadas em encontros que têm discutido comunicação e saúde no país: a centralização das estratégias de comunicação no âmbito do Ministério da Saúde. É o “caso das campanhas publicitárias e o gerenciamento dos respectivos recursos financeiros”, levantado durante o 5º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em Águas de Lindóia, SP, de 25 a 29/08/97.

              Quase três anos depois, verifica-se que as campanhas continuam lá em cima, assim como, e principalmente, o gerenciamento financeiro da publicidade. Anúncio de página dupla publicado pelas principais revistas do país, nesta semana, é um bom – ou mau – exemplo disso. Trata do Programa Saúde da Família. O programa é bom, sem dúvida, mas faria mais pela saúde da família se o anúncio falasse de maneira simples, direta, com os beneficiários. Como está, é propaganda do governo. E isso não faz bem à saúde."
 
 

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