Tema 20 - Dezembro/00
CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE
O Brasil diz como quer ser tratado
Apresentação
11ª CONFERÊNCIA MOSTRA QUE MODELO DO SUS
É BOM, MAS AINDA HÁ MUITO O QUE FAZER
Álvaro Nascimento
A 11a Conferência Nacional de Saúde, realizada em Brasília
de 15 a 19 de dezembro de 2000, pode ser considerada um marco na implantação
do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. O evento fez uma
análise profunda não só do sistema de saúde,
mas das conseqüências que o modelo econômico adotado no
País tem trazido às áreas de maior impacto social.
Um resumo dos principais conceitos e valores que deram a tônica
aos debates nos grupos de trabalho e na plenária final demonstra
que o SUS representa um grande avanço como política pública
no Brasil. Ele faz com que a saúde seja o único setor com
propostas e práticas claras de controle social, transparência
administrativa, gestão participativa e democratização.
Maior prova disso é a criação de conselhos de saúde
com participação da sociedade em praticamente todos os mais
de cinco mil municípios do País.
Entretanto, os avanços que poderiam estar sendo patrocinados
pelo SUS são dificultados pelo fato dele conter uma concepção
de solidariedade social - representada por princípios como a universalidade
de acesso, eqüidade e integralidade da atenção à
saúde - que esbarra na atual política econômica do
País, que caminha em direção oposta.
Os delegados vindos dos mais longínquos estados e municípios
indicaram que o sucesso da implantação do SUS também
é dificultado pela cultura política brasileira, marcada pelo
autoritarismo, clientelismo e pela exclusão. A garantia de direitos
e das conquistas sociais - já consagradas em leis e na própria
Constituição - necessita de uma sociedade organizada de forma
menos frágil, pois o resultado dessa realidade é a dificuldade
de acesso ao SUS justamente pelos setores que mais sofrem as conseqüências
da pobreza e da exclusão.
Os debates e deliberações constataram que, no Brasil das
desigualdades sociais, perdura a visão de que as ações
de saúde são uma concessão aos pobres e que os governos
somente deveriam agir naquilo que não interessa ao setor privado,
atuando para evitar que eclodam as epidemias.
As conferências nacionais de saúde, realizadas a cada quatro
anos, são importantes instrumentos de participação
da sociedade organizada na elobaração das diretrizes da política
nacional de saúde, com vistas a superar os problemas do setor. Elas
reúnem gestores municipais, estaduais e federais do sistema de saúde,
prestadores de serviço, formadores de recursos humanos, profissionais
de saúde, confederações de empresários, comunidade
científica, organizações religiosas e representantes
de usuários do SUS, como os portadores de patologias e os movimentos
sociais organizados, a exemplo dos sindicatos de trabalhadores rurais e
urbanos.
O tema da 11a Conferência Nacional de Saúde - "Efetivando
o SUS: acesso, qualidade e humanização na atenção
à saúde com controle social"- mostrou, por sua vez, que a
questão da participação da sociedade na gestão
do sistema de saúde ainda está longe de ser a ideal. Para
resgatar os princípios que nortearam a concepção de
controle social do SUS, os delegados aprovaram propostas concretas para
superar o problema.
Vale ressaltar que a realização da 11a Conferência
coincide com a posse de uma nova Presidência na Fundação
Oswaldo Cruz, instituição centenária, reconhecida
no Brasil e no exterior, historicamente ligada à defesa da saúde
e que se orgulha de ter participado de forma ativa na construção
do texto constitucional relativo à saúde.
Por se considerar uma instituição participante do SUS,
a Fiocruz - que está formatando o seu Plano de Trabalho para os
próximos quatro anos - já está levando em consideração
as deliberações da 11a Conferência como parâmetro
para a sua atuação nas áreas da produção
de medicamentos e imunobiológicos, assistência de referência,
controle da qualidade, ensino, informação, pesquisa e desenvolvimento
tecnológico.
Por tudo isso, é com orgulho que apresentamos esta TEMA a nossos
leitores. Éla é mais um instrumento de informação
voltado para a construção de consciência, e defesa
da cidadania, na busca de assegurar maior amplitude do debate no setor,
no esforço que o Programa Radis desenvolve há 18 anos no
sentido de reunir, analisar e difundir informações em saúde,
que impactem e tragam melhorias concretas à performance no sistema
de saúde brasileiro.
Discurso do Ministro José Serra
"O MINISTÉRIO ESPERA AS CONTRIBUIÇÕES
DESTE PLENÁRIO PARA DESENVOLVER
SUAS FUTURAS POLÍTICAS"
|
PARA O MINISTRO JOSÉ
SERRA, O LADO DOMINANTE DO SUS É O POSITIVO
|
Ao afirmar em seu discurso de abertura da 11a Conferência
que "o Ministério da Saúde e o Governo têm uma grande
expectativa em relação a esta Conferência e será
fundamental a contribuição deste plenário às
futuras políticas do Ministério", o Ministro José
Serra procurou se comprometer com a continuidade da implementação
do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil:
- Desde o meu discurso de posse, reafirmei a importância
e a constitucionalidade do SUS e o compromisso de reafirmá-lo, desenvolvê-lo
e aprimorá-lo. Este é o norte de nosso trabalho no Ministério
da Saúde.
Serra valorizou a 11a Conferência e ressaltou
a importância de seu temário:
- Esta conferência vai avaliar dez anos de
implantação do SUS, seu funcionamento, as responsabilidades
dos municípios, estados e da União, os nossos modelos de
gestão, enfim a justiça social na área da saúde.
E fez um resumo da atuação do Ministério
da Saúde como órgão nacional de coordenação
do SUS:
- Nossa atuação tem sido a de enfrentar
todas as lutas que se apresentam, como a da atenção básica,
até o enfrentamento da indústria de medicamentos, na questão
dos preços abusivos destes produtos essenciais para a população.
Segundo o Ministro, "nossa perspectiva é que
temos que lutar por uma saúde justa não só para acrescentar
anos à vida das pessoas, mas também qualidade de vida a estes
anos, para que esta mesma população viva melhor".
José Serra falou do processo de descentralização
e dos programas mais importantes do Ministério:
- Estamos realizando a des-centralização
na prática, desenvolvendo os Programas de Agentes Comunitários
de Saúde e o Programa Saúde na Família, que com a
posse dos novos prefeitos poderão ter um grande estímulo.
Também implementamos o Programa Farmácia Básica, estimulamos
os laboratórios oficiais para distribuição gratuita
de medicamentos, pois grande parte da população não
tem recursos sequer para comprar o medicamento barato, sendo a produção
pública a única saída para estas pessoas.
Serra ressaltou que esta política levou "ao
barateamento dos medicamentos da Aids, com ecomomia de até 70%".
Ele ainda citou o combate às carências nutricionais presentes
em cinco mil municípios e o combate às endemias como iniciativas
importantes do Ministério, "multiplicando as ações
de formas descentralizada".
O Ministro lembrou que "com a votação
do Senado aprovando o projeto que permite zerar os impostos federais sobre
medicamentos, completamos oito projetos de grande alcance para a saúde
tranformados em lei em três anos".
E listou cada um deles:
- Estes projetos dizem respeito à punição
mais severa para fraudes em medicamentos, à regulamentação
dos planos de saúde para impedir abusos, o de medicamentos genéricos
apresentado pelo Deputado Eduardo Jorge, o que cria a Agência Nacional
de Vigilância Sanitária com autonomia e o da Agência
Nacional de Saúde Complementar para regular a atuação
destes planos. Além disso, vinculamos os recursos da saúde
nas três esferas de Governo, através da emenda cons-titucional
169, e esperamos que até 2004 aprovemos uma nova lei que assegure
recursos definitivos para o setor
Serra citou, ainda, a lei aprovada pela Câmara
que proíbe a propaganda de cigarros - "luta que está apenas
começando" - e a desoneração tributária da
cesta básica de medicamentos, relativa ao PIS e Cofins:
- Talvez nunca na história a legislação
tenha sido tão modificada e para melhor. Isso não foi obra
minha ou do Ministério, mas de todo o setor saúde e de muitos
parlamentares. Estas oito leis contaram com apoio da oposição
ao Governo em todos os momentos. Uma moçada boa de briga, competente
e de muito espírito público.
Serra encerrou dizendo que "ainda temos muito o que
fazer, mas temos que nos orgulhar do trabalho que estamos fazendo no SUS,
no sentido de consolidá-lo":
- Setores da elite sempre têm perspectiva exterminadora
em relação aos serviços sociais. A ótica dificilmenmte
é aprimorar, mas extingüir. Na saúde, nós estamos
conseguindo impedir isso através do SUS. O lado dominante do SUS
é o positivo.
| FALA
DELEGADO
Durante os meses
que antecederam a 11a Conferência Nacional de Saúde vimos
cartazes, estampando faces brasileiras que terminariam por fornecer uma
identidade para o evento. Faces mulatas, negras, brancas, asiáticas
e de traços indígenas, faces mestiças, de velhos e
jovens, de homens e mulheres, visíveis de várias formas e
em várias mídias, ao longo das estradas, em out-doors, documentos
e cenários da Conferência. O `rosto do Brasil', esse era o
conceito de todo o esforço de divulgação. Em agosto
do ano passado, realizou-se em Salvador o maior congresso de saúde
coletiva jamais visto no país, cujo tema era, coincidentemente,
`O Sujeito da Saúde'.
Foi aproveitando
esse pensamento-sujeito e também essas faces-logomarcas (intenção
de decidida humanização e `subjetivação' dos
organismos orientadores das políticas de saúde pública
do Brasil), que decidimos emprestar uma voz a esses rostos. Como as faces,
as vozes são também variadas, significativas e marcantes.
Em todas as páginas dessa Tema, nestas bordas, você encontrará
depoimentos de delegados da Conferência, vindos de vários
estados e representando várias instituições e instâncias
da sociedade civil organizada. Se você já viu os rostos desses
`sujeitos' da saúde, que tal agora ouvir o que eles têm a
dizer?
Caco Xavier |
Sessão de Abertura
HOMENAGEM A DAVID CAPISTRANO FILHO
EMOCIONA E REAFIRMA COMPROMISSOS
Álvaro Nascimento
Uma emocionante homenagem a David Capistrano Filho
e a reafirmação de compromissos históricos do movimento
sanitário brasileiro deram a tônica à solenidade que
abriu a 11a Conferência.
Coordenadora do evento, Rita Barata afirmou que todos
os que participaram da sua organização esperavam que a Conferência
acrescentasse alguns passos na construção de um País
livre, justo e feliz:
- O SUS é uma utopia. A utopia de ter todos
os cidadãos brasileiros vivendo com dignidade.
Coube ao ex-Ministro da Saúde, Adib Jatene,
em nome da Comissão Organizadora, iniciar a homenagem ao sanitarista
David Capistrano Filho, que falecera semanas antes. Segundo Jatene, "Uma
Nação revela-se não somente pelos homens que produz,
mas pelos que presta homenagem. Precisamos cultivar aqueles que podem ser
considerados ídolos para nossa luta, para que tenhamos forças
para continuar a nossa tarefa". Ele convidou Maria do Socorro Mattos, uma
das colaboradoras mais próximas de David, a fazer um depoimento
do que foi trabalhar com ele.
Ela lembrou a perseguição da ditadura
militar a David, "que nunca temia quem enfrentava e achava que as diferenças
deviam ser explicitadas e estimuladas":
- O exercício da dialética impregnava
sua alma. Tinha coragem, ousadia e visão de profeta. Em 1989, Secretário
de Saúde de Santos, David começa a contestar o tratamento
manicomial no Hospital Anchieta. Quase foi preso quando decidiu trocar
seringas para evitar novos casos de Aids e salvar vidas humanas, tendo
sido acusado de estimular o uso de drogas. Hoje, se vê que a iniciativa
se transforma em programa do Ministério da Saúde. Como Prefeito
de Santos, sempre estimulou os movimentos populares na saúde e na
cultura. Forneceu coquetel de drogas a todos os pacientes soropositivos.
Sabia como ninguém que aquelas pessoas não podiam esperar.
Mais tarde, foi seguido pelo Governo Federal, que passou a assumir integralmente
o tratamento.
Mais recentemente, David Capistrano coordenou o Projeto
Qualis, da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. Nos
últimos meses, era consultor do Ministério da Saúde
e da Prefeitura de Vitória da Conquista (BA). Foi o responsável
pela idealização e implementação dos programas
Médico de Família e de Agentes de Saúde, abrindo caminho
para uma nova ótica na saúde pública brasileira.
- Justiça, liberdade, eqüidade, sonho
de transformar o mundo, identificação com a luta dos de baixo,
tudo isso faz parte da luta de David, finalizou ela.
Mas o momento mais emocionante foi quando Jatene
chamou a mãe de David, Dona Maria Augusta de Oliveira, para falar
do filho. Seu discurso foi contundente:
- É com enorme emoção, como
mãe de David, que me sinto orgulhosíssima de ter tido um
filho com suas qualidades. Me sinto honrada porque meu filho soube seguir
a educação dos pais, de defesa do povo brasileiro, ocupando
cargos sem pensar em si, mas para servir às camadas mais sofridas
da população. Meu filho morreu prematuramente, pois ainda
tinha muito a dar ao País, à sua família, ao povo
e à saúde da Nação. É lamentável
que tenha morrido prematuramente. David não foi filho apenas de
um revolucionário, que foi David Capistrano. Foi filho de uma mãe
revolucionária, que dos confins do nordeste já percebia que
precisava participar da luta em defesa da democracia e da liberdade neste
País. Foi através desta educação que ele se
formou, desenvolveu sua capacidade intelectual e moral, colocando-se a
serviço da saúde no Brasil, como tarefa política ligada
aos demais democratas, para transformar o Brasil numa Nação
justa. Estou tremendamente emocionada, porque além de tudo isso
ele era um grande filho, com uma afinidade enorme com sua mãe, política,
ideológica, de concepção, sabendo de minha enorme
satisfação com seu trabalho. Espero que toda a comunidade
da saúde tenha a preocupação de levar adiante as diretrizes
que David defendeu enquanto aqui esteve.
SUS: Revendo a Trajetória
OS AVANÇOS E RETROCESSOS DA
REFORMA SANITÁRIA BRASILEIRA
Álvaro Nascimento
O processo de construção da Reforma
Sanitária no Brasil é o da fixação e concretização
de valores, centrados na solidariedade, na ética e na democracia.
Este é o resumo da mesa que abriu a 11a Conferência, "SUS
- Revendo a Trajetória"- que fez um balanço histórico
da implantação do SUS no País. Coordenada por Márcio
Almeida, ela foi aberta por Sérgio Arouca (Presidente da 8a Conferência
Nacional de Saúde, ex-Presidente da Fiocruz, ex-Deputado Federal
e atual Secretário Municipal de Saúde do Rio), que identificou
os vários valores que sempre nortearan o movimento:
- Ainda durante a ditadura militar, o Movimento Sanitário
Brasileiro, formado por pessoas ligadas ao Cebes e à Abrasco, formalizou
o documento "Saúde e Democracia", apresentado no Simpósio
sobre saúde da Câmara dos Deputados. Debaixo do autoritarismo,
da opressão, da violência que atentava contra os princípios
da vida humana, apresentamos um documento onde a saúde não
era vista como a simples assistência médica. Ali começamos
a lutar pelo valor da liberdade. Foi o primeiro marco que não podemos
esquecer. O movimento sanitário brasileiro não nasceu de
um simples processo gerencial, tecnocrático ou burocrático.
Nasceu marcado pela defesa de valores, assumindo a luta pela democracia.
Ele lembra que a realização da 8a Conferência
foi um momento de síntese:
- Não havia nenhuma proposta de continuidade,
mas de ruptura. A saúde enquanto projeto pode ser demarcada entre
antes e depois da oitava, onde novamente discutimos o valor da participação
da população, o valor do controle social, o valor da democracia
direta e da luta pela redemocratização do País. Mostrávamos
que tão fundamental quanto a democracia representativa era a democracia
direta.
Segundo Arouca, o desafio era fazer com que as associações
de moradores, sindicatos, igrejas, clubes de serviço, participassem
de uma reforma democrática do Estado brasileiro, de perfil centralizado
e autoritário:
- A oitava conferência rompe com este Estado
e promove reuniões desde os municípios, que se consolidam
nos estados, com ampla participação da população,
que elege delegados à conferência nacional, clamando por uma
reforma democrática do Estado. A saúde rompeu, ainda, com
o muro da vergonha que separava medicina preventiva da assistência
médica, que colocava de forma fraturada a medicina curativa da preventiva.
E a oitava se colocou a pergunta se o Inamps, que prestava assistência
aos trabalhadores, deveria ou não ser transferido para o Ministério
da Saúde. Como respondê-la? A partir de um Estado centralizado,
de cima para baixo, de forma autoritária, com debates técnicos?
Ou tendo a coragem de gerar um movimento de baixo para cima, para que o
projeto de sistema de saúde nascesse da sociedade e não em
gabinetes?
Para ele, foi um momento inédito, onde os
próprios trabalhadores do Inamps representados na Conferência
votaram pela extinção do órgão, abrindo mão
de uma postura corporativa em prol de um projeto para o País:
- Estava se colocando um novo valor, que considerava
que a reforma do Estado brasileiro deveria ser feita a partir da sociedade.
O movimento da reforma sanitária entendeu,
ainda segundo Arouca, a importância do processo constituinte:
- O texto da saúde da Constituição
nasceu de uma emenda popular e disso não podemos nos esquecer. Emenda
que assegura que a saúde é um direito de todos, que o Estado
deve garanti-lo e se coloca, de novo, um valor no debate, quando conseguimos
construir princípios para nortear o SUS, que eram os princípios
da Reforma Sanitária Brasileira. Defendíamos o valor da universalização
de direitos, onde todo cidadão teria direito à saúde,
o valor de que a saúde deve ser vista de forma integral, que era
um princípio de como se entende o ser humano, que não é
uma úlcera ou um enfarte, mas tem nome e sobrenome, tem família,
tem seu trabalho, tem dor, tem medo. E colocamos um novo valor, que desta
vez veio na contramão do desenvolvimento científico que desumaniza
e que não enxerga princípios humanistas do indivíduo
e da comunidade. Um conjunto de valores traduzidos como liberdade, democracia,
universalização de direitos, garantia de que todo cidadão
teria acesso a todos os bens que o Estado pudesse prover. E que o cidadão
não é cliente, não é usuário, mas é
sujeito.
Se referindo à emocionante solenidade que
abriu a 11a Conferência, Arouca disse que "toda a emoção
que a envolveu recoloca a Reforma Sanitária no seu verdadeiro lugar,
porque ela não é um projeto administrativo, só. Não
é um projeto técnico-gerencial, só. Não é
um projeto técnico-científico, só. Também é.
Mas o projeto da Reforma é o da civilização humana,
é um projeto civilizatório, que para se organizar precisa
ter dentro dele princípios e valores que nós nunca devemos
perder, para que a sociedade como um todo possa um dia expressar estes
valores, pois o que queremos para a saúde é o que queremos
para a sociedade brasileira.
Para falar sobre a Comissão Nacional da Reforma
Sanitária (CNRS) e da Legislação do SUS, Arlindo Fábio
Gomez de Souza (ex-Secretário Executivo da CNRS, ex-Presidente da
Abrasco e atual Superintendente do Canal Saúde da Fiocruz) começou
fazendo uma homenagem "a todos os que participaram da construção
de uma nova proposta para a saúde e de uma nova proposta de sociedade".
Segundo ele, a CNRS, presidida por José Alberto
Hermógenes de Souza, "que pelo Ministério da Saúde
teve a coragem de convocá-la e exigir o seu funcionamento", foi
importantíssima no processo da reforma e na consolidação
do SUS:
- A Comissão foi uma conseqüência
da oitava. Ela foi criada para dar continuidade e concretude às
deliberações da conferência. Se buscou criar um fórum
que colocasse em ação o que fosse necessário para
implementar as decisões da oitava. Mas o ensinamento que podemos
tirar dela é que o processo político é mais complexo,
mais demorado, exige maior negociação, pactuação,
maior identificação dos atores e compromissos dos atores
envolvidsos no processo.
Arlindo explica que "a oitava foi o primeiro momento
em que usuários, gestores, profissionais e servidores estiveram
juntos, pois até então as conferências eram instâncias
internas do Ministério da Saúde, que fazia as convocações
de quem ele queria e discutia temas que diziam mais respeito às
questões burocrático-administrativas do Ministério".
Na oitava, lembra ele, um setor não esteve
deliberadamente presente:
- O setor privado de prestação de serviços,
que se negou a comparecer, tentou sem êxito uma conferência
paralela em São Paulo. Frente a esta realidade, a Comissão
Nacional da Reforma Sanitária cumpriu a tarefa de reintroduzir a
interlocução com este setor, que naquele momento era responsável
por 85% dos leitos hospitalares do País. E se não era possível,
pois não havia condições políticas para isso,
de se ir na direção de uma das propostas discutidas na oitava,
que era a estatização imediata dos serviços privados
de saúde e da produção de medicamentos, se esse momento
não estava dado, havia que se pensar em alguma forma de reintroduzir
um ator importante, para que pudéssemos ganhar legitimidade no envio
e no encaminhamento das propostas, inclusive da oitava, na Assembléia
Nacional Constituinte.
Para Arlindo, a lição da CNRS é
a da capacidade de negociação:
- São momentos em que nos exasperamos porque
queremos caminhar mais. Mas sabemos que se determinados passos não
forem dados, certamente não chegaremos ao ponto que desejamos. A
CNRS teve essa finalidade, de agregar os atores fundamentais no processo
da prestação e atenção à saúde,
que voltaram à mesa de negociações.
Ele avalia que as emendas populares deram o perfil
final do que temos hoje no texto constitucional, mas é verdade também
que foi das negociações havidas na CNRS que se chegou ao
texto preliminar:
- O texto construído na Comissão foi
difundido para todo o território nacional, através de sindicatos,
associações de moradores, igrejas, organizações
das mais variadas, partidos políticos, que discutindo seu conteúdo
elaboraram as emendas populares que deram origem ao texto da Constituição.
Para Arlindo, a legitimidade da 8a Conferência
e da CNRS se expressa em dois monentos:
- Na própria oitava, com a presença
do Presidente da República, no início do processo de redemocrtaização
do País, quando ele abre a Conferência dizendo que considerava
a oitava como uma pré-constituinte da saúde, reconhecendo
a legalidade e a legitimidade do que ali está colocado. Na Subcomissão
de Saúde, Seguridade e Meio Ambiente da Assembléia Nacional
Constituinte, ao entregamos o relatório da oitava, os membros que
a compunham nos disseram que o reconhecimento da Comissão Nacional
da Reforma Sanitária, embasada na legitimidade e reprentatividade
da oitava, impunha que eles assumissem o compromisso de aprovação
do texto que estava sendo entregue.
Aprovado o texto em 1988, Arlindo considera que o
País passa a viver "um momento de fortalecimento da política
liberal, implantada a partir de 1990 com o Governo Collor", quando se começa
a tentar reverter as conquistas obtidas na oitava, na CNRS e consagradas
no texto constitucional:
- Não foi uma, duas ou três vezes que
estas tentativas foram feitas e diga-se de passagem que elas continuaram
em anos subseqüentes, de tentar desfazer o que havia sido consagrado
pela sociedade brasileira no embate político do texto constitucional.
Por isso, segundo ele, a Lei Orgânica da Saúde,
composta na verdade por duas leis, a 8.080 e a 8.142, são conquistadas
no final de 1990, dois anos depois da promulgação da Constitiuição:
- Em novo esforço de negociação,
baseado numa representatividade e legitimidade alcançadas pelo movimento
sanitário, que propugnava idéias que prevaleciam na sociedade
brasileira, conseguimos avançar um pouco mais. Apenas duas questões
não foram contempladas na Lei 8.080, que eram questões fechadas
para o Governo Collor e diziam respeito ao financiamento do SUS, com repasse
direto fundo a fundo, e a que dizia respeito à participação
da sociedade no exercício do controle social. Os vetos presidenciais
estão identificados na lei, mostrando claramente que estes eram
campos intocáveis. E mais uma vez o ensinamento foi o da necessidade
de continuar a lutar, reorganizar nossas forças, ir para o embate,
para finalmente conquistar, no dia 28 de dezembro de 1990, a Lei 8.142,
que dispõe sobre a questão do repasse financeiro e sobre
a participação da comunidade.
Arlindo concluiu afirmando que "se a oitava é
fundamental na marca do que temos hoje aqui na 11a Conferência, com
a participação da sociedade como um todo, é importante
termos claro que foi na Comissão Nacional da Reforma Sanitária,
na Constituinte e nas leis 8.080 e 8.142 que se dá o fortalecimento
do exercício do controle social por meio dos conselhos municipais,
estaduais e nacional de saúde".
Para historiar os embates pela descentralização,
a extinção do Inamps e a NOB 93, Gilson Carvalho (ex-Secretário
de Saúde de São José dos Campos - SP) lembrou que
se as conferências nacionais são sempre "um banquete de democracia,
este processo descentralizatório que defendemos como meio de se
conseguir mais eficiência e eficácia é um princípio
constitucional, que vem da primeira frase da Constituição,
que diz que todo poder emana do povo, que o exerce diretamente ou através
de seus representantes eleitos".
Ele lembrou, ainda, o artigo 18 da Constituição,
que fala da organização político-administrativa do
País, dizendo que existe autonomia entre as três esferas de
Governo, numa República Federativa, e o artigo 30, que diz que as
ações de saúde deverão ser desempenhadas pelos
municípios, com a cooperação técnica e financeira
da União e dos estados.
Para ele, quando se discute descentralização,
está se respeitando um preceito constitiucional. Particularmente
em relação ao artigo 194 da Carta, que trata da seguridade,
ele frisa que a definição é clara, quando diz que
a gestão da seguridade, que inclui saúde, previdência
e assistência, será feita dentro de um princípio de
descentralização, com gestão única em cada
esfera de governo:
- E aí temos que fazer uma grande diferença
entre a descentralização e a desconcentração.
A descentralização que é preceito constitucional inclui
competências, meios e poder decisório para que aquelas competências
sejam executadas. Já a desconcentração, característica
de estados centralizados, se dá quando você está no
município ou no estado apenas cumprindo ordens do governo central.
E esta diferença é a que hoje impede que se tenha a implantação
definitiva do SUS. A descentralização é fazer com
que o poder de decisão esteja perto de quem tenha a competência
de fazer o sistema funcionar.
Segundo Gilson, a NOB-93, concebida sob a égide
da frase "a ousadia de cumprir e fazer cumprir a lei", fez uma opção,
de que a implantação do SUS tem que se dar por um processo
e que isso tem que ser negociado:
- A história da descentralização
no Brasil sempre passou por uma descentralização muitas vezes
mal programada, seguida da recentralização punidora. Para
evitar que isso acontecesse, a NOB partiu da idéia de negociação
e criou a Tripartite, com a reunião da instância federal,
estadual e municipal para discutir a operacionalização do
processo. E nos estados, criou a comissão intergestores bipartite,
que era a mesa em que estados e municípios discutiam questões
regionais. Em agosto de 94, a NOB teve impulso com o Decreto de passagem
fundo a fundo, em novembro os primeiros municípios entraram em gestão
semi-plena e de janeiro a maio de 95, muda-se o Governo, teve um freio
neste processo, e de maio de 95 até a NOB 96 estamos avançando
aos poucos.
Para ele, "após a NOB-93 estamos num movimento
de recentralização do SUS":
- Hoje temos transferência de obrigações
para estados e municípios com recentralização, pois
o poder e o dinheiro estão no nível da União. Você
descentraliza a obrigação, mas recentraliza o dinheiro que
determina o que será feito. Este é o grande embaraço.
Ele exemplifica a afirmação:
- São 22 maneiras de se repassar recursos
hoje para estados e municípios. Há 22 caixinhas. Não
há processo de descentralização que agüente esta
decisão verticalizada do que eu vou fazer no meu município.
Estamos fazendo a antítese da descentralização. Recentemente,
o Tribunal de Contas da União reeditou, a pedido do Ministério
da Saúde, normas de como gastar dinheiro, voltando à época
do Suds, quando já há trânsito em julgado permitindo
que este dinheiro seja utilizado dentro do SUS para qualquer tipo de despesa,
que é o que o gestor local precisa.
Ele concluiu alertando que este projeto tem vários
equívocos:
- A NOB-93 teve vários avanços, mas
o problema central da descentralização é a questão
do dinheiro. Você não descentraliza fazendo com que o dinheiro
diminua. Neste ano, está se investindo menos dinheiro do que se
investia em 1995. Cresceu 300% a receita que alimenta a saúde de
94 a 99 e a despesa com saúde cresceu apenas 50%. Não acompanhou
nem a inflação. O que está escamoteado atrás
do processo desta recentralização punidora, se utilizando
de afirmações como a que o município é incompetente
e que todos os prefeitos roubam, generalizando-se as coisas, é o
processo de reengolir o SUS e voltar ao Suds.
Para falar sobre as plenárias de saúde,
o Movimento "SOS SUS" e o recente processo que assegurou o financiamento
regular e permanente da saúde, a Deputada Federal Jandira Feghalli
(PC do B-RJ) começou de maneira enfática:
- A primeira coisa que pecisa ser dita aqui é
que esta conferência é deliberativa e por isso precisa ser
cumprida todas as suas recomendações e deliberaçõres.
Digo isso porque na retrospectiva da 8a, 9a e 10a conferências, e
aí cabe uma crítica aos governos, não foram cumpridas
grande parte das deliberações aprovadas.
Para a deputada, houve uma grande evolução
quando o texto constitucional "coloca que saúde não é
um valor que possa depender de políticas de mercado, mas é
um valor universal, de defesa da vida, da cidadania e que por isso não
pode ser tratada como mercadoria".
Na mesma linha de Gilson Carvalho, ela também
acha essencial se discutir a questão da autonomia na gestão
dos recursos do Sistema Único de Saúde:
- Ao rever a experiência histórica do
SUS, as plenárias de saúde e o Movimento SOS SUS, podemos
dizer que estavam no centro a garantia das conquistas na regulamentação
infra-constitucional, mas também a questão dos recursos da
saúde. Precisávamos ter uma garantia constitucional que a
vida das pessoas não estaria mais ao sabor das políticas
pontuais desse ou daquele Governo. Hoje pelo menos garantimos a vinculação
constitucional, que garante a responsabilidade da União, estados
e municípios com o setor.
Mas apesar de reconhecer os avanços conquistados
pelo SUS, ela coloca algumas preocupações:
- O primeiro grande desafio é responder de
que forma vamos fortalecer a política de saúde dentro de
uma realidade de aumento da demanda por saúde, balizada por questões
concretas como o aumento da pobreza e da miserabilidade, o desemprego,
a queda da massa salarial, questões que certamente aumentarão
a busca pelo sistema de saúde. Ao mesmo tempo, há uma mudança
nos municípios para onde o sistema está se descentralizando,
com verdadeiras cidades ilegais, marginalizadas pelo crescimento desordenado
e super-concentração demográfica. Nós teremos
um aumento da demanda por essa marginalidade, pela violência policial,
narcotráfico, drogas, trazendo impacto direto e indireto no sistema
de saúde. Para Jandira, só há uma forma de responder
a este aumento da demanda por saúde, que é fortalecer o papel
do Estado e os conceitos fundamentaois do SUS. Sobre isso, ela vê
a possibilidade de graves retrocessos:
- Digo isso porque não é pela boa vontade
do Ministro, dos técnicos do Ministério e dos gestores que
depende a implantação do SUS. A questão é que
o Estado está passando por transformações profundas,
onde a perspectiva é a redução de seu papel. O Estado
tem sido subjugado a uma política de financeirização
do orçamento brasileiro. Os juros das dívidas externa e interna
correspondem ao dobro dos gastos em saúde. Em nome do ajuste fiscal,
o ministro Pedro Malan está descumprindo a recente Proposta de Emenda
Constitucional aprovada pelo Congresso.
Ela disse que é muito difícil descentralizar
pagando dez reais por habitante ano de Piso de Atenção Básica:
- Isso é uma afronta aos direitos humanos.
Não dá para cumprir a descentralização com
o teto financeiro do SUS em alguns municípios nos valores que estão.
Reduziram-se 54 mil leitos entre 92 e 99, devido à falência
dos hospitais do interior. E um dos aspectos fundamentais disso foi a falta
de repasse, particularmente nos municípios pequenos. Hospitais universitários
estão se abrindo para planos privados de saúde para terem
sustentação financeira.
Ela também criticou ataques que estão
sendo feitos ao modelo assistencial preconizado pelo SUS:
- Os critérios do SUS são acesso, eqüidade,
integralidade e universalidade. Me preocupa que tenha se feito vista grossa
ao fato de redes inteiras de hospitais, como na Bahia, estarem sendo repassadas
a quem não tem competência para administrar. Se nós
queremos fortalecer a atenção básica, priorizar programas
de saúde da família e dos agentes comunitários, eles
só serão portas de entrada estruturantes do SUS se tiverem
uma articulação com a rede de maior complexidade. O que vemos
hoje não é isso, mas uma estrutura paralela, com absoluta
precarização das relações de trabalho, seja
dos profissionais de saúde, seja dos agentes comunitários,
que sequer estão regulamentados.
Avaliação do Controle Social
NÃO HÁ COMO SEPARAR PARTICIPAÇÃO
DAS
MUDANÇAS NO MODELO ECONÔMICO
Álvaro Nascimento
A mesa que debateu o tema principal da 11a Conferência,
"Avaliação do Controle Social nos 10 anos do SUS: a construção
do acesso, qualidade e humanização na atenção
à saúde" - coordenada por Artur Custódio de Souza
(Representante dos Portadores de Patologias do Conselho Nacional de Saúde),
foi aberta pela Professora Laura Tavares, da UFRJ, com um alerta:
- A 11a é um espaço de reflexão
política, crítica e independente. O pensamento que sempre
norteou o movimento sanitário é o de nunca desvincular a
saúde da luta por uma sociedade mais justa e democrática.
Portanto, o balanço do controle social não pode ser feito
sem levar em conta o quadro de profundo agravamento da exclusão
social provocado pelo projeto neoliberal que está sendo implantado
no País.
Para ela, este projeto afasta a posssibilidade de
se construir alternativas para o controle social, que superem a mera legitimação
de interesses:
- Em nome de uma inevitável globalização
e de uma supostamente necessária modernização estão
sendo implementadas políticas que têm provocado graves conseqüências
sociais e retrocessos que impossibilitam a construção de
um aparato público e estatal de proteção social que
efetivamente represente o que está escrito na Constituição
como um dever do Estado.
Segundo ela, estes princípios têm sido
desrespeitados e destruídos, através de sucessivas reformas
constitucioinais e pelas políticas do Governo Federal:
- Desmontaram o Estado e os mecanismos de proteção
social, configurando um projeto neoliberal cuja ideologia tornou-se perigosamente
hegemônica por duas formas. A sistemática e massacrante imposição
desta ideologia pelos meios de comunicação controlados pela
elite do País e por mecanismos de cooptação e aliciamento
de instituições e pesosas que aceitam até mesmo incorporar
a inevitabilidade do consenso único, reconvertendo conceitos que
antes eram bandeiras da Reforma Sanitária, como a descentralização,
a municipalização e o controle social, criando panacéias
como gestão moderna, publicização da saúde
e saúde da família.
Laura Tavares vê com um olhar crítico
"muitas das chamadas novas propostas, que nada mais são que uma
recauchutagem de velhas idéias já superadas no passado, como
assistência primária, saúde comunitária, a utilização
de agentes da própria comunidade, todas elas criticadas pelo movimento
da Reforma Sanitária, consideradas como alternativas pobres, com
poucos recursos e baixa tecnologia utilizada para os pobres".
Em relação às transformações
que passou o controle social em saúde e as possibilidades e limites
da existência atual de um autêntico controle com autonomia
e independência, ela é enfática:
- Estamos diante de uma realidade social e de saúde
onde a superposição de antigos e novos problemas configura
um quadro de enorme perversidade e complexidade. As causas de morbi-mortalidade
da população brasileira estão cada vez mais determinadas
pela crescente polarização entre ricos e pobres e pela ampliação
da exclusão de setores sociais que não têm acesso a
trabalho, bens e serviços públicos essenciais.
Para ela, a este quadro se agrega o desmonte do Estado,
que leva a uma crescente desresponsabilização do Governo
das suas atribuições:
- As políticas de ajuste fiscal têm
trazido enormes limitações para todas as unidades da federação,
particularmente os municípios, no que diz respeito às suas
capacidades de intervenção e principalmente a capacidade
para fazer frente às demandas sociais crescentes.
Laura Tavares afirma que as políticas sociais
e de saúde perderam sua dimensão integradora, tanto no âmbito
nacional quanto nos estados e municípios, caindo numa visão
"focalista", onde o local é privilegiado como único espaço
capaz de dar respostas supostamente eficientes às necessidades da
população, hoje reduzida ao termo comunidade:
- Retrocedemos a uma visão comunitária,
onde pessoas e famílias passam a ser as responsáveis por
sua saúde e bem estar. Atrás das estratégias auto-gestionárias
e de participação comunitária, está o abandomo
por parte do Estado de seu papel ativo e determinante nas condições
de vida da população.
Ela afirma que "não pode ser ignorado isto,
sob pena de cairmos no reducionismo de soluções tecnocráticas
para o setor saúde e na aceitação acrítica
de programas federais autoritários, travestidos de inovadores".
O diagnóstico em que se baseia a Reforma do
Estado assenta-se em falsas premissas e falsas soluções,
segundo ela. "Um exemplo disso é a culpabilização
dos funcionários públicos por uma série de problemas
no aparelho do Estado, o que tem focalizado as propostas para reformas
administrativas em cima do funcionalismo, precarizando suas condições
de trabalho, baixando seus salários e tornando sua relação
terceirizada".
- O movimento para solucionar o que tem sido chamado
de distorções e desvios do Estado tem sido o da privatização
e da descentralização. E saúde não está
imune a estas reformas, afirmou ela.
Para Laura Tavares, as agências autônomas
e as organizações sociais, que operam os chamados serviços
não exclusivos do Estado, partem do pressuposto que estes serviços
seriam mais eficientemente realizados se, mantido o financiamento do Estado,
fossem executados por um chamado setor público não estatal:
- Ninguém sabe exatamente o que significa
este setor. Esta suposta autonomia financeira e administrativa pode implicar
na sua total subordinação a interesses privados locais, comprometidos
ou não com as chamadas organizações sociais.
Ela critica, também, o controle social sobre
estas organizações, que se daria através de um Conselho
de Administração:
- Estes conselhos certamente estarão comprometidos
com os interesses privados. No caso dos serviços essenciais como
hospitais, isso está provocando uma dualização da
clientela, discriminando aqueles que podem dos que não podem pagar
e uma discriminação dos serviços prestados de maior
e menor qualidade, dependendo do poder de compra do usuário.
Ela registrou, entretanto, que em alguns estados
essa estratégia tem sofrido resistência. E citou o Estado
do Rio, "cujo Secretário teve a coragem de tornar público
novamente os hospitais, revertendo a privatização naquele
estado".
- Esta estratégia é imposta pelo Banco
Mundial, que impõe uma cobrança supostamente seletiva ao
usuário, que passa a pagar duplamente. Via impostos e diretamente
quando é atendido. Elimina-se o princípio constitucional
da universalidade, que assegura a atenção à saúde
em todos os níveis de complexidade. E não venham querer me
enrolar com programinhas básicos de combate à pobreza, onde
a saúde está virando assistencialismo de má qualidade.
Por outro lado, Cantarinio vê duas questões
importantes de serem analisadas. A primeira diz respeito aos trabalhadores
de saúde - "não tenho dúvida de que este é
o segmento mais fragilizado do SUS"- e a segunda ao controle social - "que
sofre neste momento um risco estrutural de estagnação".
Para ele, a saúde não é um setor
isolado da realidade do País, sofrendo todos os efeitos das políticas
macro. E a saúde não pode prescindir da análise das
políticas econômicas, de acesso a bens e serviços,
das especificidades das lógicas dos serviços de saúde,
do grau de organização e mobilização dos movimentos
sociais e da representação de interesses:
- A legislação atual, no que diz respeito
a recursos humanos, não condiz com o próprio desenvolvimento
do SUS. Ninguém pode imaginar que a Lei Camata surge do nada. Uma
Lei que limita gasto com trabalhador. Ora, quem oferece saúde à
população? Sou eu, sentado em meu ganinete? Ou é o
trabalhador de saúde? E a Lei Camata limita qualquer tipo de investimento
no trabalhador de saúde. Surge agora a Lei de Responsabilidade Fiscal,
decantada como a lei da moralidade. Mas o que eu empenhei e não
comprei em dezembro, está zerado.Tenho que começar tudo outra
vez em janeiro. Não importa o que vai faltar para a população.
Na verdade, argumenta Cantarino, as legislações
estão progressivamente cerceando o Estado em seu papel de prover
as necessidades da população e isso aparece com muita clareza
na questão da política de recursos humanos:
- O que temos verificado de burla ao texto constitucional
na política de recursos humanos é algo impressionante. Eu
dou o exemplo clássico da Secretaria Estadual do Rio, com oito mil
trabalhadores informais alocados por cooperativas que não eram verdadeiras
do ponto de vista do que é o cooperativismo, em hospitais terceirizados,
sem nenhuma avaliação de qualidade, sem disputa igualitária
de acesso a estes empregos e ganhando de três a quatro vezes mais
o que ganhava o servidor público estadual. Este era o modelo neoliberal,
um projeto piloto no Estado do Rio que poderia ter uma representação
nacional. Felizmente a oposição ganhou o poder nas eleições
e pudemos desmascarar a baixíssima qualidade deste modelo. Mas este
modelo está se desenvolvendo em outros estados brasileiros.
Outra contradição identificada por
ele reside na remuneração do trabalhador em saúde:
- Nós discutimos a função social
do trabalhador, cobramos dele um bom atendimento à população
e não aceitamos as greves prolongadas. Mas o salário pago
ao trabalhador de saúde deste País é da maior indignidade
em toda a história do sistema de saúde brasileiro. E se isso
não for colocado com clareza, estaremos criando uma cortina de mentiras.
Em relação ao modelo assistencial,
Cantarino se declarou defensor do modelo de saúde da família:
- Não um modelo padronizado, que não
respeite as realidades locais, mas a minha história é de
implantação do Programa Médico de Família com
assessoria cubana em Niterói desde 1991. Mas o que assistimos hoje
e temos que buscar soluções urgentes? Os profissionais dos
programas de saúde da família e de agentes comunitários
de saúde não têm qualquer direito trabalhista, e isso
ocorre por dentro do SUS, rompendo com a Constituição. Isso
exige uma solução vinda do debate entre gestores, trabalhadores
e usuários nas esferas de controle social.
Ele verifica uma tensão das relações
entre o gestor e o trabalhador de saúde que não introjeta
na discussão a função social de ambos e a relação
com a população.
Cantarino analisa dez anos de implantação
do SUS:
- Conseguimos implantar os conselhos, mas eles não
gozam da autonomia necessária, são desrespeitados em seu
dia-a-dia, não existe nenhuma lei que diga qual é o critério
e a liberdade de ocupação do cargo de conselheiro e em muitas
cidades brasileiras o conselho é algo cartorial, escolhido entre
os amigos do Executivo, sem nenhum respeito ao movimento social.
Ele identifica quatro pontos críticos para
o futuro do SUS.
- O primeiro é a globalização
e seu efeito num País que não se protegeu para enfrentá-la
e que paga os juros que paga da dívida externa. Este cenário
vai ampliar a massa de excluídos no Brasil. É um quadro desenhado
para todos os países que vão ter grupos sociais muito pobres
e grupos sociais muito ricos, independente da pobreza e da riqueza destes
países. E é dentro deste cenário que as relações
entre gestores, trabalhadores e esferas de controle social irão
se desenvolver.
A segunda questão são as restrições
legais:
- Elas dizem respeito ao processo político
que teremos pela frente, nas eleições, na escolha de nossos
parlamentares, na escolha de nossos governantes, para o enfrentamento do
que está montando como estratégia de minimização
do papel do Estado, de estímulo às privatizações
e às terceirizações.
A terceira diz respeito à política
macro-econômica do Governo associada à globalização:
- Eu não vejo prioridade em políticas
públicas sociais desde a ditadura militar até os dias atuais
com a ditadura econômica monetarista deste modelo neoliberal. Estamos
desenvolvendo o SUS, que é um texto constitucional de formação
de uma sociedade mais solidária, numa realidade que nos coloca na
contra mão do que é a própria política maior
do País.
O quarto desafio é o da redução
da desigualdade:
- Ela é conseqüência de todo este
quadro e da implantação de políticas públicas
que possam assegurar ao Estado a possibilidade de exercer o seu papel redistributivo.
Ao se referir às eleições municipais
de 2000, Cantarino disse que "as urnas deram o recado. Só não
ouviu quem não quis. Elas garantiram o crescimento da oposição
no Brasil, garantiram o crescimento de um partido que não é
o meu, mas é o que está mais identificado com o sentimento
de mudanças neste País. E o recado das urnas aponta para
a ética, para a moralidade na gestão dos recursos públicos,
mostra insatisfação com a política monetarista, clama
pelo fortalecimento do aparelho de Estado e por uma política desenvolvimentista
que tenha como matriz o desenvolvimento humano".
Ele defendeu um pacto ético entre gestores
e trabalhadores do SUS:
- Esta sintonia entre gestor e trabalhador, com controle
social, é uma discussão que tem que estar na nossa agenda,
tendo o usuário como sujeito do processo, para que a gente não
corra o risco de, na tensão das nossas relações, excluir
o usuário da busca de soluções.
Mônica Valente (representante da CUT), que
falou sobre o controle social na perspectiva dos usuários, se mostrou
surpresa "porque o relatório apresentado pelo Ministério
da Saúde em relação à implantação
do SUS não parece que trata do Brasil em que eu vivo, mas de outro
País". Ela disse que não faz um balanço positivo da
implantação do SUS:
- A política econômica do Governo, que
desde 1994 privilegia o capital financeiro internacional, atinge em cheio
a proposta que construímos desde a sétima conferência,
passando pela Constituinte de 88. Se pensarmos que este Governo, segundo
dados da própria Comissão de Orçamento do Conselho
Nacional de Saúde, gasta por hora cerca de 10 milhões de
dólares de juros e amortizações da dívida,
num País onde 28,8% da população, segundo o IBGE,
não têm acesso aos serviços regulares de saúde,
não se pode fazer um balanço positivo do SUS nestes últimos
anos.
Ela vê "desde o início do Governo FHC,
um ataque a tudo que nós construímos enquanto direito à
cidadania na área da saúde":
- O primeiro ataque foi a tentativa de retirar da
Constituição Federal a saúde como um direito de todos
e um dever do Estado, que não deu certo porque a opinião
pública, a sociedade organizada, os movimentos sociais, sindicais
e populares impediram este desastre. Por outro lado, nestes anos têm
se implementado um processo não só de não deixar o
SUS se implantar, mas onde ele consegue se implantar localmente, de se
tentar comê-lo pelas beiradas, inviabilizando-o.
Mas Mônica cita alguns passos dados pelo SUS:
- Se há algo de positivo é a atuação
de milhares de usuários, trabalhadores e algumas dezenas de gestores
que têm se entrincheirado nos conselhos de saúde, nas plenárias
de saúde, nas conferências de saúde e que estão,
de fato, construindo o SUS.
Para ela, não há outra saída
neste momento histórico do País a não ser avançar
cada vez mais no controle social dentro do processo de implantação
do SUS:
- O que temos acompanhado nas inúmeras cidades
onde se busca implantar o SUS é que quanto menor o controle social,
pior tem sido sua implantação. E não há controle
social, logo não há SUS, se este controle não atingir
os fundos e o orçamento da saúde. É um absurdo as
autoridades virem aqui dizer que avança o controle social quando
o orçamento da saúde para 2001 passa duas horas sendo discutido
no Conselho Nacional de Saúde, um dia antes do Governo encaminhá-lo
ao Congresso, com o representante do Governo presente dizendo que ele não
está lá para debater, mas para informar qual será
o orçamento que o Governo pretende mandar para o Congresso.
Segundo Mônica Valente, para se construir o
SUS, os conselhos têm que efetivamente controlar o Fundo Nacional
e os fundos de saúde em cada estado e município:
- Os conselhos devem receber relatórios, como
já está na lei, trimestrais de todos os contratos, compras
e auditorias, de tudo que é feito no sistema em âmbito local,
seja em relação aos serviços próprios, seja
em relação aos conveniados contratados. Defendemos um controle
social que fortaleça os conselhos e assegure sua autonomia, prevendo
orçamento próprio para seu funcionamento, com infra-estrutura
técnica, jurídica, assessoria para fortalecer a ação
do conselheiro no controle financeiro do fundo local de saúde, na
discussão dos planos diretores de saúde, seja no âmbito
municipal estadual ou federal.
Ela defende que o modelo de controle social preveja
que as presidências destes conselhos sejam eleitas democraticamente
entre os seus membros:
- Não pode ocorrer o que está ocorrendo
agora, com as propostas do movimento social sendo incorporadas entre aspas
pelo Governo Federal e retraduzidas e resignificadas, fazendo com que tudo
o que propomos, como por exemplo os conselhos democraticamente eleitos
e funcionando com condições, sejam meras farsas e objetos
de manipulação de chefes de executivos locais, estaduais
ou mesmo nacional. Ou ainda de grupos de interesses particulares em cada
município.
Ela frisa que só a democratização
dos conselhos irá garantir a ética no trato da coisa pública
e a inclusão:
- Saiamos desta conferência com claríssimas
diretrizes de luta para construirmos de fato o controle social, usando
os instrumentos legais que já conseguimos conquistar ao longo destes
anos, mas fundamentalmente construindo com mobilização o
verdadeiro SUS que o povo brasileiro exige.
Recursos Humanos para o SUS
TRABALHADORES DA SAÚDE PEDEM
APROVAÇÃO IMEDIATA DA NOB-RH
Caco Xavier
"A emergência engoliu a rotina".
Esta frase diagnóstica, seca, dita por Conceição
Aparecida Pereira Rezende, integrante da CIRH do Conselho Nacional de Saúde,
é uma perfeita síntese do que pensam os participantes do
painel sobre a questão dos recursos humanos. Ela apresentou os resultados
de um trabalho realizado ao longo de três anos, com o envolvimento
dos profissionais de RH, que detalha o processo de construção
do documento NOB (Norma Operacional Básica) de RH, iniciado em 96,
durante a 10a Conferência Nacional de Saúde. "Este processo
é totalmente ascendente, nasceu nas bases", ressalta. Conceição
destaca alguns pontos mais problemáticos de relações
de trabalho no SUS e na política de RH no país, identificados
pela NOB:
- Não existem levantamentos de necessidade
de pessoal; não se tem nem mesmo diagnósticos precisos acerca
da força de trabalho nos três níveis; faltam concursos
públicos e sobra improvisação em todos os níveis
de gestão; falta responsabilidade dos gestores na relação
com a terceirização; não há monitoramento da
qualidade; falta estrutura de gestão do trabalho; não se
tem planos de carreira na grande maioria dos estados e municípios,
e os que existem não são adequados ao sistema de saúde;
trabalhadores trabalham sem tecnologia, e outros trabalham com tecnologia
mas sem capacitação; faltam discussões, há
perseguições e métodos ilegais de demissão;
falta discussão sobre as políticas de saúde do trabalhador.
A lista é infindável.
Conceição estabelece, a partir de todas
estas constatações, quatro eixos prioritários:
1. Definição de quem é a responsabilidade
de responder a cada um dos problemas identificados. Para isso, leva-se
em conta as três esferas de governo, responsabilizando-as pelos problemas
existentes. Entre os mais urgentes estão: planos de carreira; gestão
colegiada; acordos coletivos. É necessário pactuar uma política
nacional de RH e também construir um banco de dados nacional (que
compete ao Ministério da Saúde implementar, segundo ela).
2. Criação de um programa de educação
permanente que inclua todos as categorias de profissionais de saúde,
seja qual for o modelo.
3. Capacitação de gestores, que vem
se mostrando falha.
4. Discussão sobre a saúde ocupacional
no SUS, bem como sobre controle social.
Conceição adverte que a terceira versão
da NOB precisa ser um instrumento também dos usuários. Segundo
ela, há ainda alguns pontos polêmicos, ocasionados pelo modelo
que pressupõe o Estado mínimo, e onde a carreira de saúde
ficou fora do elenco das carreiras estratégicas de governo.
A primeira polêmica, para ela, é regulamentar
ou não a gestão de RH no SUS e suas relações.
Deve-se atribuir valores ao trabalho de saúde ou precarizar essas
relações de trabalho? A segunda polêmica diz respeito
à NOB incluir ou não o setor privado, que tem legislação
própria e autônoma. O terceiro ponto polêmico refere-se
ao concurso público, pois ainda há divergências sobre
a universalização da necessidade de realização
de concursos. Por fim, há um ponto polêmico também
em relação ao piso salarial da saúde, que se inicia
pela escolaridade.
APROXIMAÇÃO COM AS UNIVERSIDADES
Para a assessora da Fundação Kellogs e
Rede UNIDA, Laura Feuerwerker, a aceleração de mudanças
na formação profissional e no contato mais estreito com as
universidades impactaria grandemente a área de RH no SUS. Para isso,
as próprias universidades devem refletir sobre seus métodos.
Quanto às universidades públicas, segundo ela há uma
forte pressão no sentido de que elas demonstrem sua relevância
social, atualmente ameaçada: "Hoje elas não atendem às
necessidades de formação permanente de pessoal", diz Laura,
lembrando que há um processo de elitização que dificulta
o acesso das camadas mais pobres da população.
Laura recomenda a criação de espaços
de cooperação e fóruns que aproximem profissionais
dos serviços, docentes, alunos e população, e que
este processo de cooperação deve ser acelerado. Para ela,
é possível assim reunir elementos para a construção
de uma política de RH para o SUS. A aproximação da
universidade com o SUS deve fazer parte, segundo ela, de uma estratégia
de mudança. "As universidades estão percebendo, também,
que está havendo um questionamento sobre as formas de atendimento
não humanizado dos profissionais do setor público e privado",
diz ela, referindo-se também às diretrizes curriculares,
que estão em processo de construção e são objetos
de permanente diálogo entre saúde e educação.
"Este diálogo", completa Laura, "permitirá a definição
de novos perfis profissionais.
O diretor da Federação Nacional dos
Enfermeiros, Ricardo Arend Haesbaert, ressaltou as dificuldades dos trabalhadores
na área de saúde, e resgatou a importância do processo
de construção da Norma. Mas Ricardo lembra que dentro desse
processo houve falta de vontade política dos gestores nacionais
para implementá-lo de forma definitiva:
- Esta falta de vontade está refletida nas
ações que ocorreram ao longo do período, principalmente
na elaboração das reformas administrativas, na discussão
de tarefas e não na discussão de condições
de trabalho, bem como na submissão ao capital internacional.
Ricardo considera que a NOB é um instrumento
regulador e que deve servir para controlar as relações no
setor público e no setor privado. Para ele, as leis não devem
ser tomadas como impeditivas, mas devem se tornar um instrumento sinalizador
e de referência reivindicatória para os trabalhadores, devem
garantir as conquistas.
Quanto à posição dos trabalhadores
em relação a estas questões, o diretor da Federação
dos Enfermeiros tem uma visão muito clara:
- Os trabalhadores devem manter a resistência
contra a desregulamentação imposta pelo Governo Federal,
não pode aceitar a precarização como argumento de
que há impeditivos de lei.
Segundo ele, deve haver normas para regular principalmente
o setor privado ("onde há muito dinheiro público", diz).
Ricardo reconhece que o Plano de Carreira é um objetivo que deve
ser mantido como bandeira de luta dos trabalhadores, e que é preciso
reagir decididamente às tentativas de privatização
da saúde.
- É essa NOB que vai assegurar o SUS humanizado,
com controle social - finaliza.
O DEBATE E AS EXPECTATIVAS
Um estudante de medicina do estado de Alagoas disse,
assim que a palavra foi aberta à platéia, que havia uma expectativa
muito grande em relação a este debate, porque os conselhos
de saúde não têm atuação firme em relação
à formação de recursos humanos, além de os
estudantes não terem representação nesses conselhos.
Ele declarou-se pessimista com os caminhos que a medicina vem tomando,
e acrescentou: "É preciso transformar o ensino médico para
que se cuide do ser humano, e não da doença. Os currículos
devem estar influenciados pelas demandas sociais". E uma demanda importante,
segundo ele, é haver controle social na ordenação
e formação de recursos humanos.
A NOB não é solução para
os problemas de RH, segundo a delegada Rosilda. Disse ela que "lei nenhuma
oferece soluções", e apontou para a existência de uma
política geral que contradiz os princípios do SUS. "Conquistas
de 50 anos estão indo por terra em apenas cinco", observa, entristecida.
`Humanização', palavra muito ouvida
em todos os painéis e debates sobre o SUS, atualmente, esteve presente
também aqui, como não poderia deixar de ser. Para a delegada
Míriam, `Recursos Humanos'é uma expressão que remete
a objetos, "quando tudo o que queremos é ser sujeitos". Ela considera,
ainda, que a palavra `humanização' lembra alguma doutrina.
Outro delegado, Orlando, faz coro com Míriam e se pergunta: "O que
se pretende, o que se entende dessa expressão `Recursos Humanos'?"
Ele diz que é preciso que se tenha diretrizes claras a respeito
da capacitação de gestores, e insiste que todos assegurem
a convocação de uma conferência sobre RH, para que
a humanização seja um fato e não apenas uma bandeira.
De uma maneira geral, as pessoas se posicionavam
pela aprovação imediata da NOB-RH e pela definição
de um calendário para sua implementação. Houve consenso
também em relação ao concurso público como
caminho de transparência e de vínculo com autonomia para o
trabalhador de saúde.
Insumos e Medicamentos na Garantia do Acesso
UMA ETERNA DOR DE CABEÇA
Álvaro Nascimento
O acesso a medicamentos é um componente crítico
da atenção à saúde. No ano de 1997, 52 milhões
de pessoas morreram em todo o mundo, das quais 47 milhões em países
pobres, de doenças que poderiam ter sido evitadas por medicamentos
ou vacinas. Por outro lado, estima-se que um terço da população
mundial não tem acesso regular aos medicamentos mais necessários
e que o uso irracional destes produtos abrange não só consumidores,
mas também prescritores e dispensadores. As afirmações
são de Jorge Bermudez (Coordenador do Núcleo de Assistência
Farmacêutica da Escola Nacional de Saúde Pública da
Fiocruz, Presidente do Instituto Vital Brazil e da Associação
dos Laboratórios Farmacêuticos Oficiais do Brasil - Alfob)
no painel "Insumos e Medicamentos na garantia do acesso", coordenado pelo
Diretor Presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária,
Gonzalo Vecina Neto.
Segundo Bermudez, o mercado farmacêutico mundial
(que tem um faturamento anual de US$ 302,9 bilhões) possui uma série
de distorções:
- Entre as características deste mercado estão
a concentração da pesquisa, desenvolvimento de novos produtos
e sua produção em poucas empresas multinacionais, fato causador
da monopolização e oligopolização do mercado,
além da dependência de vários países a estas
empresas.
Ao analisar o mercado farmacêutico no Brasil,
ele cita textualmente o relatório final da 10a Conferência
Nacional de Saúde, realizada em 1996, que já apontava a necessidade
do "Ministério da Saúde promover, em ação conjunta
com a Secretaria de Defesa dos Direitos Econômicos e da Superintendência
Nacional de Abastecimento, os instrumentos necessários para combater
os cartéis, os aumentos abusivos e não justificáveis,
o superfaturamento de matérias-primas, a transferência de
divisas nas operações matriz-filial de empresas transnacionais,
a propaganda enganosa e outras práticas mercadológicas prejudiciais
do segmento industrial farmacêutico do País".
Segundo ele, o mercado farmacêutico brasileiro
chegou a faturar US$ 10,31 bilhões em 1998, possui de 300 a 400
indústrias e distribui seus produtos em 50 mil farmácias,
incluindo as hospitalares. Entre os principais problemas deste mercado,
Bermudez identifica a falta de acesso da maioria da população
aos medicamentos essenciais, a auto-medicação, o uso incorreto
do medicamento, a "empurroterapia"(entre os mais vendidos apenas 20% são
essenciais), o preço proibitivo de determinados tratamentos e medicamentos,
a assimetria e assincronia de informação na rede consumidor
- prescritor - dispensador - fabricante, a concorrência limitada
devido à proteção patentária, lealdade às
marcas, segmentação do mercado e a concentração
mercadológica, além da desigualdade entre a oferta e a demanda.
Ele vê como essencial a implantação
da política de genéricos no Brasil para se superar alguns
destes problemas, seguindo uma tendência mundial:
- Nos Estados Unidos, projeta-se que em 2001 os genéricos
já ocupem 57% do mercado de medicamentos no varejo. Na Alemanha,
este número deverá ser se 13%; no Japão, 9%; no Reino
Unido e França, 7%. As diferenças de preços entre
medicamentos genéricos e os de marca variam de 50 a 90% nos Estados
Unidos a 80% no Reino Unido, 50% no Canadá, 35% na França,
25% na Espanha e 20% na Itália e Bélgica.
Para traçar uma política multidisciplinar
para a área, ele defendeu a convocação de uma Conferência
Nacional de Assistência Farmacêutica.
DOSE CERTA
Reorganizar os serviços para que os pacientes
sejam atendidos segundo o princípio constitucional de atenção
integral à saúde, garantindo acesso ao tratamento, cobertura
de 100% dos pacientes matriculados nas Unidades Básicas de Saúde,
fixando o paciente, melhorando sua relação com o médico
e assegurando o suprimento de medicamentos básicos, dando ao nível
primário maior resolutividade. Estes são os objetivos centrais
do Programa de Assistência Farmacêutica Básica - o Dose
Certa -, implantado pela Secretaria de Estado de Saúde de São
Paulo e que segundo o Secretário José da Silva Guedes conseguiu
engajar os municípios no Programa de Assistência Farmacêutica.
Segundo ele, o Dose Certa quer acompanhar a performance
dos municípios e assegurar a abordagem multidisciplinar dos pacientes,
criando e mantendo um sistema de informação que permita seu
planejamento, acompanhamento e avaliação:
- O objetivo é recuperar a credibilidade dos
serviços públicos e oferecer condições para
se enfrentar os problemas definidos epidemiologicamente.
Até 1994, a avaliação da Secretaria
da área da Assistência Farmacêutica apontava para sérias
dificuldades de acesso (não havia garantia da dispensação
de medicamentos nas unidades de saúde, o que levava à falta
de resolutividade do sistema, piora do quadro clínico dos pacientes
e conseqüente aumento das internações hospitalares).
Outro problema era a ausência de padronização de medicamentos
para uso na rede, com os municípios tendo dificuldade para definir
o que comprar, como, quanto e onde. Segundo Guedes, também o antigo
sistema de compras centralizadas no Ministério da Saúde trazia
problemas, pois as aquisições não seguiam a lógica
do perfil epidemiológico das populações:
- Era muito freqüente a remessa de carretas
de medicamentos nem sempre solicitados, alguns desnecessários, em
quantidades absurdas e freqüentemente com curto prazo de validade,
gerando desperdício de dinheiro público e desabastecimento.
Guedes identificou também distorções
no papel da Furp (Fundação para o Remédio Popular),
laboratório produtor do Estado que nos anos anteriores a 1995 ao
invés de ser um fabricante, foi utilizado como mero entreposto,
comprando e revendendo medicamentos.
Para enfrentar esta série de problemas, a
Secretaria definiu três objetivos prioritários: garantir a
dispensação de medicamentos nas Unidades Básicas de
Saúde, produzir estes medicamentos na FURP e assegurar o acesso
da população a medicamentos em quantidade e com qualidade.
Para executar o Dose Certa, foi necessário
investir em recursos humanos para garantir a existência de massa
crítica de técnicos que tivessem acumulado reflexões
sobre política de medicamentos. Foi elaborada uma lista de medicamentos
(com consulta aos municípios), consolidada por sua denominação
genérica, buscou-se apoio técnico-científico na Sétima
Lista de Medicamentos Essenciais da OMS e selecionou-se os medicamentos
produzidos pela FURP. Guedes explica:
- Iniciamos com 38 produtos e hoje trabalhamos com
41. Implementamos o Sistema de Acompanhamento, que desde 1995 controlou
e encaminhou reposições trimestrais de medicamentos, garantindo
100% do consumo e mantendo 20% de estoque de segurança, evitando
desperdícios. Já avançamos para um novo Sistema de
Gerenciamento dos Programas de Assistência Farmacêutica, que
utiliza a Internet como meio de transmissão, permitindo integrar
on line municípios, Regionais de Saúde, Coordenadorias e
FURP, diminuindo o tempo entre o pedido e o envio do medicamento. O Sistema
fornece relatórios gerenciais em todos os níveis hierárquicos,
desde uma Unidade Básica até o nível central da Secretaria.
Em 1998, foram gastos R$ 30 milhões e assegurado
o atendimento regular aos 624 municípios do Estado de São
Paulo com até 250 mil habitantes durante todo o ano. Hoje, o Dose
Certa possui 41 medicamentos padronizados (todos produzidos pela FURP),
atendendo às patologias de maior freqüência e com entrega
regular e pontual aos 645 municípios, inclusive às 220 unidades
próprias na capital, totalizando 865 pontos de entrega.
Mais dados sobre o programa: www.farma.saude.sp.gov.br
REGISTRO DE PREÇOS
Ronaldo Gazolla (então Secretário de Saúde
do Rio), demonstrou as vantagens do "Sistema de Compras Programadas de
Medicamentos Utilizando o Sistema de Registro de Preços" (SRP).
Entre suas vantagens, ele lista a transparência do processo licitatório;
a participação de empresas do Brasil e exterior ("onde grandes
e pequenas concorrem em igualdade de condições"); os reduzidos
preços ofertados; a redução no custo dos transportes;
o fim dos super estoques; a agilidade na reposição dos estoques
e a redução do número de licitações.
O projeto foi iniciado em 1991, quando foi definido
que as unidades de saúde não poderiam prescindir de pleno
abastecimento de medicamentos para atendimento aos pacientes internados
e também das unidades básicas de saúde. Para que fosse
implementada a nova metodologia de planejamento, aquisição,
distribuição e controle, foram convocados diversos segmentos
do setor saúde, que definiram com a Secretaria uma proposta de edital
que permitiu sua operacionalização.
Em dez anos, o sistema evoluiu e hoje abastece 128
unidades de saúde, padronizou 535 sais, movimenta 300 milhões
de unidades/ano e cadastrou 300 empresas, permitindo o atendimento de 1
milhão 250 mil pacientes por mês. Gazolla explica:
- Quando analisamos a Lei 8666, no seu art. 14, verificamos
que o legislador sinalizava que preferencialmente as compras deveriam ser
realizadas para insumos que tivessem aquisições freqüentes,
entregas parceladas e que se destinassem a mais de uma unidade ou órgão.
Este perfil foi rapidamente identificado para a aquisição
de medicamentos, pois existiam na Rede Municipal 120 Unidades, atendendo
várias especialidades, sem farmácias com capacidade de armazenar
grandes volumes de material.
Modernas técnicas gerenciais de administração,
como a curva ABC (para controle das despesas), sistema MRP (para identificar
tendências) e Just in Time (para controlar os estoques de forma a
evitar compras exageradas ou desabastecimento) foram implementadas, com
o objetivo de atender, dentro da realidade orçamentária e
financeira, a maior quantidade de pacientes com medicamentos de qualidade
e sem descontinuidade.
As premissas básicas para a implantação
do Sistema foram a definição da especialidade do atendimento,
a padronização dos sais, a definição de Protocolos
de Tratamento, estimar com segurança quantidades para aquisição
periódica, dar publicidade e atrair empresas, criar rotina específica
para pagamento, automatizar ao máximo os controles, adequar o processo
licitatório à legislação (concorrência
pública tipo menor preço), criar uma relação
de parceria com os fornecedores, ajustar as compras à realidade
orcamentária (projetando despesas a médio e longo prazo)
e efetuar a reserva orçamentária a cada período de
fornecimento (bimestralmente). As características do Edital utilizado
podem ser acessados no site www.rio.rj.gov.br/sms
- Os laboratórios farmacêuticos oficiais
passaram por um longo e planejado processo de sucateamento, que incluiu
o achatamento salarial de profissionais. Os recursos do BNDES estariam
melhor aplicados nestes laboratórios e não no financiamento
de empresas estrangeiras que compraram nossas estatais. Infelizmente, o
candidato a Presidente da República no Brasil primeiro negocia com
o FMI sua políitca de Governo e depois adapta a Constituição
do País ao acordo que realizou. As afirmações são
de Clair Castilhos Coelho (da Rede Nacional Feminista de Saúde e
Direitos Reprodutivos e da Comissão de Orçamento do Conselho
Nacional de Saúde). Ela juntou duas histórias para discutir
o uso do medicamento no Brasil e o papel da mulher na saúde:
- Quando os invasores portugueses, auto-denominados
descobridores, chegaram ao Brasil em 1500, traziam consigo uma caixinha
de folhas de flandres, repleta de pós, ungüentos e tinturas
denominada botica. A partir daí começou esta intrincada história
do medicamento no Brasil. Por outro lado, as mulheres, que há milhares
de anos viviam restritas ao interior de seus lares e cabia-lhes principalmente
o cuidado dos doentes, a educação das crianças, a
manipulação dos alimentos, a realização dos
partos, o cuidado dos maridos, entre outras coisas, começaram a
observar a natureza, conhecer as plantas, fazer chás, emplastros,
ungüentos e curativos.
Segundo ela, as mulheres são responsáveis
por várias descobertas no campo científico:
- Na idade média e durante alguns séculos,
a descoberta destes efeitos terapêuticos nos custou a morte nas fogueiras
sob acusação de bruxaria.
Ela denuncia que "com o passar do tempo, a opressão
cultural, religiosa e a exploração capitalista nos oferecem
o seguinte quadro de horror: expropriação do corpo da mulher,
a opressão à sexualidade, a normatização da
reprodução, a medicalização e a desumanização
do atendimento".
Ao citar números, Clair Castilhos demonstra
que as mulheres são as principais usuárias do SUS:
- Em 1999, consumimos 62% das internações
hospitalares, proporção que se eleva para 75% na idade reprodutiva.
Somos as principais consumidoras de medicamentos. Alguns são necessários,
mas constantemente somos vítimas da empurroterapia e do descaso
com que são tratadas nossas queixas, em geral transformadas em receitas
de antidepressivos. As mulheres consomem dois terços dos medicamentos
controlados. Somos, ainda, as principais cuidadoras, atendemos os doentes
de nossas casas, ministramos a medicação, freqüentamos
os centros de saúde levando nossos filhos e somos o maior contingente
de servidores de saúde, em quase todos as categorias de profissionais.
Nosso papel é estratégico dentro do SUS.
Para Clair Castilhos, as mulheres têm o corpo
extremamente medicalizado. Ela arrancou aplusos e risos da platéia
ao citar alguns tratamentos:
- São medicamentos para a tensão pré-menstrual,
hormônios para repor o desgaste que o tempo e o trabalho nos impuseram,
tratamentos para engravidar, pílulas implantes e injeções
para não engravidar, (de cada 10 métodos contraceptivos,
8 são destinados ao corpo da mulher), psicotrópicos para
corrigir nossos humores, anoréxicos para atender à ditadura
da moda, vitaminas para cabelo e unhas, beta-carotenos para bronzeamento,
estimulantes para ter sempre vitalidade e muito, muito trabalho, para consumir
tudo isso.
Ela defende uma ampla discussão envolvendo
sociedade civil organizada, parlamento, Judiciário e Governo no
sentido de se impor limites e traçar uma política para o
setor. E propôs a convocação de uma Conferência
Nacional de Assistência Farmacêutica, "para que todos os sujeitos
envolvidos discutam o quadro de mundialização do capital,
seu impacto na questão do medicamento e as políticas públicas
a serem implementadas no setor".
Para ela, temas como a atuação da indústria
farmacêutica, situação econômica do SUS, os escândalos
que levaram à criação da CPI de medicamentos, a reação
do Governo, do Conselho Nacional de Saúde e da sociedade ao problema,
a atuação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária,
a revisão de registros e a Relação Nacional de Medicamentos
precisam ser urgentemente debatidos num fórum nacional amplo e democrático.
Financiamento e Responsabilidade
as Três Esferas de Governo
UM É POUCO, DOIS É BOM, TRÊS É
MELHOR
Álvaro Nascimento
Por melhor que seja a legislação que
determine a fórmula de financiamento do Sistema Único de
Saúde (SUS) a partir da contribuição permanente das
três esferas de Governo, os legisladores só terão sucesso
se a sociedade se organizar e tiver uma participação efetiva
no controle dos gastos do Sistema. A afirmação é do
Deputado Federal Ursicino Queiroz (PFL-BA), na abertura da mesa "Financiamento
e responsabilidade das três esferas de governo para garantir o acesso,
qualidade e humanização na atenção à
saúde, com controle social". Para ele, "o SUS é um marco
na construção da cidadania do brasileiro".
- O SUS é um dos melhores sistemas desenvolvidos
em todo o mundo, no que diz respeito à prevenção,
assistência e recuperação da saúde. Mas para
que ele consiga ser eficiente, é necessária a sua implantação
integral.
Ele lembrou os momentos de profundas dificuldades,
criadas para desmoralizar o SUS:
- Entre os anos de 94 e 96, a mídia realizou
uma verdadeira blitz para desmoralizar o sistema. Foi preciso uma ampla
mobilização para demonstrar o contrário. Conseguimos
provar que onde o SUS não deu certo a explicação estava
na falta de sua completa implementação, sendo necessário
que legisladores, gestores, profissionais e população organizada
o aperfeiçoassem e criassem uma consciência cidadã
em sua defesa.
Ursicino Queiroz frisou que ao se criar a CPMF, foram
vencidas forças "que se imaginava invencíveis, mas com o
passar do tempo as três esferas de governo acabaram retirando outras
fontes de recursos da saúde, diminuindo o impacto que se buscava
no financiamento do setor".
Com a implantação da Proposta de Emenda
Constitucional (PEC) 169, recentemente aprovada pelo Congresso, ele acredita
que se dará um enorme passo na solução da grave questão
do financiamento à saúde:
- Entre os anos de 2001 e 2004, o Governo Federal
terá que aplicar na saúde tudo que gastou em 2000 mais a
variação do Produto Interno Bruto (PIB) do mesmo ano, que
só será consolidado em maio de 2001. A estimativa, entretanto,
é que o PIB cresça 14,89%. Este índice deverá
ser aplicado sobre o orçamento da saúde de 2000 para se ter
o volume de recursos a ser gasto em 2001.
Ele lembrou que os estados terão que aplicar
no mínimo 7% de seu orçamento em saúde já em
2001, tendo que chegar a um mínimo de 12% até 2004, sendo
que a média hoje é 7%. Já os municípios terão
que gastar um mínimo de 7% em 2001, tendo que chegar a um mínimo
de 15% até 2004, e a média hoje é 11%.
O Secretário Executivo do Ministério
da Saúde, Barjas Negri, disse que ao se fazer um balanço
das políticas de financiamento à saúde no Brasil,
se vê claramente que de dez anos para cá se inicia um esforço
dos três níveis de Governo para elevar a alocação
de recursos no setor:
- Esta prioridade deverá se acentuar agora,
com a PEC 169. Os municípios, na verdade, serão os que deverão
elevar menos sua contribuição, pois na média eles
já alocam quase os 15% que passarão a ser exigidos.
Segundo ele, "o advento da CPMF fez crescer os recursos
na saúde", apesar de concordar com as afirmações de
serem eles "ainda pouco frente às necessidades do SUS e a estabilidade
necessária para os recursos do Ministério".
Barjas Negri informou que têm crescido os recursos
alocados na saúde no Orçamento da União:
- Quando eu cheguei ao Ministério, em 1997,
os recursos da saúde eram de R$ 16 bilhões. Em 2000, este
número chega a R$ 22 bilhões. Descontada a inflação,
há um aumento real nestes valores.
Ele ressaltou a importância do processo de
descentralização, com a transferência de recursos "fundo
a fundo" diretamente do Ministério para os estados e municípios:
- Em 1994, tínhamos apenas 24 municípios
em gestão semi-plena. Em 97, tínhamos 144 municípios.
No ano 2000 chegamos a 525 municípios, que cobrem um universo de
65 milhões de pessoas.
Ao se alterar a lógica do financiamento -
"com o Governo Federal passando a transferir tanto os recursos como as
responsabilidades aos gestores"- Barjas Negri diz que se instituiu um novo
paradigma no sistema de saúde do País:
- Claro que, dada a complexidade do setor, não
se consegue resolver todos os problemas. Mas iniciativas como a consolidação
na NOB 96 de 1998 até 2000 e a integração ao SUS,
via Piso de Atenção Básica, de 5.447 municípios
brasileiros são uma demonstração de que o processo
de descentralização avançou muito.
Ele exibiu outros números como parte do balanço
do Ministério da Saúde na área da descentralização
e do financiamento:
- No setor de medicamentos, 2.600 municípios
já recebem recursos para aquisição própria
destes produtos, enquanto os demais recebem medicamentos via estados, através
da transferência fundo a fundo. O Programa Saúde da Família,
que antes respeitava a lógica de repasse de recursos via faturamento,
remunerando a visita, agora é financiado de acordo com a cobertura,
com cada equipe cobrindo 3.500 famílias. De 1.600 equipes em 1996,
crescemos para 10 mil equipes hoje, com investimentos da ordem de R$ 680
milhões. Hoje já são 4.600 municípios que contam
com programas de agentes comunitários. Se olharmos um somatório
de recursos transferidos para todos os programas, chegamos a R$ 7 bilhões
em um ano.
Barjas Negri disse, ainda, que quatro estados já
estão com seus sistemas de saúde em gestão plena (Alagoas,
Paraná, Santa Catarina e Distrito Federal), com toda a responsabilidade
da gerência dos recursos repassados pelo Ministério da Saúde.
No início de 2001, o Ceará deverá se juntar a eles.
Ele se disse otimista em relação ao
futuro do setor:
- A aprovação da PEC 169 é uma
vitória de extraordinária magnitude. A equipe econômica
foi dobrada, quebrando-se a tese da impossibilidade de vinculação
dos recursos e com a fixação de um aumento paulatino de recursos
para a saúde. Se hoje o Ministério gasta R$ 22 bilhões,
em 2004 poderá gastar R$ 30 bilhões, dependendo é
claro do ritmo de crescimento da economia do País. Está aberta
a porteira para aplicarmos bem e com transparência este dinheiro
para daqui a quatro anos aprovarmos uma nova vinculação,
dando ainda maior estabilidade ao sistema.
Segundo Barjas Negri, isso aumenta a responsabilidade
de gestores e dos conselhos de saúde:
- As secretarias estaduais e municipais de saúde
têm agora um novo referencial. Não há mais como os
administradores cortarem, por qualquer motivo, o volume de recursos da
saúde. Eleva-se o papel dos conselhos para aprovar investimentos
e controlar a aplicação dos recursos.
Ao analisar o papel redistributivo dos governos federal
e estadual no financiamento à saúde e os critérios
de repasse, Sulamis Daim (Professora da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro) afirmou que para se falar em eqüidade há que se tratar
de recursos:
- Não se pode esquecer que desde 1988 a saúde
está vinculada à Seguridade Social como um todo. E que se
hoje a alíquota da Cofins é sete vezes maior que em 88, isso
se deu por essa vinculação.
Segundo ela, a União hoje retém 16%
do total da receita gerada no País, sendo que os recursos que deveriam
ser alocados na Seguridade representam 40% deste orçamento:
- Feitas as contas, temos superávit de R$
15 bilhões não apropriados a gastos. Portanto, desminto que
haja déficit no sistema. Há, sim, dificuldade de apropriação
nos orçamentos destes recursos recolhidos via impostos.
Para Sulamis Daim, "a péssima distribuição
da renda e o desemprego fragilizam a população, tornando-a
vulnerável", o que obriga o gestor do sistema de saúde a
se empenhar na solução das conseqüências das políticas
causadoras destes problemas.
Em relação às formas de remuneração
dos trabalhadores em saúde no que diz respeito a planos de carreira,
cargos e salários, incluindo incentivos e gratificações,
a representante da Confederação Nacional dos Trabalhadores
em Seguridade Social, Eliane Aparecida da Cruz, foi enfática:
- Somos dois milhões de trabalhadores estressados,
apostando que a saída é ter dois ou três vínculos,
vítimas da desprofissionalização do setor e da má
remuneração. Até hoje os agentes de saúde,
por exemplo, lutam por sua profissionalização e reconhecimento.
Ela propôs uma revisão de toda a força
de trabalho em saúde no Brasil:
- Não basta discutir duplo vínculo.
Ninguém tem mais de um vínculo porque quer. Isso se transformou
numa condição. Temos que discutir formação,
número necessário de trabalhadores, plano de carreira, possibilidade
de ascensão funcional, remuneração adequada, sua participação
no planejamento e na gestão. Só assim os trabalhadores em
saúde se identificarão com o SUS.
Política de Saúde Mental
"O MANICÔMIO É UM SORVEDOURO
DE VIDAS E DE RECURSOS"
Caco Xavier
Quando o coordenador do painel sobre Políticas
de Saúde Mental, Paulo Amarante, da Escola Nacional de Saúde
Pública (Ensp/Fiocruz), encerrou os trabalhos anunciando que a mesa
havia começado e terminado rigorosamente no horário estipulado,
alguém da platéia pilheriou: "Isso é coisa de louco!"
A alegria, a descontração, a amizade e um profundo compromisso
comum e coletivo faziam pano de fundo aos debates e eram percebidos até
mesmo pelos delegados que pela primeira vez entravam em contato com o assunto,
apenas para saber "como vai a reforma psiquiátrica".
E como vai ela? Segundo Marcus Vinícius de
Oliveira Silva, do Conselho Federal de Psicologia, com relação
à saúde mental no âmbito do SUS temos hoje, "mesmo
com todos os problemas em sua construção", algo superior
ao que se tinha há dez anos. Mas que, apesar da aparência
ascendente, desde 1996 a Reforma Psiquiátrica encontra-se estagnada,
seja no que diz respeito a novas reduções de leitos hospitalares,
seja no que diz respeito à ampliação de novos serviços
substitutivos.
Vera Lúcia Marques de Vita, falando em nome
do Movimento dos Usuários e Familiares em Saúde Mental, diz
que a aquisição de direitos do portador de transtornos mentais
e a melhoria da assistência e da qualidade de vida implica principalmente
em mudanças na legislação (veja o box). Ela lista,
também, duas reinvidicações do Movimento para que
as condições de reinserção, pregadas por todos,
sejam viabilizadas:
- É preciso haver reciclagem e capacitação
de profissionais, que devem estar identificados com o SUS e com a reforma
psiquiátrica. E é preciso reverter a realidade da destinação
de recursos, onde hoje 98% deles são alocados na manutenção
de leitos psiquiátricos. Achamos que uma grande parte desses recursos
tem que ser destinado a projetos de reabilitação para o trabalho,
à facilitação da convivência.
Dona Vera reinvidica que para cada vaga fechada em
um manicônio seja aberta outra nos chamados serviços alternativos.
Para ela, essa é uma questão de cidadania, mais do que uma
questão `médica': "Que os portadores rompam as amarras, saiam
dos muros dos hospitais, sejam respeitados em sua dignidade de cidadãos".
QUESTÃO DE CIDADANIA
Marcus Vinícius também crê que este
seja o fundamento de toda o movimento pela reforma, e acrescenta:
- Seqüestraram a loucura da sociedade, desabilitaram-na
de lidar com a fragilidade, com o transtorno, de sair transbordando às
margens do cotidiano. Há apenas 150 anos, estabeleceu-se que quem
`transbordasse' deveria ser retirado da sociedade. Inventou-se o hospital
psiquiátrico, o manicômio, como única forma de lidar
com esse `problema'. Precisamos retomar a reversão do modelo manicomial.
Acredita ele que este modelo é incompetente,
não dá conta da complexidade de uma situação
que é majoritariamente cultural, social, de convivência. "Além
de incompetente", diz, "o sistema manicomial é um sorvedouro, tem
uma voracidade imensa na devoração de vidas e de recursos;
ou seja, além de incompetente, é caro!" Diz ele que o SUS
gasta quase meio bilhão de reais por ano para manter 60 mil pacientes
internados, dos quais estima-se que quase 20 mil sejam moradores com mais
de dois anos de internação, enquanto todos os serviços
de atenção diária gastam pouco mais de R$ 25 milhões
anuais.
Mas mesmo assim, para Marcus Vinícius o custo
financeiro ainda é o menor custo. O maior é o custo que se
paga por tirar o indivíduo da convivência social por portar
uma diferença. Tais pessoas são excluídas da comunidade
- "e sabemos que a exclusão é pena para criminosos", lembra
Marcus Vinícius. Normalmente se fala apenas dos direitos do indivíduo
excluído - nesse caso, do portador de transtorno mental - e no quanto
ele sofre e perde em razão da falta do contato com a sociedade.
Mas Marcus amplia essa visão e oferece uma nova perspectiva:
- Não dá pra mensurar o custo humano
que a sociedade paga por se ver privada desse contato. Essas pessoas (os
`loucos') fazem falta à sociedade, para que todos nós possamos
ampliar os limites do humano em nossas vidas.
Para ele, o maior problema de saúde pública
no âmbito da saúde mental é a existência de milhares
de pessoas internadas em locais que não têm a menor condição
de cuidar delas. "Ainda existe um setor profissional muito reativo", diz
Marcus, lembrando que o enfrentamento dessa questão é muito
importante, já que atualmente existem `doutores ungidos por Deus'
pra dizer o que é certo e o que é errado e onde as escolas
são criadas para atender os interesses do profissional e não
do doente. Ele diz:
- É preciso construir o SUS para vencer os
obstáculos dos `profissionais da loucura'.
Sandra Fagundes, representante do Conselho Nacional
de Secretários Municipais de Saúde (CONASEMS), insistiu na
idéia de que é preciso buscar aliados, outros atores sociais
também interessados na inclusão social, para que sejam criados
mecanismos menos instáveis a políticas governamentais. "Todos
sabemos que os gestores só funcionam por pressão", disse
ela, "não necessariamente das áreas técnicas, mas
dos movimentos sociais". Com isso também concorda Marcus Vinícius.
Para ele, existem vários militantes anônimos, parceiros na
construção da reforma psiquiátrica. "É preciso
tirá-los do anonimato, formar uma grande rede", diz ele.
Há ainda diversas outras questões que
devem ser consideradas em conjunto, e Wilza Vieira Villela, do Instituto
de Saúde de São Paulo (SES/SP), levanta uma delas, de gênero:
"A cultura da internação é diferente para homens e
para mulheres", diz ela. Wilza citou várias estatísticas
para mostrar que existe um círculo vicioso de desqualificação
da mulher nestes sistemas. Segundo ela, isso pode ser notado de várias
formas, e uma delas está radicada na violência doméstica
e também nas humilhações pelas quais a mulher usualmente
passa.
- Dizem que a mulher fica `histérica', está
`esquisita', `nervosa'... então ela vai para os serviços
de saúde e `faz sintoma' em função disso tudo. E a
partir daí, tome remédio. O uso constante de medicamentos
é maior entre as mulheres, em parte por causa desses fatores - diz
Wilza.
O chamado manicômio judiciário também
é alvo de muitas críticas. Marcus Vinícius não
poupa palavras duras, e diz que ele "é o pior do pior: o pior dos
manicômios, a pior das prisões". Marcus dissocia veementemente
a `loucura' da `violência', dizendo que a psicose que comete um homicídio
é a mesma psicose que não o comete.
- É preciso atacar esse imaginário
de que o louco é violento. Não é verdade que a loucura
seja mais violenta do que a `normalidade', pelo contrário! - reitera.
UM MOVIMENTO RADICAL
As origens do movimento pela Reforma Psiquiátrica
remontam ao final da década de 70, no período da redemocratização
brasileira. Em 1976, David Capistrano Filho e José Rubem Alcântara
criam o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES), e em 1978
acontecem importantes greves dos hospitais psiquiátricos, acompanhadas
de denúncias sobre maus-tratos nessas instituições.
A mais importante foi a greve dos hospitais psiquiátricos da Divisão
Nacional de Saúde Mental (DINSAM). No mesmo ano, aconteceu a vinda
ao Brasil de Franco Basaglia (líder do Movimento da Psiquiatria
Democrática na Itália), Félix Guatarri, Erwinn Goofman
e Thomas Szasz. Em 1987, o movimento, organizado por profissionais, usuários
e familiares, com o apoio de intelectuais e das forças progressistas
do país, passou a denominar-se Movimento Nacional da Luta Antimanicomial,
tendo como bandeira a substituição do modelo hospitalar psiquiátrico.
As duas Conferências Nacionais de Saúde Mental, realizadas
em 1987 e 1993, foram também marcos importante.
O sanitarista David Capistrano Filho, morto em novembro
do ano passado e homenageado nesta 11a Conferência, orgulhava-se
de ser "um homem da reforma sanitária e, por isso mesmo, um homem
da reforma psiquiátrica, nessa ordem". Como Secretário de
Saúde e depois prefeito do município de Santos, SP, levou
à prática as idéias do Movimento. Em maio de 2000,
Capistrano participou do fórum nacional de Avaliação,
Perspectivas e Prioridades da Reforma Psiquiátrica Brasileira, em
Brasília. Seus depoimentos são sempre incisivos e precisos:
"A Reforma Psiquiátrica, ou é uma batalha
travada de município em município, ou vamos perdê-la.
Porque é lá, sobretudo nas quatro ou cinco centenas de municípios
que têm a chamada gestão plena, que vamos poder fazer avançar
este processo, independentemente das variações das políticas
federal ou estaduais."
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A LEI DA REFORMA PSIQUIÁTRICA
(o que diz? onde está?)
A Lei 3757/89, proposta pelo Deputado Federal Paulo
Delgado (PT/MG), nasceu, de uma certa maneira, em conseqüência
da histórica intervenção da Casa de Saúde Anchieta,
clínica psiquiátrica de Santos, onde havia ocorrido mortes,
em 89. O SUS foi implementado no país em 1989, de modo que as secretarias
municipais de saúde puderam tomar uma posição política
autônoma em relação aos hospitais psiquiátricos.
A relação do então secretário
de Santos, David Capistrano Filho, com o Movimento da Luta Antimanicomial
proporcionou a intervenção radical no hospital psiquiátrico,
em maios de 89, não para corrigir imperfeições em
seu sistema, mas para extinguí-lo e criar um sistema substitutivo
a ele. A intenção era criar um novo modo de fazer com que
a sociedade passasse a lidar com o louco e com a loucura. Foram criados
entáo os Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPs),
projetos culturais (como a rádio e a TV TamTam), repúblicas
para ex-moradores de hospitais psiquiátricos e cooperativas com
oportunidades de trabalho.
A Lei da Reforma Psiquiátrica, como é
chamada, foi sugerida visando a estender esse conceito a uma legislação
nacional. Aprovada na Câmara dos Deputados em 1990, foi ao Senado
, onde sofreu forte movimento de oposição, representada por
proprietários de casas de saúde e também de familiares,
talvez devido a uma certa incompreensão dos mecanismos substitutivos.
Por conta disso, a proposta ficou de 1990 a 1999 em tramitação
no Senado, recebendo vários substitutivos. A Lei propõe a
extinção progressiva dos hospitais psiquiátricos e
a proibição de construção de novos, e ainda
a construção compensatória de serviços substitutivos
na comunidade, como os NAPs, lares protegidos, locais de residência
abrigados. A Lei prevê também a regulamentação
da internação compulsória.
Em 99, foi aprovado um substitutivo que altera substancialmente
o projeto original, mas mantém algumas importantes conquistas. Assim,
o projeto volta para a Câmara dos Deputados, onde se encontra atualmente
para ser reavaliado pelo relator, Deputado Carlos Mosconi. A aprovação
desta Lei significa uma fundamental atualização jurídica
sobre a questão da saúde mental, já que a legislação
que hoje se encontra em vigor data de 1934.
ALGUNS ECOS DO DEBATE
O painel foi especialmente generoso em relação
à participação da assistência. Muitos antigos
e novos companheiros do movimento pela reforma psiquiátrica tiveram
oportunidade de falar. E falaram bem.
-
Zé Cleto, Recife: Nós do Conselho Municipal,
da Comissão de Saúde Mental, estamos fiscalizando em cima,
fazendo relatórios. É muito duro vermos uma pessoa que não
cometeu crime algum amarrada numa cama.
-
Domiciano, RS: Somos pioneiros na busca da reabilitação
de usuários de drogas. Precisamos forçar os governos a criarem
uma política integral de assistência aos usuários,
não apenas aos que querem parar de usar drogas, mas também
àqueles que não querem ou não conseguem. Esses têm
medo de procurar os serviços e ser discriminados.
-
José Elias, psiquiatra de Foz do Iguaçu:
Temos que acabar com o hospital psiquiátrico. Sei que é preciso
acabar, porque eu fui dono de um. Meu sócio dizia: "Paciente é
fatura". Hoje ele é dono de empresa de avião, graças
à exclusão legitimada. Os donos de hospitais psiquiátricos
são sedutores, vorazes e não têm limites.
-
Mílton, usuário integrado, RJ: Tudo valeu
a pena, porque continuamos lutando. Aqui o usuário tem voz.
-
Josenita, PE: A questão da saúde mental
será que não passa por esse salário mínimo
absurdo? É uma degradação tão grande que causa
distúrbios mentais!
-
Geraldo, familiar, SP - Esse clima alegre, divertido,
que temos aqui é um grande barato. É assim que nos relacionamos,
é assim que nos relacionamos com a loucura, é assim que eu
me relaciono com o meu filho.
-
Antonio Lancetti,psiquiatra, SP, assessor de saúde
mental em Santos, quando o município acabou com o hospital psiquiátrico:
Eu vejo vários balanços positivos, mas de reforma em reforma
acabamos ficando `reformistas' demais. O hospital psiquiátrico deve
ser combatido com virulência afirmativa.
-
Delmar, usuário integrado, BA (nada fala, apenas
canta): Viver... e não ter a vergonha de ser feliz...Cantar, e cantar
e cantar a certeza de ser um eterno aprendiz...
Para saber mais sobre
o assunto: o livro A Loucura da História, organizado por Paulo Amarante.
LAPS/ENSP/Fiocruz, tel: (21) 590-9122, ramal 230
Novos Instrumentos para Gestão
EM BUSCA DE MAIS EFICIÊNCIA,
HUMANIZAÇÃO E TRANSPARÊNCIA
Álvaro Nascimento
Alterar de forma profunda os instrumentos de gestão
do sistema de saúde, com o objetivo de torná-lo mais eficiente,
eficaz e transparente tanto para gestores como para a sociedade, criando
mecanismos que facilitem o controle social. Esta foi a meta que levou várias
equipes do Ministério da Saúde a criarem e implantarem quatro
projetos na área da gestão: o Sistema de Informações
sobre Orçamentos Públicos em Saúde (Siops), o Cartão
Nacional de Saúde (Cartão SUS), o Banco de Preços
Praticados na Área Hospitalar (BPPH) e o Projeto de Profissionalização
dos Trabalhadores da Área de Enfermagem (Profae).
Os projetos foram apresentados aos delegados da 11a
Conferência no debate "Novos instrumentos de gestão", coordenado
pelo Secretário de Gestão de Investimentos do Ministério
da Saúde (SIS), Geraldo Biasoto Júnior, que listou os principais
objetivos da sua secretaria:
- Buscamos identificar pontos de estrangulamento
do sistema, articular ações de interesse do SUS que estão
fragmentadas no âmbito federal, gerar ações de caráter
intersetorial de interesse para a saúde, investir em projetos que
alteram as lógicas de comportamento do setor, avaliar os impactos
das questões econômicas sobre o SUS e a saúde, atuar
em segmentos do sistema que necessitem de mudanças estruturais,
gestar novas áreas de atuação do Ministério
da Saúde e introduzir novas formas e instrumentos de gestão.
Segundo Biasoto, o Profae busca a qualificação
profissional de 225 mil auxiliares de enfermagem em todo País, a
capacitação de 12 mil docentes, o fortalecimento das Escolas
Técnicas do SUS e dos Centros Formadores, a certificação
de competências na área e a produção e difusão
de análises sobre o mercado de trabalho.
Já o Cartão SUS, segundo ele, "visa
a construção do número único de cada cidadão,
o cadastramento de toda a população, a identificação
das vertentes tecnológicas, a compatibilização com
o modelo de gestão e a futura expansão do sistema".
Na área do financiamento à saúde,
a Secretaria criou o Siops, estuda os impactos da Lei de Responsabilidade
Fiscal e a respectiva alocação de recursos no setor, enquanto
na delicada área da regulação de medicamentos, busca
a desoneração tributária para medicamentos de uso
continuado e antibióticos, a formulação de uma política
de regulação de preços e a construção
de alternativas para a extensão da assistência farmacêutica
no País.
SIOPS: COMO, ONDE E EM QUE SE GASTA
Segundo Marcelo Gouvêa Teixeira, também
da SIS, o Siops nasce de uma demanda do Conselho Nacional de Saúde
em 1993, com o objetivo de organizar informações sobre financiamento
e gasto com as ações de saúde nas três esferas
de governo. A partir de 1999, o Ministério da Saúde assume
o projeto em parceria com o Ministério Público:
- O Siops é uma solução tecnológica,
um software, disponível na Internet, a exemplo do que já
é feito para declaração de imposto de renda, onde
qualquer município ou estado pode baixar o programa, preencher os
dados e enviá-los ao Ministério, fazendo com que qualquer
cidadão, conselheiro de saúde ou gestor tenha acesso às
informações, explica Teixeira.
O programa gera indicadores, disponibilizados via
Internet, com tabulações dos dados por município,
estado, faixa populacional ou por regiões. Ele é gerenciado
por núcleos estaduais, por equipes técnicas do Datasus, da
SIS e por uma Câmara Técnica de âmbito nacional. Teixeira
explica o uso prático do Sistema:
- Ele é um valioso instrumento para o planejamento,
gestão, avaliação e fiscalização dos
gastos em saúde, viabilizando transparência na aplicação
dos recursos para o controle social, um melhor planejamento e coordenação
das ações de saúde no nível estadual e regional,
além de servir de instrumento para avaliação de critérios
para alocação de recursos no âmbito municipal.
Para se ter uma idéia das possibilidades de
uso do Siosp, ele já serviu de subsídio ao processo de negociação
para a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC)
da saúde no Congresso, tem viabilizado o acompanhamento do cumprimento
da Emenda Constitucional já aprovada, instrumentaliza a discussão
da regulamentação da mesma emenda através de Lei Complementar,
está permitindo se dimensionar o peso do setor saúde na economia
no que diz respeito aos gastos públicos, serve para organizar o
Sistema de Contas Nacionais de Saúde e tem sido um importante instrumento
para a academia, tanto no ensino como na pesquisa.
BPPH: COMPARANDO PREÇOS VIA INTERNET
Também concebido com o objetivo de dar transparência
na gestão dos recursos públicos do SUS, instrumentalizar
o controle social e permitir melhor desempenho das compras públicas,
mediante a comparação entre diferentes instituições
e fornecedores, a SIS criou o Banco de Preços Praticados na área
Hospitalar (BPPH), um Sistema que divulga para qualquer cidadão,
via Internet, informações comparativas de preços pagos
por instituições hospitalares das três esferas de governo.
Segundo Teixeira, a principal característica do Banco é a
simplicidade da consulta via Internet:
- O BPPH é de fácil uso pelo cidadão,
possuindo listagens dos 105 medicamentos e 75 materiais mais consumidos
pelos hospitais que fundaram o sistema e uma relação das
instituições de menor a maior preço unitário
e com o percentual de diferença de preços, sendo que a responsabilidade
da exatidão dos dados é da unidade hospitalar, com o Ministério
da Saúde controlando a qualidade da informação.
O sistema já abrange 14 estados (AM, PA, MA,
CE, PE, SE, BA, GO, MG, RJ, SP, PR, SC e RS), num total de 182 unidades
hospitalares e 35.788 leitos. Mas planeja se expandir, aumentando o número
de informantes e os itens informados, passando a gerar relatórios
analíticos para a gestão de compras para o sistema de saúde,
lançando um portal como suporte às compras públicas,
realizando parcerias com o Datasus e criando um Banco de Preços
do Mercosul.
PROFAE QUALIFICA TÉCNICOS DE ENFERMAGEM
A importância da força de trabalho da área
de enfermagem, o impacto que a qualidade deste serviço traz na humanização
da assistência à saúde e a situação de
irregularidade profissional deste enorme contingente de trabalhadores da
saúde foram os motivos que levaram o Ministério da Saúde,
através da SIS, a implantar o Projeto de Profissionalização
dos Trabalhadores da Área de Enfermagem (Profae).
A iniciativa, que segundo Rita Sório "visa
promover a melhoria da qualidade do atendimento ambulatorial e hospitalar,
particularmente dos estabelecimentos
integrantes do SUS, através da qualificação
dos trabalhadores de enfermagem", conta com recursos totais da ordem de
US$ 370 mil, sendo US$ 55 mil do Tesouro, 130 mil do Fundo de Amparo ao
Trabalhador (FAT) e US$ 185 mil do BID.
Ela fala dos objetivos do Projeto:
- Queremos reduzir o déficit de pessoal auxiliar
de enfermagem qualificado para atuar no setor e reforçar o quadro
normativo e de regulação na área da saúde,
criando as condições técnicas e financeiras para a
sustentabilidade dos processos de formação técnica
em saúde, em especial dos auxiliares de enfermagem.
Os principais componentes do Profae são a
profissionalização dos trabalhadores da área de enfermagem
(tanto no que diz respeito à educação profissional
como ao ensino fundamental) e o fortalecimento institucional das instâncias
formadoras e reguladoras de recursos humanos do SUS (funcionando como suporte
para a formação e capacitação).
Segundo Rita Sório, o projeto está
voltado para "a formação pedagógica de um contingente
de 12 mil docentes enfermeiros, para a elaboração e implantação
de um Sistema de Certificação de Competências dos egressos,
para a modernização institucional e capacitação
técnico-gerencial das escolas técnicas do SUS e para a elaboração
e implantação de um Sistema de Informação sobre
o mercado de trabalho e a formação de recursos humanos para
a saúde".
A logística operacional do Projeto está
estruturada nacionalmente, contando com uma gerência geral, agências
regionais, operadoras e instituições executoras das suas
diretrizes, que têm como aspectos inovadores, segundo ela, "a formação
de redes de cooperação envolvendo entidades acadêmicas,
de trabalhadores e de serviços; a implantação de currículos
para técnicos na área da saúde baseados em competências
e habilidades de interesse para o setor; a criação de sistemas
de informação sobre mercado e formação fundamentais
para a gestão em saúde; a consolidação de estruturas
permanentes do SUS para formação técnica e educação
permanente em saúde e a introdução de novas tecnologias
educacionais adequadas ao cotidiano do trabalhador do SUS".
Ela lista os primeiros resultados da implantação
do Projeto:
- No ano 2000, implementamos a profissionalização
em 26 estados, inserindo um contingente total de 46 mil trabalhadores nos
processos de formação e cobrindo, no primeiro ano de execução,
88% da demanda cadastrada para qualificação profissional.
Segundo ela, entre os principais problemas enfrentados
está a baixa oferta de educação profissional em alguns
estados, o conflito de interesses entre empregadores e trabalhadores dos
serviços de saúde, as precárias condições
de trabalho (que leva ao desestímulo por parte do trabalhador) e
o crescimento da informalidade nos vínculos dos profissionais.
Para 2001, o Profae pretende definir o formato e
os parâmetros para um novo cadastramento de trabalhadores através
do SUS, criar e pactuar instrumentos de regulação de recursos
humanos articulados ao credenciamento das unidades de saúde, com
o objetivo de garantir o acesso dos trabalhadores ao emprego de forma qualificada,
e estruturar a formação técnica de trabalhadores de
enfermagem a partir de novas diretrizes curriculares, possibilitando diferentes
perfis de atuação. Além disso, pretende criar incentivos
para as escolas de educação profissional que adotarem currículos
que tomem por eixo a promoção, a solidariedade e a humanização
da assistência à saúde nos currículos dos técnicos
para a saúde e estreitar a articulação entre a condução
do Projeto e o desenvolvimento da agenda de recursos humanos para o SUS,
discutindo inclusive a reinserção dos egressos do processo
de formação.
CARTÃO NACIONAL DE SAÚDE
Diminuir a "burocracia" do SUS, tornar imediata a identificação
do usuário com ganhos no atendimento e construir uma base de dados
com o seu histórico clínico são apenas alguns dos
objetivos que estão levando à criação, pelo
Ministério da Saúde, do Cartão Nacional de Saúde
(Cartão SUS), que trará uma série de outras vantagens,
segundo Rosani da Cunha:
- O cartão irá vincular o usuário
a uma Unidade de Saúde e agilizará seu atendimento, automatizando
a marcação de consultas, exames e o referenciamento. Também
vai ampliar e melhorar o acesso a medicamentos e fortalecerá o sistema
de informações em saúde prestadas ao usuário
do sistema.
Em relação à gestão do
SUS, o cartão, segundo Rosani, vai integrar sistemas de informação,
municiar com dados a Câmara de Compensação Financeira,
vai identificar e monitorar a rede prestadora de serviços, otimizará
a distribuição de medicamentos, criará condições
para que o SUS viabilize o ressarcimento aos cofres públicos da
assistência prestada aos clientes de operadoras de planos e seguros
privados, fornecerá informações regionalizadas sobre
atendimento e origem dos pacientes e apoiará o trabalho dos sistemas
de auditoria, servindo de filtro de crítica para inibir procedimentos
não autorizados.
Ela lista as vantagens do cartão para os profissionais
de saúde:
- Através do cartão, poderemos construir
protocolos clínicos, disponibilizar informações que
contribuam para a avaliação do trabalho das equipes e melhoria
dos serviços, fortalecer o vínculo entre profissionais e
usuários do SUS, reorganizar o processo de trabalho, melhorar a
disponibilização dos insumos necessários às
atividades dos profissionais e reduzir o número de formulários
e demais instrumentos de controle nas unidades de saúde.
Mas segundo Rosani, o cartão também
trará impacto na área da vigilância epidemiológica:
- Através da implantação do
cartão, poderemos promover a automação das notificações
compulsórias de doenças, facilitar a identificação
de situações de risco à saúde pública
e montar um banco de informações de morbi-mortalidade, alimentado
diretamente pelas unidades de saúde. Teremos nas mãos, na
verdade, um instrumento de avaliação das políticas
de saúde.
A primeira etapa do projeto, segundo Rosani, contém
iniciativas no nível federal, estadual (nos 27 estados) e municipal
(em 44 municípios, atingindo cerca de 13 milhões de habitantes
e aproximadamente duas mil unidades de saúde). Os três níveis
estarão interligados por uma rede de computadores (servidores) que
irá capturar informações relativas à identificação
do usuário, dos profissionais que o atenderam, das unidades de saúde,
os procedimentos realizados, os medicamentos prescritos, os diagnósticos,
a vinculação do diagnóstico com os procedimentos,
os medicamentos e o profissional prescritor e finalmente o sistema servirá
para uma atualização permanente de cadastro, gerando relatórios
e dados que alimentarão o sistema de informações em
saúde.
No nível municipal, o cartão viabilizará
o armazenamento das informações sobre o nível de atendimento;
vai gerar relatórios gerenciais; validar os procedimentos realizados;
controlar o parque instalado, as configurações e as versões
de cada terminal; e integrar seus dados com os dos sistemas de informação
e gestão existentes
No nível estadual e federal, o sistema armazenará
uma cópia das informações de todos os municípios,
vai controlar o acesso às informações armazenadas,
se articular com sistemas de informação e de gestão
existentes e gerar relatórios gerenciais.
No final do ano 2000, quando se realizou a 11a Conferência,
a implantação do projeto piloto estava adiantada, com a aprovação,
produção e instalação dos equipamentos da primeira
fase; formatação dos aplicativos; término do cadastro
de usuários e cadastramento de profissionais; sensibilização
e treinamento dos profissionais de saúde, divulgação
e informação para a sociedade; integração com
os sistemas de informação de base nacional e elaboração
de um manual de uso.
- A expansão do sistema, explica Rosani, prevê
o cadastramento de toda a população em âmbito nacional.
Esta tarefa ficará a cargo dos estados e municípios, contando
com o apoio do IBGE e outras instituições. Serão desenvolvidas
novas funcionalidades para o sistema e incorporados novos municípios
ao projeto.
Modelo Assistencial e de Gestão
"RESPEITAR OS PRINCÍPIOS DO SUS
É RESPEITAR A CIDADANIA"
Caco Xavier
A moderna compreensão do que seja Saúde
a relaciona diretamente a diversos fatores determinantes da vida em comum,
como educação, condições sanitárias,
segurança, alimentação, moradia e muitos outros. Citando
a Lei 8080, artigo 3, que vincula a noção de saúde
à qualidade de vida, o professor Maurício Lima Barreto, do
Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, deu
um salto adiante ao dizer que "saúde depende da organização
da sociedade".
Segundo ele, é por essa razão que quando
falamos hoje em saúde nos defrontamos com uma incômoda dicotomia:
se por um lado enxergamos pontos positivos (progresso técnico e
aumento dos saberes) , por outro vemos que se acumulam fatores negativos
(reaparecimento de dengue e cólera, persistência da tuberculose
e da desnutrição, desigualdades, insatisfações).
"Explicar essa dubiedade é papel de todos nós", diz ele,
"é um desafio". Para ele não há uma explicação
única - nem mesmo unificada - e por isso parte para algumas explicações
parciais. Maurício listou seis pontos principais:
1. As limitações dos investimentos
no setor saúde limitam a expansão da rede assistencial.
2. As ações de saúde são
normalmente voltadas para a cura das doenças, tendo impacto reduzido
sobre seus padrões de ocorrência. Como exemplo Maurício
destaca o atendimento às doenças cardio-vasculares, que não
afetam os valores e hábitos sociais e individuais que causam essas
doenças.
3. Os serviços e ações de atenção
à saúde são em parte ineficazes ou mesmo associados
a efeitos danosos. O professor cita uma estatística dos EUA, onde
em torno de 100 mil óbitos tinham relação com efeitos
colaterais do próprio sistema de saúde.
4. A eqüidade. Os serviços de cuidado
à saúde alcançam menos aos que mais necessitam. "É
a lei do cuidado inverso", diz.
5. As desigualdades sociais geram desigualdades também
na saúde, e estas impedem melhorias nos níveis globais.
6. Os quadros epidemiológicos são bastante
demarcados entre `doenças da pobreza' e `doenças da riqueza'.
Segundo ele, o desemprego é um risco à saúde, assim
como a poluição das grandes cidades.
Após mencionar estas explicações
parciais, que segundo ele não são as únicas, mas talvez
as mais importantes, Maurício finaliza tornando ao ponto de partida,
esperando ter comprovado um conceito fundamental para nossos dias e nossa
sociedade:
- Na busca de uma sociedade saudável, os novos
modelos de atenção não são definidos apenas
por critérios médicos, mas principalmente pelos de uma comunidade
social e democraticamente justa.
Maria Luiza Jaegger, secretária de estado
da saúde do Rio Grande do Sul, é muito direta ao diagnosticar
o momento presente: "O que é preciso agora é vontade política
de fazer cumprir a legislação", diz. Segundo ela, a proposta
do SUS é uma proposta generosa em defesa da vida e da igualdade,
e que bate de frente com a política econômica do neo-liberalismo.
- O SUS não é dádiva de qualquer
governante, é direito do cidadão - adverte.
Em sua defesa do SUS, Maria Luiza lista alguns de
seus princípios fundamentais, afirmando que "respeitar os princípios
do SUS é respeitar a humanização, a cidadania":
1. Universalidade do acesso à assistência,
princípio contrário à exclusão social e à
pobreza.
2. Integralidade de atenção à
saúde, o que é muito mais do que assistência, já
que pensa no todo, "garantindo acesso à camisinha, à informação,
a alimentos sem agrotóxicos e muito mais".
3. Preservação da autonomia da pessoa,
"respeito ao direito de ser sujeito". A secretária lança
mão de um jogo de palavras pra explicar esse conceito. Diz ela:
- É o respeito ao direito de ser impaciente,
já que paciente é uma deformação do sujeito.
4. Participação social. Este princípio
reforça, amplia a democracia participativa, além da representativa.
Segundo Maria Luiza, a criação de conselhos gestores em todos
os serviços de saúde, com a participação da
população, é importantíssima, mantendo-se a
autonomia dos usuários.
5. Descentralização."Precisamos ter
direção única em cada esfera de governo", diz ela,
acrescentando que nem o Governo Federal nem estadual podem impor ações
aos municípios.
6. Integralização das ações
em direção à intersetorialidade. Maria Luiza acredita
que se faz necessário um pacto geral solidário na saúde,
um pacto de gestão, que vise a ampliar a formação
e a qualificação dos trabalhadores de saúde e prestadores
de serviço. "Isso é função do Estado", diz.
Finalizando, a secretária reafirmou a marca
registrada do SUS no Rio Grande do Sul, dizendo que "o SUS é legal"
e que deve ser uma construção coletiva e solidária.
Conceição Aparecida Rezende, da assessoria
parlamentar da Câmara dos Deputados, vê um grande dilema. Segundo
ela, a reforma política e administrativa que o SUS representa sofre
na prática uma contra-reforma, "pelo governo neo-liberal". Ela diz
que hoje apenas 30% dos R$ 22 bilhões destinados a princípio
foram descentralizados para os municípios. Conceição
acusa o projeto neo-liberal de ter desqualificado os trabalhadores da saúde,
e pede um modelo estratégico "respeitoso, digno, que considere todos
os atores do sistema". Ela aponta soluções:
- É preciso construir um processo imenso de
mobilização e de crença social, para pressionar os
governantes a no mínimo cumprir a lei. Assim, seremos mais humanos
e tratados com mais humanidade.
E por falar em humanização, esse é
o ponto-chave da questão da saúde, hoje, para Maria Betânia
Ávila, representante dos usuários: "Se se fala tanto em humanização,
é porque o desumano é uma condição maioritária",
reflete. Para ela, é preciso romper esse status de cidadania clássico
(cidadão
A delegação de Pernambuco, engrossada
por participantes de outros estados que iam também se achegando,
entrou no plenário para participar da mesa-redonda sobre Modelo
Assistencial e de Gestão embalada por violões e palmas, cantando
uma canção especialmente composta para a ocasião.
A entrada ruidosa contagiou delegados e debatedores, mostrando que a um
povo criativo e combativo não faltam maneiras de se expressar. "Falta
união", segundo eles, porque "esse povo tá sofrendo..."
FALTA UNIÃO
Autora: Vilma, de Recife (PE)
No país aonde eu moro / Tem
um povo que eu adoro / Mas tá morrendo de fome.
Pra completar a miséria / Tem
uma tal de Dívida Externa / Pra acabar com todo mundo.
Os problemas são demais / Venha
pra luta, rapaz!
Precisamos dar um jeito, / Diminuir
a desnutrição, / Acabar com a exploração
É o que tem que ser feito
(Mas esse povo tá sofrendo!)
Falta união / Falta união
/ Falta união
(Mas esse povo tá sofrendo!)
Nós somos a maioria / Que sofremos
todo dia / Pra poder ganhar o pão.
Viemos de todos os lados / Discutir
nossos estados / Dentro da Federação.
A Décima Primeira Conferência,
/ Ela tem a competência / Para o SUS agilizar.
(Mas esse povo tá sofrendo!)
Falta união...
A Vigilância Sanitária na Construção
da Cidadania
DESAFIO É ASSEGURAR DIREITOS COLETIVOS
Álvaro Nascimento
- A Reforma do Estado, tal como vem sendo realizada
no Brasil, pouco tem a ver com a construção da cidadania.
Cheia de siglas como PSF, Pacs, Siops, Anvisa, Anel, Anals, ANSSS, Anaps
e outras, ela cria estruturas que não se comunicam, fragmentam o
setor, envolvem custos operacionais e, pior, criam falsas expectativas
sobre o futuro. O capital agradece. A afirmação é
da pesquisadora Suely Rozenfeld (da Escola Nacional de Saúde Pública
da Fiocruz), que coordenou o debate "Vigilância Sanitária
na construção da cidadania".
Segundo ela, os eventuais benefícios que estas
iniciativas trazem para a construção do SUS só acontecem
graças à energia e ao idealismo das organizações,
das lideranças populares e de boa parte dos técnicos do setor:
- A falta de um Plano Nacional de Saúde não
é casual. Isso traduz a ausência de uma política estruturada,
que se explica pela simples razão que é da natureza do modelo
neoliberal que a política tenha essa cara fragmentada, desestruturada
e desestruturante. Entretanto, o conteúdo dos debates desta Conferência
mostra que a sociedade não aceita este modelo e permanece mobilizada
e atenta a todos os movimentos do Estado e dos podres poderes.
Suely Rozenfeld chamou a atenção para
o que chamou de "falsa unidade e falso consenso", identificando uma divisão
no chamado movimento sanitário, "onde alguns se contentam em pentear
os cabelos do diabo e outros continuam acreditando em mudanças reais
e profundas".
Ela ressaltou, por exemplo, "a necessidade de se
reconhecer que o estímulo aos genéricos não começou
agora, mas vem de 1993, ainda no Governo Itamar Franco, com Jamil Haddad
no Ministério da Saúde, assim como a Consulta Pública
sobre normas propostas pela Vigilância, instrumento dos mais legítimos
e estimulador da construção da cidadania, também é
anterior ao atual Governo".
Para Suely Rozenfeld, "se não vamos sair da
11a Conferência com um plano de saúde discutido e aprovado,
poderemos sair com um documento que tenha pelo menos uma lista de prioridades,
que nos dê condições de lutar para que tenha força
deliberativa".
Para Ediná Alves Costa (Professora do Instituto
de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia), o fato do sistema
de saúde brasileiro não ter dado a importância que
as questões de Vigilância Sanitária requerem, faz com
que até hoje elas ainda não sejam bem conhecidas tanto pela
população, como pelos profissionais de saúde e gestores,
sendo percebida apenas pela face antipática da ação
fiscalizadora que é um componente do espectro mais amplo de suas
ações:
- É relevante assinalar que ações
desse campo acompanham a história da humanidade e constituem a face
mais antiga da Saúde Pública. Isto porque desde os tempos
mais antigos as sociedades humanas perceberam que era preciso cuidar dos
elementos necessários à vida em coletividade, como a água
e o ambiente, os alimentos, os medicamentos e o exercício da medicina.
Para ela, a Vigilância Sanitária deve
ser entendida como uma ação de proteção da
saúde, entendida como objeto de responsabilidade pública:
- Há a responsabilidade dos agentes econômicos,
isto é, produtores, distribuidores e comerciantes que são
responsáveis pela qualidade dos bens e serviços e responsáveis
em fornecer informações fidedignas sobre eles. Há
a responsabilidade do Estado em fixar regras claras para todas as etapas
e processos que envolvam esses meios, levando em conta os interesses sanitários
da população e o seu direito à saúde.Por fim
há a responsabilidade dos cidadãos, que têm não
apenas seus direitos, mas também o dever de exigi-los e zelar por
eles, e o direito e o dever de participar e controlar o Sistema Único
de Saúde e o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, bem como
de outros espaços de organização da vida em coletividade.
Isto significa a defesa intransigente do direito a produtos e serviços
de qualidade, a defesa do meio ambiente ecologicamente equilibrado e da
proteção no ambiente de trabalho; e isto requer a exigência
da integralidade nas ações de saúde, o que vai além
da assistência médica e de ações de Vigilância.
Ao analisar a racionalidade do sistema produtivo,
ela fez um alerta para o discurso de que a concorrência é
capaz de assegurar a qualidade dos produtos:
- Qual é a lógica do sistema produtivo?
É produzir para o consumo, realizando o objetivo da produção,
que é gerar valor, lucro, acumulação de capital. Mas
o produtor sempre vai enfrentar as leis da concorrência e o próprio
sistema capitalista se encarrega de defender a concorrência, pois
a livre iniciativa é um dos princípios da ordem econômica
capitalista. Então o produtor tenta diminuir os custos da produção
e aumentar, sempre que puder, os preços dos seus bens colocados
no mercado de consumo, enquanto tenta ampliar o seu mercado.
Seguindo o raciocínio de Ediná Costa,
"esgotadas as possibilidades locais, o produtor vai para outros territórios,
valendo-se também de outras estratégias, tais como a diversificação
da produção". Ela citou a indústria farmacêutica,
que passou a produzir cosméticos, alimentos e certos produtos intermediários
atuais, os chamados nutrifármacos, como exemplo disso.
- Há, ainda, o aumento abusivo de preços
em mercados oligopolizados, tais como o de medicamentos. Vejam-se quantos
riscos à saúde podem ser gerados nesses processos.
Ao listar alguns tipos de risco à saúde,
ela alertou para a diminuição da qualidade da matéria
prima e até mesmo supressão de quantidades; diminuição
dos processos mais onerosos de controle de qualidade; diminuição
dos mecanismos de proteção do trabalhador no ambiente de
trabalho (além da baixa remuneração da força
de trabalho); diminuição dos mecanismos de proteção
do meio ambiente das externalidades negativas do processo de produção
e outros aspectos que dizem respeito à migração de
indústrias poluentes para países periféricos e de
industrialização de determinados produtos que já não
são aceitos ou são de uso restrito nos países-sede
do primeiro mundo, como ocorre com certos tipos de agrotóxicos que
ainda são usados no Brasil.
Em relação ao papel do Estado, Edná
Costa vê a necessidade urgente de se regular as atividade de publicidade,
"que podem ficar apenas por conta do mercado, particularmente no contexto
atual de mercados cada vez mais liberados e mundializados".
Para ela, não há dúvida que
a meta principal das atividades de publicidade e promoção
é estimular o consumo cada vez maior, sendo que na Saúde
Pública este tipo de lógica é inaceitável:
- O que se observa ao examinar os materiais informativos
oriundos da indústria farmacêutica, por exemplo, é
uma clara tendência a exagerar
benefícios e a reduzir os riscos. Já
há estudos mostrando as diferenças entre as bulas nos países
centrais e as bulas dos mesmos medicamentos nos países periféricos,
sendo menos cuidadosas nestes quanto às informações
sobre riscos, contra-indicações e efeitos colaterais. A estimativa
é de que as atividades de promoção e publicidade corresponde
a cerca de 30% dos custos dos medicamentos, ultrapassando em muito o que
se poderia gastar em atividades voltadas para o uso adequado desses insumos
de saúde. Esse excedente nos custos é pago por nós.
Para ela, na medida em que os mercados não
conseguem se auto-regular em atendimento às necessidades de saúde,
também não podem assegurar que os medicamentos e outras tecnologias
médicas sejam consumidos adequadamente. Assim, devido às
repercussões para a saúde e a magnitude dos custos sociais
provocados não apenas pela falta mas também pelo uso inadequado
dos medicamentos, torna-se urgente a redefinição de uma Política
de Vigilância Sanitária no que se refere às práticas
comerciais e do próprio setor saúde, com o objetivo de reduzir
o uso irracional das tecnologias médicas, incluindo os medicamentos:
- O Estado, as entidades de defesa dos interesses
públicos, os profissionais de saúde e os cidadãos
devem intervir nessa questão, para que se alcance as mudanças
necessárias na área da saúde.
Segundo Ediná Costa, a difícil tarefa
de conter a voracidade publicitária da indústria de bens
e produtos de interesse da saúde é tão importante,
que foi definida no Parágrafo 4.º do artigo 220 da Constituição
como um direito do cidadão e da família:
- Com base nesse mandamento constitucional, foi estabelecida
a Lei n.º 9.294 de 15 de julho de 1996, que dispõe sobre as
restrições ao uso e à propaganda de produtos fumígenos,
bebidas alcoólicas, medicamentos, terapias e agrotóxicos,
sendo regulamentada essa lei pelo Decreto n.º 2.018, de 1.º de
outubro de 1996. Além disso, o Código de Proteção
do Consumidor, também criado em atenção ao mandamento
constitucional que reconhece a vulnerabilidade do consumidor no mercado
de consumo, estabelece regras de informação ao consumidor
sobre os atributos, componentes e riscos dos produtos e serviços.
É com base nesse mandamento constitucional que estão sendo
envidados esforços para o controle da propaganda do cigarro.
Para Cláudio Maierovich, Diretor Adjunto da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a
melhor definição para o termo vigilância sanitária
foi a dada pela Professora Carmem Teixeira, da Universidade Federal da
Bahia, segunda a qual vigilância é "a combinação
de saberes e técnicas para resolver problemas e atender as necessidades
de saúde".
Ele inclui no que chamou de "modelo de atenção
e vigilância" a assistência à demanda (emergência),
a ação programática (a atenção organizada
através de programas), as vigilâncias epidemiológica,
sanitária e ambiental, o controle de zoonoses, educação,
defesa do consumidor e a comunicação. E defendeu que o Estado
assuma, na área, o pleno exercício do poder, sendo que no
caso da vigilância sanitária, assuma o poder de polícia.
Segundo Claudio Maierovich, o modelo integrado de
vigilância da saúde (que inclui promoção - proteção
- recuperação), é diretamente impactado tanto pela
forma de organização da sociedade como pelo modelo econômico
implantado, frisando que é no município, independente de
seu tamanho, a esfera real de gestão do sistema.
Ele criticou "as décadas de sucateamento"
que atingiram os laboratórios estaduais de controle da qualidade
(Lacens) e disse que só no ano 2000 a Anvisa repassou R$ 27 milhões
para que estas instituições se reequipassem e investissem
na melhoria da qualidade de seu trabalho:
- Não se pode negar que em dois anos a vigilância
sanitária tem avançado. Não é fruto único
da política de um Ministro ou de um Governo. O melhor exemplo disso
é a política de genéricos, que começou em 1993,
disse ele.
Ele concluiu afirmando que a vigilância é
necessariamente um trabalho de uma rede de atores sociais que inclui as
três esferas de governo.
Para Vidal Ferrano Nunes Júnior (Procurador
do Ministério Público de São Paulo, Diretor do Instituto
de Defesa do Consumidor e Professor de Direito Constitucional), "hoje no
Brasil há um enorme divórcio entre o texto constitucional
no que diz respeito à garantia de direitos e a realidade concreta
vivida pelos cidadãos no seu dia-a-dia". Segundo ele, o artigo 196
da Constituição (que assegura o direito à saúde),
o 198 (que garante assistência integral) e uma série de códigos
como o de defesa do consumidor e outros estatutos "formatam um arcabouço
jurídico fértil que simplesmente não é aplicado".
Ele se pergunta:
- Como trazer a Constituição para a
realidade se o Executivo não a cumpre e se os Tribunais de Justiça
têm dificuldade de incorporar os direitos difusos e coletivos como
direitos a serem assegurados com a mesma ótica dos direitos individuais?
E responde:
- O Ministério Público deve ser enxergado
pela sociedade como um advogado das causas coletivas. A Constitutição
de 1988 atribui garantias e uma série de poderes ao Ministério
Público justamente para defender estes chamados interesses difusos.
Entretanto, ele aponta uma série de dificuldades
no trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Ministério Público
nos últimos anos:
- Os tribunais têm sido generosos em decisões
que asseguram direitos individuais. Para se ter uma idéia, de cem
processos interpostos pelo Ministério Público em São
Paulo defendendo direitos individuais, obtivemos cem decisões favoráveis.
No entanto, nenhuma das ações coletivas obteve sucesso, muitas
vezes devido ao impacto orçamentário que uma decisão
favorável traria ou com a justificativa de que ações
coletivas não podem postular políticas públicas.
Vidal Ferrano explica que os Conselhos de Saúde
podem, por exemplo, impetrar ações, através do Ministério
Público, caso o gestor do SUS não implante as decisões
tomadas pelo próprio Conselho, o que na prática põe
por terra a lei arquitetada para que haja controle social sobre o sistema:
- Neste caso não seriam ações
coletivas, mas pela não observância de uma ordem administrativa,
já que por lei o gestor está subordinado ao Conselho.
Ele defende uma articulação constante
entre o Ministério Público e os conselhos de saúde,
chegando a propor uma alteração na legislação
que viabilize, inclusive, um assento para o Ministério Público
em cada conselho de saúde existente.
Mas para que a atuação do Ministério
Público seja eficaz, Vidal Ferrano vê como indispensável
uma mudança na postura dos tribunais superiores:
- Eles têm que avançar no entendimento
do que é direito coletivo. Em São Paulo, por exemplo, nenhum
posto de saúde cumpria com as normas mínimas fixadas pelo
Conselho de Medicina para ser considerado posto de emergência, assim
como nenhum deles realizava uma busca ativa de casos de tuberculose, o
que trazia como conseqüência o aumento do número de casos
e até mortes. Impetramos duas ações e ambas conseguiram
liminares favoráveis em primeira instância para que estes
postos alterassem sua estrutura e seu funcionamento. Mas as liminares acabaram
cassadas pelos tribunais superiores.
Reforma do Estado e Novas Formas de Organização
AGÊNCIAS REGULADORAS NO CENTRO DA POLÊMICA
Caco Xavier
O assunto está na pauta do dia, as polêmicas
se desdobram e as ações relativas à reforma do Estado
- que impõem conseqüências decisivas ao setor saúde
- estão acontecendo diante dos olhos de todos. Era esperado, portanto,
que um painel sobre o tema despertasse a atenção especial
dos delegados da 11a CNS e servisse de palco para a manifestação
de opiniões bem divergentes entre si. O painel, conduzido por Gonzalo
Vecina, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(ANVISA) do Ministério da Saúde, revelou-se mais um espaço
para tomada de posições políticas (acerca do papel
do Estado e das modificações que vêm sendo introduzidas
nesses últimos anos) do que propriamente um debate de idéias.
Ceres Alves Prates, secretária de Gestão
do Ministério do Planejamento, afirma que temos que "re-significar
o que é Reforma do Estado". Para ela, não se trata de reforma
administrativa e nem fiscal: "Os Estados estão sendo reformados
porque existe um consenso no mundo..." ("O Consenso de Washington!", interrompe
uma voz da platéia, arrancando aplausos). Ceres explica que o mundo
inteiro tem que lidar com desigualdades, e que por isso é preciso
construir um novo padrão de receita fiscal. Segundo ela, o que se
discute hoje não é exatamente uma Reforma do Estado e nem
do aparelho do Estado, mas uma reforma gerencial do Executivo. Ela tenta
esclarecer o que está acontecendo:
- Busca-se novos modelos organizacionais. No fundo,
isso tem por objetivo voltar a ter autonomia administrativa e gerencial,
retomando o que eram as autarquias e fundações do passado.
Ceres explica que as agências reguladoras se
fazem necessárias porque há a obrigação de
regular o mercado que está surgindo. Ela informa que existem seis
agências em funcionamento e duas sendo discutidas no Congresso. Segundo
ela, essas agências são desenhadas como organizações
fortes, com maior flexibilidade e autonomia gerencial do que qualquer instituição
pública existente hoje, e ainda com forte controle de metas. Naturalmente,
há também uma maior autonomia em recursos humanos.
"Por que estamos fazendo isso?", ela se pergunta
e responde: "Porque as instituições foram enrijecidas por
organizações burocráticas". Segundo ela, as agências
brasileiras são construídas da mesma maneira que em outros
países: o Congresso tem o papel de controlar e fiscalizar, e as
agências têm contrato de gestão com os ministérios.
Nada é feito sem controle.
- O caminho trilhado é um caminho de maior
flexibilidade e autonomia aos gestores, para maiores resultados, com controle
social - diz ela.
O professor Nilson do Rosario Costa, da Ensp/Fiocruz,
diz que houve uma crise de legitimidade do Estado, e que a partir daí
surgiram elementos novos para se pensar o local do Estado na sociedade,
inclusive novas expressões que nem existem em nossa tradição
lingüística, como empowerment e outras. Nilson reflete acerca
da democracia:
- Democracia não é uma linha reta,
ela gera incertezas. Não é um regime político totalmente
virtuoso. Os agentes não decidem livremente em relação
às suas escolhas políticas.
Para ele, o setor saúde é herdeiro
direto da percepção de descentralização. "Temos
uma percepção de que o que é local é sempre
bom, é virtuoso", diz, "mas não nos perguntamos se é
assim mesmo".
Nilson diz que todos os países fizeram reformas
("a Itália recuou à centralização", lembra)
e citou o exemplo da área da telefonia, onde o último país
a ter telefonia estatal vertical foi o Brasil. "É possível
voltar cinco anos atrás?", ele pergunta, e assegura que a Reforma
do Estado acontece e é adotada no Brasil porque não conseguimos
discuti-la nem colocar na agenda pública com vigor, como deveria
ser. "Não estou julgando se isso é um pecado ou uma virtude",
diz ele, acrescentando que "não temos debates sobre as conseqüências
da Reforma para a sociedade brasileira". Nilson finaliza:
-
Os países que fizeram reformas as fizeram a partir
de um extenso debate público, onde todas as correntes de pensamento
entraram no tema. Como estamos fazendo, de uma forma difusa e por baixo
dos panos, pode ser terrível para o país.
-
A AGÊNCIA EM FUNCIONAMENTO
Um exemplo de agência já instalada e funcionando
é apresentado com riquezas de detalhes por Januário Montone,
diretor da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANSS). Algumas
de suas características são:
-
Intervenção direta na atividade econômica
-
Poder regulador definido em lei: regular, controlar,
fiscalizar, punir.
-
Autonomia administrativa: no mandato dos dirigentes,
na flexibilidade dos instrumentos de gestão (estrutural, organizacional,
recursos humanos).
-
Autonomia financeira: taxa específica diretamente
arrecadada.
Segundo Januário, os desafios do modelo são:
1. Proliferação indiscriminada da proposta
de Agências Reguladoras, que são entes específicos.
Januário acredita que muito do que se discute hoje seriam mais agências
executivas do que reguladoras.
2. Modelo decisório. Haveria que se sanear
os conflitos entre os níveis de atuação, definindo-se
assim:
Legislativo: responsabilidades reguladoras/normativas,
decisão colegiada.
Executivo: responsabilidades executivas-gerenciais.
Judiciário: instância (colegiada) de
julgamento administrativo.
3. Controle Governamental. Os ministérios
ainda se preparam para controlar essas agências. O Contrato de gestão
deve ser um instrumento de efetividade e os órgãos de controle
devem ter ações mais especializadas.
4. Controle Social. Segundo Januário, não
temos tradição, mas precisamos avançar e construir
um sistema de controle social, que dê conta da aprovação
dos dirigentes, de comissões especiais e do acompanhamento do contrato
de gestão.
5. Interface com o Judiciário. Deve haver
um reconhecimento do poder regulador, em instâncias especializadas.
Para Luiz Alberto dos Santos, da Associação
Nacional de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão
Governamental/ANESP e autor do livro Agendificação, Publicização,
Contratualização e Controle Social, o mero discurso da competência
e eficiência não garante políticas públicas:
"Ditaduras também são `capazes' e `eficientes', porém
não são voltadas para o interesse da sociedade", diz ele.
Luiz Alberto lembra ainda que o poder Executivo no
Brasil sempre foi centralizador, e que o Legislativo jamais exerceu seu
controle. "Em nosso país, um Estado jamais se profissionalizou ou
se democratizou para servir não ao governante, mas à sociedade",
diz. Para ele, o conceito das Agências é um retorno a uma
visão clientelista e permeável a grupos de poder. E propõe:
- Vamos esquecer o que foi feito nos últimos
cinco anos e retomar de onde paramos!
USUÁRIOS EM CLIENTES
A participação da platéia foi intensa
e provocativa, neste debate. Após algumas intervenções,
os debatedores apresentavam a réplica. Eis algumas intervenções
que representavam de certa forma o pensamento geral da assistência:
Luiz Pereira, PE: Transformaram os usuários
em clientes. No metrô, a única coisa que se privatizou foi
a catraca. Isso não tem nada de modernidade, pelo contrário,
é o que há de mais antigo no capitalismo. É a criação
de um Quarto Poder. Quem regula as agências reguladoras? O Judiciário
virou consultoria do Executivo. Não somos recursos humanos, somos
seres humanos em busca de relações de trabalho.
José Alberto, SP: Melhor que uma Agência
Reguladora, só mesmo uma Medida Provisória. É uma
estrutura que não pertence ao Estado propriamente dito e não
tem nenhum controle social.
Aloísio, MG: Agências executivas não
são mais do que o controle do particular sobre o Estado, sendo que
este particular, muitas vezes, vive do dinheiro do Estado.
Nilson do Rosário replicou:
- Os países democráticos que efetuaram
reformas tiveram avanços. Temos que transcender um pouco o conservadorismo.
Mas as críticas do plenário são substantivas: as Agências
têm que apresentar suas estratégias de maneira clara, porque
a sociedade não tem a menor informação. Temos que
colocar demandas às Agências, e elas têm que ter o contrato
publicizado, informar à sociedade suas funções, e
ser avaliadas se são necessárias ou não. Por outro
lado, é um modelo avançado de regular o setor privado. O
setor de Seguros de Saúde está em pânico em relação
à existência das Agências.
Por fim, Luiz Alberto:
- Fala-se no Consenso de Washington como se fosse
um mito, mas vejam o que foi sugerido em novembro de 1989, em reunião
organizada para discutir políticas para a América Latina
(lendo um trecho de seu livro): "1) Controle do déficit fiscal;
2) Cortes de gastos públicos; 3)Reforma tributária; 4) Administração
das taxas de juros; 5) Administração da taxa de câmbio;
6)Política comercial de abertura do mercado e liberação
de importações; 7) Liberdade para entrada de investimentos
externos; 8) Privatização das empresas estatais; 9) Desregulamentação
da economia, inclusive normas trabalhistas; 10) Garantia dos direitos de
propriedade, inclusive industrial e intelectual". Se alguém notar
alguma semelhança com o que aconteceu em nosso país de cinco
anos pra cá...
Reorientação do Modelo de Atenção
"A ALMA DOS SERVIÇOS DE SAÚDE É
O ATO DE CUIDAR"
Caco Xavier
"Discutir modelos de atenção é
ter que encarar uma idéia muito complexa", se apressa a dizer o
professor Emerson Merhy, da Universidade de Campinas (UNICAMP). Para ele,
esta discussão se baseia na possibilidade de pelo menos três
grandes `atores', dentro do sistema de saúde, produzirem contratualidades.
O professor define o modelo de atenção como a expressão
de contratos entre os principais atores implicados e interessados nele.
"Não é uma discussão restrita à construção
de um ou outro programa de políticas públicas", faz questão
de frisar.
Os três atores citados por Emerson Merhy são
os usuários (com suas necessidades), os trabalhadores (com suas
tecnologias) e os gestores (com sua capacidade de governar os recursos
necessários). Ele acrescenta: "Encarar o tema do modelo de atenção
é encarar o processo de produção de uma política
através da construção de um espaço público
onde esses três atores operam a partir de seus territórios,
contratualizando a produção desse mesmo modelo". Segundo
ele, os processos organizacionais e de trabalho que estejam comprometidos
com a produção dos `atos de cuidar' (do coletivo, do indivíduo,
do social, dos meios, coisas e lugares) serão sempre uma tarefa
tecnológica, de saber-fazer.
As relações de contrato, porém,
são o que se deve ter em mente quando se pensa em modelos de atenção
à saúde, para Emerson, mesmo que esses acordos nem sempre
sejam conhecidos ou falados. E ele levanta uma nova questão:
- Estamos o tempo todo trabalhando com necessidades
de boas condições de vida (tradicionalmente: moradia, transporte,
lazer, meio-ambiente), mas o que se faz presente hoje é a necessidade
de se pensar processos de inclusão. Sem a perspectiva de inclusão,
nada dá conta de resolver os processos vividos.
Outra coisa importante e que deve-se levar em conta,
segundo Emerson, é a determinante condição do trabalhador
da saúde como usuário do próprio sistema. "Um fabricante
de automóvel pode não ser um usuário, pode escolher
não ter um carro", diz ele, "mas nós, no processo produtivo,
não podemos jamais deixar de ser usuários, também".
Para ele, isso tem implicação sobre os trabalhadores e sobre
os gestores, já que operam sobre um objeto do qual também
fazem parte, em sua composição.
Os gestores, para Emerson, laboram atualmente sobre
seis grandes eixos temáticos para que o modelo da atenção
cumpra sua função, sendo que cada um desses é um lugar
"de alta complexidade": Financiamento; Acesso; Publicização;
Construção de Novas Tecnologias; Eqüidade; Sustentabilidade
do Projeto. Contudo, há algo que não deve ser perdido de
vista por um minuto sequer, seja pelos gestores, seja pelos trabalhadores
da saúde:
- A alma dos serviços de saúde é
o ato de cuidar, operar com saberes e práticas a produção
dos cuidados individuais e coletivos - afirma.
O MODELO DA "VIGILÂNCIA EM SAÚDE"
O secretário municipal de saúde de Vitória
da Conquista, BA, José Jorge Solla, vê os modelos assistenciais
segundo a excelente definição do professor Jairnilson Paim,
para quem estes são "combinações tecnológicas
estruturadas para enfrentamento dos problemas de saúde individuais
e coletivos em determinados espaços da população".
Solla inclui aí aspectos e espaços diversos de intervenção,
como ambiente, grupos populacionais, equipamentos e outros.
Ele diz que até pouco tempo atrás havia
dois modelos básicos de atenção (e ainda há),
de certa forma contrapostos: um que ele denominou `Modelo Hegemônico',
onde o sujeito é basicamente o médico (o especialista), o
objeto de intervenção é a doença, a pessoa
doente, e a forma de organização dessa intervenção
é a rede de serviços (onde o hospital é o espaço
privilegiado); e um `Modelo Sanitarista', onde o foco do sujeito se transfere
para o sanitarista e auxiliares, o objeto de intervenção
são os modos de transmissão da doença e fatores de
risco e a organização dessa intervenção acontece
na forma de campanhas, monitoramento e vigilância sanitária
e epidemiológica.
No entanto, Jorge Sollas aponta para o aparecimento
de um terceiro modelo, chamado de `Vigilância em Saúde', que
tenta uma síntese dos dois anteriores e ao mesmo tempo os ultrapassa.
Agora, o sujeito passa a ser os sujeitos, o conjunto de profissionais com
conhecimentos e técnicas diversicadas, e mais a população.
O objeto de trabalho engloba todo o conjunto de danos, riscos, necessidades
e determinantes das condições de vida e saúde. E os
meios de trabalho e possibilidades tecnológicas são múltiplos
e amplos, abrangendo desde as tradicionais tecnologias médicas até
as tecnologias de comunicação social, planejamento, situacional
e outras.
- A proposta de Vigilância em Saúde
busca os princípios e diretrizes estabelecidos na construção
do SUS: eqüidade, integralidade da atenção, descentralização,
participação popular e intersetorialidade - diz o secretário
de Vitória da Conquista, acrescentando que esta proposta deve ser
encarada como redefinição de práticas.
Para que isso de fato aconteça, Solla tem
em mente três conceitos-chave. Em primeiro lugar é preciso
considerar os territórios, os espaços sociais onde as pessoas
vivem, trabalham e se relacionam. Em segundo lugar, deve-se entender o
que significa a palavra problema. "É preciso identificar os problemas",
diz ele, "porque esses problemas vão definir uma diferença
entre a realidade que você deseja ver viabilizada e a realidade constatada".
E, por fim, é preciso assumir uma responsabilidade sanitária,
que se concretiza numa nova relação entre serviços
de saúde e a população. "É a construção
de um vínculo", afirma.
ESTRATÉGIAS E DIFICULDADES
Jorge Solla lista as estratégias de ações
prioritárias para a reorganização do modelo, inspirando-se
no modelo de atenção à saúde da família,
mas sem ficar limitada a ela:
1. A atenção básica tem que
ter um nível de resolutividade alta, evitando assim que o paciente
precise necessariamente utilizar recursos em outros níveis de atenção.
2. Fortalecimento e descentralização
das ações de vigilância (sanitária, epidemiológica,
ambiental, combate à desnutrição, controle de endemias
e zoonoses).
3. Articulação com os demais níveis
de atenção.
4. Ampliação das ações
de educação e comunicação social em saúde.
Para ele, um ponto crucial a ser considerado é
que o atual modelo de rede de serviços não foi construído
como base numa lógica de necessidades, mas sim em outras lógicas.
"As redes foram construídas para vender serviços de saúde,
um conjunto de serviços que não é coerente com as
necessidades da população", diz o secretário. Por
isso, segundo ele, é necessário implementar a oferta pública,
a atenção especializada hospitalar, principalmente na ponta
mais lucrativa do sistema, que foi toda gerada e construída para
a ocupação da atenção privada. "Precisamos
incorporar esses serviços na rede", diz, para logo em seguida lembrar
que não adianta ampliar a oferta se não houver um uso racional
delas, em função das necessidades reais. Ele denuncia:
- Há hoje em dia uma série de procedimentos
utilizados sem critério, e tecnologias incorporadas sem eficácia
comprovada.
Solla também fala a respeito dos hospitais,
preconizando uma mudança de seu papel no sistema de saúde.
Para ele, o hospital é fundamental e imprescindível no sistema,
mas a forma como ele vem sendo incorporado no SUS distorce completamente
sua finalidade.
Finalmente, para que tudo isso aconteça, Jorge
Solla destaca alguns problemas que precisam ser solucionados, e que vêm
tornando muito difícil a tarefa de reorganização do
modelo:
1. Financiamento insuficiente. Para ele, os investimentos
no setor são tímidos para proporcionar as ações
necessárias.
2. Privilégio do espaço hospitalar.
Os hospitais têm sido o centro de atenção dos investimentos,
em detrimento da atenção básica.
3. Pressões corporativas empresariais, que
estão, segundo ele, "na contramão de nossas perspectivas
de mudanças".
4. Pressões profissionais. Ele diz que nesta
Conferência, e também na passada, a posição
central das entidades médicas de forma nenhuma se aproximaram desta
reorganização proposta e idealizada.
5. Resistências políticas, tanto das
lideranças partidárias e gestores, como até do próprio
senso comum. Solla finaliza com uma convocação:
- Nós mesmos, profissionais de saúde,
contribuímos para isso, para a construção do senso
comum que pensa que atenção à saúde é
médico, ambulância, hospital, remédios e nada mais.
Agora vamos ter que trabalhar num processo de construção
de um novo senso comum para a sociedade.
80 MOÇÕES ENCAMINHADAS PARA VOTAÇÃO
A 11a Conferência Nacional de Saúde
recebeu, ao todo, 80 moções para serem votadas. Conforme
o regimento interno da Conferência, não foram consideradas
as moções que continham menos de 250 assinaturas de delegados,
e também não foram encaminhadas para votação
aquelas consideradas de caráter municipal, estadual ou regional.
Com relação aos temas, as moções estavam divididas
em 15 blocos (abaixo).
Eis os resumos de algumas moções aprovadas:
MOÇÃO 2 - Reconhecimento do Conselho
Nacional de Saúde como instância que tem a atribuição
de avaliar a necessidade social da abertura de novos cursos na área
da saúde e novas vagas nas escolas já existentes.
MOÇÃO 12 - Os hospitais universitários
devem se integrar e serem reconhecidos como parceiros estratégicos
do SUS, o que requer o financiamento de seus recursos humanos e abertura
imediata de concursos para reposição de quadros. Devem ser
assumidos integralmente pelo poder público; devem evitar a captação
de recursos privados e devem se submeter a controle social.
MOÇÃO 15 - Pela instalação
de CPI para investigar os planos privados de saúde, conforme proposta
já protocolada na Câmara Federal com a adesão da maioria
dos Deputados.
MOÇÃO 16 - Que os planos privados de
saúde passem a atender os dependentes químicos, hoje excluídos
da cobertura.
MOÇÃO 29 - Pela implementação
de programas e ações que assegurem a melhoria e a humanização
da saúde indígena.
MOÇÃO 30 - Garantia de repasse do orçamento
e financiamento para a saúde indígena, discutido de forma
participativa com a população indígena, a fim de implementar
distritos sanitários especiais que beneficiarão cerca de
350 mil pessoas, número estimado da população indígena
do país.
MOÇÃO 31 - Pela efetivação
de uma política de assistência farmacêutica inserida
no âmbito do SUS. Pela aprovação do substitutivo Ivan
Valente ao PL 4385/94, de autoria da Senadora Marluce Pinto, reiterando
recomendação do relatório da CPI dos Medicamentos,
no sentido de assegurar acesso universal aos medicamentos.
MOÇÃO 36 - Pela retomada dos instrumentos
de financiamento para o setor de abastecimento de água e saneamento,
com suspensão imediata do processo de privatização
das empresas públicas.
MOÇÃO 40 - Pela criação
de uma Rede Nacional de Comunicação em Saúde, que
integre os Conselhos de Saúde. Pelo financiamento, com recursos
do SUS, de ações e projetos de comunicação
em saúde desenvolvidos por conselhos e entidades da sociedade civil
organizada.
MOÇÃO 42 - Inserção da
comunicação comunitária na política de comunicação
social do Ministério da Saúde.
MOÇÃO 47 - Pela proposta de projeto
de lei que estabeleça a destinação de 50% dos recursos
do seguro de acidente de trabalho para compor o orçamento do SUS
e financiar ações de saúde do trabalhador.
MOÇÃO 50 - Pela capacitação
de peritos responsáveis pela perícia em portadores de transtornos
mentais.
MOÇÃO 53 - Pelo cumprimento da legislação
sanitária, retirando do mercado produtos que contenham ingredientes
transgênicos. Pela não liberação dos alimentos
transgênicos até que seus efeitos sobre a saúde e o
impacto sobre o meio ambiente estejam cientificamente comprovados.
MOÇÃO 56 (junta seis moções
afins) - Prevenção, controle e assistência de DSTs/Aids:
fortalecimento da política de acesso universal a medicamentos, com
produção nacional e garantia de qualidade; financiamento,
pelos três níveis de governo, de ações de prevenção
de DSTs/Aids; recursos para manutenção dos projetos de ONGs
e sociedade civil; garantia de continuidade das ações de
prevenção e tratamento, especialmente dirigidas às
mulheres; obrigatoriedade das CIPAS promoverem campanhas de prevenção
nos locais de trabalho com recursos do empregador; classificação
do preservativo masculino e feminino como ítens da cesta básica.
MOÇÃO 64 - Pela implementação
de uma política integral de atenção à saúde
do idoso.
MOÇÃO 67 - Repúdio ao não
reconhecimento do racismo enquanto um determinante das condições
de vida da população negra.
MOÇÃO 71 - Que a reformulação
do Código Penal Brasileiro enquadre como crime hediondo o gestor
e prestador de serviço público e privado que desviar ou malversar
recursos do SUS.
| Controle Social |
10 |
| Financiamento/Gestão |
4 |
| Planos Privados de Saúde |
2 |
| Recursos Humanos e Profissões |
9 |
| Violência/Sistema Prisional |
3 |
| Saúde Indígena |
2 |
| Medicamentos |
4 |
| Saneamento e Meio Ambiente |
5 |
| Comunicação
e Saúde |
3 |
| Saúde e Trabalho |
3 |
| Saúde Mental |
2 |
| Vigilância Sanitária |
4 |
| Programas/Patologias/Deficiências |
12 |
| Saúde da População
Negra |
1 |
| Caráter Geral |
13 |
TEMA é um órgão oficial da Fundação
Oswaldo Cruz, editado pelo Programa Radis (Reunião, Análise
e Difusão de Informações sobre Saúde), desenvolvido
pela Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp).
Periodicidade: Semestral; Tiragem: 50 mil exemplares;
Distribuição: Correios; Assinatura: Grátis, em conjunto
com a DADOS, SÚMULA e o JORNAL DO RADIS. Presidente da Fiocruz:
Paulo Marchiori Buss; Diretor da Ensp: Odir Clécio Roque da Cruz;
Coordenador e Editor do Radis: Álvaro Nascimento; Redação:
Alvaro Nascimento, Caco Xavier e Rogério Lannes; Programação
Visual, ilustrações e Editoração Eletrônica:
Caco; Informática: Valéria Monteiro; Fotos: Caco Xavier e
Álvaro Nascimento; Administração: Teresa Oliveira,
Luiz Otávio Gonçalves e Carlos Teixeira.
Agradecimentos especiais a Tania Nunes, Leda Oliveira
e Milta Torrez pelo apoio durante a cobertura da XI Conferência Navcional
de Saúde.
Programa Radis: Av. Brasil, 4036, sala 515 - CEP 21040-361
- Rio de Janeiro (RJ) - Brasil. Telefax (021)260.7979 - E-mail: radis@ensp.fiocruz.br.

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