Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina 

Patrimônio histórico da saúde agoniza
Artigo do farmacêutico-bioquímico e sanitarista  Rudi Pereira Lopes denuncia o abandono de  um marco da saúde pública de Santa Catarina


"O prédio que abrigou a história da Saúde Pública em Santa Catarina está entregue às intempéries e se degrada a cada dia que passa.

Na década de trinta, governava o Estado, o Dr. Nereu Ramos, primeiro como governador eleito em 1935, e depois, em 1937, já como interventor federal escolhido por Getúlio Vargas. Nereu estabeleceu o ensino fundamental e a saúde pública como prioridades de governo no Estado de Santa Catarina.
Sua estratégia administrativa que dividia o Estado em Distritos Sanitários, transformou a Diretoria de Higiene em  Departamento de Saúde Pública  (nosso saudoso DASP, mais tarde rebatizado como DSP), que compreendia a Administração Central, um Centro de Saúde, que contava com serviços especializados no combate a todas as endemias e na profilaxia dos males que constituíam verdadeiros flagelos sociais e contribuíam para manter em nível de inferioridade física e mental grandes contingentes humanos.
A sífilis, a tuberculose, a antes conhecida lepra, hoje hanseníase, e outras doenças igualmente cruéis eram ali tratadas  por profissionais especialistas em seções convenientemente aparelhadas.

Além do Departamento de Saúde, outras unidades faziam parte dessa fabulosa estrutura,  como Laboratório Central, Hospital Nereu Ramos, Usina de Pasteurização de Leite, Centro de Saúde de Joinville, Centro de Saúde de Blumenau ( em construção) Centro de Saúde de Itajaí, Centro de Saúde de Tubarão, Centro de Saúde de Laguna, Centro de Saúde de Canoinhas, Centro de Saúde de Lages, Posto de Puericultura de Cresciuma (era assim que se escrevia), Colônia Santa Tereza, Colônia Sant’ana, Hospital Nossa Senhora dos Prazeres de Lages, Maternidade Darcí Vargas em Joinville, Maternidade Tereza Ramos em Lages,  Hospital Miguel Couto em Hamônia, hoje Ibirama, além de uma preocupação muito grande a respeito da hidrografia sanitária onde córregos e vias contaminados eram devidamente canalizados para impedir ou dificultar o aparecimento de doenças.

Toda essa estrutura foi sendo atingida pelas diversas mudanças administrativas que se passava a cada governo.
Em 1993, o antigo DSP é extinto e todos os seus servidores são relotados junto à Secretaria de Estado da Saúde.
Seu prédio, localizado nos altos da Felipe Schimidt, mais precisamente na convergência da Avenida Rio Branco com Rua Felipe Schmidt, no centro de Florianópolis, está se degradando rapidamente e, com ele, desaparece a maior parte da história da saúde pública em nosso Estado.

As fotos mostram o Estado de abandono em que se encontra essa estrutura. Seria interessante que as autoridades de saúde voltassem seus olhos para essa parte da história catarinense enquanto é tempo.
Sabemos que esse prédio foi tombado pelo patrimônio histórico, porém sua estrutura vem sendo modificada e descaracterizada na sua arquitetura original.

Hoje, além de salas vazias e sujas juntando lixo, pequena parte da área vem sendo ocupada pelo setor de transportes da Diretoria de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado da Saúde.

O busto de Oswaldo Cruz, o pai da Saúde Pública no Brasil,  chegou a desaparecer em 1993, esculpido que foi em bronze. Porém depois de fotografado o pedestral vazio, efetuada denúncia a jornal e encaminhada ao Secretário da Saúde da época, o mesmo foi reposto, porém, não em bronze, mas em alumínio.

Em nome da história da Saúde Pública em Santa Catarina, clamo às autoridades de saúde empenho no sentido de verificar junto ao patrimônio histórico se alguma providência foi tomada para a justa recuperação do prédio que representa um marco da Saúde Pública catarinense. Sem o registro da memória de nossa trajetória, não seremos nada. Simplesmente seremos varridos das páginas da história, em pleno Século XXI".

Rudi Pereira Lopes

Retorna à homepage