Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina 

Reflexões dos participantes do curso

Durante o Curso Educação Popular e Saúde: Diálogos com a Vida, a equipe do Grupo de Pesquisa Educação Popular, Saúde e Cidadania  dialogou com profissionais que atuam nas áreas de comunicação e educação em saúde em organismos públicos e não governamentais de Santa Catarina, reunidos pelo Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de SC, GICES-SC. Apresentamos, a seghuir, uma síntese de suas reflexões.

As dificuldades vivenciadas no processo de saúde pública, da educação popular e da comunicação, do qual somos parte como usuários, técnicos, pesquisadores e/ou responsáveis

“Acomodação/sensação de impotência/omissão, diante das dificuldades.
Falta de comprometimento de muitos profissionais.
Interesse da indústria da doença se sobrepõe às ações de promoção da saúde.
Despreparo/descompromisso de muitos profissionais para trabalhar com Educação Popular.
Descontinuidade de trabalhos iniciados com grupos de profissionais voltados à Educação Popular.
Cultura institucional fragmentada (atendimento por programas) impedindo a integralidade da atenção.
Indefinição/falta de reflexão sobre opção pedagógica que permeia a ação educativa em saúde.
O cliente é visto como sujeito?  Objeto?
Despreparo gerencial na estrutura da saúde.”
(Lisete Contin – Serviço de Educação em Saúde – Coordenação de Ações Regionais em Saúde – Secretaria da Saúde de Santa Catarina)

“A cultura dominante é capitalista: então a proposta política de trabalho também é assim. A cultura determina e é determinada pelo sistema. Se a cultura original é "manezinha" , então é moderno e é "necessário" substituí-la urgentemente por uma cultura global, produzida em Hollywood, americana, "moderna".
Então o sistema se torna aceitável, e os técnicos, cúmplices do mesmo e a  população/usuário,  passível/paciente.
O próprio indivíduo coloca a causa/consequência fora de sua esfera num lugar inatingível de preferência nominado  o sistema - a política.
Assim o indivíduo sabe e se coloca na postura externa e tranqüila porque soluções, causas e conseqüências estão externas à sua ação.
 O contrário seria sentir, mover-se pela compaixão: mudar, movimentar, porque é interno - eu faço parte, está em mim e em ti porque é nosso.
RESUMINDO:
- Respeitar individualidades;
- O processo educativo é holístico - corpo/alma/mundo.;
- A cultura mediatiza a relação de educação modificando-a e favorecendo a interação como linguagem comum;
- Conhecer as necessidades do interlocutor - usuário/pessoa é imprescindível para o processo educativo, na Educação e Comunicação em Saúde. É necessário colocar-se na mesma sintonia. Sentir igual: ser movido por Com - Paixão.
Informe-se mais, leia os Evangelhos e vivencie-os.”
(Leila Duarte Lacerda - enfermeira da CNBB/Pastoral da Criança e da Diretoria de Vigilância Epidemiológica da Secretaria  da Saúde de SC)

“A não socialização adequada pelo Estado, da própria "educação e comunicação em saúde", no seio da população.
A própria "acomodação" da população, não buscando melhor conhecer os seus direitos e exigi-los.
Apesar de não mais querermos admitir, a pouca cultura e educação da população, para compreender e cobrar do Estado os seus direitos de cidadão e o cumprimento de suas obrigações.
Falta envolvimento de parte da população privilegiada com o acesso à educação e cultura que, teoricamente, tem mais a oferecer e contribuir com a sociedade como um todo, ressaltando, entretanto, o "saber popular" tem lugar importantíssimo na transposição destas dificuldades.”
 ( Roberto Carlos Gomes – Associação Catarinense  de Ostomizados)
 

          “Tenho vivenciado a realidade em uma unidade de saúde como pesquisadora, olhando para o serviço, e tenho a impressão que há uma distância (cultural, espacial e de interesses) muito grande entre a população e os profissionais que vem proporcionando ou contribuindo para a consolidação de um conceito restrito de saúde: curar doenças, dependência de atendimento médico, como se isso pudesse instantaneamente resolver todo o problema  e dar a saúde. A educação que percebo nesta intância é portanto, inversa ao que desejamos.
Dentro da unidade de saúde que conheço, os auxiliares de enfermagem são os profissionais que têm mais contato com a população, e que têm cultura mais compatível. Estes podem interagir com maior facilidade com  a população. Porém estes também são formados com a concepção de que "procedimento" é a solução, e continuam ainda repassando este conceito, reforçando a dependência.
Naquela localidade há também a ausência de organização popular: associações de moradores, gurpos de mães ou idosos, clubes, praças. Fica mais difícil promover ações educativas fora do espaço da unidade de saúde.
Não há incentivos tampouco condições de trabalho para que os profissionais da unidade promovam educação em saúde. As ações que ocorrem partem de outras entidades, e algumas vezes da vontade individual de algumas pessoas.”
(Silvana Nair Leite – Universidade do Vale do Itajaí/Univali)
 

“Penso que a principal dificuldade hoje seja a de que todo mundo fala em educação para a saúde, todos pesquisam sobre isso, fazem extensão e inumeráveis elocubrações a respeito, mas na verdade ninguém vai para lugar nenhum. Os profissionais não assumem o que fazem, não se propõem a ações concretas.
Nesse exato momento, me pergunto porque uma palestra com um mestre em educação, que deveria ser  sobre o caráter educativo nas ações de saúde, divagou sobre "n" pontos, menos aquele a que se destinava. Aonde vamos chegar? “
(Ivens Wolf - SESC)

“A maior dificuldade que vejo no momento é a perda da intenção de luta de classe. Lutar pela saúde pública, pela educação, por uma comunicação que possibilite liderar com a multiplicidade de conhecimento significa trocar uma luta contra a dominação. Não entendo como modificar uma situação quando se busca alternativas para algo que tem como pressuposto a diferença, a exploração, a dominação, como é o caso da organização capitalista.
É necessário destacar o caráter perverso do capital para que possamos pensar em uma alternativa a ele, e não ficarmos arranjando formas de aprimorá-lo.
Dessa forma, quem sabe possamos pensar em igualdade, em vida.
Isto não significa abandonar as estratégias que temos utilizado para melhorar a saúde pública, a educação, a comunicação. Mas avaliá-la e ter em mente um objetivo central: o fim da organização social capitalista.
Para mim, esse é um pressuposto básico para a implementação de um outro tipo de sociedade.
(Participante não identificado)

“Enfrentamos dificuldades institucionais, decorrentes de uma relação de poder (político-partidário) que não prioriza o "ouvir a população". Assim, as rotinas, o cotidiano do nosso mundo de trabalho é definido pelo saber técnico a serviço dos organismos de direção das instituições.
Nós, profissionais,  também enfrentamos nossas limitações de formação (conceitos, experiências) e não conseguimos inserir nosso agir numa proposta coletiva de construção de saúde pública. Não conseguimos nos relacionar efetivamente com o usuário. Nos angustiamos com isto e esta angústia, às vezes, nos leva a executar ações pontuais de participação superficial da população.
Acho que não conseguimos compreender as relações políticas, sociais e não sabemos até que ponto nós refletimos sobre nosso trabalho ou estamos apenas seguindo comportamentos, rotinas estabelecidas há muito tempo. Isto é, somos sujeitos ou objetos? Pensamos, às vezes, que o usuário é objeto. E nós, o que somos?”
(Paulo Pereira - FUNASA )

“Como usuária,  desconheço os meus direitos. Se conheço, deixo de reivindicar ou exigí-los com medo de me acharem chata, revolucionária, etc.
Como técnica, deixo de informar a população sobre seus direitos, porque se esta população for orientada passa a exigir seus direitos, voltando-se contra o sistema e conseqüentemente contra mim pois estou inserida neste sistema, só que não tenho o poder de decisão nas minhas mãos.
Obs.: Esta não é minha prática, mas a prática de muitos.”
(Maria Lúcia Mattos Gomes – Regional de Saúde de Tubarão da Secretaria da Saúde de SC) “Considero que estas dificuldades estão relacionadas com nossa cultura de submissão, omissão, oportunismo, e, fundamentalmente,  da falta de comprometimento.
           A fragmentação das ações, a competitividade, que vê o outro como rival, reforça o processo de saúde pública da educação popular e da comunicação como modelo capitalista/neoliberal.
           A falta de enfrentamento,  de diálogo, da troca e de construção entre as diversas instituições e segmentos da sociedade a respeito do assunto, transparece com nitidez nossa  incompetência em nos relacionarmos com o outro (sabermos ouvir, compreender, interpretar, falar e respeitar), correndo-se o risco de sufocarmos no individual ou em pequeno grupo.
             A falta de vontade política de fazer acontecer. “
(Mara Regina Stanck – Regional de Saúde de Lages da Secretaria da Saúde de SC )



 

Como promover o diálogo em nossa prática de trabalho
(Espaço de trabalho, como cidadão, como educador, dentro das unidades de saúde)

“Realizando a troca de saber entre profissionais, bem como, entre todas as pessoas.
Divulgando o seu saber e contribuindo no crescimento de terceiros.
Saber ouvir, escutar, analisar, aceitar e discutir saberes.”
 (Participante não identificado)

“Promovemos diálogo quando geralmente participamos de questões que envolvam a nossa rua, nossos vizinhos e que acabam refletindo na qualidade de vida de toda a comunidade.
Podemos estender esta participação relatando e expondo nossas experiências em outras comunidades com questões semelhantes ou diferentes realidades.
O bom relacionamento em nossa área de trabalho com a comunidade, essa importante troca do saber,  é pura conseqüência desse nosso entrosamento. Assim alcançamos o respeito e o reconhecimento das comunidades, independente do que querem ou do que pensam os políticos "gerenciadores" do sistema.”
(Marcelo Marques de Mélo – FUNASA)

      “Na minha experiência, é deixando o outro falar. Dessa forma eu posso, no mínimo, demonstrar algum respeito por ele e por sua opinião. Isso, é claro, quando você já conhece a realidade, está convivendo, tem condições de ouvir realmente.
         Mas a produção deste diálogo será real se ambas as partes estiverem desarmadas, o mais livres possível dos preconceitos. Caso contrário as palavras proferidas não levarão a nada, proque um saber será simplesmente dominador, não haverá uma construção.”
(Silvana Nair Leite)

“O GICES-SC existe exatamente para isso. O que precisamos, portanto, é conversar . Conversar sobre nossa prática,  que é o que efetivamente importa.”
(Ivens Wolf )
 

"1. Gostar do que faz, estar inteiro.
2. Perceber as pessoas como seres fundamentais e importantes na sua vida.
3. Saber olhar, ouvir, ver as pessoas por inteiro.
4. Expressar seus sentimentos, emoções e idéias com verdade, porém sabendo que você e seu conhecimento não são únicos e verdades acabadas.
5. Comprometer-se com a vida em sua plenitude.
6. Usar da criatividade.
7. Respeitar a cultura, as idéias e os sentimentos dos outros."
(Participante não identificado)

“A vida é como uma dança. Na dança da vida precisamos confiar no outro porque o nosso ponto de equilíbrio é exatamente aquele ponto arquimediano (externo) que é o referente num processo coletivo.”
(Participante não identificado)

“Acho que é preciso haver definição e intenção institucional  em buscar este diálogo, esta interação com a população bem como em estimular o diálogo intrainstitucional.
A população também deve provocar este diálogo. Também devemos, nós profissionais, encontrar mecanismos/estratégias para viabilizar este diálogo.  E é preciso definir com a população como será este diálogo. A instituição não pode limitar o diálogo.”
(Paulo Pereira )

“Parando de fazer de forma ativista, estimulando o grupo a se encontrar para discutir, avaliar, repensar:
. o que fazemos?
. o que queremos?
. Para onde vamos?
É necessário criar momentos para que o diálogo aconteça.
É  necessário que isso aconteça na rotina, de forma desarmada.
É preciso exercitar o ouvir;
É necessário não fazer juízo de valores;
Ao ouvir o outro,  tentar não distorcer;
No serviço de saúde a palavra, o diálogo,  é essencial.”
 (Participante não identificado)
 

       “Entender a fala do outro, conhecer a realidade...Construir as verdades a partir da troca do saber, etc.”
(Participante não identificado)

      “Partilhando conhecimentos, ouvindo o outro e dividindo saberes. Desta maneira melhora nosso relacionamento com os outros e promove-se  a qualidade de vida entre as pessoas.”
(Participante não identificado)

     “Com Empatia, Simbiose, Interação e Humanização.”
 (Gilberto Dacoreggio – Policlínica de Referência Regional – Ilha/Florianópolis  -Secretaria  da Saúde de SC)

“Ouvindo as necessidades de base dos grupos/comunidades, seus diversos opinamentos, provocando debates que nos reportem à busca de soluções conjuntas. Parece-me necessário o despertar da consciência popular de que juntos, organizados em diversas frentes, os grupos (e por reflexo toda  a população), poder-se-á possibilitar a troca de experiências e o verdadeiro diálogo nos levará  a soluções de diversos problemas. Em cada grupo organizado devemos repetir, de maneiras diferentes, formas e posturas que possam despertar o desejo da participação popular nessas frentes.”
(Roberto Carlos Gomes)
 


Como a cultura corporal de cada um se relaciona com o outro no coletivo? E os motivos?

“Trocando experiências.
Demonstrando a maneira como se relaciona com o mundo.”
(Participante não identificado)

          “A cultura corporal reflete todo o comportamento da sociedade, suas relações e suas capacidades. O corpo fala, ainda que faça o silêncio.”
(Ivens Wolf)

“Através da descontração para quem faz e que também acaba contagiando a quem observa. A alegria contagia para o bem! Pessoas que inicialmente ficam retraídas  vão aos poucos aderindo à "brincadeira séria"  das atividades  desenvolvidas.
            Um dos motivos seria a maneira simples de desenvolver e conduzir a atividade, utilizando elementos do cotidiano, ao sabor da música, danças e gestos.”
(Marcelo Marques de Mélo)
 

          “Ela desinibe as pessoas e torna mais fácil o relacionamento. Consequentemente melhora o humor, alivia os problemas e as dores.
(Participante não identificado)

“Eu, como todos, achei que foi divertido, aprendemos a conhecer as pessoas como elas aprenderam a conhecer todos nós.  Formar novos amigos e também libera-se para dançar, cantar e muito mais coisas. Eu tive oportunidade de ficar como um aluno no meio dos maiores. Tive capacidade de aprender muito mais coisas.”
(Participante não identificado)

           “As expressões corporais podem denotar, em alguns casos, o estado de espírito das pessoas, o grau de stress que está sendo suportado, a felicidade do momento, enfim a situação ou a fotografia da sua vida naquele instante.
Dependendo deste momento o relacionamento com o outro será melhor/pior, frutífero/infrutífero, positivo/negativo, etc.
Motivo: a vida hoje, é muito exigente conosco e nos reporta a esforços que, por vezes, achamos não ser possível superar.”
(Roberto Carlos Gomes)

“A cultura corporal (o jeito de falar/gesticular, abraçar/cumprimentar, olhar) determina a qualidade/intensidade de nossos relacionamentos e, consequentemente, a qualidade de nosso cotidiano profissional. Conforme nossos movimentos corporais, motivamos ou não confiança e integração nas atividades.”
(Paulo Pereira)

         “Acredito que o corpo é o espaço mais íntimo de cada um, por mais que várias pessoas estejam compartilhando o mesmo espaço e situação. E normalmente todos se reservam no seu espaço corporal, se resguardam alí, e por isso o corpo é tão sagrado e há tanto tabú em torno dele.
         Estes trabalhos de expressão corporal com grupos de pessoas possibilita (obrigatoriamente, no bom sentido) o toque, a relação com o corpo seu e dos outros, quebrando tabus, favorecendo a relação total.”
(Silvana Nair Leite)

“Como uma troca de energia.
Como relação de confiança, de prazer e de amor.
Como partilha de saberes.
Como se sentir vivo. “
(Mara Regina Stanck)



 

Opiniões

“Penso ser a educação popular e saúde um instrumento que deve ser apropriado pela totalidade das pessoas  (independente de sua inserção no mundo), para a realização de suas atividades, sendo na questão saúde específica voltadas às ações de saúde.

Agora, para que isso aconteça, há que se pensar sobre qual educação, qual popular, e qual saúde. Em outra palavra, sobre os princípios éticos norteadores do campo de conhecimento e ação "educação popular e saúde". A partir daqui, o tema educação popular e saúde torna-se um instrumento de libertação do homem e construção e consolidação dos seus direitos fundamentais  e de cidadania.

Os princípios éticos que penso são:
- existência do diálogo - a partir do respeito a todas as visões de mundo e de ação no mundo;
- aceitação do conflito - como inerente à riqueza e complexidade humana e caminho a ser traçado na construção coletiva (esta está voltada à arte, à resolução de problemas de saúde, etc)
- reafirmação da humanidade do ser humano - o ser humano procura o amor, o belo, a justiça, a igualdade e a dignidade. Isso o torna mais humano.

               Assim a educação popular em saúde transforma-se num processo contínuo e infinito, porque abarca a complexidade do homem enquanto sujeito social e político. “
(Soraia Dornelles - Diretoria de Planejamento – Secretaria da Saúde de SC)
 

“É preciso "desinventar" ou "reinventar" nosso cotidiano profissional. É preciso introduzir o olhar e o sentir da população nesse cotidiano. Precisamos nos libertar do enfoque biologizante, simplista, da relação saúde-doença e entender de forma mais ampliada a saúde. Como fazer isto? Este é o nosso desafio.
Precisamos começar a "reinvenção" a partir das trocas com o outro, do diálogo, ouvir o outro, de trocar nossas verdades. Temos um caminho longo pela frente, que é o de transformar este sistema gerador de morte - como definiu a professora Maristela Fantin -  em sistema gerador de saúde, de vida.
Precisamos introduzir em nossas instituições um processo de permanente reflexão sobre o nosso agir. Perceber as determinações políticas, culturais deste agir. Questionar os conceitos. Refletir, a partir da comunicação e da educação, sobre os conceitos e estruturas institucionalizadas da saúde. Esta reflexão não deve ser só técnica mas compartilhada com a população. É  preciso também trabalhar os limites institucionais que não são linhas rígidas, imutáveis. Se pensarmos que os limites são rígidos, nós é que estamos definindo essas limitações.
Acho que a gente tem que levantar todo dia, sacudir a poeira e ir prá luta de novo.”
(Paulo Pereira)
 

“Percebo que quanto mais avançamos no desenvolvimento tecnológico mais nos afastamos das pessoas. Acabamos por criar um abismo dificultando nossas relações interpessoais.
No processo de desenvolvimento da saúde pública, da educação popular e da comunicação, estas dificuldades se tornam mais visíveis considerando nossa história de submissão, opressão, omissão, oportunismo e da falta de comprometimento.
Consequentemente acabamos por reproduzir em nossas ações diárias este modelo neoliberal/capitalista, que nos afasta de nós mesmos e dos outros.
Entendo que o grande desafio hoje é realmente redescobrirmos nossa verdadeira essência: quem somos? O que somos? O que faremos? Para onde vamos? Conseguir estas respostas e refletir sobre as outras perguntas que virão com toda certeza nos levará a uma nova reflexão e postura do que estamos realizando em nossa prática.
Reaprendermos a amar, a nos relacionar, a escutar o outro, respeitando e compreendendo seus limites, e os nossos próprios limites, abrirá caminhos para o diálogo e juntos poderemos construir um mundo muito melhor. Estar inteiro: corpo, mente e emoção em tudo o que se visa, na vida social, particular e no trabalho, fará com que tudo fique mais prazeroso e fácil de se fazer.”
 (Mara Regina Stanck)
 

“Tenho à vezes, dificuldades de aproximação ("chegar junto") à Comunidade, ainda pelo acanhamento desta comunidade me considerar um "doutor" (pessoa com estudo em nível superior).
Precisamos nos "desarmar" das nossas vaidades pelos títulos de "doutores"  e "mestres" e humildemente poder captar o importante saber popular na troca de conhecimentos.
Quando o profissional de saúde exerce o seu lado político, ou seja, tenta mobilizar a população para que busque seu direito integral à saúde torna-se "visado" e perseguido por "gerenciadores" de um modelo de "faz de conta..." que visa muitas vezes sua ascensão política, pessoal ou social.
A política de saúde de vários municípios está mais direcionada à prática curativa: doença dá mais votos! Iniciativas de promoção de saúde, através de programas que levam à qualidade de vida, muitas vezes são sufocadas e abortadas pela falta de interesse, apoio e recursos por parte daqueles políticos que deveriam estar comprometidos com a saúde popular.
Para não ficarmos omissos devemos buscar discussões a nível de Conselho Municipal de Saúde, cobrar, de forma implacável, os vereadores ditos "representantes do povo" para  que ajam mais em favor da oferta e da manutenção de atividades que ofereçam mais qualidade de vida à população.”
(Marcelo Marques de Mélo)
 
 

Desafios de comunicar

"Saúde Pública, direito do  cidadão e dever do Estado". Um item Constitucional ainda em aberto. Embora já existam Leis complementares como a 8080, ainda hoje vemos o Sistema Único de Saúde como algo a ser realizado e repensado dia-a-dia.
Hoje, o que se nota é o desmonte dos serviços públicos de saúde em favor dos seguros privados. No primeiro dia dos trabalhos, o mestrando Adir Garcia perguntou aos participantes - mais ou menos 30 pessoa - quantos não tinham planos privados. Apenas quatro pessoas levantaram a mão. Isto reflete aquilo que nós, servidores e defensores do Sistema Único de Saúde, agimos como os fariseus (Bíblia), que pregamos uma coisa à população, mas garantimos nosso serviço particular.
Portanto,  é nosso desafio encontrar fontes de recursos para o patrocínio do SUS. E a dificuldade está em como incrementar e melhorar o atendimento aos usuários se há anos os valores orçados para a saúde estão caindo em relação ao dólar e a população vem aumentando, inclusive na expectativa de vida.
Falando do meu local de trabalho, as dificuldades estão na descontinuação dos programas e na política do "Estado mínimo". Inclusive, com um grande número de aposentados e demitidos. Desde 1987 não se realiza concurso público para se renovar o quadro de pessoas e idéias.
Por outro lado, o diálogo em minha prática de trabalho é difícil. A rapidez com que as coisas se alteram, os programas verticais, de cima para baixo,  dissociados  da vontade popular, o cartazismo improdutivo, tudo parece que está voltado para a máquina emperrar.
A informação sobre os serviços é geralmente feita por telefone e fax. Dificilmente as pessoas vêm ao setor. Não há uma publicação dos serviços (Acordo Internacional de  Saúde), o que leva os possíveis usuários a optarem pelos seguros privados.
Em meu ver, seria necessário popularizar aquilo que é público, e não restringir àqueles mais privilegiados.
O saber popular é importante na organização do coletivo. Talvez o remédio caseiro não funcione como os industrializados, mas devem ser investigadas suas qualidades terapêuticas.
E dentro do saber a valorização do seu conhecimento, do seu meio social,  é importante para a comunicação e o aprendizado coletivo. Ainda temos que aprender a ouvir e sentir nos gestos, na fala, no olhar. O povo  quer dizer alguma coisa a mais, além de suas palavras e seus clamores.
(Áureo Rodrigues – Ministério da Saúde)
 

 “ Sendo minha atuação na área da saúde, é neste campo que discutirei os temas abordados neste encontro de pessoas que têm a vontade de mudar o paradigma que enfrentam, mas com pontos de vista e perspectivas suficientemente diferenciadas para promover uma discussão.
 O conceito restrito, quadradinho de saúde, ainda em evidência para a grande parte da população e dos próprios profissionais de saúde, pode ser o primeiro grande entrave para que o trabalho educativo seja reconhecido como parte importante na promoção da saúde, da melhor qualidade de vida.  Saúde como ausência de doença, dependente de atendimento médico e medicamento, propicia o silêncio, a distância entre os profissionais de saúde e a população. Além da formação técnica e tecnicista que a maioria dos profissionais de saúde recebe, há a formação cultural de ambas que os colocam em lados opostos, e com o mesmo conceito de saúde que depende  de atendimento. Muitas vezes as condições de trabalho dos profissionais só permitem isto, e a população incorpora este modelo, a cultura da medicalização é incorporada, e só isto é esperado.
 Propor que os serviços de atenção à saúde incorporem ações educativas é um desafio, e muito maior se o desejado for um processo participativo, construtivo, e não um pacote de procedimentos e imposições que não respeitem os valores culturais da comunidade. É necessário para tanto que haja troca de experiências entre as partes, de interesses, de opiniões. Este processo só será produtivo se o saber de cada um for realmente respeitado e aceito, isto é, se os conceitos pré-formados forem superados.”
(Silvana Nair Leite)