Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina 

Teatro estimula participação da comunidade no conselho de saúde

A noite de abertura do II Encontro Estadual de Comunicação e Educação em Saúde foi encerrada pelo Grupo Artístico Teatral Talento e Arte – GRATTA, que apresentou uma peça abordando as dificuldades enfrentadas pela população no acesso ao Sistema Único de Saúde e a   necessidade de a comunidade se organizar para participar do Conselho Municipal de Saúde. O GRATTA é formado por estudantes de escolas públicas de Florianópolis e tem coordenação de Vera Costa, servidora da área de recursos humanos da Secretaria da Saúde de SC. O grupo apresenta temas relacionados à educação em saúde e pode ser contatado pelo telefone (48) 91210285. Veja, a seguir, o roteiro da peça encenada no encontro realizado no Hotel Valerim.


Contamos com vocês!
Personagens
Coringa 1(C1)
Coringa 2 (C2)
Marmerito (Porteiro)
Sulixisto
Carmelita
Vivaldina
Urinaldo
Canalina
Canalozo (filho da Canalina)
Rulibilio
Rulibélia (filha de Rulibilio)
Marêta
Marita
Mormeto (irmão da Marita)
Calhina (Atendente)
Calhada (Atendente)
Carnira (Faxineira)
Robenvaldo (deputado)
Rozaldina (Mãe do deputado)

Cenário
Sala de espera da emergência de um hospital público, com um enorme relógio (ponteiro móvel)
(Na sala de emergência, vê-se muita gente doente, uns deitados no banco e outros fazendo ficha. Uns mais calmos, outros desesperados, o Porteiro atende muito mal as pessoas (Improvisações organizadas). Quando entra o Coringa, congelam.)

No proscênio ( Coringa 1 entra com um folheto)

Coringa 1 - Interessante! Interessantíssimo! SUS - Sistema Único de Saúde. Todos têm direito a assistência médica, a exames de raio x, eletro “isso”, eletro “aquilo”............(Escuta um gemido) O que é isso?!........

Coringa 2 - (Entra em cena) - Ai! Ai! Tô morrendo, me ajude!

C1 – Ora, colega! Procure um médico. Deixe de fazer escândalo, garanto que essa dor nem é tão grande assim.

C2 - (Começa a chorar)Ai! Ai! Você não é meu amigo mesmo! Você quer me matar. Depois, o único que pode avaliar minha dor sou eu, pois só eu posso sentí-la.

C1 - Ora! Se você está doente, com uma dor inexplicável, procure um médico.

C2 - Mas eu não tenho UNIMED, GOLDEN CROSS, nem HELP, nada! Não tenho nada!

C1 - Mas não precisa ter nada! Basta você procurar um posto de saúde ou a emergência de um hospital que será muito bem atendido, e terá direito a todos os exames necessários.

C2 - (Começa a rir, rola no chão) Depois de uma piada dessa, até fiquei curado. Como você é tolo! Já vi que você nunca foi a um posto de saúde nem a emergência de hospital. Você deve ser cliente UNIMED.

C1 - Eu tenho UNIMED. Mas estou falando isso porque neste folheto está explicando como deve ser o atendimento no SUS.

C2 - (Se fazendo de surdo)Sujo? Você disse sujo?

C1 - Ora! Não se faça de surdo. Eu disse SUS - Sistema Único de Saúde.

C2 - Deixe eu dar uma olhada! Bonito! O que é SUS? “O SUS é a nova forma de organização do sistema de saúde, proposta pela Constituição. Devemos ressaltar que o SUS não é o sucessor do INAMPS , nem do DASP, nem da Fundação Hospitalar nem tampouco do SUDS: o SUS é um modelo novo de assistência à Saúde.”Muito bonito! Ora, meu amigo! O que nós queremos é um modelo assistencial de saúde digno! É isso que o povo merece!

C1 - Mas você tem que concordar que historicamente o trabalho em saúde no Brasil se organizou de forma efetiva, só recentemente. A partir do movimento de reforma sanitária, da Constituição de 88 e da Lei Orgânica do SUS, se inicia a construção de um modelo alternativo.

C2 - Mas você tem que concordar comigo! A falência da saúde no Brasil, baseada nesse modelo de assistência que é o SUS é visível. E quem morre na porta do hospital? Quem morre nas emergências? É o povo, meu amigo! O que é de ruim, sempre sobra para o povo!

C1 - Deixe de ser debochado! Olha só como está sendo o atendimento no SUS. Quem precisa mais, deve ser mais assistido.

C2 - (Rindo muito) Lindo, maravilhoso! Olha só! ”Questões orgânicas, psicológicas e sociais devem ser consideradas em conjunto assegurando dignidade ao indivíduo e respeito à comunidade.” Isso é uma piada!

C1 - Por que você debocha tanto?! Tá tudo aí! Esse é o verdadeiro atendimento da saúde no Brasil.

C2 - Meu amigo! (Colocando a mão na testa do Coringa 1) - Acho que quem está doente é você! Você está delirando. Coitadinho!

C1 - Eu ainda não entendi o porquê de tanto deboche, tanta piada!

C2 – Ora, meu amigo! Você está tão iludido quanto a maioria da população brasileira que não conhece o verdadeiro atendimento do SUS, nem tampouco seus direitos e deveres de cidadão.

C1 - Mas está tão bem explicado! É tão bonito!

C2 - Ah! É bonito, né?! O papel , meu amigo, aceita tudo que você escreve nele. Mas a realidade é outra! Venha ver a verdadeira realidade, eu vim de lá agora(vai puxando C1 pelo meio do público, abrindo caminho).

C1 - Aonde você vai?!

C2 - Vou te levar pra ver de perto o atendimento do SUS.

C1 - Mas eu tenho UNIMED, não preciso do atendimento do SUS!

C2 - Por isso mesmo! Vem ver a realidade, pra não viver o resto da vida iludido.

(A emergência está cheia. Entra em cena um casal com uma criança, aparentemente doente. Dirigem-se à porta de entrada)

Marmerito(porteiro) - (Com a porta entre-aberta) O que foi?

Vivaldina – Rápido, moço! Minha filha está passando mal!

Marmerito - Mas primeiro tem que fazer a ficha no balcão.

Sulixisto - Mas deixa ela ir entrando com a criança enquanto eu faço a ficha! É um caso urgente!

Marmerito - Todos são urgentes. Senta aí e aguarda um pouco.

Vivaldina – Moço, então chame a enfermeira, pra medir a febre do meu filho!

Marmerito – Dona, acorda! Aqui não é clínica particular. A enfermeira tá ocupada atendendo uma urgência. Se a senhora ficar calminha, depois eu vejo com ela o que a gente pode fazer.

Carmelita – Ai, que dor, mãe!

Vivaldino – Espera, filha! O médico já vai atender.

Carmelita – Ai, que dor! (Canalina dá um copo com água para Carmelita).

Vivaldina - Toma um pouco de água!

Sulixisto – Pronto. Já fiz a ficha!

Urinaldo - Agora é só esperar!

Sulixisto - Mas como?! Se ele disse que era só fazer a ficha!

Urinaldo – Moço, eu estou aqui desde às 7:30, e ainda não fui atendido. (mostra o relógio que está marcando 9:30 hs)

Marmerito: Eu não posso fazer nada, é só olhar ao redor e ver que a emergência está lotada, mas a maioria é atendimento ambulatorial.

Canalina – Sabe, dona? Eu tenho saudade daqueles tempos em que a gente ia num posto de saúde e a enfermeira atendia a gente com todo o carinho.

Urinaldo: Mas hoje a gente não consegue consulta no Posto de Saúde, e por isso viemos procurar a emergência.

(Entra a faxineira)

Marêta - Ah! Bons tempos! Lembro que minha mãe me levava num posto de saúde e o médico estava ali, e nos atendia com muita alegria.

Marita - Mas o que é bom pro povo dura muito pouco. O povo já tá cansado! Cansado até mesmo de lutar!

Carnira – Ah, coitados!!
 

Urinaldo - Hoje a gente fica assim, jogado na sala fria de uma emergência esperando a boa vontade do médico, eles só atendem rápido quando a gente cai desmaiado ou chega em coma.

Rubilia - Mas também a equipe de saúde sofre tanto ali dentro. Muitas vezes eles querem atender mas não podem, pois não têm material. Um dia eu vim trazer meu filho e na pediatria não tinha um termômetro para medir a temperatura do guri!

Canalina - Isso é uma pouca vergonha ! Não podemos sofrer as conseqüências desta falta de prioridade com a saúde.

Sulixisto: Quando estamos doentes ficamos frágeis, inseguros, com medo. Precisamos de apoio, atenção e orientação adequada ao nosso entendimento.

C1 - Mas esse não é o atendimento do SUS?! Você está querendo me confundir!

C2 - Esta é a realidade do SUS. O que está aí no papel é uma proposta em consenso. É um sonho!

C1 - Mas tá aqui ! Tá dizendo tudo aqui : a Constituição diz que a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. E a lei federal 8080 diz que a saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte e o lazer...

C2 – Claro, isso é o que diz no papel. Diz também que  em segundo lugar, a Constituição assegura o direito igual de todos, sem qualquer
discriminação, às ações de saúde em todos os níveis. Mas o Governo não está nem aí para o povo.

(Entra um deputado com uma senhora. Ao chegar na porta, entra sem fazer ficha)

C1 - (Olhando a cena admirado) Mas a Constituição assegura um direito igual a todos sem qualquer discriminação.

(Tumulto, o Coringa 2 corta)

C2 - Tá vendo o que acontece?! Eles ainda dizem que o dever de prover o pleno gozo desse direito é responsabilidade do Estado, isto é, do poder público.

C1 - Eu não te falei !?! Isso quer dizer que a única condição para se ter direito de acesso aos serviços e ações de saúde é necessitá-los.

(Sai a faxineira)

Urinaldo - Vai ver que a gente não tá necessitando de atendimento médico.

C2 - Sistema Único de Saúde!... (Faz ânsia de vômito)   A verdade é que os serviços particulares estão utilizando as clínicas e os hospitais do Governo para atendimento médico de seus pacientes. E o povo fica assim!

(Carmelita vomita perto da cadeira e começa a ter convulsão)
Vivaldino - Minha filha tá morrendo!

Sulixisto - (Esmurrando a porta) – Rápido, minha filha está morrendo!

Marmerito  (Abrindo a porta) – Calma, moço. Pessoal! (grita para os profissionais) Pega a maca. Rápido!

Vivaldina – Acode, moço! Minha filha tá morrendo!

Todos - (Avançando para Marmerita) Nossos filhos estão morrendo! Nossos  filhos estão morrendo!

Canalina - De quem é a responsabilidade? Por que não nos respeitam? Afinal nós também somos cidadãos brasileiros.

(Entra a faxineira)

Rulibilio - É responsabilidade do Estado, nos dar um bom atendimento.

C1 - Não! Não! Não! A responsabilidade é das três esferas do Governo: Municipal, Estadual e Federal.

C2 - E nessas três esferas deverão participar também os representantes da população.

Rulibilio - Estes representantes garantirão às entidades representativas sua participação no processo de formulação das políticas de saúde.

C2 - É lindo tudo que diz no papel, mas o que o povo quer é a prática.

Canalina - Não cabe neste momento fazer análise do que é modelo assistencial e quais seus determinantes, quem é o culpado por esta pouca vergonha. Só queremos um bom atendimento, o cumprimento da lei.

Rulibilio - Eles não podem deixar a responsabilidade da saúde do povo nas “costas” do município. Todos devem fazer sua parte: Governo Federal, Estadual e Municipal.

Marmerito  (Na porta) - Quem tá esperando ortopedista pode ir embora e voltar às 4 horas. Agora não vai ter ortopedista.

(Tumulto generalizado - improvisações)

Urinaldo – Moço, eu estou aqui desde as 7 horas, e só agora que vocês vem dizer que não tem ortopedista?!

Marmerito - A gente não pode fazer nada, só agora que ele avisou que não vem.

C1 - Que loucura! Então esta é a realidade?! “A compreensão das determinações histórico-sociais do surgimento das políticas de saúde nos permite intervir, como agentes sociais, na sua definição, ao invés de apenas executar passivamente as suas determinações.”

C2 - O que precisamos é que os profissionais da saúde e a população estejam orientados sobre seus direitos e deveres enquanto cidadãos e que haja união e luta entre os diversos segmentos da sociedade.

Marita - Cada um de nós precisa estar atento aos problemas sociais e políticos e não só sentir o problema quando nos atinge diretamente.

Marêta - Só quando cada profissional desempenhar bem seu papel, seguindo a ética e a moral, colocando-se no lugar do outro, é que teremos um atendimento mais humano.

C1 - Mas a população precisa lutar, se unir com os outros bairros, através do Conselho Municipal de Saúde, no sentido de reivindicarem junto aos órgãos públicos um atendimento mais humano.

Marita - Conselho Municipal de Saúde? Como ele funciona?

C2 - O Conselho Municipal de Saúde se reúne sempre com a missão de acompanhar e fiscalizar os gastos da Prefeitura com a saúde da população. Nessas reuniões também se deve discutir ações e serviços de saúde e decidir quais são as prioridades.

Mareta - Mas o povo pode participar dessas reuniões?

C1 - O povo pode e DEVE participar! Os assuntos do Conselho são, principalmente, do interesse da população, que são os usuários do serviço público de saúde. As decisões do Conselho Municipal de Saúde estão amparadas por Lei e, caso elas não sejam acatadas nem cumpridas pelo Prefeito, qualquer cidadão pode e DEVE  acioná-lo  na justiça.

Marita - Puxa vida, gente! Tá aí um bom assunto pra ser discutido em nossas comunidades.

Mareta - Por falar nisso, será que nossos Presidentes de Associações de Moradores estão ligados no Conselho Municipal de Saúde?!

 Rulibilio - Será que a saúde se resolve contratando agentes comunitários, enquanto a população vai empobrecendo cada vez mais?

Carnina – Ah, coitada! (Sai)

Canalina - Diante desse quadro da saúde, ou melhor da doença do povo brasileiro, acho que está mais do que na hora do povo se unir e lutar por seus direitos.

C1 - Mas é isso! Quem deve controlar o SUS é a população. A população deve ter conhecimento de seus direitos e reivindicá-los ao gestor local do SUS.

Fundo musical: Brasil, de Cazuza

Vivaldina (Entrando) - Não adianta, moço. Ali dentro falta tudo.

Sulixisto - Ali dentro tudo falta.

Marmenito - Falta instrumento.

Carmelita - Falta carinho.

C2 - Falta amor.

Canalina - Falta remédio...

Rulibilo - Falta profissional de enfermagem.

Canalozo - Falta doutor.

Todos - É o povo que chama.

Carnira - É o povo que chama.

Calhina - É o povo que grita.

Calhada - É seu grito de dor.

Marêto - Já não dói tanto o braço.

Uninaldo - Já não dói tanto a perna.

Todos - É o povo que clama.

Rulibélia - É o povo que pede.

Mormeto - Por favor, seu doutor!

Robenvaldo - Olhai este povo!

Rozaldina - Este povo que sofre.

C1 - Que sofre de fome!

C2 - Que sofre sem terra!

Canalina - Que sofre sem teto!

Urinaldo - Que sofre de frio!

Calhina - Que morre de dor!

Calhada - Morre na cidade!

Todos - Morre no campo!

Rulibilio - Por sua indiferença.

Vivaldina - Sua falta de humanismo!

Todos - E falta de AMOR.

Canalina - Mas quando vamos a uma emergência ou a um posto de saúde ...

Coringa 1- ...e  encontramos uma equipe de saúde comprometida com seus compromissos profissionais ...

Coringa 2: ...seguramente a população é melhor assistida.
 

Todos - Vamos lutar por nossos direitos! Profissionais da saúde,  contamos com vocês!
 

FIM
(Texto de Vera Costa, com contribuição da enfermeira Anita Zago. Fontes de pesquisa: Anais do 48º Congresso Brasileiro de Enfermagem - Pág. 247/ 253 - O que há de novo em saúde -  A B C do SUS- Vol 1)

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