Reflexões dos participantes do curso
Durante o Curso Educação Popular e Saúde: Diálogos com a Vida, a equipe do Grupo de Pesquisa Educação Popular, Saúde e Cidadania dialogou com profissionais que atuam nas áreas de comunicação e educação em saúde em organismos públicos e não governamentais de Santa Catarina, reunidos pelo Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de SC, GICES-SC. Apresentamos, a seghuir, uma síntese de suas reflexões.
As dificuldades vivenciadas no processo de saúde pública, da educação popular e da comunicação, do qual somos parte como usuários, técnicos, pesquisadores e/ou responsáveis
“Acomodação/sensação
de impotência/omissão, diante das dificuldades.
Falta de comprometimento de muitos
profissionais.
Interesse da indústria
da doença se sobrepõe às ações de promoção
da saúde.
Despreparo/descompromisso de
muitos profissionais para trabalhar com Educação Popular.
Descontinuidade de trabalhos
iniciados com grupos de profissionais voltados à Educação
Popular.
Cultura institucional fragmentada
(atendimento por programas) impedindo a integralidade da atenção.
Indefinição/falta
de reflexão sobre opção pedagógica que permeia
a ação educativa em saúde.
O cliente é visto como
sujeito? Objeto?
Despreparo gerencial na estrutura
da saúde.”
(Lisete Contin – Serviço
de Educação em Saúde – Coordenação de
Ações Regionais em Saúde – Secretaria da Saúde
de Santa Catarina)
“A cultura dominante é
capitalista: então a proposta política de trabalho também
é assim. A cultura determina e é determinada pelo sistema.
Se a cultura original é "manezinha" , então é moderno
e é "necessário" substituí-la urgentemente por uma
cultura global, produzida em Hollywood, americana, "moderna".
Então o sistema se torna
aceitável, e os técnicos, cúmplices do mesmo e a
população/usuário, passível/paciente.
O próprio indivíduo
coloca a causa/consequência fora de sua esfera num lugar inatingível
de preferência nominado o sistema - a política.
Assim o indivíduo sabe
e se coloca na postura externa e tranqüila porque soluções,
causas e conseqüências estão externas à sua ação.
O contrário seria
sentir, mover-se pela compaixão: mudar, movimentar, porque é
interno - eu faço parte, está em mim e em ti porque é
nosso.
RESUMINDO:
- Respeitar individualidades;
- O processo educativo é
holístico - corpo/alma/mundo.;
- A cultura mediatiza a relação
de educação modificando-a e favorecendo a interação
como linguagem comum;
- Conhecer as necessidades do
interlocutor - usuário/pessoa é imprescindível para
o processo educativo, na Educação e Comunicação
em Saúde. É necessário colocar-se na mesma sintonia.
Sentir igual: ser movido por Com - Paixão.
Informe-se mais, leia os Evangelhos
e vivencie-os.”
(Leila Duarte Lacerda - enfermeira
da CNBB/Pastoral da Criança e da Diretoria de Vigilância Epidemiológica
da Secretaria da Saúde de SC)
“A não socialização
adequada pelo Estado, da própria "educação e comunicação
em saúde", no seio da população.
A própria "acomodação"
da população, não buscando melhor conhecer os seus
direitos e exigi-los.
Apesar de não mais querermos
admitir, a pouca cultura e educação da população,
para compreender e cobrar do Estado os seus direitos de cidadão
e o cumprimento de suas obrigações.
Falta envolvimento de parte da
população privilegiada com o acesso à educação
e cultura que, teoricamente, tem mais a oferecer e contribuir com a sociedade
como um todo, ressaltando, entretanto, o "saber popular" tem lugar importantíssimo
na transposição destas dificuldades.”
( Roberto Carlos Gomes
– Associação Catarinense de Ostomizados)
“Tenho vivenciado a realidade em uma unidade de saúde como pesquisadora,
olhando para o serviço, e tenho a impressão que há
uma distância (cultural, espacial e de interesses) muito grande entre
a população e os profissionais que vem proporcionando ou
contribuindo para a consolidação de um conceito restrito
de saúde: curar doenças, dependência de atendimento
médico, como se isso pudesse instantaneamente resolver todo o problema
e dar a saúde. A educação que percebo nesta intância
é portanto, inversa ao que desejamos.
Dentro da unidade de saúde
que conheço, os auxiliares de enfermagem são os profissionais
que têm mais contato com a população, e que têm
cultura mais compatível. Estes podem interagir com maior facilidade
com a população. Porém estes também são
formados com a concepção de que "procedimento" é a
solução, e continuam ainda repassando este conceito, reforçando
a dependência.
Naquela localidade há
também a ausência de organização popular: associações
de moradores, gurpos de mães ou idosos, clubes, praças. Fica
mais difícil promover ações educativas fora do espaço
da unidade de saúde.
Não há incentivos
tampouco condições de trabalho para que os profissionais
da unidade promovam educação em saúde. As ações
que ocorrem partem de outras entidades, e algumas vezes da vontade individual
de algumas pessoas.”
(Silvana Nair Leite – Universidade
do Vale do Itajaí/Univali)
“Penso que a principal dificuldade
hoje seja a de que todo mundo fala em educação para a saúde,
todos pesquisam sobre isso, fazem extensão e inumeráveis
elocubrações a respeito, mas na verdade ninguém vai
para lugar nenhum. Os profissionais não assumem o que fazem, não
se propõem a ações concretas.
Nesse exato momento, me pergunto
porque uma palestra com um mestre em educação, que deveria
ser sobre o caráter educativo nas ações de saúde,
divagou sobre "n" pontos, menos aquele a que se destinava. Aonde vamos
chegar? “
(Ivens Wolf - SESC)
“A maior dificuldade que vejo
no momento é a perda da intenção de luta de classe.
Lutar pela saúde pública, pela educação, por
uma comunicação que possibilite liderar com a multiplicidade
de conhecimento significa trocar uma luta contra a dominação.
Não entendo como modificar uma situação quando se
busca alternativas para algo que tem como pressuposto a diferença,
a exploração, a dominação, como é o
caso da organização capitalista.
É necessário destacar
o caráter perverso do capital para que possamos pensar em uma alternativa
a ele, e não ficarmos arranjando formas de aprimorá-lo.
Dessa forma, quem sabe possamos
pensar em igualdade, em vida.
Isto não significa abandonar
as estratégias que temos utilizado para melhorar a saúde
pública, a educação, a comunicação.
Mas avaliá-la e ter em mente um objetivo central: o fim da organização
social capitalista.
Para mim, esse é um pressuposto
básico para a implementação de um outro tipo de sociedade.
(Participante não identificado)
“Enfrentamos dificuldades institucionais,
decorrentes de uma relação de poder (político-partidário)
que não prioriza o "ouvir a população". Assim, as
rotinas, o cotidiano do nosso mundo de trabalho é definido pelo
saber técnico a serviço dos organismos de direção
das instituições.
Nós, profissionais,
também enfrentamos nossas limitações de formação
(conceitos, experiências) e não conseguimos inserir nosso
agir numa proposta coletiva de construção de saúde
pública. Não conseguimos nos relacionar efetivamente com
o usuário. Nos angustiamos com isto e esta angústia, às
vezes, nos leva a executar ações pontuais de participação
superficial da população.
Acho que não conseguimos
compreender as relações políticas, sociais e não
sabemos até que ponto nós refletimos sobre nosso trabalho
ou estamos apenas seguindo comportamentos, rotinas estabelecidas há
muito tempo. Isto é, somos sujeitos ou objetos? Pensamos, às
vezes, que o usuário é objeto. E nós, o que somos?”
(Paulo Pereira - FUNASA )
“Como usuária, desconheço
os meus direitos. Se conheço, deixo de reivindicar ou exigí-los
com medo de me acharem chata, revolucionária, etc.
Como técnica, deixo de
informar a população sobre seus direitos, porque se esta
população for orientada passa a exigir seus direitos, voltando-se
contra o sistema e conseqüentemente contra mim pois estou inserida
neste sistema, só que não tenho o poder de decisão
nas minhas mãos.
Obs.: Esta não é
minha prática, mas a prática de muitos.”
(Maria Lúcia Mattos
Gomes – Regional de Saúde de Tubarão da Secretaria da Saúde
de SC) “Considero
que estas dificuldades estão relacionadas com nossa cultura de submissão,
omissão, oportunismo, e, fundamentalmente, da falta de comprometimento.
A fragmentação das ações, a competitividade,
que vê o outro como rival, reforça o processo de saúde
pública da educação popular e da comunicação
como modelo capitalista/neoliberal.
A falta de enfrentamento, de diálogo, da troca e de construção
entre as diversas instituições e segmentos da sociedade a
respeito do assunto, transparece com nitidez nossa incompetência
em nos relacionarmos com o outro (sabermos ouvir, compreender, interpretar,
falar e respeitar), correndo-se o risco de sufocarmos no individual ou
em pequeno grupo.
A falta de vontade política de fazer acontecer. “
(Mara Regina Stanck – Regional
de Saúde de Lages da Secretaria da Saúde de SC )
Como promover o diálogo em nossa prática
de trabalho
(Espaço de trabalho,
como cidadão, como educador, dentro das unidades de saúde)
“Realizando a troca de saber entre
profissionais, bem como, entre todas as pessoas.
Divulgando o seu saber e contribuindo
no crescimento de terceiros.
Saber ouvir, escutar, analisar,
aceitar e discutir saberes.”
(Participante não
identificado)
“Promovemos diálogo quando
geralmente participamos de questões que envolvam a nossa rua, nossos
vizinhos e que acabam refletindo na qualidade de vida de toda a comunidade.
Podemos estender esta participação
relatando e expondo nossas experiências em outras comunidades com
questões semelhantes ou diferentes realidades.
O bom relacionamento em nossa
área de trabalho com a comunidade, essa importante troca do saber,
é pura conseqüência desse nosso entrosamento. Assim alcançamos
o respeito e o reconhecimento das comunidades, independente do que querem
ou do que pensam os políticos "gerenciadores" do sistema.”
(Marcelo Marques de Mélo
– FUNASA)
“Na
minha experiência, é deixando o outro falar. Dessa forma eu
posso, no mínimo, demonstrar algum respeito por ele e por sua opinião.
Isso, é claro, quando você já conhece a realidade,
está convivendo, tem condições de ouvir realmente.
Mas a produção deste diálogo será real se ambas
as partes estiverem desarmadas, o mais livres possível dos preconceitos.
Caso contrário as palavras proferidas não levarão
a nada, proque um saber será simplesmente dominador, não
haverá uma construção.”
(Silvana Nair Leite)
“O GICES-SC existe exatamente
para isso. O que precisamos, portanto, é conversar . Conversar sobre
nossa prática, que é o que efetivamente importa.”
(Ivens Wolf )
"1. Gostar do que faz, estar inteiro.
2. Perceber as pessoas como seres
fundamentais e importantes na sua vida.
3. Saber olhar, ouvir, ver as
pessoas por inteiro.
4. Expressar seus sentimentos,
emoções e idéias com verdade, porém sabendo
que você e seu conhecimento não são únicos e
verdades acabadas.
5. Comprometer-se com a vida
em sua plenitude.
6. Usar da criatividade.
7. Respeitar a cultura, as idéias
e os sentimentos dos outros."
(Participante não identificado)
“A vida é como uma dança.
Na dança da vida precisamos confiar no outro porque o nosso ponto
de equilíbrio é exatamente aquele ponto arquimediano (externo)
que é o referente num processo coletivo.”
(Participante não identificado)
“Acho que é preciso haver
definição e intenção institucional em
buscar este diálogo, esta interação com a população
bem como em estimular o diálogo intrainstitucional.
A população também
deve provocar este diálogo. Também devemos, nós profissionais,
encontrar mecanismos/estratégias para viabilizar este diálogo.
E é preciso definir com a população como será
este diálogo. A instituição não pode limitar
o diálogo.”
(Paulo Pereira )
“Parando de fazer de forma ativista,
estimulando o grupo a se encontrar para discutir, avaliar, repensar:
. o que fazemos?
. o que queremos?
. Para onde vamos?
É necessário criar
momentos para que o diálogo aconteça.
É necessário
que isso aconteça na rotina, de forma desarmada.
É preciso exercitar o
ouvir;
É necessário não
fazer juízo de valores;
Ao ouvir o outro, tentar
não distorcer;
No serviço de saúde
a palavra, o diálogo, é essencial.”
(Participante
não identificado)
“Entender a fala do outro, conhecer a realidade...Construir as verdades
a partir da troca do saber, etc.”
(Participante não identificado)
“Partilhando conhecimentos, ouvindo o outro e dividindo saberes. Desta
maneira melhora nosso relacionamento com os outros e promove-se a
qualidade de vida entre as pessoas.”
(Participante não identificado)
“Com
Empatia, Simbiose, Interação e Humanização.”
(Gilberto Dacoreggio
– Policlínica de Referência Regional – Ilha/Florianópolis
-Secretaria da Saúde de SC)
“Ouvindo as necessidades de base
dos grupos/comunidades, seus diversos opinamentos, provocando debates que
nos reportem à busca de soluções conjuntas. Parece-me
necessário o despertar da consciência popular de que juntos,
organizados em diversas frentes, os grupos (e por reflexo toda a
população), poder-se-á possibilitar a troca de experiências
e o verdadeiro diálogo nos levará a soluções
de diversos problemas. Em cada grupo organizado devemos repetir, de maneiras
diferentes, formas e posturas que possam despertar o desejo da participação
popular nessas frentes.”
(Roberto Carlos Gomes)
Como a cultura corporal de cada um se relaciona com o outro no coletivo? E os motivos?
“Trocando experiências.
Demonstrando a maneira como se
relaciona com o mundo.”
(Participante não identificado)
“A cultura corporal reflete todo o comportamento da sociedade, suas relações
e suas capacidades. O corpo fala, ainda que faça o silêncio.”
(Ivens Wolf)
“Através da descontração
para quem faz e que também acaba contagiando a quem observa. A alegria
contagia para o bem! Pessoas que inicialmente ficam retraídas
vão aos poucos aderindo à "brincadeira séria"
das atividades desenvolvidas.
Um dos motivos seria a maneira simples de desenvolver e conduzir a atividade,
utilizando elementos do cotidiano, ao sabor da música, danças
e gestos.”
(Marcelo Marques de Mélo)
“Ela desinibe as pessoas e torna mais fácil o relacionamento. Consequentemente
melhora o humor, alivia os problemas e as dores.
(Participante não identificado)
“Eu, como todos, achei que foi
divertido, aprendemos a conhecer as pessoas como elas aprenderam a conhecer
todos nós. Formar novos amigos e também libera-se para
dançar, cantar e muito mais coisas. Eu tive oportunidade de ficar
como um aluno no meio dos maiores. Tive capacidade de aprender muito mais
coisas.”
(Participante não identificado)
“As expressões corporais podem denotar, em alguns casos, o estado
de espírito das pessoas, o grau de stress que está sendo
suportado, a felicidade do momento, enfim a situação ou a
fotografia da sua vida naquele instante.
Dependendo deste momento o relacionamento
com o outro será melhor/pior, frutífero/infrutífero,
positivo/negativo, etc.
Motivo: a vida hoje, é
muito exigente conosco e nos reporta a esforços que, por vezes,
achamos não ser possível superar.”
(Roberto Carlos Gomes)
“A cultura corporal (o jeito de
falar/gesticular, abraçar/cumprimentar, olhar) determina a qualidade/intensidade
de nossos relacionamentos e, consequentemente, a qualidade de nosso cotidiano
profissional. Conforme nossos movimentos corporais, motivamos ou não
confiança e integração nas atividades.”
(Paulo Pereira)
“Acredito que o corpo é o espaço mais íntimo de cada
um, por mais que várias pessoas estejam compartilhando o mesmo espaço
e situação. E normalmente todos se reservam no seu espaço
corporal, se resguardam alí, e por isso o corpo é tão
sagrado e há tanto tabú em torno dele.
Estes trabalhos de expressão corporal com grupos de pessoas possibilita
(obrigatoriamente, no bom sentido) o toque, a relação com
o corpo seu e dos outros, quebrando tabus, favorecendo a relação
total.”
(Silvana Nair Leite)
“Como uma troca de energia.
Como relação de
confiança, de prazer e de amor.
Como partilha de saberes.
Como se sentir vivo. “
(Mara Regina Stanck)
Opiniões
“Penso ser a educação popular e saúde um instrumento que deve ser apropriado pela totalidade das pessoas (independente de sua inserção no mundo), para a realização de suas atividades, sendo na questão saúde específica voltadas às ações de saúde.
Agora, para que isso aconteça, há que se pensar sobre qual educação, qual popular, e qual saúde. Em outra palavra, sobre os princípios éticos norteadores do campo de conhecimento e ação "educação popular e saúde". A partir daqui, o tema educação popular e saúde torna-se um instrumento de libertação do homem e construção e consolidação dos seus direitos fundamentais e de cidadania.
Os princípios éticos
que penso são:
- existência do diálogo
- a partir do respeito a todas as visões de mundo e de ação
no mundo;
- aceitação do
conflito - como inerente à riqueza e complexidade humana e caminho
a ser traçado na construção coletiva (esta está
voltada à arte, à resolução de problemas de
saúde, etc)
- reafirmação da
humanidade do ser humano - o ser humano procura o amor, o belo, a justiça,
a igualdade e a dignidade. Isso o torna mais humano.
Assim a educação popular em saúde transforma-se num
processo contínuo e infinito, porque abarca a complexidade do homem
enquanto sujeito social e político. “
(Soraia Dornelles - Diretoria
de Planejamento – Secretaria da Saúde de SC)
“É preciso "desinventar"
ou "reinventar" nosso cotidiano profissional. É preciso introduzir
o olhar e o sentir da população nesse cotidiano. Precisamos
nos libertar do enfoque biologizante, simplista, da relação
saúde-doença e entender de forma mais ampliada a saúde.
Como fazer isto? Este é o nosso desafio.
Precisamos começar a "reinvenção"
a partir das trocas com o outro, do diálogo, ouvir o outro, de trocar
nossas verdades. Temos um caminho longo pela frente, que é o de
transformar este sistema gerador de morte - como definiu a professora Maristela
Fantin - em sistema gerador de saúde, de vida.
Precisamos introduzir em nossas
instituições um processo de permanente reflexão sobre
o nosso agir. Perceber as determinações políticas,
culturais deste agir. Questionar os conceitos. Refletir, a partir da comunicação
e da educação, sobre os conceitos e estruturas institucionalizadas
da saúde. Esta reflexão não deve ser só técnica
mas compartilhada com a população. É preciso
também trabalhar os limites institucionais que não são
linhas rígidas, imutáveis. Se pensarmos que os limites são
rígidos, nós é que estamos definindo essas limitações.
Acho que a gente tem que levantar
todo dia, sacudir a poeira e ir prá luta de novo.”
(Paulo Pereira)
“Percebo que quanto mais avançamos
no desenvolvimento tecnológico mais nos afastamos das pessoas. Acabamos
por criar um abismo dificultando nossas relações interpessoais.
No processo de desenvolvimento
da saúde pública, da educação popular e da
comunicação, estas dificuldades se tornam mais visíveis
considerando nossa história de submissão, opressão,
omissão, oportunismo e da falta de comprometimento.
Consequentemente acabamos por
reproduzir em nossas ações diárias este modelo neoliberal/capitalista,
que nos afasta de nós mesmos e dos outros.
Entendo que o grande desafio
hoje é realmente redescobrirmos nossa verdadeira essência:
quem somos? O que somos? O que faremos? Para onde vamos? Conseguir estas
respostas e refletir sobre as outras perguntas que virão com toda
certeza nos levará a uma nova reflexão e postura do que estamos
realizando em nossa prática.
Reaprendermos a amar, a nos relacionar,
a escutar o outro, respeitando e compreendendo seus limites, e os nossos
próprios limites, abrirá caminhos para o diálogo e
juntos poderemos construir um mundo muito melhor. Estar inteiro: corpo,
mente e emoção em tudo o que se visa, na vida social, particular
e no trabalho, fará com que tudo fique mais prazeroso e fácil
de se fazer.”
(Mara Regina Stanck)
“Tenho à vezes, dificuldades
de aproximação ("chegar junto") à Comunidade, ainda
pelo acanhamento desta comunidade me considerar um "doutor" (pessoa com
estudo em nível superior).
Precisamos nos "desarmar" das
nossas vaidades pelos títulos de "doutores" e "mestres" e
humildemente poder captar o importante saber popular na troca de conhecimentos.
Quando o profissional de saúde
exerce o seu lado político, ou seja, tenta mobilizar a população
para que busque seu direito integral à saúde torna-se "visado"
e perseguido por "gerenciadores" de um modelo de "faz de conta..." que
visa muitas vezes sua ascensão política, pessoal ou social.
A política de saúde
de vários municípios está mais direcionada à
prática curativa: doença dá mais votos! Iniciativas
de promoção de saúde, através de programas
que levam à qualidade de vida, muitas vezes são sufocadas
e abortadas pela falta de interesse, apoio e recursos por parte daqueles
políticos que deveriam estar comprometidos com a saúde popular.
Para não ficarmos omissos
devemos buscar discussões a nível de Conselho Municipal de
Saúde, cobrar, de forma implacável, os vereadores ditos "representantes
do povo" para que ajam mais em favor da oferta e da manutenção
de atividades que ofereçam mais qualidade de vida à população.”
(Marcelo Marques de Mélo)
Desafios de comunicar
"Saúde Pública,
direito do cidadão e dever do Estado". Um item Constitucional
ainda em aberto. Embora já existam Leis complementares como a 8080,
ainda hoje vemos o Sistema Único de Saúde como algo a ser
realizado e repensado dia-a-dia.
Hoje, o que se nota é
o desmonte dos serviços públicos de saúde em favor
dos seguros privados. No primeiro dia dos trabalhos, o mestrando Adir Garcia
perguntou aos participantes - mais ou menos 30 pessoa - quantos não
tinham planos privados. Apenas quatro pessoas levantaram a mão.
Isto reflete aquilo que nós, servidores e defensores do Sistema
Único de Saúde, agimos como os fariseus (Bíblia),
que pregamos uma coisa à população, mas garantimos
nosso serviço particular.
Portanto, é nosso
desafio encontrar fontes de recursos para o patrocínio do SUS. E
a dificuldade está em como incrementar e melhorar o atendimento
aos usuários se há anos os valores orçados para a
saúde estão caindo em relação ao dólar
e a população vem aumentando, inclusive na expectativa de
vida.
Falando do meu local de trabalho,
as dificuldades estão na descontinuação dos programas
e na política do "Estado mínimo". Inclusive, com um grande
número de aposentados e demitidos. Desde 1987 não se realiza
concurso público para se renovar o quadro de pessoas e idéias.
Por outro lado, o diálogo
em minha prática de trabalho é difícil. A rapidez
com que as coisas se alteram, os programas verticais, de cima para baixo,
dissociados da vontade popular, o cartazismo improdutivo, tudo parece
que está voltado para a máquina emperrar.
A informação sobre
os serviços é geralmente feita por telefone e fax. Dificilmente
as pessoas vêm ao setor. Não há uma publicação
dos serviços (Acordo Internacional de Saúde), o que
leva os possíveis usuários a optarem pelos seguros privados.
Em meu ver, seria necessário
popularizar aquilo que é público, e não restringir
àqueles mais privilegiados.
O saber popular é importante
na organização do coletivo. Talvez o remédio caseiro
não funcione como os industrializados, mas devem ser investigadas
suas qualidades terapêuticas.
E dentro do saber a valorização
do seu conhecimento, do seu meio social, é importante para
a comunicação e o aprendizado coletivo. Ainda temos que aprender
a ouvir e sentir nos gestos, na fala, no olhar. O povo quer dizer
alguma coisa a mais, além de suas palavras e seus clamores.
(Áureo Rodrigues –
Ministério da Saúde)
“ Sendo minha atuação
na área da saúde, é neste campo que discutirei os
temas abordados neste encontro de pessoas que têm a vontade de mudar
o paradigma que enfrentam, mas com pontos de vista e perspectivas suficientemente
diferenciadas para promover uma discussão.
O conceito restrito, quadradinho
de saúde, ainda em evidência para a grande parte da população
e dos próprios profissionais de saúde, pode ser o primeiro
grande entrave para que o trabalho educativo seja reconhecido como parte
importante na promoção da saúde, da melhor qualidade
de vida. Saúde como ausência de doença, dependente
de atendimento médico e medicamento, propicia o silêncio,
a distância entre os profissionais de saúde e a população.
Além da formação técnica e tecnicista que a
maioria dos profissionais de saúde recebe, há a formação
cultural de ambas que os colocam em lados opostos, e com o mesmo conceito
de saúde que depende de atendimento. Muitas vezes as condições
de trabalho dos profissionais só permitem isto, e a população
incorpora este modelo, a cultura da medicalização é
incorporada, e só isto é esperado.
Propor que os serviços
de atenção à saúde incorporem ações
educativas é um desafio, e muito maior se o desejado for um processo
participativo, construtivo, e não um pacote de procedimentos e imposições
que não respeitem os valores culturais da comunidade. É necessário
para tanto que haja troca de experiências entre as partes, de interesses,
de opiniões. Este processo só será produtivo se o
saber de cada um for realmente respeitado e aceito, isto é, se os
conceitos pré-formados forem superados.”
(Silvana Nair Leite)
- Avaliação do Curso