Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina


Pandemia na mídia:
muita notícia e pouca informação


As pesquisadoras Luisa Massarani e Flavia Natércia Medeiros, do Núcleo de Estudos de Divulgação Científica do Museu da Vida, da
Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, analisaram a cobertura sobre a influenza A feita pelo Jornal Nacional
em 2009. De acordo com a edição de maio de 2010 da revista Radis, da Fiocruz, as pesquisadoras optaram pelo telejornal da Rede Globo por ser o mais assistido pela população brasileira, formador de opinião pública e gerador de pautas para outros veículos de comunicação de massa no Brasil.
A investigação, que analisou 157 matérias, realizou-se entre abril e agosto de 2009,
período em que a doença foi pauta diária do noticiário. O início coincidiu com o momento em que a mídia divulgou o “novo tipo de gripe”, com origem ainda pouco conhecida e grau de letalidade que colocou o mundo em alerta. No mês de abril, a influenza A foi oficialmente confirmada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, que detectara o vírus H1N1 na Califórnia. No mesmo mês, novos casos foram encontrados no México. A partir daí, números relativos a casos suspeitos ou confirmados e mortes foram difundidos pelo mundo. Em 27 de abril, a OMS declara a gripe A preocupação de saúde pública em nível mundial. Nas semanas seguintes, 41 países confirmaram registros de infecções pela nova gripe. Em 11 de junho, a OMS reconheceu uma pandemia. Essa cronologia de acontecimentos orientou a pesquisa sobre a cobertura do Jornal Nacional. Ressaltando que estudos do campo da comunicação sobre a cobertura de doenças são escassos em âmbito nacional, Luisa Massarani e Flavia Medeiros observaram, por exemplo, que, nas matérias analisadas, as informações sobre sintomas foram relativamente pouco frequentes, o que pode ter contribuído para que mais pessoas sentissem necessidade de procurar médicos, hospitais e postos de saúde. E, ainda que, nos dias de emergência da crise, a letalidade aparente da doença no México, a dúvida manifesta pelos âncoras do telejornal diante das declarações do ministro da Saúde e as imagens de pessoas com máscaras e luvas podem ter contribuído para semear o pânico, que levou à lotação dos hospitais durante algumas semanas. Foi flagrada, também, baixa presença de temas científicos de relevância para a compreensão do desenrolar do surto e depois da pandemia, e baixa presença de cientistas consultados. Por outro lado, os resultados revelaram que a mídia dá cada vez mais espaço para temas relativos a ciência e tecnologia e pode ser, portanto, mais bem aproveitada para isso.
A seguir, alguns dados coletados:
• A cobertura foi mais concentrada em maio, quando se falava do risco de o vírus circular no Brasil, e, em julho, quando aumentou a incidência de doenças respiratórias;
• O tempo médio ocupado pelas matérias foi de um minuto e seis segundos. O predomínio de matérias curtas pode ter contribuído para a pouca contextualização e aprofundamento da doença;
• Houve momentos, no entanto, em que a gripe chegou a ocupar 43% do tempo total do Jornal Nacional; e, por outros dez dias, 20% ou mais, o que para as pesquisadoras aponta, ao mesmo tempo, para uma relevância dada ao tema;
• 39,7% das matérias renderam chamadas na abertura do telejornal Os assuntos mais destacados foram o desenvolvimento de vacinas ou a produção de medicamentos (57%), medidas de prevenção e controle (47%) e características da nova gripe (41%).
• 75% das matérias mencionaram ações de prevenção, controle e monitoramento da transmissão da gripe; 42,3% abordaram recomendações feitas por autoridades sanitárias e médicos; e 23% compararam a nova gripe com a gripe sazonal ou o resfriado;
• As imagens veiculadas privilegiaram agentes sanitários, médicos e hospitais e cidadãos comuns (21%), representantes do governo, autoridades e prédios oficiais (12,24%) e dispositivos de proteção contra a infecção (máscaras, luvas, álcool gel, roupa de perigo biológico) ou atitudes preventivas, como lavar as mãos (44%);
• Apenas 7,7% das matérias exibiram animações para ilustrar ou auxiliar na explicação das notícias;
• Em poucas ocasiões houve algum questionamento ou abordagem crítica das medidas profiláticas ou dos medicamentos antivirais;
• Aumento/redução do número de casos foi o tópico mais relevante no início da cobertura; já em julho e agosto, ganharam destaque as medidas para prevenir/controlar a doença;
• As imagens predominantes na cobertura foram hospitais e cidadãos comuns em filas de espera, o que pareceu reforçar a tendência de se questionar a eficácia das medidas.


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