UNIVERSIDADE DE SÃO
PAULO
MEDICINA:
REPRESENTAÇÕES DE ESTUDANTES SOBRE A PROFISSÃO
ORIENTADOR:Prof.
Dr. FERNANDO LEFÈVRE
São
Paulo
2002.
RESUMO
O
trabalho Medicina – representações sociais de estudantes
sobre a profissão – é um estudo sociológico que objetiva
investigar, no espaço simbólico de grupos de estudantes de
medicina, as representações sociais que conformam as maneiras
pelas quais a profissão é percebida e sentida e os significados
que orientam as disposições desses grupos para a ação
no campo profissional. Pretende contribuir para a formulação
de propostas deaperfeiçoamento
do ensino médico que levem em conta o conhecimento da subjetividade
do estudante como objeto da formação profissional.
Situa
historicamente a constituição da medicina como profissão
e as suas formas de inserção no mercado de trabalho no Brasil,
bem como a evolução do ensino médico, seus impasses
e propostas atuais de reformulação.
Desenvolve-se
a partir de material empírico obtido através de questionários
respondidos por 162 estudantes de medicina de duas instituições
de ensino superior da Capital e da Grande São Paulo. Utiliza-se
de categorias de análise criadas a partir da estratégia metodológica
do Discurso do Sujeito Coletivo, que se constitui na recuperação
da fala coletiva através da desparticularização de
discursos individuais. Resulta na construção deDiscursos
do Sujeito Coletivo, cujos temas centrais são a vocação,
a ajuda ao próximo, o desafio de curar e salvar vidas e o relacionamento
humano com o paciente. Analisa aspectos de conservação e
transformação dessas representações e o contraste
entre elas e a realidade do exercício da profissão hoje no
Brasil.
SUMMARY
This
work Medicina – social representations on the profession by students –
is a sociologic study that aims to investigate, in the symbolic realm of
medical school student groups, the social representations that conform
the ways the profession is perceived and felt and the meanings that guide
the dispositions of such groups to act in the professional field. It intends
to contribute to the presentation of proposals for the of improvement of
the medical learning that take into account the knowledge of the student
subjectivity as an object of the professional formation.
It
places historically the medicine constitution as a profession and its forms
of insertion in the Brazilian work market, as well as the evolution of
the medical teaching, its stalemates and current proposals of reformulation.
It
develops from the empirical material obtained through forms answered by
1 62 medical students from two institutions of higher learning from the
Capital and The Greater São Paulo. It utilizes categories of analysis
created from a methodological strategy of the Collective Subject Discourse,
which is constituted by the recovery of the collective speech through the
de-individualization of individual speeches. It results in the construction
of the Collective Subject Discourse, whose central themes are the inclination,
the help to neighbors, the challenge to heal and save lives and the human
relationship with the patient. It analyses aspects of the conservation
and transformation of these representations and the contrast between them
and the reality of the professional practice in Brazil today.
INTRODUÇÃO
A
educação médica tem sido tema de muitos estudos nas
últimas décadas em toda a América Latina. No Brasil,
desde 1991 entidades representativas da categoria médica, de docentes
do ensino superior e de estudantes universitários vêm se reunindo
para avaliar currículos de cursos de medicina e propostas de reformulação.
O debate é alimentado pela necessidade de atender às novas
demandas sociais atuais na área da saúde e mais especificamente
na da assistência médica.
Este
estudo, que sistematiza uma experiência de investigação
da subjetividade do estudante de medicina, é uma contribuição
ao processo de renovação do ensino. Relaciona-se a um dos
componentes da propostada Comissão
Interinstitucional de Ensino Médico, que estabelece como diretriz
do ensino o entendimento do aluno como sujeito do processo de construção
de sua autonomia.
Atender
a essa diretriz envolve, além novos materiais didáticos e
novos espaços de ensino, o conhecimento de quem é o aluno
que se quer educar, através de investigação de conceitos,
preconceitos e fantasias sobre a profissão com as quais o aluno
ingressa na universidade, situando-as no campo simbólico da profissão
médica.
O
estudo se baseia na Teoria das Representações Sociais e nas
formulações sociológicas de Bourdieu. A investigação
das representações sociais de estudantes de medicina sobre
a profissão nos remete a dois temas interligados:
Primeiro,
a história da constituição da medicina como profissão
moderna e a realidade atual da profissão médica no Brasil,
pois o conhecimento das mudanças que se processaram na forma de
atuar e na inserção do médico no mercado de trabalho
é importante suporte para a discussão das concepções
de alunos sobre a profissão que escolheram.
Segundo,
a situação da educação médica e das
propostas de sua reformulação, na expectativa de contribuir
para elucidar um aspecto da educação médica, o manejo
das concepções que o aluno traz para o curso no sentido de
integrá-los no processo como sujeitos de sua formação.
As
representações sociais, que são entidades sociais,
precisam ser descritas, explicitadas, apresentadas sob alguma forma, tendo
como base o material empírico dos pensamentos individuais. Para
a captação das representações sociais, é
utilizada a estratégia metodológica do Discurso do Sujeito
Coletivo, uma modalidade de apresentação de resultados de
pesquisas qualitativas na forma de discursos-síntese escritos na
primeira pessoa do singular, expediente que visa expressar o pensamento
de uma coletividade, como se esta coletividade fosse o emissor de um discurso.
A
pesquisa foi realizada na Universidade de Mogi das Cruzes e na Faculdade
de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de
São Paulo, constituindo-se num estudo comparativo das representações
sociais de alunos de primeiro e de quinto anos das duas instituições
de ensino.
Revelou
a presença de valores próprios de uma visão artesanal
da atividade médica, no universo simbólico dos sujeitos.
Valores que se contrapõem ao assalariamento massivo dos médicos,
ao aumento expressivo do número de profissionais formados nas últimas
décadas e as conseqüências do progresso tecnológico,
como a multiplicação das especialidades e a necessidade do
médico se adaptar o trabalho grupal.
A
análise da presença desses valores tradicionais nas representações
sociais dos alunos, não só ingressantes no curso como também
os dos últimos anos, conclui pela possibilidade de tomá-las
como objeto de conhecimento no meio acadêmico e como instrumento
educativo no processo de formação do médico.
1.1.
A MEDICINA COMO PROFISSÃO
A
existência de um corpo esotérico de conhecimentos e a orientação
de um ideal de serviço são considerados consensualmente pelos
principais teóricos da área como atributos para se definir
profissão. Nessa perspectiva, entende-se como profissões,
por exemplo, a medicina, a advocacia, a engenharia, o clero e o professor
universitário. São consideradas semiprofissões as
exercidas por farmacêuticos e enfermeiros, nas quais inexiste, além
de um corpo de conhecimento específico, um mercado de trabalho inviolável.
Existem também as profissões que ainda não adquiriram
status e perfil bem definidos e que são consideradas apenas como
categorias em processo de profissionalização, como a sociologia,
a psicologia e as ciências da computação. A possibilidade
de negociar com uma clientela específica é fator fundamental
para definir o verdadeiro profissional (MACHADO 1995).
A
uniformidade e a coesão de um grupo profissional dependem da adesão
de seus membros ao seu sistema de valores. Embora essa adesão ocorra
também espontaneamente, é reforçada pelas organizações
profissionais formais, que se encarregam de garanti-la por meio do controle
das ações com base nos códigos éticos, prevenindo
os desvios de comportamento através de sansões legais. A
medicina possui os principais atributos das profissões nobres ou
tradicionais: "O monopólio de uma área específica
de atividade, a partir de prolongada formação intelectual,
um sistema particular de valores que legitima e sustenta padrões
de comportamento, em cujo núcleo se encontram o ideal de serviço
e o ideal de autonomia" (DONNANGELO 1972, pg. 141).
A
prática médica moderna, assim como ocorreu com as demais
práticas sociais pré-capitalistas, constituiu-se pela uniformização
e unificação de diferentes trabalhos de mesma finalidade
social existentes no período anterior. Uma grande diversidade de
práticas "curadoras" ou "artes de curar" existentes até o
final do século XVIII, baseadas em diferentes explicações
sobre as doenças, foram unificadas na prática médica,
conferida exclusivamente ao médico, com uma forma de saber também
unificada, a ciência das doenças, ministrada pela escola médica.
Outras
profissões passaram por esse processo de unificação
e uniformização dos trabalhos com a mesma finalidade social,
seguida da segmentação do processo de produção
e da conseqüente perda do controle da execução dos trabalhos
pelo trabalhador, que passa a obedecer a um comando exterior. Ao mesmo
tempo, com a produção do conhecimento científico sobre
os objetos de trabalho, separa-se a atividade manual da intelectual, perdendo
assim o trabalhador o domínio do saber que fundamenta seu trabalho.
O conjunto desses processos tem como resultado a destruição
da arte de ofício.
No
caso da medicina, porém, essa divisão não acontece.
Manteve-se para os médicos o monopólio da prática
médica, com a incorporação do monopólio do
saber, do conhecimento das ciências médicas. O saber, desenvolvido
pelas novas ciências como a Anatomia, a Fisiologia, a Patologia,
etc., separou-se do saber fazer. Este ficou com a medicina moderna, que
resgatou instrumentos que já existiam antes, como a anamnese, conectou
historicamente os aspectos da prática liberal com os de técnica
moderna e assim conservou, durante todo o século XIX e as primeiras
décadas do XX, a forma "artesanal" de produção de
serviços. Passa a se apresentar como "uma arte que não se
ensina e, sobretudo, não se reparte, porque não terá
jamais, e por essência técnica, caráter universal"
(SCHRAIBER, 1993, p. 193). Esse sincretismo reforçou o prestígio
e o valor social da medicina.
As
inovações científicas foram gradativamente incorporadas
à prática médica, não sem resistências.
Na Inglaterra, ao longo do século XIX, os físicos enfatizavam
a "primazia da arte clínica sobre os aportes científicos,
a precedência do componente de indeterminação sobre
o elemento técnico nos procedimentos terapêuticos. Os fenômenos
clínicos seriam quase indefiníveis, susceptíveis de
serem apreendidos apenas por uma cultivada 'mens médica' (dos físicos,
obviamente) operando zelosamente ao lado da cama do paciente" (COELHO 1995
P. 41).
À
medida que se intensificava o avanço científico para atender
à exigência imposta pelo sistema capitalista de intervenção
em escala mais ampla nas questões de saúde, a medicina passava
a incorporar na sua prática, cada vez mais, os conhecimentos das
ciências biomédicas.
Como
produtores diretos dos serviços que prestavam, os médicos
conquistaram prestígio e valor social correspondente ao poder de
autoridade intelectual e técnica. Prestígio reforçado
pelo papel que assumiram nas questões de estado, como o saneamento
das cidades, a recuperação da capacidade produtiva dos trabalhadores
e ainda a prática normalizadora da vida em sociedade. Com base nessas
características é que se constrói a representação
da medicina como pratica liberal, ou seja: aquela praticada pelo médico,
profissional que produz e vende diretamente seus serviços, faz o
seu próprio preço e atua num regime de livre concorrência
no mercado. Trata-se de uma livre concorrência ilusória, pois
o consumo dos serviços de saúde não é totalmente
livre. É determinado no ritmo, na qualidade e na quantidade pela
estrutura assistencial que a ordem médica impõe à
sua clientela.
Nesse
primeiro momento como pratica moderna, a medicina cultivou também
uma imagem de austeridade e despojamento de seus profissionais, visando
distingui-los de produtores comerciais de serviços (SCHRAIBER 1993).
1.2.A
MEDICINA COMO PROFISSÃO NO BRASIL
No
Brasil, desde 1808, quando o país passou a ser considerado Reino
Unido, começaram as mudanças no ensino médico e as
ações corporativas para defesa da profissão e do mercado
de trabalho. A necessidade crescente de serviços médicos
e as transformações políticas do Estado brasileiro
levaram à demanda de uma formação mais adequada dos
profissionais e da proteção legal do seu território
de trabalho. O trabalho desenvolvido por físicos e cirurgiões
foi unificado nas mãos do doutor em medicina. Foi inibida a prática
de curiosos e afins. Os interesses específicos da categoria médica
foram defendidos por suas entidades representativas, transformando-se,
no decorrer da primeira década do século XX, em normas, leis,
decretos que mediaram suas relações com o Estado, o mercado
e a clientela. O Código de Ética Médica, de abrangência
nacional, aprovado em 1965, configura definitivamente a face profissional
da categoria (SANTOS 1995).
Nas
primeiras décadas do século XX, no contexto da crise do café,
do processo de industrialização e da emergência das
classes sociais urbanas, iniciaram-se uma série de mudanças
no sistema capitalista brasileiro, entre elas o desenvolvimento das funções
do Estado. A necessidade de proteger a nascente força de trabalho
levava o Governo a reconhecer as reivindicações de Direitos
Sociais, que passaram a ser incorporados pela ação estatal,
institucionalizada na época sob a forma de Previdência Social.
Ela continha no seu interior "a assistência médica como principal,
senão exclusiva, alternativa para a organização tradicional
dos serviços de saúde sob as formas da filantropia ou do
consumo em um mercado livre" (DONNANGELO 1972, p. 8).
O
processo de ampliação e diversificação das
categorias profissionais se desenvolve à medida que se amplia e
diversifica a estrutura social e econômica brasileira em sua etapa
urbano-industrial Essas categorias são gradativamente absorvidas
pela Previdência Social, em sucessivas transformações
da estrutura do sistema previdenciário.
Após
1930, as Caixas de Aposentadoria e Pensões, que se organizavam isoladamente
nas empresas a partir da Lei Eloy Chaves, de 1923,foram
estendidas gradativamente a todas as novas categorias de trabalhadores.
Em 1933 foi criado o Instituto de aposentadoria e Pensões dos Marítimos
(IAPM), dando início a um processo de transformação
e ampliação das Caixas de aposentadoria e Pensão em
dois sentidos. Suas bases já não eram as empresas, mas as
categorias de profissionais, como marítimos, comerciários,
bancários, etc, culminando com a criação do IPASE,
Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado.
A
administração dos IAPs não ficava mais a cargo de
empregados e patrões, mas era assumida pelo governo, através
da nomeação de um presidente para cada IAP e de um Conselho
de Administração formado de maneira paritária por
representantes das organizações sindicais de patrões
e empregados.
Essas
alterações representam extensão progressiva dos direitos
sociais a todos os trabalhadores urbanos, uniformização dos
padrões e tipos de direitos assegurados, quebra do vínculo
direto entre empregado e empregador; controle do sistema previdenciário
pelo Estado.
Enquanto
cabiam ao Ministério da Saúde os problemas de saneamento,
combate e prevenção de epidemias, a Assistência Médica
ao trabalhador ficou como responsabilidade do sistema previdenciário.
Ao longo de toda a história da Previdência Social no Brasil
foram se criando, dessa forma, as condições que lançariam
o Estado no centro do mercado de assistência médica e o transformariam,
potencialmente, em seu monopolizador. No entanto, DONNANGELO (1972) observa
que a opção pela compra de serviços do setor privado
pelo Estado resultou na expansão do primeiro que, se tivesse que
vender seus serviços diretamente à população
não se expandiria dessa forma. O Plano Nacional de Saúde
e a Medicina de Grupo foram dois mecanismos de preservação
do produtor privado que se ampliou, padronizou as formas de atendimento
e tornou mais declaradamente capitalistas as relações entre
o empresário e o produtor direto dos serviços.
Nesse
sistema, o médico perde o controle da clientela, os instrumentos
e o poder de estabelecer o preço do trabalho. Em síntese,
torna-se um assalariado. Além disso, o aumento significativo do
número de médicos, a partir da década de 60, é
um novo fator na competição pela clientela.
Caracteriza-se
a passagem de uma situação relativamente estável,
em termos de oferta de mão de obra, para outra, conforme já
mencionado: a força de trabalho, já integrada no mercado,
enfrenta a disponibilidade de grande quantidade de profissionais jovens
mais receptivos às novas modalidades de competição,
pressionando para obter oportunidade de trabalho. A Medicina pass a ser
desenvolvida em empresas médicas, nas quais o médico ocupa
tanto a posição de empregador quanto a de empregado.
Um
outro aspecto que ocorre paralelamente ao desenvolvimento da medicina no
Brasil é a ampliação do campo de conhecimento. Ao
nível da prática, ao mesmo tempo em que ampliam as possibilidades
de diagnóstico e de interferência nas condições
de saúde, o acúmulo de informações e seu grau
de elaboração científica acarretam a impossibilidade
de domínio, pelo profissional, da totalidade do conhecimento médico.
A especialização, como forma de divisão técnica
do trabalho, representa uma diferenciação entre os produtores,
quanto aos instrumentos de trabalho com que operam, quanto ao objeto imediato
do trabalho e quanto às ações técnicas desenvolvidas
sobre esse objeto.
Por
outro lado, acentua-se a complementaridade entre as diferentes formas de
trabalho e, conseqüentemente, a dependência entre os especialistas.
A complementaridade e a dependência tendem a reforçar-se pelo
aparecimento de formas de trabalho referentes a parcelas cada vez menores
da totalidade do processo de diagnostico e terapêutica. Essas "especialidades
complementares" estão associadas à utilização
de técnicas científicas que só podem desenvolver-se
à base de equipamentos ou máquinas aperfeiçoadas e
custosas.
A
adequação entre o ritmo em que se desenvolvem as especialidades
e o número de especialistas e a difusão do progresso técnico
a partir de sociedades mais desenvolvidas leva à produção
de serviços de saúde considerados socialmente menos importantes
(DONNANGELO 1972).
A
necessidade de formar um médico que domine os processos mais gerais
que atuam sobre a saúde é discutida pela autora na sua contradição
com as tendências dos mercados livres, tanto no que se refere ao
consumo quanto à produção: a tendência de valorizar
o que é mais caro, mais complexo e sofisticado, e a tendência
do especialista de "encaixar" o paciente na sua especialidade, a tendência
ao controle do mercado pelo profissional mais especializado. Ao mesmo tempo,
a influência de características tradicionais da profissão
médica como, por exemplo, seu caráter individualista, resulta
em mecanismos informais de relacionamento entre as diferentes áreas
de trabalho, dificultando ainda mais o ajustamento do profissional às
burocracias públicas e acentuando as resistências à
interferência estatal.
Anteriormente
a essa etapa, a forma tradicional de integração do médico
nos hospitais constituía um elemento significativo na conquista
e manutenção de seu status social e profissional, pela atividade
filantrópica que ele aí desenvolvia e pelo fato de serem
considerados centros importantes de conhecimento. Com o trabalho em organizações
amplas, como o hospital, torna-se uma imposição de vários
fatores envolvidos nessa transição: a complexidade, por aprofundamento,
da informação; as novas formas de diagnóstico e terapêutica;
a necessidade de cooperação entre especialistas; a exigência
de qualidade científica; o custo dos equipamentos. Dessa forma,
o caráter de voluntariedade é substituído pela imposição
técnica de utilização de meios de trabalho concentrados
no hospital. O paciente vincula-se tanto ou mais à instituição
do que o médico. As hierarquias se instalam, nenhuma delas autônoma
em relação às normas institucionais. O médico
deve redefinir as suas expectativas de autoridade e prestígio em
um sentido menos pessoal e mais estritamente profissional. A "medicina
de organizações" inclui, além dos hospitais, clínicas
coletivas, laboratórios, organizações industriais.
Por oposição ao consultório isolado, implica um grau
acentuado de formalização e padronização da
atividade, derivados de seu caráter grupal ampliado, em muitas situações
incluindo outros profissionais além do médico (DONNANGELO
1972). Isso significa uma total reformulação da forma de
integração do médico no mercado de trabalho em relação
ao momento de sua inserção na sociedade como profissão
moderna e, no Brasil, em relação ao papel que assumia no
início do século XX.
Em
estudo sobre os movimentos políticos das organizações
médicas, CAMPOS (1986) analisa a situação da saúde
no Brasil no período de 1970 a 1984, caracterizado por uma recente
ampliação dos bens e serviços de saúde, devido
ao fato da medicina ter começado a fazer parte do preço da
força de trabalho e também pelo fato do trabalho médico
ter passado a consumir equipamentos médico-hospitalares e fármacos,
passando a ser peça fundamental para a indústria. Mas, da
mesma forma que as demais empresas capitalistas, as empresas ligadas à
saúde precisavam aumentar cada vez mais seus preços, entrando
em conflito com o objetivo da extensão de serviços e reforçando
a necessidade de intervenção do Estado para garantir essa
expansão.
Por
outro lado, a expansão dos serviços médicos, embora
venha ao encontro dos interesses dos médicos, não acontece
de acordo com os interesses majoritários da categoria. Prioriza
o interesse do capital investido na área de serviços e na
indústria que produzem os meios de trabalho médico, prejudicando
não só os usuários, mas também os profissionais
de saúde. Para financiamento dessa expansão pelo Estado foram
utilizados basicamente recursos de fundos sociais. Também era o
Estado que comprava ou contratava os serviços do setor privado,
via Previdência. A ampliação da oferta de empregos
entre 1970 e 1980 se deve a essa expansão, em que se combinava a
intervenção do Estado, como financiador e comprador de serviços,
com a penetração do capital privado.
Os
serviços hospitalares contratados pelo Estado foram os que mais
se expandiram, mais do que o setor conveniado pela Previdência e
do que os serviços prestados pela medicina de grupo.
Entre
os médicos e a medicina de grupo a relação era, na
maioria das situações, de antagonismo. Já a relação
da categoria médica com os hospitais contratados, apesar de alguns
atritos, envolvia interesses comuns, como o aumento dos valores pagos pelo
INAMPS. Além disso, a posição do médico no
hospital contratado não era a de assalariado e não envolvia
controle de horário ou do atendimento prestado, o que parecia ser
mais próximo de um trabalho autônomo. Apesar das fraudes que
caracterizaram esse tipo de serviço, o movimento médico não
desenvolveu críticas importantes a esse estilo de prestação
de serviços à população.
Já
no início da década de 80, a economia brasileira passava
por um período recessivo, no qual o governo adotava política
rígida de contenção de gastos. "As repercussões
desta situação recessiva e daquela política restritiva
adotada, o volume crescente de recursos absorvidos com o pagamento de pensões
e aposentadoria, o dispendioso modelo de assistência médico
hospitalar adotado, a lesiva relação estabelecida entre os
Bancos e o Ministério da Previdência, os deficientes e inadequados
mecanismos de arrecadação da contribuição empresarial
à Previdência, a ausência de dotação do
poder público, todos estes múltiplos fatores se somaram para
gerar aqueles déficits da previdência, caracterizando o que
passou a ser denominado de Crise da Previdência" (CAMPOS 1986). Mais
tarde foi constatado, como mais um fator, o rombo causado pelas inúmeras
fraudes no setor da Saúde.
A
contenção de despesas, principalmente no financiamento da
assistência médica hospitalar, foi o mecanismo escolhido pelo
governo para enfrentar essa crise. A Federação Brasileira
de Hospitais, seguida de inúmeras entidades médicas, protestou
veementemente contra essa política. Na década de 80, no contexto
da abertura política e do fim do governo militar, o movimento dos
médicos se rearticulou, discutindo as propostas reformistas apresentadas
pelo governo e lutando tanto no setor privado quanto no público
por melhores condições de trabalho. O país já
era industrializado, moderno e capitalista. Permaneciam as disparidades
regionais e de classe e a dependência do capital internacional, mas
a sociedade se modificara e uma dessas modificações foi o
surgimento de um novo sindicalismo, classista e autônomo, no qual
o movimento dos médicos se integrou e ganhou impulso.
Para
estudar o movimento dos médicos, CAMPOS (1986) criou novas categorias
para diferenciar os vários tipos de inserção do médico
no mercado de trabalho:
Trabalho
liberal: clientela própria, com a qual o profissional estabelece
as condições de sua remuneração e posse (ou
aluguel) dos instrumentos de trabalho.
Assalariamento:
venda da força de trabalho por tempo determinado, em troca de salário.
Proprietários:
detêm o controle de condições materiais de trabalho
ampliadas em relação aos instrumentos que podem ser operados
por um único ou por poucos profissionais.
Autonomia:
forma intermediária entre o liberal e o assalariado, com controle
parcial dos instrumentos de trabalho e da clientela. É uma forma
alternativa possível e viável, no modelo de assistência
médica vigente. Não é uma forma polar ao assalariamento,
mas complementar, e sua tendência é se estabilizar e permanecer.
É reforçada pela luta dos médicos pela expansão
das possibilidades do exercício autônomo da profissão,
através da intermediação do Estado.
Considerando
que o exercício autônomo da profissão não se
opõe à racionalização nem à modernização
da assistência médica, que a categoria prefere esta forma
de trabalho e que não há qualquer perspectiva de socialização
radical dos serviços de saúde no Brasil, o autor conclui
(em 1986) que não há porque considerar essa forma residual
ou de transição para o assalariamento (CAMPOS 1986).
A
pesquisa realizada por Machado (1997) mostra como hoje a profissão
médica brasileira experimenta processos de transição
sócio cultural e demográfica e enfrenta novos problemas na
sua inserção no mercado de trabalho.
Constata
que maioria dos profissionais da medicina pertence à classe média
urbana e dificilmente abandonará a estrutura de equipamentos sociais
e culturais disponíveis nos grandes centros para se fixar no interior
do país. A necessidade cada vez maior de constante reciclagem técnico-científica,
que só é possível nos grandes centros, vem agravar
essa tendência à concentração. A mentalidade
do usuário também mudou e tem exigido do médico um
conhecimento rigoroso e atualizado de novas técnicas, novos medicamentos,
novas habilidades.
Como
conseqüência do incremento de novas escolas médicas desde
o final da década de 60 e acompanhando a tendência de rejuvenescimento
da força de trabalho em saúde em geral, hoje a profissão
é exercida majoritariamente por profissionais jovens, com menos
de 45 anos e com menos de 16 anos de formados, ocasionando a necessidade
de constantes reacomodações de necessidades e especificidades
no mercado de trabalho
A
feminilização é outro aspecto da transição
demográfica, que por sua vezacompanha
a tendência mundial à participação crescente
da mulher no mercado de trabalho. Recebendo menos e trabalhando muito,
com o mesmo desgaste que os homens, as mulheres médicas enfrentam
grandes dificuldades para conciliar a vida privada com a profissão,
que é um caso exemplar da dicotomia entre o mundo da vida pública
e o mundo da vida privada.
Ser
médico significa, de certo modo, adotar o modelo de trabalho sacerdotal,
pela exigência típica da medicina de atendimento imediato
e obrigatório atendimento ao indivíduo necessitado de cuidados.
Significa também a necessidade de continuar se dedicando a estudar
após o término do curso, por necessitar uma formação
cada vez mais especializada. Essa dificuldades têm levado os recém
formados a fazerem escolhas mais racionais e menos vocacionais, procurando
um medicina mais tecnológica, com menos envolvimento pessoal e que
dê maiores rendimentos. Acabam optando por especializações
sofisticadas e desenvolvidas de preferência em grandes centros.
O
segmentado mercado das especialidades não tem mecanismos regulatórios
de oferta e demanda, o que acaba se fazendo através das entidades
da corporação, muito mais no domínio da ética
e da moral profissional.
Embora
a adesão dos trabalhadores de saúde e especialmente dos médicos
seja fundamental para que as instituições de saúde
possam adequar-se ao modelo de atenção proposto pelo SUS,
as condições de trabalho insatisfatórias na rede pública
tem ocasionado alta rotatividade no emprego, abrindo vagas para novatos
mesmo em serviços que exigem excelência técnica ou
maior experiência profissional.
Somam-se
a estas dificuldades as pressões sociais dos usuários, que
reivindicam
melhor atendimento e assistência, conforto, segurança, e qualidade
nos serviços prestados, em todo o sistema de saúde. A opinião
pública acaba transferindo para a figura do médico a sua
contrariedade.
A
situação se mostra mais grave quando analisamos o significado
da autonomia e do trabalho liberal para na profissão médica.
Seus preceitos são uma condição constitutiva do arquétipo
médico. Previstos nos códigos de ética, “são
fortemente introjetados, aceitos e decodificados diariamente pelos médicos,
na busca de conciliar a boa medicina e a necessidade de modificá-la
positivamente no seu cotidiano”(Machado 1997 p 209) . Mas a realidade da
profissão não responde ao esperado, e os médicos,
mesmo trabalhando nos seus consultórios, estão cada vez mais
dependentes de empresas públicas ou privadas que os empreguem, submetendo
sua ação a normas externas a uma decisão profissional.
Cabe
aqui retomar a análise da questão da autonomia por Schraiber
(1993), que aprofunda a sua discussão como problema vital para a
profissão, considerando-a a forma historicamente necessária
para a constituição da prática médica na sociedade
capitalista e, ao mesmo tempo, a forma socialmente adequada para a reprodução
da situação de seus agentes na posição de destaque
que ocupam nessa mesma sociedade. Ao ser tensionada por movimentos que
implicam novas contradições, como quando da especialização
do trabalho, a autonomia apresentou-se sempre como problema vital para
a profissão. A partir de 1930, o aceleramento do processo de especialização
interferiu na homogeneidade da categoria médica, pois se alterou
sua estrutura social, com possibilidades distintas de participação
no poder.
Assim,
alguns médicos passaram a se sentir tão perdedores quanto
os clientes com a questão da especialização e da tecnologia.
Não se sentiam responsáveis por essa mudança, mas
prejudicados por ela. A organização da medicina moderna aos
poucos abandonou o modelo inicial e se aproximou das características
do trabalho empresarial. Aparentemente, permitindo a modalidade de pequeno
produtor individualizado e a consulta médica como unidade de produção.
No entanto, a medicina de consultório não se constitui mais
em pratica isolada, independente e liberal. A posse dos instrumentos de
trabalho não pode ser totalmente mantida. Mudaram as condições
de propriedade dos espaços físicos, cada vez mais importantes
não apenas no consultório, mas também nos hospitais.
Mudou, em abrangência e profundidade, a qualificação
técnica dos médicos. Mudou o modo como o paciente se integra
nesse processo em diferentes modalidades, nenhum idêntico à
consulta do modelo anterior. A relação médico-paciente
foi reorientada em vários sentidos, uma vez que a atração
da clientela passou a se institucionalizar sob distintas formas de captação
(SCHRAIBER 1993).
O
inter-relacionamento dos profissionais deixou de ser uma "cooperação
entre iguais" e passou a se caracterizar por ações necessariamente
complementares e dependentes, uma cooperação obrigatória
entre desiguais. A divisão progressiva do trabalho criava autoridades
distintas de saber, com diferentes valores sociais.
Se
de início, dada a escassez de recursos materiais, a racionalidade
que regia a aplicação do conhecimento científico apoiava-se
fundamentalmente no exercício pessoal do médico, os instrumentos
tecnológicos funcionaram como garantia de maior objetividade, como
se apenas agora a medicina se tornasse científica.
Mas
essa possibilidade de objetividade ampliou a capacidade do olhar de todos,
não só do médico. Logo, além da perda da propriedade
dos recursos tecnológicos, não foi mais possível ao
médico manter o mesmo grau de controle que ocorria na medicina liberal
sobre seu projeto de trabalho e sobre a avaliação da eficácia.
Os exames diagnósticos já não dependem tanto da anamnese,
e a participação do doente como sujeito reduz-se aos momentos
iniciais da aproximação. Mas a história de vida não
tinha apenas a função de pesquisa. Nela se originava o substrato
da confiança e da aceitação, por parte do doente,
do pleno domínio médico. Ao mesmo tempo, se o paciente tem
sua presença diminuída nos momentos de demanda, pode participar
mais do diagnóstico e da terapêutica dada a transparência
dos instrumentos materiais.
A
representação que o médico faz sobre a posse de seu
objeto de prática passa de uma relação direta pessoal
– o meu paciente – para uma relação mediada pela instituição
– o paciente de determinada empresa de saúde. Ao mesmo tempo em
que se despersonifica a relação, torna-se mais impessoal
a apreensão do social, portanto mais substantiva. O progresso tecnológico
também leva ao rompimento da exclusividade do ato médico,
uma vez que a "arte de curar" pode até prescindir de um diagnóstico
da doença, como por exemplo com a maior objetividade da farmacologia
moderna, a partir de 1940. A divisão técnica do trabalho
médico se dá na divisão do manuseio do doente, não
só pelas especialidades médicas, mas também entre
outros profissionais, como enfermeiros e operadores de equipamentos.
Esta
especialização médica traz a cisão da totalidade
individual do doente, a apropriação isolada de suas partes
como objetos independentes de trabalho. A fragmentação termina
por tensionar a individualização do paciente, embora a consulta
siga sendo individual. A medicina perde parcialmente a capacidade de se
apropriar do subjetivo-social do doente. A isso se vincula uma alteração
no modo como a moral de conduta pessoal do médico se articulará
com seus procedimentos, no interior do ato técnico.
O
novo significado técnico da prática baseia-se na tecnologia
material e na especialização do saber. Os termos originais
de "dedicação" e "responsabilidade" passam a nomear outras
realidades e dividem seu valor com novos preceitos. O conjunto dessas alterações
significará, para os médicos, seu avanço na direção
pretendida, a da cientificidade da medicina, bem como a perda dos espaços
anteriormente garantidos pela própria identidade profissional que
se traduz no monopólio do saber sobre a prática.
A
categoria profissional, buscando estabelecer no plano das representações
uma continuidade de valores e ideais na medicina, se voltará para
o resgate da identidade profissional (SCHRAIBER 1993).
No
conjunto das mudanças sociais e econômicas que vêm se
acelerando na sociedade brasileira, a transformação nas formas
de trabalho do profissional de medicina entra em conflito com a imagem
tradicional de profissional autônomo.
Este
processo de mudança, que se estende a todos os aspectos da profissão
– o organizacional, o financeiro, o político e o cultural e que
perpassa a sociedade como um todo, está presente na forma como o
estudante de medicina chega à universidade, na forma como faz suas
opções durante o curso e na formação da sua
identidadeprofissional.
Uma questão a ser levada em conta no planejamento dos conteúdos
e estratégias do curso, pensando em como esses fatores serão
integrados ao processo de formação profissional.
1.3.
ENSINO MÉDICO EVOLUÇÃO, DILEMAS E PROPOSTAS.
O
questionamento da forma como se dá a formação do profissional
de medicina e as conseqüentes propostas de reformulação
do ensino médico fazem parte do processo de transformação
da profissão que vem ocorrendo desde o final do século XIX,
coincidindo com descobertas científicas no campo da física,
da química e da biologia. Até então, os cursos de
medicina, na sua maioria independentes de universidades, não eram
padronizados, variavam nos seus objetivos, na sua duração
e nos critérios de admissão. Esse formato era incompatível
com as necessidades do desenvolvimento capitalista, de uma intervenção
em escala mais ampla nas questões de saúde (SANTOS 1995)
Um
dos marcos desse processo de constituição de uma medicina
científica foi o relatório Flexner, resultado de um trabalho
de avaliação do ensino médico encomendado pelo governo
americano. Divulgado nos EUA em 1910, o relatório Flexner orientava
na direção da padronização dos cursos, da ampliação
dos anos de formação, da utilização de laboratórios
para o ensino, da docência em tempo integral, do ensino clínico
nos hospitais, da vinculação das escolas médicas às
universidades, da priorização da pesquisa biológica,
do estímulo à especialização, da união
de ensino e pesquisa e do controle do exercício profissional pela
própria corporação médica. (SANTOS, 1995)
Com
base nessas recomendações, realizaram-se modificações
profundas nos currículos e no espaço físico destinado
à formação médica. O ensino em laboratórios
e as práticas intra-hospitalares foram priorizados, reforçando-se
o vínculo entre universidades e alguns hospitais que se tornaram
hospitais universitários; criaram-se departamentos de ciências
básicas; a formação docente e de pesquisadores dentro
do ensino médico passou a receber maior atenção. (CHAVES,
1999)
Com
base nas novas ciências que se desenvolviam, como a biologia, a física,
a química, a citologia, a histologia e a microbiologia, a visão
mecanicista foi introduzida na medicina, fazendo crer que o corpo fosse
divisível em partes, à semelhança de uma máquina.
Além disso, estabeleceu a individualização do paciente
como objeto, negando sua inserção social e enfraquecendo
a atuação epidemiológica da medicina. (SANTOS, 1995)
Durante
décadas, o modelo flexeriano foi hegemônico, na educação
médica. Até hoje, apesar do reconhecimento quase unânime
da sua inadequação às necessidades da saúde
da sociedade, continua presente na estrutura curricular de grande número
de escolas médicas.
Sua
consolidação se deu paralelamente a certos fatos que marcaram
o desenvolvimento do setor saúde nos países do hemisfério
norte, na primeira metade do século XX. Com base na idéia
de que as nações-estado deviam se organizar em escala mundial
para melhor atender aos direitos básicos do cidadão, surgiu
após a primeira Guerra Mundial a Liga das Nações,
substituída após a Segunda Guerra Mundial pela Organização
das Nações Unidas (ONU). Em 1948, a ONU criou a Organização
Mundial de Saúde (OMS), e no mesmo ano aprovou a Declaração
Universal dos Direitos Humanos, que progressivamente foi se tornando um
referencial para as relações entre os países e dos
governos com seus cidadãos.
Na
América Latina, nessa época, ainda predominava a influência
do modelo europeu de ensino. Foi nos anos cinqüenta, quando as escolas
médicas americanas iniciavam o processo de inovação
curricular, que a influência do modelo flexeriano se fez sentir nos
países latinos, nas sucessivas reformas do ensino superior. Na década
de 60, ao mesmo tempo em que sua implantação se expande,
inicia-se, paralelamente à consolidação do modelo
flexeriano, um movimento embrionário de contestação,
alimentado por iniciativas na área da saúde pública
e da medicina preventiva. Faculdades e escolas de medicina de vários
países, identificadas com novas propostas de ensino, começam
a se associar, criando-se em 1962 a Federação Panamericana
de Associações de Faculdades e Escolas de Medicina, a FEPAFEM.
Ainda
na segunda metade do século, disseminam-se as idéias de Atenção
Primária da Saúde e de Sistemas Locais de Saúde (SILOS),
veiculadas pela Organização Panamericana de Saúde
(OPS), resultando na criação de sistemas integrados de serviços
de saúde em vários países da América Latina.
Durante os anos setenta, quando em grande parte do mundo se questionava
a universidade tradicional, houve um movimento com o propósito de
modificar a estrutura de preparação de profissionais da saúde
nas Américas, focalizando o atendimento de saúde voltado
para a comunidade. Assim sendo, a educação médica
teve de ser repensada, em função das necessidades da sociedade
e do preparo de novos médicos com conhecimento e habilidades articulados
com os novos desafios. Também foi um período de desenvolvimento
da tecnologia educativa. Dois Centros Latino Americanos de Tecnologia Educacional
em Saúde – CLATES – um no Rio de Janeiro e outro no México,
foram criados para dar suporte à formação de professores
latino-americanos na área da saúde (CHAVES, 1999).
Desempenharam
papel importante, também, na expansão de experiências
inovadoras em educação médica, a Conferência
Mundial em Atendimento Primário de Saúde, patrocinada pela
Organização Mundial de Saúde e realizada em Alma Ata
(1978), que estabeleceu o programa global de "Saúde para todos no
ano 2000", e a Conferência Mundial de Educação Médica,
sob responsabilidade da Federação Mundial de Educação
Médica (WFME), em 1988.
Nessa
ultima reunião, realizada em Edimburgo, foi discutido o Projeto
EMA - Educação Médica nas Américas, resultado
de avaliação da situação da educação
médica na América Latina, preparada pela FEPAFEM. Os resultados
dessa reunião, constantes da Declaração de Edimburgo,
contribuíram, fundamentalmente, para a elaboração
dos princípios que têm norteado todo o movimento de transformação
e inovação da educação médica em várias
escolas.
No
Brasil, a primeira escola de medicina, a Escola de Cirurgia da Bahia, foi
criada em 1808, seguida logo depois pela Escola de Cirurgia do Rio de Janeiro.
A princípio muito deficientes, formando profissionais que pouco
diferiam dos charlatães e mezinheiros da época, essas escolas
foram aos poucos se estruturando, ao mesmo tempo em que se fortalecia a
corporação médica no país. A partir de 1832,
foram definidos por lei os limites do exercício da medicina, e foi
reconhecida a unificação das atividades médicas. O
direito ao exercício profissional -ou à arte de curar - passava
a ser competência exclusiva de profissionais formados (SANTOS, 1995).
O
número de escolas médicas brasileiras aumentou discretamente,
chegando a 13 em 1950, todas públicas. Na década de 50, foram
criadas mais14, sendo cinco particulares. Na década de 60, iniciou-se
uma grande expansão das universidades privadas, mais intensamente
após 1965, com a criação de 36 instituições
de educação médica, na maioria privadas. Pressionado
pela demanda, por parte das classes médias urbanas, de aumento das
vagas no sistema universitário, e também pelas novas necessidades
de cobertura da assistência médica no país, o governo
estimulava a criação de cursos superiores, sem definir uma
política que estabelecesse uma estratégia disciplinadora
do processo. Muitos cursos foram assim criados, sem condições
mínimas, tanto de infra-estrutura de apoio quanto de docentes qualificados
e de campo de prática apropriado.
As
conseqüências negativas desse crescimento desordenado foram
a queda do padrão de ensino e, conseqüentemente, a queda da
qualidade de atendimento. O mercado de trabalho, numa época em que
se impunha o processo de assalariamento dos profissionais de medicina,
tornou-se ainda mais competitivo para os médicos, graças
ao aumento da oferta. Os protestos das entidades representativas da corporação
médica resultaram na proibição pelo governo, a partir
de 1971, da criação de novas escolas. Essa proibição
só foi revista em 1989, quando foram oficialmente estabelecidos
os critérios de apreciação de pedidos de autorização
de funcionamento de novos cursos. Esses critérios, no entanto, nem
sempre foram respeitados, e muitas instituições de ensino
superior foram criadas em função de interesses bem apoiados
em acordos políticos e no preceito constitucional da autonomia universitária,
mas sem condições concretas de oferecer ensino de qualidade
(MACHADO 1997).
As
faculdades de medicina, contexto institucional em que se inicia a socialização
do médico, devem dar conta de três aspectos da formação
do futuro médico: o aprendizado direto, através do ensino
didático; o aprendizado indireto de atitudes, valores, padrões
de comportamento, através da convivência do estudante com
instrutores e pares, com pacientes e com membros da equipe de saúde;
e o controle da qualidade da formação e do aproveitamento
de cada estudante, pela corporação médica. (REGO 2001)
No entanto, um dos pontos mais prejudicados pela baixa qualidade do ensino
é o ensino prático, desenvolvido nos estágios.
Os
estágios, aceitos pela corporação como uma estratégia
válida na busca de maior experiência clínica, são
uma tradição na formação médica.Reconhecido
pela Comissão de Ensino do MEC, em 1974, como componente essencial
da formação do estudante de medicina, o aprendizado prático
na qualidade de estagiário em unidades de saúde de diversos
tipos, além de propiciar a ampliação de conhecimentos,
é o espaço em que o estudante aprende, no relacionamento
com pacientes, suas famílias e colegas, as atitudes adequadas aos
padrões éticos da profissão.
Nos
cursos de medicina no Brasil, entretanto, a introdução do
aluno na prática clínica é tardia, devido à
influência do modelo flexeriano que ainda se faz presente na estrutura
curricular, e que separa o ciclo básico do ciclo clínico.
Os alunos passam os dois primeiros anos do curso em sala de aula, estudando
as matérias básicas, e no terceiro ano começam a freqüentar
hospitais ou outras unidades de saúde, onde convivem com profissionais
e estudantes do último ano e com residentes, na posição
de observadores. Esse sistema, além dos prejuízos que causa
à formação profissional, contraria os interesses dos
alunos, desde os primeiros anos interessados no contato com pacientes.
Embora não se encontrem defensores desse sistema no meio da educação
médica, as repetidas tentativas de reforma nas mais variadas universidades
não têm dado resultados efetivos. (REGO 2001)
Pressionado
pela necessidade de obter a desejada experiência clínica,
o aluno busca estágios extracurriculares, oferecidos por instituições
públicas, hospitais e clínicas de caráter privado,
muitas delas vinculadas ao sistema de saúde complementar, que têm
interesse na força de trabalho dos estudantes. Do primeiro ao quarto
ano eles conseguem esses estágios por iniciativa própria,
através de contatos pessoais com profissionais. Muitas vezes seu
vínculo com a instituição onde estagia é totalmente
informal. Estudantes de quinto e sexto anos tendem a obter estágios
através de concursos, o que lhes dá um caráter oficial.
No entanto, dentre todas as instituições que acolhem acadêmicos
de Medicina como estagiários, poucas mantém qualquer tipo
de relacionamento com as de ensino (REGO 2001).
Muitas
têm sido as tentativas de regulamentação dessa prática,
pelo Conselho Federal de Medicina e por alguns Conselhos Regionais, no
sentido de vincular toda a experiência de aprendizado clínico
dos estudantes à obrigatoriedade de supervisão médica.
No entanto, essas tentativas não conseguem impedir que cada vez
mais
se intensifiquem as atividades extracurriculares irregulares dos estudantes.
Eles são absorvidos pelo mercado de trabalho para realizar, em clínicas
e hospitais particulares ou públicos, atividades para as quais ainda
não foram preparados na Faculdade. “A grande maioria dos estagiários
de quarto ano têm autonomia para decidir que exames deve solicitar
para elucidar cada quadro clínico que lhe cabe resolver” (REGO 2001,
p 126). Essa autonomia é ainda maior para os estudantes de sexto
ano, que atuam como médicos, especialmente em Unidades de Terapia
Intensiva e em Unidades Coronarianas, atendendo quadros graves e situações
de risco de vida. Numa clara falta de compromisso da instituição
responsável pelo estágio com os valores éticos da
profissão, os estagiários sequer são orientados sobre
a necessidade de se identificar para o paciente como estudantes, criando
o hábito de agir em detrimento do paciente, em oposição
ao ideal de serviço que norteia a profissão.
O
resultado dessa situação é um número significativo
de médicos que são lançados, a cada ano, no mercado
de trabalho e cuja formação é questionada tanto no
meio acadêmico quanto em outras instâncias da sociedade. A
participação das entidades representativas da corporação
médica em propostas de adequação do ensino médico
às demandas da sociedade se intensificou na última década.
Um
exemplo desse envolvimento é ilustrado por matéria da revista
Medicina, do Conselho Federal de Medicina, de abril/ 2000, que divulgou
a realização da Conferência Internacional de Educação
Médica de outubro de 2000. Nessa divulgação, o prof.
Ernani Aboim Silva, vice-presidente da Academia Nacional de Medicina (ANM)
e que também inspecionou as escolas médicas para o provão,
afirma: “São imperativas a mudança no currículo médico
e a integração do profissional à comunidade. Concluímos
que tínhamos especialidades do mais alto nível, mas não
somos bons professores, não estamos preparados para formar médicos.
Com o avanço tecnológico, não somos mais úteis
para ensinar a aprender, comparar pesquisas e, principalmente, criar..."
A matéria registra, ainda, que a ANM estava preparando, desde 1996,
uma avaliação de faculdades de medicina brasileiras.
A
Associação Brasileira de Educação Médica
– ABEM, também assumindo um papel importante no movimento de renovação
do ensino médico, no Editorial de seu Boletim n.º 3, de maio/junho
de 2001, analisa iniciativas de mudança curricular nas escolas médicas
brasileiras, ressaltando que “As escolas médicas não devem
seguir trabalhando isoladas, ignorando os novos desafios que surgem a partir
do processo de construção do SUS (...) Acreditando que uma
forte aproximação das escolas com o sistema de saúde
é um caminho para que as escolas se defrontem com a realidade sanitária
do país, e que o exercício de buscar produzir as respostas
necessárias ao SUS ajudará a desencadear as mudanças
na educação médica, enfatiza-se a necessidade de análise
crítica dessas iniciativas, bem como a criação de
espaços de reflexão coletiva e de troca de experiências
a esse respeito. Esse será um passo importante para que o atual
movimento a favor de mudanças na educação médica,
impulsionado pela ABEM, leve a resultados concretos em cada Escola Médica
do Brasil”.
Na
tentativa de controlar a política expansionista do ensino universitário
em geral, o Ministério da Educação e da Cultura –
MEC implantou um sistema de provas teóricas escritas para todos
os recém graduados ou estudantes de últimos anos de curso,
objetivando avaliar a validade do conhecimento adquirido nos cursos universitários.
A corporação médica manifestou-se contra a realização
desse exame, argumentando que essa modalidade de avaliação
não seria apropriada à complexidade do curso de medicina
e que, pelo princípio da auto-regulação que rege a
profissão, caberia a ela qualquer avaliação.
A
instituição dos provões pelo MEC, no entanto, trouxe
ao domínio público a fragilidade de vários cursos
universitários, inclusive o de Medicina, pressionando as instituições
de ensino para atender aos requisitos estabelecidos para a continuidade
dos cursos. No campo da medicina, provocou maior mobilização
das entidades envolvidas com a elaboração de propostas inovadoras
para o ensino médico.
A
Comissão Interinstitucional de Avaliação do Ensino
Médico – CINAEM, que desde 1991 reúne entidades dedicadas
ao ensino universitário em geral e na área médica
em particular, para discutir a transformação da educação
médica na perspectiva da formação de profissionais
adequados a demandas sociais, defende a posição de que a
formação do médico não é responsabilidade
exclusiva da escola médica, mas também do Estado e da Sociedade
Civil organizada. Congregando entidades importantes representativas da
corporação médica e do ensino superior1
a CINAEM desenvolvia, paralelamente à iniciativa governamental,
um processo de avaliação que compreendia três fases:
a primeira dirigida às escolas médicas; a segunda voltada
à caracterização de docentes, discentes e do modelo
pedagógico; a terceira dedicada à elaboração
de um modelo de formação e gestão das escolas médicas.
Realizado em conjunto pelas entidades membros da CINAEM, o trabalho contou
com a participação de pesquisadores, docentes, discentes
e dirigentes e resultou nas seguintes conclusões:
¨Ao
se formar, o estudante de medicina não detém um grau de autonomia
compatível com as demandas sociais contemporâneas.
¨Os
currículos utilizados na grande maioria das escolas médicas
mostram baixa eficácia no incremento dessa autonomia.
¨O
aluno é considerado como objeto e não sujeito do ensino
¨A
população e as suas organizações, os serviços
de saúde e o paciente são utilizados predominantemente como
insumos do processo de formação.
¨A
fonte principal dos saberes a serem adquiridos é o professor.
¨O
aluno é colocado, nos espaços institucionais, em posição
de distanciamento das necessidades de saúde de indivíduos
e populações.
¨É
necessária a ampliação do objeto da prática
médica, extrapolando os limites da dimensão biológica
e da incorporação tecnológica.
Em
2000 a CINAEM apresentou ao Congresso Nacional uma detalhada proposta de
reformulação do ensino médico, baseada no pressuposto
de que oprocesso de formação,
de profissionalização da docência, de gestão
transformadora e de uma nova estrutura de avaliação se articulam
num eixo de desenvolvimento curricular destinado à formação
de médicos aptos a responder autônoma e adequadamente as necessidades
de saúde de indivíduos e populações.
Estabelece
como categorias direcionadoras da ação:
¨As
necessidades de saúde como objeto de estudo do aluno;
¨A
organização didático pedagógica como mediador
da exposição do aluno às necessidades de saúde;
¨O
docente como mediador da construção do conhecimento e da
abordagem das necessidades de saúde;
¨O
aluno como sujeito do processo de construção da autonomia;
¨Os
saberes, originários das ciências biológicas exatas
e humanas, bem como todo o arsenal cognitivo á disposição
da prática médica, como insumo da qualificação
de todas as dimensões do ato médico.
¨A
organização da prática médica como mediador,
revalorizando o ato clínico como a dimensão da medicina que
a diferencia das demais profissões.
A
par desse paralelismo, a atuação da entidade foi marcada
pelo debate público com o Ministério da Educação
e da Cultura, a respeito da instituição dos “provões”
como forma de avaliação de faculdades de medicina.
Ao
noticiar a entrega da proposta do CINAEM ao Congresso Nacional, a revista
Medicina informava: “Em nota distribuída à imprensa, a CINAEM
criticou a decisão do Ministério da Educação
– MEC de defender o fechamento de escolas de medicina, lembrando que o
MEC deveria voltar sua atenção para a verdadeira transformação
do ensino médico no país...". “O presidente do CRM-RJ, Abdu
Kexfe, afirmou que a proposta da CINAEM sempre foi vista pela entidade
como um projeto de transformação, numa linha que disse esperar
seja ativada numa relação direta de qualidade da medicina,
na qualidade do médico, mais comprometido com o paciente, com a
saúde da população e, principalmente, com a saúde
pública”. (MEDICINA, CFM, julho/agosto de 2000 p.5).
As
Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em
Medicina, estabelecidos pelo MEC e homologados pelo CFE, no entanto, não
se contrapõem radicalmente às propostas das entidades representadas
pela CINAEM. Pelo contrário, apresentam alguns pontos comuns, que
podem ser observados no item 3. Conteúdos Curriculares[1]:
“....
3.
CONTEÚDOS CURRICULARES:
Os
conteúdos essenciais para o Curso de Graduação em
Medicina devem estar relacionados com todo o processo saúde-doença
do cidadão, da família e da comunidade, integrado à
realidade epidemiológica e profissional, proporcionando a integralidade
das ações do cuidar em medicina. Devem contemplar:
- Conhecimento das bases moleculares e celulares dos processos normais
e alterados, da estrutura e função dos tecidos, órgãos,
sistemas e aparelhos, aplicados aos problemas de sua prática e na
forma como o médico o utiliza;
·- Compreensão dos determinantes sociais, culturais,
comportamentais, psicológicos, ecológicos, éticos
e legais, nos níveis individual e coletivo, do processo saúde-doença;
·- Abordagem do processo saúde-doença do indivíduo
e da população, em seus múltiplos aspectos de determinação,
ocorrência e intervenção;
- Compreensão e domínio da propedêutica médica
- capacidade de realizar história clínica, exame físico,
conhecimento fisiopatológico dos sinais e sintomas; capacidade reflexiva
e compreensão ética, psicológica e humanística
da relação médico-paciente;
- Diagnóstico, prognóstico e conduta terapêutica
nas doenças que acometem o ser humano em todas as fases do ciclo
biológico, considerando-se os critérios da prevalência,
letalidade, potencial de prevenção e importância pedagógica;
- Promoção da saúde e compreensão dos processos
fisiológicos dos seres humanos - gestação, nascimento,
crescimento e desenvolvimento, envelhecimento e do processo de morte; atividades
físicas, desportivas e as relacionadas ao meio social e ambiental.
....”
A
recente instituição do PROGRAMA DE INCENTIVOS A MUDANÇAS
CURRICULARES NO CURSO DE MEDICINA – PROMED, através da Portaria
Interministerial n. 610 de 26 de março de 2002, é mais uma
demonstraçãodo reconhecimento
da urgência dessa mudança tanto na sociedade civil quanto
nas instâncias governamentais.
Neste
movimento de mudança da educação dos profissionais
de saúde é importante avaliar a contribuição
do Programa UNI, financiado pela Fundação Kellogg, que desenvolve
projetos em 11 países da América Latina, a partir de uma
concepção de trabalho em rede, desde 1991. No Brasil, no
ano de 2000, estavam em andamento cinco projetos, nas cidades de Salvador,
Natal, Botucatu, Londrina e Marília. Sua estratégia principal
é a construção de parcerias entre universidades, serviços
de saúde e população organizada de determinada área
geográfica. O programa tem gerado “processos que buscam mudanças
de relações, de estrutura e modo de funcionamento da universidade,
nas suas relações com outros segmentos, no estabelecimento
de prioridades para as atividades investigativas e de prestação
de serviços” ( FEUERWERKER 2000, p. 20).
Partindo
do princípio da constituição de sujeitos com visão
crítica, capacidade de ação e de proposição
como condição para a construção e mudanças
profundas no processo de formação profissional, e da integração
entre Universidade, Serviços de Saúde e Comunidade, o Programa
UNI construiu, através da prática, um ideário que
pode ser resumido nos seguintes pontos:
Quanto
às premissas básicas e aos objetivos:
¨Articulação
necessária entre universidade, serviço e comunidade.
¨Reciprocidade
e equanimidade nas relações humanas e institucionais de parceria
¨Desenvolvimento
de modelos de ensino-aprendizagem, prestação de serviços
de saúde aos indivíduos, melhorias ambientais e práticas
de auto cuidado compõem o primeiro grupo de objetivos UNI.
¨Desenvolvimento
de lideres para a gestão dos projetos e sua inovação
gradual.
Quanto
à Universidade:
¨Educação
orientada para os problemas de saúde da comunidade situada em seu
entorno imediato
¨Ênfase
no desenvolvimento do raciocínio e da capacidade de continuar aprendendo
¨Ensino
interdisciplinar estimulado por diferentes mecanismos de integração
dos conhecimentos progressivamente adquiridos.
A
aprendizagem deve combinar experiências intramurais com experiências
em cenários da vida real. A construção de consensos
ao nível docente e discente é indispensável para a
introdução de metodologias adequadas ao ensino em cenários
da vida real.Podem ser citadas as
metodologias de ensino baseado em problemas, estudo auto dirigido, ensino
tutorial e em pequenos grupos.
Na
investigação científica deve ficar clara a natureza
aplicada dos projetos com os serviços, a natureza participativa
dos projetos com a comunidade, o compartilhamento dos resultados da pesquisa
e os ganhos reais em que ela resulta para o funcionamento dos serviços
e para a saúde da comunidade.
Quanto
aos Serviços de Saúde ou Sistema Local de Saúde:
¨Devem
abranger a atenção ao indivíduo e ao meio-ambiente,
tanto físico como social.
¨Os
cuidados de saúde devem ser de natureza preventiva e curativa, com
continuidade através do ciclo vital.
¨Continuidade
entre a atenção primária e os níveis secundário
e terciário através de mecanismos efetivos de referência
e contratransferência.
¨enfoque
familiar e os serviços prestados por profissionais generalistas
são de grande importância.
¨trabalho
multiprofissional deve ser desenvolvido na atenção primária
da saúde e nos outros níveis do sistema, como modelo para
o trabalho prático de alunos.
Quanto
à comunidade:
¨A
definição da comunidade abrangida pelo projeto dever ser
clara.
¨A
organização comunitária, condição necessária
para a participação efetiva nos projetos, deve ser estimulada.
¨O
autocuidado deve ser entendido como envolvendo o indivíduo, a família
e a comunidade.
O
Programa UNI produz extensa literatura de avaliação e sistematização
de suas experiências e de conceituação de seus princípios
e estratégias. Especialmente interessante para este trabalho é
a formulação da estratégia “diversificação
dos cenários de aprendizagem”.
No
contexto do Programa UNI o termo cenários de aprendizagem denomina
não só o local onde se realizam as práticas, como
também os sujeitos nelas envolvidos, a natureza e o conteúdo
do que se faz,etc. Diz respeito,
portanto, “à incorporação e à inter-relação
entre métodos didáticos pedagógicos, áreas
de práticas e vivências, utilização de tecnologias
e habilidades cognitivas e psicomotoras. Inclui, ainda, a valorização
dos preceitos morais e éticos orientadores de condutas individuais
e coletivas. E está relacionado aos processos de trabalho, ao deslocamento
do sujeito e do objeto de ensino e à revisão da interpretação
das questões referentes à saúde e à doença,
em que se considera sua dinâmica social”.(FEUERWERKER 2000, p. 40)
Não
se trata, no entanto, de transformar os locais de produção
de serviços em locais privilegiados de práticas educacionais.
São os estudantes e os docentes que se incorporam ao processo de
produção de serviços. Essa ação só
se faz possível, entretanto, com o estabelecimento de relações
horizontais de cooperação entre os atores, possibilitando
a produção de alternativas pedagógicas para a articulação
entre teoria e prática, ensino e trabalho, e entre diferentes disciplinas.
A
criação de espaços curriculares efetivos depende do
estabelecimento de relações entre os diferentes atores que
não se limitem às condições objetivas, mas
que incluam também as vivências e os valores próprios
do processo de socialização de cada indivíduo ou grupo.
A
valorização do papel da prática no processo de ensino-aprendizagem
é outra propriedade da diversificação de cenários.
“A necessidade de dar respostas a problemas práticos se converte
no motor da busca e construção do conhecimento por parte
dos estudantes, dos docentes e de todos os envolvidos, com a vantagem adicional
de existir a oportunidade de experimentar e analisar criticamente as soluções
na prática. Além disso, não há o que substitua
o contato humano, a vivência e o compartilhar dos problemas, a solidariedade,
a construção de vínculos pessoais, apropriação
da realidade que as experiências práticas propiciam”.(FEUERWERKER
et al. 2000, p.41)
A
inserção do aluno no cotidiano de trabalho dos serviços
e da vida da comunidade propicia o compromisso com a busca de soluções
para os problemas identificados e a atuação multiprofissional
e intersetorial. Propicia ainda, nas posturas e nas práticas, uma
relação promoção/prevenção/cura
mais equilibrada, maior compromisso e respeito com os parceiros, capacidade
de comunicação, de escuta, relações mais democráticas.
Favorece ainda a oportunidade do aluno perceber como são dinâmicas
as relações de poder e como elas se estabelecem. Isso permite
que desenvolvam uma interpretação critica do sistema de saúde
e tenham elementos para pautar sua atuação de forma sistemática.
As
formulações do Programa UNI, que não se esgotam na
síntese acima, contemplam e superam as demais propostas aqui referidas,
por se basearem em uma prática sistematizada e continuamente avaliada.
Ao
considerar o resgate da subjetividade nas relações entre
os atores do processo de formação de profissionais de saúde,
remete para o tema desta tese, que trata do conhecimento do universo simbólico
do estudante de medicina.
CAPÍTULO
II:RESGATANDO REPRESENTAÇÕES
SOCIAIS
Criada
por Moscovici na década de 50, a teoria das representações
sociais tem dado suporte para a produção de conhecimento
sobre as pessoas enquanto portadoras de idéias, crenças e
sentimentos comuns ao universo cultural de um grupo. Suas raízes
podem ser identificadas no conceito de representações coletivas
de Durkheim. No entanto, se Durkheim se interessava por estudos de fenômenos
próprios de sociedades tradicionais, como religião, costume,
mito, magia, Moscovici inaugurou sua teoria com o estudo das representações
sociais de um fenômeno moderno, inserido no universo científico,
a Psicanálise. A ciência, enquanto sistema simbólico,
é uma das forças que diferencia o mundo moderno do mundo
medieval. Considerada por Moscovici como fonte fecunda de representações,
a Psicanálise é tomada como objeto de estudo, não
do mundo do cientista pesquisador, mas do mundo do leigo. É tomada
também como exemplo da absorção de uma cultura por
outra, uma vez que se originou numa cultura diferente daquela em que se
realizou esse estudo. (FARR 1995)
A
tarefa da Psicologia Social, segundo Moscovici, é formular uma teoria
do conceito de representações sociais, que podem ser encontradas
nas conversações, nas ciências, nas religiões,
nas ideologias e em outras circunstâncias em que são produzidas
as ideologias, os saberes populares e o senso comum. Contrapondo-se à
concepção de Le Bon sobre a irracionalidade das massas, Moscovici
afirma que a teoria das representações sociais entende a
racionalidade da crença coletiva e sua significação
como sistemas coerentes de signos. A racionalidade desse sistema está
ligada à característica de ser coletivo, pois, para ele,
o indivíduo isolado não poderia ser racional. O dinamismo
da sociedade só pode ser compreendido a partir da superação
do dualismo indivíduo/sociedade e da noção de que
o conflito entre o individual e o coletivo não é somente
do domínio da experiência de cada um, mas é igualmente
realidade fundamental da vida social. O papel das representações
é manter essa tensão nos limites do suportável. (MOSCOVICI
1995)
A
partir dessa formulação, a teoria das representações
sociais tem se desenvolvido através de inúmeras pesquisas
e da produção de novos conhecimentos que contribuem para
a compreensão sociológica de fenômenos culturais.
As
visões de mundo de diferentes grupos sociais, por exemplo, são
compreendidas, no escopo dessa teoria, como expressões das contradições
e conflitos presentes nas condições em que foram engendradas.
Possuem, portanto, um componente ideológico, ao incorporar o uso
de formas simbólicas para criar e manter relações
de dominação. Considerando esse caráter de não
neutralidade das representações sociais, o conceito de ideologia
é indispensável para se compreender suas dimensões
éticas, valorativas e críticas. (GUARESCHI 1995)
Mas
as representações sociais não se limitam a reproduzir
relações de dominação, elas possuem núcleos
positivos de transformação e de resistência. Nelas
tanto estão presentes elementos da dominação quanto
da resistência, tanto das contradições e conflitos
quanto do conformismo, pois cada grupo social faz da visão mais
abrangente uma representação particular, portadora também
de seus interesses específicos. Dessa forma, as representações
sociais são matéria prima para a análise do social
e também para a ação pedagógico-política
de transformação. (MINAYO 1995)
Por
se constituírem num pensamento social não são, necessariamente,
conscientes no indivíduo. Perpassam o conjunto da sociedade ou de
determinado grupo social, como algo anterior e habitual.
Para
Bauer (1995) “as representações sociais são a produção
cultural de uma comunidade, que tem como objetivo resistir a conceitos,
conhecimentos e atividades que ameaçam destruir sua identidade.“
(BAUER 1995, p 229) Mas essa resistência não se dá
de forma uníssona. Os subgrupos culturais produzem formas singulares
de manter sua autonomia, resistindo às inovações simbólicas
que não foram por eles produzidas, re(a)presentando-as modificadas
e de forma a se tornarem compatíveis com os conteúdos simbólicos
já existentes. Nesse processo, modificam-se as idéias e modifica-se
o sistema que as assimilou. (BAUER 1995)
Representações
sociais é um conceito dinâmico e explicativo, que abrange
tanto a realidade social quanto a física e a cultural, nos seus
aspectos culturais, cognitivos e valorativos. Sua dimensão histórica
soma-se a uma dimensão transformadora. Está presente nos
meios e nas mentes, isto é, constitui-se numa realidade presente
nos objetos e nos sujeitos. É um conceito sempre relacional e, por
isso mesmo, social. (GUARESCHI 1995) A linguagem, tomada como forma de
conhecimento e de interação social, é o elemento principal
de mediação das representações sociais.
A
questão da relação entre o agente social e a sociedade,
é objeto da teoria sociológica de Bourdieu, uma sociologia
da cultura que pretende compreender como as relações entre
grupos ou classes obedecem a uma lógica que se reproduz de forma
dissimulada no plano das significações.
Buscando
superar tanto a visão objetivista, derivada do pensamento de Durkheim,
quanto a sociologia compreensiva de Weber, esse autor discute a possibilidade
do agente social exercer uma ação independente de determinismos
sociais. Ele considera que a análise sociológica “é
um dos instrumentos mais poderosos de conhecimento de si, como ser social,
como ser singular. Se ela põe em questão as liberdades ilusórias
.... ela oferece alguns dos mais eficazes meios de acesso à liberdade
que o conhecimento dos determinismos sociais permite conquistar contra
os determinismos”. (BOURDIEU 1996, p. 11)
Para
cumprir sua função de ordenar o mundo e fixar um consenso
a seu respeito, a cultura desempenha um papel ideológico (ou político)
de legitimar uma ordem arbitrária, em dois movimentos simultâneos:
Enquanto
estrutura estruturada ela reproduz, de forma irreconhecível, a estrutura
das relações sócio econômicas prevalecentes.
Enquanto estrutura estruturante, produz uma representação
do mundo social imediatamente ajustada à estrutura das relações
sócio econômicas, que passam a ser compreendidas como naturais
e a contribuir para a conservação simbólica das relações
de força vigentes. (BOURDIEU 1999)
Para
possibilitar a compreensão mais acurada do funcionamento da relações
simbólicas, Bourdieu (1999) constrói o conceito de habitus,
princípio
gerador e unificador que retraduz as características intrínsecas
e racionais de uma posição no espaço social em um
estilo unívoco, isto é, em um conjunto unívoco de
escolhas de pessoas, de bens e de práticas. Os habitus, ao
estabelecer diferenças entre o que é bom e o que é
mau, o que é o bem e o mal, entre o que é de bom gosto e
o que é vulgar, geram práticas distintas e distintivas. Por
exemplo, o mesmo comportamento ou o mesmo bem que é percebido como
distinto para uma pessoa, pode parecer pretensioso para outra e vulgar
para uma terceira. Essas diferenças nas práticas, nos bens
possuídos, nas opiniões expressas tornam-se diferenças
simbólicas e constituem uma verdadeira linguagem, como signos distintivos.
É um conceito que não pode ser compreendido a partir da lógica
da consciência e do livre arbítrio do indivíduo isolado.
Pelo contrário, pressupõe que a maior parte das ações
humanas, embora se dirija a um fim, não tem por princípio
a busca consciente desse objetivo.
Estas
formulações são muito adequadas para a compreensão
do universo simbólico dos grupos sociais. É especialmente
produtiva na perspectiva deste trabalho, a discussão que o autor
faz a respeito do que denomina economia dos bens simbólicos.
A partir de um estudo sobre trocas de dádivas em uma sociedade pré-capitalista,
ele afirma que nas economias capitalistas, ao contrário do que pensa
a sociologia de orientação economicista, existem setores
inteiros que não funcionam inteiramente de acordo com a lei do interesse
como busca de maximização do lucro monetário. No universo
econômico existem vários mundos, cada qual com sua “racionalidade”
específica, que supõe disposições “razoáveis”
ajustadas às razões práticas de cada um desses mundos.
Existem alguns desses mundos que criam condições objetivas
para que neles os agentes sociais tenham interesse no desinteresse. É
o caso da troca de dádivas, que BOURDIEU (1996) analisa a partir
da sua descrição por Lévi-Strauss como uma estrutura
de reciprocidade. BOURDIEU (1996) observa que o intervalo entre a dádiva
e a retribuição (que, embora em princípio negada,
acaba acontecendo sempre) é o que diferencia essa relação
de troca das relações regidas pelo princípio do lucro.
O intervalo tem a função de mascarar a relação
entre esses dois atos e apresentá-los como independentes um do outro.
Mas essa constatação não elimina a necessidade de
compreender a diferença entre a troca de dádivas e uma ação
de crédito. “O importante na troca de dádivas é que,
através do intervalo de tempo interposto, os dois trocadores trabalham,
sem sabê-lo e sem estarem combinados, para mascarar, ou realçar,
a verdade objetiva do que fazem. Verdade que o sociólogo desvenda,
mas correndo o risco de descrever como cálculo cínico um
ato que se quer desinteressado e que é preciso tomar como tal, em
sua verdade vivida, e que o modelo teórico também deve perceber
e do qual deve dar conta”. (BOURDIEU 1996, p 166)
Essa
formulação pode ser relacionada com uma particularidade da
afirmação da medicina como profissão moderna. No seu
campo simbólico, conforme exposto no CAPÍTULO I (pg. 7),
o ato desinteressado, historicamente entendido como atributo natural do
médico, é um dos elementos que contribuiu para que a profissão
se afirmasse e ganhasse prestígio na sociedade. Justifica-se, assim,
o interesse emincorporar a este
estudo mais elementos sobre a questão das trocas simbólicas.
Para
BOURDIEU (1996), elas são trocas que têm sempre verdades duplas,
uma ambigüidade baseada na automistificação e no desconhecimento
coletivo, cujo fundamento se inscreve nas estruturas objetivas e nas estruturas
mentais, excluindo a possibilidade de pensar e de agir de outro modo. Dessa
forma, quem dá e quem recebe estão preparados e inclinados,
por todo um trabalho de socialização, a agir sem intenção
nem cálculo de lucro.
Além
disso, a troca de dádivas acontece como se existisse um acordo entre
os agentes para evitar a explicitação de um acordo prévio
a respeito do valor relativo das coisas trocadas e dos termos da troca,
ou seja, do preço.A verdade
objetiva do interesse econômico é negada ou é enunciada
por eufemismos. A sociedade não exige que os indivíduos façam
exatamente o que é necessário, que se conformem perfeitamente,
mas que mostrem sinais visíveis de que respeitariam as regras, se
pudessem.
Para
entender essa conduta dupla, no entanto, é necessário abandonar
a lógica da consciência e do livre arbítrio de um indivíduo
isolado, da ação como produto de uma consciência intencional.
Embora se expresse individualmente, o habitus pertence ao campo
social, e o indivíduo não tem domínio sobre ele.
A
recusa do caráter econômico de algumas relações
de troca, que Bourdieu (1996) chama de hipocrisia natural, é mais
exigida dos que ocupam posições dominantes, os que não
podem se rebaixar, explicitando interesses econômicos nas trocas.
Assim ocorre a transfiguração das relações
de dominação e de exploração, que ocorrem com
a cumplicidade objetiva dos dominados, uma vez que o dominado aplique ao
dominante e aos seus atos as mesmas estruturas de percepção
que o dominante usa para produzi-los. A alquimia que transforma a verdade
das relações de dominação no paternalismo é
um dos exemplos. Para que funcione, é preciso que seja sustentada
por toda a estrutura social, o que inclui as estruturas mentais e disposições
produzidas por essa estrutura social.
A
economia simbólica gera capital simbólico, isto é,
um capital de reconhecimento que é adquirido por aquele que cumpre
os atos de eufemismo, de transfiguração, de conformação
acima descritos. Uma propriedade qualquer, como habilidade física,
riqueza, ou sucesso profissional, quando percebida pelos agentes sociais
dotados das categorias de percepção e de avaliação
que lhes permitem percebê-la, adquire a eficiência de uma força
mágica, exerce uma espécie de ação à
distância, sem esforço físico. Permite ao detentor
desse capital exercer uma dominação sem que seja percebido
como dominador, apoiando-se simplesmente em “expectativas coletivas”, em
disposições para adesão imediata, produzidas pelo
trabalho de socialização. O autor denomina violência
simbólica essa transformação da dominação
em reconhecimento.
No
processo de constituição das sociedades capitalistas, emerge
um campo simbólico novo, não submetido às exigências
de eufemização, e cujo princípio é a lei do
interesse material publicamente explicitado. Assim, a lógica do
mercado adquire certa autonomia, constituindo um universo em que os agentes
sociais não só podem fazer negócios, mas confessar
a si próprios e publicamente que lá estão para fazê-los.
Nesse universo, família e outros grupos com características
corporativas vivem uma realidade especialmente controvertida. Por um lado,
sua coesão é ameaçada pela crescente generalização
de disposições calculistas, que ameaçam a indivisão
dos bens e de tarefas sobre as quais repousa a unidade familiar. Por outro,
as mesmas forças da economia pressionam a família para que
mantenha a coesão, pois a produção do capital depende,
em parte, da reprodução da unidade familiar.
Bourdieu
(1996) aponta o fato de que essa situação também é
encontrada em outros grupos dotados de espírito corporativo, observação
especialmente importante para este trabalho, que tem por objeto os estudantes
de medicina, grupo inserido numa das profissões mais corporativas.
A
produção teórica de Bourdieu (1996) sobre a empresa
religiosa contribui para aprofundar o tema das trocas simbólicas.
Ele discute como, fundando-se na recusa do econômico, no decorrer
da história, a empresa religiosa vem se apoiando cada vez mais na
lógica do mercado para desenvolver suas ações. Segundo
Bourdieu (1996), a própria transação puramente simbólica
do clero com os laicos tem perdido importância, dando lugar à
relação com o Estado que, ao financiar atividades da Igreja,
aumenta seu poder temporal sobre os agentes, que devem ser católicos
para delas se beneficiar como usuários ou como empregados.
Esse
mecanismo garante à Igreja uma “clientela”, isto é, retornos
materiais e simbólicos, sem que se perca a imagem de desinteresse
e de humildade que caracteriza declaradamente essa organização.
A
empresa religiosa, e mais especificamente a Igreja católica, fundada
na recusa ao econômico, está mergulhada num universo em que
a busca do maior lucro possível é o motor da maior parte
das práticas cotidianas. Trata-se, portanto, de uma empresa econômica,
cujo funcionamento se torna possível a partir da negação
do caráter econômico, a partir de uma ambigüidade na
qual a troca se transfigura em doação de si a um tipo de
entidade transcendental. Por exemplo, o trabalho do sacristão não
é considerado um ofício comum, mas a prestação
de um serviço divino. Os padres, que recebem da Igreja o necessário
para manter um determinado nível de vida, não admitem que
esses recursos pecuniários sejam chamados de salário e nem
de honorários. Afirmam que, em troca da sua dedicação
ao serviço religioso, a Igreja cuida de sustentá-los. Essa
ambigüidade faz parte das próprias condições
de funcionamento e de êxito da empresa religiosa (BOURDIEU 1996).
Esse
trabalho de automistificação é coletivo, mantido por
todo um conjunto de instituições sociais de assistência,
da qual a primeira e mais poderosa é a linguagem. Além de
ser um meio de expressão, a linguagem é um princípio
de estruturação, que funciona como apoio da liturgia, da
tecnologia social da gestão católica das trocas e das relações
sociais e também nos cargos, nos habitus, nas maneiras de
ser, de falar, etc.
O
conjunto das referências teóricas acima relacionadas contém
elementos que podem contribuirpara
a investigação do pensamento de estudantes de medicina sobre
a profissão que escolheram. Sugerem a aproximação
do universo simbólico desse grupo, para identificar as idéias
que explicam, justificam ou questionam a profissão médica,
atribuindo-lhe significados e possibilitando trocas de pensamentos, sentimentos
e crenças nesse espaço sociocultural.
Na
mesma perspectiva teórica e com objetivos similares, o trabalho
de Teixeira (1998), examina representações sociais de estudantes
de Serviço Social sobre a profissão. Trata-se de um estudo
de caso, com alunos ingressantes e concludentes de curso de Serviço
Social. Encontra significados sociais historicamente associados ao serviço
social: o prazer de servir, de ajudar; o desprendimento; as práticas
históricas de ajuda, associadas à igreja Católica,
a damas da caridade e a primeiras damas. Encontra também a representação
do profissional do esclarecimento, da conscientização, com
compromisso explícito com os trabalhadores. Em todas as interpretações
é dada importância especial para as qualidades pessoais como
fundamentais para o exercício da profissão.A
autora conclui que as representações sociais sobre o Serviço
Social reveladas no eu trabalho indicam que é possível desenvolver
no cotidiano visões mais próximas da realidade do objeto.
Que contém conteúdos ligados não só à
manutenção de significados sociais imobilizados comotambém
de renovação desses significados (TEIXEIRA 1998).
2.2.
DISCURSO DO SUJEITO COLETIVO – UMA ESTRATÉGIA PARA A CAPTAÇÃO
DE REPRESENTAÇÕES SOCIAIS.
O
estudo das representações sociais é mediado por abordagens
próprias da pesquisa qualitativa, capazes de incorporar a questão
do significado e da intencionalidade como inerente aos atos, às
relações e às estruturas sociais, tomadas como construções
humanas significativas. É através da comunicação
verbal que as pessoas expressam e ao mesmo tempo lidam com os conflitos
e contradições presentes no campo social, através
de processos relacionados de resistência e submissão. (MINAYO
2000)
Dessa
maneira, o acesso do pesquisador às representações
sociais de um grupo costuma se dar através da fala individual de
um ou mais indivíduos tomadas como representativas do pensamento
do grupo ao qual tais indivíduos pertencem.
Michelat
(1985) contribui para a compreensão da fala individual como representativa
da fala coletiva. Para ele, “cada indivíduo é portador da
cultura ou das subculturas às quais pertence e é representativo
delas.” (MICHELAT 1985, p. 194) Considera, também, a constituição
das culturas como resultado de processos históricos, nos quais a
produção ideológica das diferentes estruturas sociais
é interiorizada pelo indivíduo de modo que as produções
verbais dos indivíduos podem fornecer informações
sintomáticas sobre o modelo de sua cultura. Considerando, portanto,
cada indivíduo como uma aplicação restrita de sua
cultura e de suas subculturas, busca reconstituir, através de depoimentos
individuais, o modelo de cultura que está subjacente a eles. Isso
não implica que acredite que a imagem dacultura
obtida seja idêntica nas falas de todos os indivíduos dos
diferentes grupos. Muitos fatores, como o tipo de relação
com a cultura global mantida pelos diferentes grupos aos quais o indivíduo
pertence, as marcas deixadas pelos grupos aos quais já pertenceu,
as particularidades de seu processo de socialização, vão
determinar a forma como o indivíduo torna mais ou menos sua a cultura
do seu grupo.
No
entanto, a expressão espontânea individual não revela
o sujeito como indivíduo, mas sim como uma amostra da comunidade.
Ao perguntar ao entrevistado mais o que ele pensa e sente, do que o que
sabe, é possível captar a singularidade da sua relação
com a cultura que o envolve. “O indivíduo sente, mais do que conhece,
estes modelos e aplica-os com toda candura sem poder descreve-los conscientemente”.
(SAPIR 1967 citado por MICHELAT 1985, p.197)
Para
Lefèvre (2000), o imaginário é um universo simbólico
compartilhado, cuja função é permitir as interações
sociais, as trocas comunicativas numa dada formação sociocultural
e, dentro dela, num dado setor. Mas o imaginário, representação
social, não existe independentemente da sua descrição,
à semelhança das realidades virtuais. “É composto
exclusivamente por matéria discursiva, capaz de gerar afirmações,
pensamentos, sentimentos, crenças, encadeamentos de idéias,
justificativas, demonstrações, posicionamentos etc., porque
são estas coisas que se trocam nas interações sociais.”(LEFÈVRE
2000) Este conceito de imaginário é muito útil para
a pesquisa das representações sociais da profissão
médica pelo estudante de medicina. Ao adota-lo o pesquisador se
encaminha para encontrar respostas não exatamente para o que pensa
o sujeito, mas para o que esse sujeito, inserido numa dada formação
social em determinado momento, pode pensar. “Pois as representações
sociais são matéria prima para a produção de
pensamentos, matrizes discursivas existentes numa da formação
social, num dado momento histórico, das quais todos os membros desta
sociedade podem lançar mão para pensar sobre um tema específico.
O que determinado indivíduo ou grupo de indivíduos pensa,
no cotidiano, é o recorte particular que faz do seu imaginário”
(LEFÈVRE 2000)
Se
o pesquisador optou pela metodologia qualitativa, são esses os recortes
que obterá nos depoimentos individuais. Na falta de um acesso ao
conjunto dos discursos possíveis num determinado grupo numa situação
dada, correrá o risco de seu trabalho se resumir à transcrição
comentada de excertos isolados de depoimentos individuais, perdendo a oportunidade
de com eles reconstruir o pretendido imaginário social ou coletivo.
Para
recuperar a fala do social LEFÈVRE (2000) criou a estratégia
metodológica do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), um expediente
que institui um discurso do social na "primeira pessoa", com o objetivo
de estar mais próximo do pensamento de uma coletividade. Propõe
e detalha um procedimento para identificar e "somar qualitativamente" discursos
semelhantes ou complementares obtidos de depoimentos de indivíduos.
Esta soma qualitativa é o DSC, isto é, um discurso geral
feito de discursos individuais agregados. Ou, em outras palavras, um discurso
abstrato construído com discursos particulares concretos que foram
desparticularizados, isto é, transformados em discursos do coletivo.
Para
operar essa desparticularização o pesquisador manipula o
conjunto dos discursos individuais, recortando-os de acordo com os pressupostos
e os objetivos que estabeleceu para seu trabalho e as categorias que criou
para sistematizá-lo. Um mesmo depoimento, por exemplo, pode ser
dividido em partes que vão compor discursos diferentes. Começa
identificando os trechos ou segmentos de cada depoimento individual que
revele a sua essência de maneira a isola-los de tudo o que é
irrelevante ou secundário. Esses trechos são denominados
Expressões-Chave.
A leitura atenta das Expressões-Chave, dirigida para a identificação
das que são similares ou correspondentes, deverá resultar
no agrupamento dessas expressões a partir do que têm em comum,
ou a partir de uma Idéia Central. Idéia Central é
a expressão lingüística apropriada para descrever, da
maneira mais sintética e precisa possível, o sentido de um
agrupamento de Expressões-Chave, que passa a ser por ela nomeado.
Utilizando todas as Expressões-Chave de cada agrupamento e acrescentando
apenas termos conectivos para dar-lhes a forma de frases encadeadas, constrói-se
o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC).
Essa
foi a estratégia escolhida para o desenvolvimento da pesquisa na
qual se baseia este trabalho, por razões que ficarão claras
no decorrer da exposição.
2.3.
A PESQUISA EXPLORATÓRIA
A
problemática que é objeto deste trabalho foi construída
em duas etapas, desencadeadas pela responsabilidade que assumi de implantar
a disciplina Saúde Coletiva I no Curso de Medicina da Universidade
de Mogi das Cruzes, no primeiro semestre letivo de 1999.
Pressionada
especialmente pela repercussão dos resultados das avaliações
do MEC no meio acadêmico, a instituição precisava superar
a tendência biologista do curso e atender às novas necessidades
da sociedade relativas ao perfil do profissional de medicina.Durante
o ano de 1998 foi desencadeado um processo de reforma curricular na maioria
dos cursos do Centro de Ciências Biomédicas. No Curso de Medicina,
constatou-se a fragmentação dos conteúdos em muitas
disciplinas, a falta de integração da área básica
com a formação profissional e a ênfase excessiva na
especialização.
A
proposta de reforma curricular, aprovada pela Diretoria de Graduação,
atendia aos preceitos legais do MEC e às diretrizes estabelecidas
pelo Conselho Nacional de Educação, constituindo uma carga
horária de 7290 horas aula distribuídas em seis anos, expandindo
o internato para três semestres letivos e incluindo disciplinas como
português, inglês e informática. Baseava-se nos princípios
da interdisciplinaridade e da articulação entre ciências
básicas e clinicas, e adotava a perspectiva de prevenção
e de promoção da saúde. Optava pela orientação
humanística na formação de profissionais de medicina.
A Saúde Coletiva, disciplina incluída na grade horária
do primeiro ao quarto ano, apresentava-se como um núcleo de disciplinas,
envolvendo Enfermagem, Sistemas de Saúde, Administração
e Noções de Epidemiologia. (UMC 1998)
Até
então, como disciplinas afins a esse núcleo, apenas Medicina
Social e Medicina do Trabalho compunham o currículo, a partir do
5º ano, com cargas horárias de 120 e 90 horas/aula, respectivamente.
A carga horária total, prevista no novo currículo, para Saúde
Coletiva, era de 390horas/aula.
Tratava-se,
portanto, de uma mudança curricular destoante da tendência
dominante de valorizar apenas a especialização e o aprendizado
de procedimentos sofisticados, e contava, para se realizar, com a adesão
de professores e alunos a uma concepção de medicina e de
saúde, e mesmo de ensino, diferente da que baseava o currículo
anterior.
O
conteúdo de Saúde Coletiva era distribuído em três
grandes unidades:
·Processo
saúde-doença-saúde na perspectiva da integralidade;
·Promoção
da saúde;
·Serviços
de saúde no Brasil.
Estabelecia
como objetivos:
·Sensibilizar
o aluno para compreender o ser humano nas suas dimensões física,
psicológica, social e cultural, e para compreender a saúde
como qualidade de vida articulada com essas dimensões;
·Colocar
o aluno em contato com a realidade da saúde na região de
Mogi das cruzes;
·Situar
o aluno no histórico da formulação do conceito de
promoção da saúde;
·Introduzi-lo
no conhecimento do sistema único de saúde.
Na
perspectiva da implantação dessa disciplina no primeiro ano,
e a partir das dificuldades já conhecidas pelo próprio histórico
da educação médica, de formar um profissional identificado
com os valores da cidadania, da saúde como direito e da visão
integral do ser humano, foi pressuposto:
Que
eles trariam para o curso expectativas de participação no
mais avançado progresso científico e tecnológico e
de terem, depois de formados, clientela própria e um trabalho respeitado
e bem remunerado.
Que
por esse motivo apresentariam algum grau de resistência aos conteúdos
da Saúde Coletiva, pertencentes a outro modelo de formação
profissional.
Essa
questão sugeria que, para que se criassem condições
de desenvolver um processo de formação profissional centrado
no aluno como sujeito, se fizesse uma aproximação da subjetividade
do aluno, um contato com seus valores, fantasias e mitos sobre saúde
e sobre medicina. Essa foi a primeira etapa da construção
de um problema de pesquisa, ainda limitado aos já citados interesses
da implantação de uma disciplina nova.
Um
questionário de nove questões foi elaborado e apresentado
aos alunos do primeiro ano de 1999, no primeiro dia de aula de Saúde
Coletiva I, com a intenção de iniciar a pretendida aproximação.
Indagava os motivos da escolha do curso, as principais qualidades, defeitos
e responsabilidades de um médico, as diferenças e semelhanças
entre o médico e o professor, as concepções de saúde
e de doença.
As
respostas dos alunos surpreenderam, por expressarem uma visão da
profissão que não correspondia às hipóteses
iniciais sobre suas predisposições e muito menos à
realidade da prática atual da medicina.
Essa
visão se expressava nos motivos de escolha do curso, que se distribuíam
entre vocação, desejo de ajudar o próximo, desejo
de ser útil à sociedade e expectativa de salvar vidas. Expressava-se
também na definição de competência, na abnegação,
na boa relação como os pacientes e no altruísmo como
as principais qualidades de um médico. E apontava a incompetência,
a ganância, a prepotência e a arrogância como seus principais
defeitos.
A
oposição entre tais expectativas profissionais e as condições
reais da profissão conduziu a reflexão para um novo patamar.
Considerando a idade dos alunos, suas falas poderiam estar exprimindo imagens
idealizadas, próprias da juventude e por isso transitórias,
com grande possibilidade de serem modificadas pelo conhecimento dos limites
técnico-científicos da profissão e pela convivência
com professores, colegas e pacientes no decorrer do curso. Também
poderiam ser expressão de disposições mais permanentes,
resultantes do confronto do processo de interiorização das
estruturas objetivas da sociedade com o processo estruturante da realidade
subjetiva dos diferentes grupos sociais. Nesse caso, poderíamos
entender os Discursos do Sujeito Coletivo (DSC) deste grupo de estudantes
como expressões verbais de representações sociais,
ou como, na construção teórica de Bourdieu, habitus.
Ainda caberia investigar o impacto do curso de medicina sobre essas representações
sociais ou, de outra forma, como elas participariam, no decorrer do curso,
na produção de posturas profissionais.
O
problema que se apresentava, era investigar e comparar, nas falas individuais
de estudantes de diferentes séries do curso de medicina da Universidade
de Mogi das Cruzes, elementos de um imaginário coletivo, bem como
discutir esse imaginário no confronto com a realidade da prática
médica atual.
No
ano de 2000, ao assumir alguns conteúdos da disciplina Medicina
Social, no quinto ano do curso, tive oportunidade de colocar em prática
essa investigação. De início, a convivência
com a nova turma permitiu a observação empírica das
diferenças de comportamento das duas turmas em sala de aula.
Os
primeiros anos, com cerca de 60 alunos cada, caracterizavam-se pelo comportamento
alegre, barulhento e indisciplinado em sala de aula. Apresentavam grande
disposição, ao mesmo tempo, para as diferentes propostas
de ensino, envolvendo-se com boa vontade, tanto na apresentação
de trabalhos de grupo quanto no trabalho de campo, com resultados, na maioria,
de qualidade. Discussões dirigidas sempre foram muito concorridas,
notando-se muita necessidade dos alunos de expressar suas opiniões.
O
comportamento dos alunos de quinto ano, pelo contrário, era contido,
silencioso. Seus comentários a respeito dos estágios no Centro
de Saúde Escola e no Hospital da cidade faziam pensar que estes
eram fonte de muitas frustrações. A turma só interferia
na aula no sentido de propor conteúdos mais ligados à necessidade
imediata de preparo para exames de residência. Era muito reduzido
o interesse por qualquer assunto que fugisse desse objetivo restrito. Os
próprios alunos reconheciam ter dificuldade de participar de discussões,
pela “falta de hábito de pensar” (sic). Essas observações
reforçaram a conveniência de realizar um estudo comparativo
das representações sociais sobre a profissão, nas
duas turmas.
Apliquei
o questionário no novo primeiro ano e também no quinto. Juntando
com os que tinham sido respondidos pela turma de 1999, pude trabalhar com
um total de 126 questionários respondidos. Eles continham idéias
de um grupo relativamente homogêneo em idade e no perfil sócio
econômico cultural, cujos membros participavam de um mesmo espaço
no campo social: condições ideais para o resgate da fala
do social através da aplicação da estratégia
metodológica do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC).
As
respostas dos alunos aos questionários se baseavam nas mesmas idéias
já verificadas no ano anterior, e apresentavam pequenas diferenças
entre os dois primeiros e o quinto ano. Neles, foram identificadas 29 idéias
centrais, em torno das quais foram construídos 67 Discursos do Sujeito
Coletivo. Para o prosseguimento desta explanação, serão
discutidos apenas os resultados das respostas a duas questões.
Os
Discursos do Sujeito Coletivo elaborados a partir das respostas à
questão
2. Porque você está fazendo o curso de medicina?
expressavam
representações sociais da Medicina como vocação,
como missão de ajudar o próximo e de ser útil à
sociedade, como possibilidade de salvar vidas ou de melhorar a qualidade
da vida das pessoas.
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1.º
ANO - 1999 |
1.º
ANO – 2000 |
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Faço
o curso de medicina porque foi aquele que mais me fascinou. Tenho
uma certa paixão pela medicina e estou no curso apenas para obter
a satisfação pessoal de realizar um sonho. Sonho que é,
ao mesmo tempo, um desafio. Acredito que tenho vocação, pois
sempre achei essa profissão muito bonita. Desde criança me
vejo trabalhando como médico. Nunca quis ter outra profissão.
|
Escolhi
o curso de Medicina por vontade própria, pois tenho vocação.
Sempre quis ser médico, por afinidade e por admiração.
Acho que a Medicina é uma profissão muito bonita, na qual
vou me realizar profissionalmente.
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Desde
pequeno, sempre tive o sonho de fazer Medicina, nunca pensei em realizar
outro trabalho. Se não fosse a
Medicina, não saberia o que fazer. É meu ideal de vida, minha
vocação.
|
No
DSC
da vocação repetiam-se, nas três turmas, as expressões
sempre quis, desde criança, e
nunca pensei em outra
coisa, que parecem remeter a uma determinação independente
da vontade (ou da escolha) do indivíduo. Encontravam-se também,
distribuídas nos discursos das três turmas, as expressões
paixão, sonho, desafio,
admiração,
ideal e muito bonita, que têm em comum uma conotação
de deslumbramento. É surpreendente a permanência dessa forma
de pensar até o quinto ano, apesar de todas as experiências
negativas que os alunos já tiveram, em seus estágios práticos.
O
DSC
da ajuda ao próximo foi construído em torno da idéia
de servir, de ajudar, de ser útil. Presente também nas três
turmas, conforme quadro abaixo, parece não se modificar durante
os quatro anos de aulas e estágios práticos.
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1.º
ANO 1999 |
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Porque
gosto do contato com outras pessoas e como médico poderei ver o
ser humano como ele é. Gostaria de
ajudar o próximo, as pessoas mais necessitadas, as pessoas enfermas.
Este curso me possibilita melhorar a saúde das pessoas de uma forma
direta, aliviar seu sofrimento. Tenho vontade de poder ver uma pessoa feliz
por eu ter ajudado a alcançar um estado saudável. É
como uma missão...
|
Escolhi
o curso de Medicina porque é um dos cursos que contribuem mais diretamente
para melhorar o bem estar das comunidades e de prestar algum tipo de assistência
aos indivíduos.
|
Estou
cursando Medicina para ajudar e servir o próximo. O curso oferece
aoportunidade de fazer um
trabalho social dentro da própria profissão. Quero estar
em contato direto com pessoas e poder de alguma forma entende-las, ajuda-las
ou influenciar em suas vidas, através de meu conhecimento. Gosto
muito da relação médico-paciente, do respeito que
o médico tem em relação às pessoas.
|
Diferencia-se,
porém, na nomeação do objeto da ajuda: o ser humano,
as
pessoas mais necessitadas, as pessoas enfermas, os indivíduos,
o próximo, o paciente, ou toda a população,
grande número de pessoas,
as comunidades, a sociedade.
O primeiro grupo de palavras remete para uma visão de ação
profissional tendente ao individualismo e ao paternalismo, enquanto o segundo
indica visões mais próximas de uma expectativa de mudança
social. É interessante notar que, numa escala da posição
mais individualista para a mais voltada para o social o quinto ano se coloca
no extremo mais individualista, seguido do primeiro de 2000, em posição
intermediária, e em seguida do primeiro de 1999, no outro extremo
da escala.
O
DSC de ser útil á sociedade, registrado no quadro abaixo,
aparece apenas nos primeiros anos.
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Escolhi
o curso de medicina porque é uma profissão muito bonita,
que pode
contribuir
para melhorar as condições de saúde de toda a população.
Quero ser útil à sociedade e ajudar um grande número
de pessoas a curarem suas enfermidades. Acredito na ajuda mútua
e na capacidade do homem de mudar o que o rodeia. |
Escolhi
o curso de medicina porque desejo prestar serviços à sociedade
e ajudar as pessoas.
|
O
primeiro ano de 1999 se diferencia das outras duas turmas, no DSC de ser
útil à sociedade, no qual expressa mais claramente do que
no primeiro ano de 2000 a crença na possibilidade de contribuir
para uma mudança social, que está ausente no DSC do quinto
ano.
Os
DSC
de afinidade com as ciências biológicas também
estava presente nas três turmas.
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Estou
cursando medicina por ter afinidade com as diversas áreas médicas,
por ser o curso mais compatível com minhas aptidões e meus
interesses. Gosto da área médica, gosto de estudar, quero conhecer
o funcionamento do organismo, ter contato com pessoas,
curar doentes e tentar prevenir algumas doenças.
A
Medicina tem um campo muito grande, é um curso com contato pessoal,
não frio como outras áreas.
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Desde
a época do ginásio me interesso pela biologia, fisiologia
e anatomia, tenho vontade de conhecer o funcionamento do corpo humano e
os métodos de cura de doenças. Acho que tenho aptidão.
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Gosto
e acredito ter aptidão para o curso, acho o corpo humano incrível
e me interesso pelo desafio de descobrir o diagnóstico. Sempre gostei
de cuidar da doentes, na escola adorava fazer trabalhos sobre doenças.
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Eram
comuns a todas as turmas, nesse DSC, os termos aptidão, conhecer
o funcionamento do organismo ou do corpo humano, curar doentes
ou doenças. Mais uma vez, o primeiro ano de 1999 se destacava
das demais turmas usando a expressão prevenir doenças.De
um modo geral, este discurso parece expressar mais objetivamente do que
os anteriores escolhas pessoais.
O
DSC
do desafio de lidar com a vida se encontrava nas respostas do primeiro
ano 1999 e do quinto ano.
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Porque
esse curso nos dá a chance de poder preservar a vida, representa
a oportunidade de conhecermos em profundidade as atividades que envolvem
a manutenção e a valorização da vida .
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Sempre
gostei de cuidar de vida, poder salvar a vida ou torná-la melhor.
Quero utilizar meu conhecimento para proporcionar a cura, o bem estar ou
o alívio.
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Continha
as expressões cuidar, preservar, melhorar ou salvar vidas, que iriam
reaparecer nas três turmas, nas respostas às questões
3. e 4., que tratam das qualidades e defeitos e da principal responsabilidade
de um médico.
Os
Discursos do Sujeito Coletivo construídos a partir das respostas
à questão 3. Qual é a principal qualidade de um
médico? e qual o principal defeito? confirmavam e complementavam
as representações sobre a profissão constatadas nas
respostas à questão anterior. Eles expressavam expectativas
quanto ao papel do médico como um profissional que deve ser competente,
abnegado, capaz de estabelecer uma relação humana com os
pacientes, sempre pronto a atender quem necessita dele, sem interesse em
vantagens pessoais de qualquer tipo. A incompetência, a ganância,
a prepotência e a arrogância foram apontadas como seus piores
defeitos.
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A
principal qualidade de um médico é saber lidar com as pessoas
como seres humanos que têm problemas e sentimentos; inspirar confiança,
respeito e tranqüilidade ao paciente, em todas as situações
e dispor-se a ajuda-lo física e psicologicamente.
O
principal defeito é a frieza, o descaso, o egoísmo a falta
de um relacionamento humano com o seu paciente. Não dar a eles a
atenção necessária, não considerar suas idéias,
buscar apenas explicações científicas para tudo, deixando
de lado fatores psicológicos.
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A
principal qualidade de um médico é seu bom relacionamento
com o paciente, o qual deve ter compaixão, humildade, delicadeza,
serenidade, dedicação, ser honesto, e sincero com o paciente.
O
principal defeito é a frieza, a arrogância, a impaciência
e a desonestidade no trato com o paciente. |
A
principal qualidade de um médico é sua boa relação
com o paciente, baseada em respeito, compreensão, solidariedade
e capacidade de ouvir e dar amparo ao paciente e aos seus familiares.
O
principal defeito de um médico é a perda do contato humano
com o paciente, o menosprezo pelas suas informações, a pressa
ou a frieza, em síntese, a atitude prepotente. |
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A
principal qualidade de um médico é seu conhecimento e aptidão
para curar e salvar vidas, sua perspicácia para diagnosticar e para
fazer feliz uma pessoa.
O
principal defeito é ele não saber usar tudo o que sabe adequadamente,
ser negligente, omisso, sem interesse na profissão. |
A
principal qualidade de um médico é o conhecimento que lhe
permite atender com eficiência e competência, a capacidade
de curar e de salvar vidas.
O
pior defeito é ele não estar ciente da sua importância
na vida dos outros, perder vidas por despreparo ou por só pensar
em dinheiro. É não poder saber tudo, não ser perfeito. |
A
principal qualidade de um médico é seu saber e competência
para salvar vidas, aliviar a dor, curar as doenças. O médico
tem que saber tudo o que sua atividade exige.
Saber
menos que isso é o seu pior defeito.
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A
principal qualidade de um médico é sua dedicação
à profissão, com seriedade, responsabilidade e dedicação,
socorrendo as pessoas independentemente de terem ou não dinheiro
para pagar.
O
principal defeito é a
ganância, o charlatanismo, a pilantragem, o desejo exagerado de enriquecer,
o uso do dom da vida apenas para enriquecer.
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A
principal Qualidade de um médico é sua honestidade e responsabilidade,
que exige dedicação e mesmo a abnegação de
renunciar ao convívio com os familiares para estudar e dedicar-se
aos pacientes.
O
principal defeito de um médico é a omissão, a ganância,
o exercício da medicina apenas por dinheiro. |
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O
principal defeito de um médico acontece quando acha que sabe tudo
e o poder de lidar com
a vida lhe sobe à cabeça, tornando-o arrogante. A ponto de
se sentir culpado por fatalidades.
A
principal qualidade de um médico é a humildade. Ele deve
reconhecer que sempre tem algo a aprender, mesmo que seja com um paciente.
Deve conhecer seus limites, ser humano, cultivar a simplicidade.
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O
principal defeito de um médico é ele se achar superior, acima
do bem e do mal. Capaz de resolver todos os problemas e incapaz de cometer
erros, em síntese, ser arrogante e sentir-se onipotente.
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A
principal qualidade de uma médico é o amor ao próximo,
a possibilidade de servir à população, contribuindo
para o bem da sociedade. |
Dois
elementos chamam a atenção: a repetição dos
mesmos DSC nas turmas de primeiro e de quinto ano, como se os quatro anos
de curso não tivessem influído nas concepções
sobre a profissão, e o fato desses DSC expressarem valores que negam
a realidade atual da medicina, realidade essa conhecida por todos os que
responderam o questionário.
Para
aprofundar a compreensão desses fatos, foi realizada uma experiência
de incorporar a participação dos alunos.
2.3.1.
A
sessão devolutiva
A
primeira turma estudada – o primeiro ano de 1999, foi abordada novamente
no segundo semestre de 2000, quando já se encontrava no segundo
ano, durante uma aula de outro professor. Em grandes quadros afixados na
lousa foram apresentados os DSC construídos com as respostas de
1999 à questão 2. Porque você está
fazendo o curso de medicina? Após breve explicação
sobre o processo de sua construção foi solicitado a cada
aluno que colocasse por escrito o que tinha a dizer, naquele momento, sobre
cada um daqueles DSC. Para melhor organizar a exposição que
se segue, passaremos a denominar os DSC construídos com os comentários
aos DSC do primeiro ano, como DSC iniciais.
As
respostas obtidas, tanto as que negam quanto as que reafirmam os DSC iniciais
apresentados, foram mais longas e mais carregadas de emoção
do que as iniciais, como se os sujeitos se sentissem provocados pelas suas
próprias falas de um ano atrás. Trabalhadas pela estratégia
metodológica do Discurso do Sujeito Coletivo, estas novas falas
resultaram em outros DSC, daqui por diante denominados DSC2.
Essa
abordagem, que passa a ser tratada como sessão devolutiva,
resultou em três tipos de DSC2: discursos de reiteração
absoluta, discursos de reiteração relativa e discursos de
negação de cada um dos DSC iniciais.
As
repostas relativas ao DSC inicial da vocação3,
ao mesmo tempo em que reiteram a representação da escolha
do curso de medicina pela vocação/paixão/sonho, ponderam
sobre a importância da paixão para facilitar as dificuldades
próprias da carreira médica, discutem os limites dessa “visão
utópica” e nega radicalmente, por fim, o discurso da vocação,
qualificando-o de sentimentalista, exagerado, restrito. No discurso da
reiteração da idéia de vocação se insere
ainda a expressão “nós, os acadêmicos de medicina e
os médicos já formados”, um indício de provável
assimilação do corporativismo.
Da
mesma forma que o da vocação, oDSC
inicial de ser útil à sociedade4é
reafirmado, relativizado e negado na sessão devolutiva. Ele gera
quatro DSC relativos, cada qual sintetizado numa Idéia Central.
Estão presentes no grupo, portanto, tanto as representações
sociais sobre a profissão como detentora de poder para mudar a realidade
quanto as expectativas juvenis de se dedicar a uma causa, bem como elementos
importantes para uma reflexão crítica a respeito da inserção
do médico na sociedade.
O
discurso
inicial da ajuda ao próximo5provoca
três novos discursos, que a reiteram. No primeiro, de forma absoluta,
pois a ajuda ao próximo é identificada como
essência
da medicina, algo que deve estar na alma do futuro médico.
No segundo discurso, o prazer de ajudar pessoas é visto pela sua
propriedade de facilitar o processo de cura. No terceiro, a ajuda individual
às pessoas é descrita como mais eficiente do que a ação
coletiva, revelando uma tendência para o individualismo. Por fim,
o discurso inicial do amor ao próximo é criticado como pouco
consistente, utópico, sentimentalista, com o contra argumento de
que todas as pessoas, não apenas o médico, deveriam tratar
o próximo com dignidade.
O
discurso
inicial da identificação com o campo das ciências biológicas6é
reiterado no seu todo, e depoisrelativizado,
em torno da Idéia Central da identificação do caráter
científico como materialista, em torno da qual foi construído
um discurso que, por revelar especialmente o potencial de crítica
presente no grupo, é aqui apresentado na sua íntegra.
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|
O
caráter “científico” identificado como “materialista”.
|
É
o discurso mais realista, menos sonhador e talvez mais materialista que
os demais.
Apresenta
uma visão bem científica, e a une às aptidões
de gostar de estudar. Porém, a medicina exige muito do contato com
o paciente e do seu ‘feeling’. Caso haja mais identificação
do médico com a ciência do que com a relação
humana inerente a profissão, o melhor a fazer é procurar
uma especialidade que exija menos contato com o ser humano. |
Os
discursos gerados a partir do DSC inicial do desafio de lidar com a
vida7,
ao
mesmo tempo que o reiteram, que o relativizam e que discutem seus limites,
são especialmente demonstrativos da incorporação de
conhecimentos pelos alunos nesse ano e meio de curso. Como exemplo, segue
na íntegra o último discurso construído com as respostas
relativas a este discurso inicial.
|
|
|
|
Limites
à preservação da vida.
|
Esta
posição é meio utópica. Não se pode
começar a fazer medicina apenas com esse propósito, pois
será decepcionante. Percebemos ao longo do ano que o curso permite
a preservação da vida, porém nem sempre. Muitas vezes
somente a atenção, o carinho e o respeito pelo paciente é
o que podemos dar. Talvez não possamos salvar a vida de um, mas
podemos aliviar sua dor e torná-lo mais feliz por diferentes formas.Mais
do que na mera busca de preservação da vida, acredito no
relacionamento humano entre médico-paciente, como condição
para a eficiência no tratamento da doença. A valorização
da vida depende também do paciente, não fumando, não
bebendo, enfim, prevenindo a doença e valorizando a vida. Nós
apenas mostramos às pessoas as possibilidades de conduzir suas vidas
para melhor preservá-las.
O
grande problema social é a falta de valorização da
vida. Pessoas se matam indiscriminadamente e os médicos não
são capazes de alterar esta condição. |
Não foi possível, nas condições de funcionamento do Curso de Medicina da UMC, a continuidade do trabalho de reflexão com os alunos sobre seus Discursos do Sujeito Coletivo em relação à realidade da profissão médica, como uma contribuição para a sua formação profissional. Esse procedimento da sessão devolutiva, embora restrito a uma hora de trabalho, possibilitou o enriquecimento da qualidade de interpretação dos DSC, e portanto da compreensão sobre o universo simbólico dos estudantes que responderam o questionário.
Como resultado dessa fase exploratória, constata-se que os discursos que se repetem nas turmas pesquisadas podem ser entendidos como habitus, elementos estruturais do espaço simbólico do campo da medicina, pouco permeáveis à influência do próprio curso universitário. O contraste entre os valores contidos nos discursos, pertencentes a outro cenário sócio econômico e cultural, e os propostos hoje pela medicina tecnológica dominada pelas leis do mercado não deve ser ignorado como elemento importante do processo pedagógico de formação profissional. Este trabalho, tendo como objeto de estudo as representações sociais de estudantes de medicina, propõe-se a ampliar e sistematizar seu conhecimento, num estudo comparativo. Nessa segunda etapa, pretende, além de aprofundar a discussão dos Discursos do Sujeito Coletivo construídos na relação com as condições objetivas da profissão médica, investigar se há diferenças significativas entre discursos de estudantes da Universidade de Mogi das Cruzes e os de estudantes de universidades de natureza e história diferentes. Ainda, considerando a significativa feminilização da profissão, pretende verificar quais seriam as diferenças entre as respostas do grupo feminino e do masculino.
2.4.
INSTITUIÇÕES DE ENSINO PESQUISADAS OU CARACTERIZAÇÃO
DAS UNIVERSIDADES PARTICIPANTES.
Para
ampliar o universo mais abrangente de sujeitos da pesquisa foram
contatadas duas instituições de ensino de natureza diferente
da UMC: Escola Paulista de Medicina - EPM, universidade pública
federal e a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa
de São Paulo –FCMSCSP,ligada
à Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
Embora ambas tivessem autorizado a pesquisa, foi impossível realiza-la
na EPM, devido à greve dos professores das universidades federais,
que se estendeu de agosto a dezembro de 2001. O trabalho desenvolveu-se
apenas no Curso de Medicina da UMC e naFCMSCSP,
duas instituições de ensino superior localizadas na Grande
São Paulo, fundadas na mesma época e que se diferenciam não
apenas na natureza, mas também na sua história e inserção
na sociedade.
A
Universidade
de Mogi das Cruzes – UMC, é uma universidade privada surgida
a partir das experiências da entidade mantenedora Organização
Mogiana de Educação e Cultura – OMEC – com a educação
formal primária e secundária nessa cidade, desde a década
de 60. Sua Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, criada em 1963
e reconhecida como universidade pelo Conselho Federal de Educação
em março de 1973, foi a primeira instituição particular
aprovada com status universitário dentro da filosofia da Reforma
Universitária no Estado de São Paulo. (Lei 5540/68) Representa,
juntamente com inúmeras outras instituições similares,
a resposta do setor privado da sociedade à política educacional
do governo militar que visava, entre outros alvos, a resolução
da questão dos excedentes, foco de tensão no meio estudantil.
(OLMOS 1999)
Atualmente
a Universidade oferece 34 cursos de Graduação, 7 cursos superiores
de formação específica seqüenciais, 2 programas
de mestrado “estricto sensu”, 3 cursos de pós-graduação
“lato sensu” e 7 cursos de especialização. A Graduação
se organiza em três centros de ensino: Centro de Ciências Exatas
e de Tecnologia, com 16 cursos, Centro de Ciências Humanas, com 7
cursos e Centro de Ciências Biomédicas, com 11 cursos. Neste
último se encontra o Curso de Medicina, que começou a funcionar
em 1968 vindo a ser reconhecido pelo CFE em 1972.
O
Curso de Medicina, o de maior mensalidade do CCB, se encontra em processo
de reformulação curricular e administrativa desde 1998, atendendo
não só às necessidades definidas pelo seu corpo docente
e dicente como também às exigências do MEC. Atualmente
está estruturado por disciplinas, em regime semestral, com uma carga
horária de 8000 horas.
A
Faculdade
de Ciências Médicas Santa Casa de São Paulo – FCMSCSP,
é uma universidade pública que tem suas origens na Irmandade
da Santa Casa de São Paulo, instituição de origem
portuguesa, que se instalou no Brasil desde o período colonial e
participou intensamente da história da cidade. Dedicada inicialmente
apenas a atividades de assistência social, gradativamente passou
a priorizar a assistência médica e, ainda no século
XVIII, criou o primeiro hospital da cidade de São Paulo. Até
meados do século 20 esse foi o único local de atendimento
médico para a grande maioria da população. De 1913
a 1948 serviu para o aprendizado clínico dos alunos do Faculdade
de Medicina da USP, aprimorando-se na qualidade de atendimento, embora
o ensino fosse assistemático, dependendo muito mais do interesse
do aluno. (GUIBU 1986)
Em
1963 foi criada a Faculdade de Ciências Médicas dos Hospitais
da Santa Casa da Misericórdia de São Paulo. Reconhecida oficialmente
em 1968, a nova Faculdade incorporou as propostas mais inovadoras da época
em relação ao ensino médico, como o sistema de Departamentos,
um eixo Clínica-Psicologia-Medicina Social ao longo dos 6 anos e
o contato dos alunos com as enfermarias desde o 1° ano, com internato
nos 2 últimos anos.
Por
influência da tradição assistencial da Irmandade da
Santa Casa, a FCMSCSP estabeleceu forte vinculação do ensino
à prestação de serviços de saúde, com
um corpo docente que também pertencia ao corpo clínico do
Hospital. O Departamento de Medicina Social foi um dos responsáveis
por esse vínculo, estabelecendo convênios com outros serviços,
criando o primeiro Centro de Saúde Escola e articulando o Projeto
Integração Docente Assistencial, no Distrito Sanitário
de Nossa Senhora do Ó. Sua grade curricular atual CONTÉM
9580 horas/aula.
2.5.
SUJEITOS DA PESQUISA.
A
escolha dos sujeitos de pesquisa se deu pelo critério da presença
em sala de aula no dia da aplicação do questionário
e concordância em respondê-lo. As situações de
aplicação não foram idênticas. Na primeira fase,
os sujeitos – estudantes do primeiro ano de 1999, do primeiro ano de 2000
e do quinto ano de 2000 da UMC– eram alunos da pesquisadora e foram abordados
no primeiro dia da disciplina Saúde Coletiva I, nos primeiros anos,
e da disciplina Medicina Social, no quinto ano.
Na
sessão devolutiva, realizada em 2000, os sujeitos, então
alunos de segundo ano, estavam em horário de aula cedido por outro
professor.
Na
fase final da pesquisa os sujeitos – alunos de primeiro e de quinto ano
da UMC e da FCMSCSP – responderam o questionário em sala de aula,
nos meses de junho, julho e agosto de 2001.
Essa
extensão do período de coleta de dados foi necessária
para que se obtivesse respostas do maior número possível
de alunos de quinto ano das duas instituições, que se distribuíam
em subgrupos em horários diferentes. Na FCMSCSP, a pesquisadora
foi apresentada às turmas por professores do Departamento de Medicina
Social. Na UMC, dirigiu-se aos seus alunos, como professora de Saúde
Coletiva I ou de Medicina Social. Em cada uma dessas turmas, apresentou
o objetivo da pesquisa, solicitou a colaboração dos presentes
e esclareceu que as respostas deveriam ser espontâneas, baseadas
nas opiniões e sentimentos dos sujeitos e não em conteúdos
do curso. Foi também solicitado o consentimento por escrito. O tempo
gasto nas respostas foi de quinze a vinte e cinco minutos.
Na
primeira fase, 75 alunos de primeiro ano e 51 de quinto ano responderam
o questionário, num total de 126 sujeitos. As turmas de primeiro
ano apresentavam distribuição homogênea quanto à
idade, com um intervalo muito pequeno de distribuição, entre
17 e 23 anos, concentrando-se mais de 50% do total na faixa entre 18 e
19 anos. A turma de quinto ano de 2000 se situava na faixa etária
entre 21 e 29 anos, concentrando-se em 50,9% entre 23 e 24 anos.
Temos
então um grupo de sujeitos que estão naquela fase da vida
em que, na nossa sociedade, o jovem de 19 a 24 anos já completou
seu desenvolvimento físico e mental, mas emocionalmente depende
ainda de fatores sociais para alcançar a maturidade. Erikson8
(1968) define como fase de “moratória social”, em que o desenvolvimento
da identidade está ligado ao tema fidelidade, isto é, à
possibilidade do jovem acreditar e poder se dedicar a uma “causa” externa
a ele.
2.6.
INSTRUMENTOS.
O
principal instrumento utilizado foi o questionário de perguntas
abertas. Foi escolhido, na fase exploratória, por ser um instrumento
que pode ser aplicado a um grande número de pessoas ao mesmo tempo,
adequado, portanto, à abordagem das turmas de 60 alunos da UMC.
Compunha-se,
inicialmente, de nove questões. A primeira, apresentada como opcional
desde a segunda aplicação, destinava-se a identificar os
alunos de primeiro ano, o que se revelou desnecessário para o conhecimento
que se pretendia obter e possivelmente constrangedor, especialmente pensando
na extensão da aplicação ao quinto ano, onde a autocrítica
poderia estar mais desenvolvida. Conservou-se, dessa questão, apenas
um pedido de informação da idade do sujeito. As questões
2 a 9 se destinavam a obter informações sobre as imagens
de médico, da Medicina, da relação entre saúde
e educação e da percepção dos determinantes
da saúde no imaginário desse grupo.
Com
a preocupação de não inibir, com termos técnicos,
a espontaneidade das respostas, foram redigidas em linguagem coloquial
e leiga.
Embora
o questionário seja um instrumento considerado mais diretivo do
que a entrevista aberta, que teoricamente propicia maior espontaneidade
na expressão, os resultados obtidos na fase exploratória
confirmaram mais uma qualidade desse instrumento. Por não exigir
uma relação desta como o entrevistador, como na entrevista
aberta, e pela permissividade da não exigência de identificação,
os pesquisados podem se sentir mais livres para exprimir opiniões
que temem ser desaprovadas ou que poderiam colocá-los em dificuldades”
(GOLDENBERG 2000) As respostas significativas, mais voltadas para o que
o aluno pensa e sente do que para o que sabe, determinaram a opção
por manter o mesmo instrumento de pesquisa na fase comparativa, com algumas
modificações indicadas pelos resultados iniciais.
A
análise das repostas demonstrou, no entanto, que, para o objetivo
de captar valores e sentimentos, o questionário usado na fase experimental
era muito longo. O tempo de resposta, por ser maior, e a necessidade de
responder a várias questões sobre o mesmo assunto parece
ter provocado maior esforço de racionalização nas
últimas respostas. Também ficou clara a diferença
entre as três primeiras questões e as seguintes que, pelo
seu formato, deram margem a respostas mais conceituais, o que interferia
nos objetivos propostos.
Com
a definição das representações sociais como
objeto do estudo comparativo entre universidades, era mais interessante
ter poucas perguntas para facilitar a espontaneidade das respostas. Foram
selecionadas do primeiro questionário as questões que, pelo
seu enunciado, demandaram respostas opinativas, nas quais é mais
fácil captar a expressão de conceitos e valores: 2. Por que
está fazendo o curso de Medicina? 3. Qual a principal qualidade
de um médico? e qual o principal defeito? 4. Qual a principal responsabilidade
de um médico?
A
questão 3., pela densidade das respostas obtidas, foi desmembrada
em duas. Sua redação foi levemente modificada, para estimular
respostas menos formais. Desse trabalho resultou o principal instrumento
deste estudo.
1.Por
que está fazendo o curso de Medicina?
2.Qual
a maior qualidade de um médico?
3.Qual
o pior defeito de um médico?
4.Qual
a principal responsabilidade de um médico?
Essa
opção foi feita com a consciência de que esta maneira
de perguntar estimula o aparecimento de determinado tipo de resposta, pouco
reflexivo e portanto mais espontâneo, mais vulnerável à
provocação de expressões de padrões culturais.
No
cabeçalho do questionário foi esclarecido o objetivo da pesquisa
e estimulada a espontaneidade das respostas. Foi também solicitada
a assinatura do Termo de Consentimento e a anotação da idade
e sexo do estudante.
2.7.
TRATAMENTO DOS DADOS
A
construção dos DSC se inicia pela organização
dos dados obtidos poruniversidade,
dos quatro grupos pesquisados – 1º ano FCMSCSP 1º ano UMC, 5ª
FCMSCSP, 5º ano Universidade de Mogi das Cruzes - o que envolve as
seguintes operações:
Numeração
dos questionários respondidos, começando pelas respostas
do grupo feminino.
Digitação
de cada questionário respondido.
Montagem
de listagem numerada e dividida conforme o sexo do sujeito, com as respostas
de todos os alunos a cada uma das quatro questões do questionário,
num total de quatro listagens por turma.
Leitura
atenta das respostas de cada uma dessas relações, identificando
e sublinhando as Expressões Chave de cada resposta.
Por
exemplo, as dez questões que seguem, extraídas da listagem
das respostas do grupo feminino do 1º ano da UMC à questão
1.
1.
Porque me identifico com a área de biológicas e, principalmente,
com a profissão.
2.
Porque o curso de medicina me agrada, pois poderei ajudar as pessoas,
realizando meus sonhos e curando-as;
3.
Adoro a área de Biológicas, estudar o corpo humano.
Além disso, é demais a idéia de poder ajudar as
pessoas se sentirem melhor. O médico tem a oportunidade de entender
certas aflições do ser humano e quem sabe poder amenizá-las.
4.
Faço o curso de Medicina pensando em futuramente poder fazer
algo de bom pela sociedade, ou seja, poder dar uma melhoria de vida
as pessoas;
5.
Porque
fui influenciada desde pequena pelo meu pai que é médico.
Ele me levava no hospital e me ensinava sobre os instrumentos cirúrgicos,
por exemplo, ao crescer, fazer medicina já era uma certeza, e meu
pai nunca me forçou, porém desejava muito isso. Fazer
o curso de medicina é como uma "característica" minha
que já está incorporada desde criança. É
simplesmente amor pela profissão.
6.
Nunca
pensei em outra profissão, pois sempre quis ajudar as pessoas
e conhecer o corpo humano. Na realidade um misto de solidariedade
e curiosidade.
7.
Pela vontade de conhecer, e poder ajudar pessoas, fazer algo
por elas, para que se sintam bem.
8.
Porque
é minha vocação, sei que nasci para fazer isso.
Quero ajudar as pessoas.
9.
Porque vejo que, desta forma, estarei contribuindo para a sociedade
e, assim, posso me estabelecer como uma cidadã ativa.
10.
Porque sempre gostei da área de biológicas e unindo
tal gosto à enorme vontade que tenho de lidar com as pessoas,
ajudando-as e fornecendo bem estar, foi na Medicina que encontrei essa
realização.
Separação
das Expressões Chave das respostas a cada um das questões
por categorias, ou seja, por Idéias Centrais.
I
– Idéia Central: a inclinação para as ciências
biológicas e humanas.
Porque
me
identifico com a área de biológicas e, principalmente,
com a profissão.
Adoro
a área de Biológicas, estudar o corpo humano. Além
...
Porque
sempre
gostei da área de biológicas e ...
II
– Idéia Central: o discurso cidadão
Faço
o curso de Medicina pensando em futuramente poder fazer algo de bom
pela sociedade, ou seja, poder dar uma melhoria de vida as pessoas;
Na
realidade um misto de solidariedade e curiosidade.
Porque
vejo que, desta forma, estarei contribuindo para a sociedade e,
assim, posso me estabelecer como uma cidadã ativa.
III
- Idéia Central: a ajuda ao próximo
Porque
o curso de medicina me agrada, pois poderei ajudar as pessoas, realizando
meus sonhos e ....
Além
disso, é demais a idéia de poder ajudar as pessoas se
sentirem melhor. O médico tem a oportunidade de entender
certas aflições do ser humano e quem sabe poder amenizá-las.
Nunca
pensei em outra profissão,
pois sempre quis ajudar as pessoas e conhecer o corpo humano.
....
IV
- Idéia Central: a vocação
Nunca
pensei em outra profissão,
pois sempre quis ajudar as pessoas e conhecer o corpo humano.
Na realidade um misto de solidariedade e curiosidade.
Porque
é minha vocação, sei que nasci para fazer isso.
Quero ajudar as pessoas.
v
– Idéia Central: o desafio de curar e salvar vidas
....
pois poderei ajudar as pessoas, realizando meus sonhos e
curando-as;
Com
as expressões chave de cada questão organizadas por Idéia
Central, foram elaborados os DSC. Esse trabalho resultou em quatro documentos
por turma de sujeitos, ou seja, 16 documentos que sintetizam, sob a forma
de Discursos do Sujeito Coletivo, o conteúdo de todas as repostas
obtidas.
Após
esse procedimento, inicia-se o tratamento do conjunto dos dados. As relações
das respostas das quatro turmas às quatro primeiras questões,
com seus respectivos DSC organizados por Idéia Central, foram então
reorganizadas no seu conjunto, por questão. Esse trabalho resultou
em quatro novos documentos, um para cada questão, contendo os DSC
construídos com todas as respostas das quatro turmas às quatro
questões. Esses documentos apresentam cada DSC acompanhado das Expressões
Chave, organizadas por ano do curso, por sexo e por Idéia Central.
A
elaboração desses documentos permitiu a comparação
criteriosa entre os DSC. Eles foram então retirados dessas relações,
alguns renomeados em função do conjunto, e organizados em
quatro tabelas, que serão apresentadas no decorrer da discussão
dos resultados.
Os
recortes feitos nos discursos para isolar Expressões Chave, bem
como seu agrupamento nas categorias denominadas Idéias Centrais,
foram dirigidos pelo interesse da pesquisadora em identificar representações
sociais sobre a profissão, pelo seu referencial teórico e
metodológico e também pelos conteúdos que se apresentaram
nas respostas dos sujeitos.
CAPÍTULO
III:DISCURSOS DO SUJEITO COLETIVO
– UMA INCURSÃO NO UNIVERSO SIMBÓLICO DE ESTUDANTES DE MEDICINA.
A
discussão que se segue tem como base as respostas dos sujeitos da
pesquisa interpretadas na forma de Discursos do Sujeito Coletivo. Com elas
foram construídos 49 DSCs em torno de 14 Idéias Centrais,
sendo 9 delas comuns às quatro turmas. O quadro abaixo tem a função
de oferecer uma visão inicial do conjunto das Idéias Centrais
e de sua distribuição pelas quatro turmas de sujeitos.
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FCMSCSP |
FCMSCSP |
UMC |
UMC |
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Vocação
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Ajuda
ao próximo
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Afinidade
com C. Biológicas
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Ser
útil à sociedade
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Desafio
de lidar com a vida
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Influência
familiar
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Status
social e financeiro
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Relacionamento
humano com o paciente
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Capacidade
de curar e salvar vidas
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Altruísmo
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Humildade
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Arrogância
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Ganância
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Falta
de consideração com o paciente
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Para
uma facilitar a aproximação mais efetiva do universo simbólico
dos grupos estudados os resultados estão organizados por questão
respondida.
3.1.
DISCURSOS DO SUJEITO COLETIVO REFERENTES À QUESTÃO 1. POR
QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO O CURSO DE MEDICINA?
É
importante registrar que no dia em que os questionários foram preenchidos
pelo primeiro ano da FCMSCSP, os alunos estavam divididos em pequenos subgrupos
de discussão, cada um acompanhado por um professor, sendo que num
deles o tema era justamente o motivo da opção pela medicina.
Essa possibilidade de expressão da subjetividade estimulada por
um professor e em pequeno grupo pode ter resultado numa fala mais descontraída
e na maior espontaneidade no momento de responder ao questionário.
A
leitura atenta da tabela, entretanto, mostra que a diferença da
forma não interfere no conteúdo dos discursos, cujo núcleo
é sempre o mesmo. Eles se constituem, ainda, em torno das mesmas
Idéias Centrais verificadas na fase exploratória desta pesquisa.
São
também similares aos resultados de estudo sobre motivos da escolha
da profissão realizado com um grupo de médicos formados,
visando contribuir para a elaboração de instrumentos legais
que regem o relacionamento do profissional de saúde com o paciente
(ZAHER 1999). Os instrumentos de pesquisa foram questionários, desenhos
e entrevistas com médicos. A forma como foram organizados os motivos
apresentados individualmente para a escolha da profissão difere
em parte da utilizada nesta pesquisa. Os motivos foram divididos em três
grupos principais: I – Influência de terceiros; II – Lembranças
de infância e doença pessoal; III – Motivações
pessoais e o vínculo com o outro. As respostas do grupo III, que
mais se relacionam com os resultados deste trabalho, foram categorizadas
em:
·Subgrupo
A – vocação,
ideal e idealismo, satisfação, gratificação
e as realizações pessoais e profissionais; visão romântica
da medicina (admiração, encanto, fascínio, paixão,
aura, beleza, nobreza, honra, sonho, intuição).
·Subgrupo
B – vontade de; gostar de;
desejo de; curar e cuidar; ajudar, servir, auxiliar o próximo e
aliviar o sofrimento; questões sociais e melhoria da qualidade de
vida.
·Subgrupo
C – ascensão, status,
posição social, valorização segurança
isonômica e mercado de trabalho.
Com
estratégias metodológicas diferentes, e um recorte determinado
por objetivos diversos, estes resultados apresentam significativas semelhanças
com os aqui encontrados.
Também
se assemelham aos resultados encontrados num estudo exploratório
dos fatores psicológicos e sociais na opção pela medicina
com médicos residentes. (MANENTE 1998). Sob o título Desde
pequeno... eu sempre quis... A autora identifica os seguintes motivos de
escolha:
¨Considerações
sobre a crença de que já nasceram assim – vocação
¨Fantasias
de qualidades especiais
¨Dinheiro
e prestígio em segundo lugar
¨A
tendência à acomodação, depois de feita a escolha.
¨Nunca
se imaginaram noutra
¨Determinação
quase genética
·Interesse
por exatas e biológicas – o médico cientista
·Interesse
pela relação humanista.
3.1.1.
O
Discurso da Vocação
As
expressões sonho, admiração, dom natural, atração
desde criança, não me vejo fazendo outra coisa, caracterizam
o DSC da Vocação.
1.
DISCURSOS DA VOCAÇÃO |
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Até
hoje não sei bem o principal motivo da escolha. Desde criança
pensava em fazer medicina, admirava a profissão médica. Não
consigo me imaginar fazendo outra coisa. Talvez seja vocação.
É uma forma de buscar satisfação pessoal e profissional.
Acredito que tenho um dom natural para essa área.
|
Estou
fazendo o curso de medicina porque é um curso que me atrai desde
criança. Não me vejo fazendo outra coisa que senão
medicina.
|
Estou
fazendo o curso de medicina porque nunca pensei em outra alternativa, sempre
sonhei em ser médico, sei que nasci para essa profissão,
que admiro desde criança. Acredito que posso ter a honra de levar
esse título.
|
Estou
cursando medicina porque desde criança sempre quis ser médico.
Talvez seja o que chamam de vocação. Sou apaixonado pela
área da saúde e a medicina foi a única que me atraiu,
pelo desafio que representa.
|
Parecem
indicar que o sujeito do discurso acredita e aceita que sua escolha do
curso não tem uma motivação racional, consciente.
Também não existe, neste DSC, nenhuma alusão à
influência de fatores externos ao sujeito. Foram incluídas
nessa categoria as expressões dom natural, por gosto, por satisfação
pessoal, por talento, desacompanhadas de qualquer outro motivo, por ser
esta uma categoria mais ampla no sentido de abrigar todas as respostas
subjetivas e vagas.
Ao
mesmo tempo que os DSC da Vocação não incluem a consideração
de causas externas objetivas que poderiam ter determinado a escolha, há
neles uma tendência de atribuir essa escolha a determinantes naturais,
quase genéticos.
A
palavra vocação é uma expressão com alto significado
simbólico para o indivíduo e para a sociedade. “Traz embutida
a idéia de sacerdócio, da dedicação plena,
do chamamento divino para acolher o sofrimento humano”. (ZAHER 1999)
Para
Manente (1998 p.107), os processos de interiorização são
inconscientes. Mas a vocação é uma forma de explicar
a escolha, uma forma que, por não ser consciente, lança mão
de figuras culturalmente estabelecidas. Pode ser o 'chamado', como o dos
xamãs e dos heróis.
Para
Bourdieu, o termo vocação exprime o resultado da relação
que se estabelece objetivamente entre uma categoria de agentes e o mercado
de trabalho, e que se concretiza através de uma carreira. O habitus,
um sistema de disposições produzidas pela interiorização
de um tipo determinado de condições objetivas, envolvendo
um tipo determinado de oportunidades também objetivas, é
o princípio unificador e gerador das orientações comumente
descritas como “escolhas” da “vocação”, assim como de todas
as práticas. O DSC da Vocação, portanto, está
impregnado de determinações sociais desconhecidas pelo seu
emissor coletivo.
Ele
se repete nas quatro turmas, sem distinção entre primeiros
e quinto anos, entre UMC e FCMSCSP e entre mulheres e homens, indicando
que nem os quatro anos de faculdade, nem o tipo de curso, nem as diferenças
de gêneroforam capazes de
modificá-lo.
3.1.2.
O
Discurso da Ajuda ao Próximo
O
DSC da Ajuda ao Próximo é um dos mais freqüentes nas
quatro turmas. Carrega expressões que se voltam para valorizar a
relação de ajuda, a relação com o outro.
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Escolhi
a Medicina porque é uma área que abrange os desejos de poder
auxiliar o próximo.Sempre
foi minha vontade fazer algo que "fizesse a diferença", ajudasse
as pessoas necessitadas de cuidados, indefesas e me fizesse feliz. A profissão
médica proporciona um prazer pessoal, pois você consegue ajudar
as pessoas fazendo o que gosta e se sentir um pouco herói. Quero
uma profissão em que o lado humano seja valorizado.
|
Estou
fazendo o curso de medicina porque gosto de estar em contato com pessoas
e principalmente de ajuda-las, de forma direta e atuante, aprendendo com
a experiência de vida de cada paciente. Sempre me identifiquei com
o sofrimento do meu semelhante e me sinto realizado por proporcionar o
bem do próximo.
|
Estou
fazendo o curso de medicina porque sempre foi meu sonho poder ajudar os
outros, aliviar o sofrimento alheio, passar informações que
possam ser úteis e ajudar as pessoas a se sentirem melhor.
|
Estou
cursando medicina para poder ajudar o próximo, dar assistência
sem discriminações àqueles que não tem condições
de ter o que eu tenho. Sinto vontade de ser útil a alguém
que me tenha como ponto de referência para confiar seus problemas.
|
Já
não se trata aqui de uma vocação abstrata, nem de
uma preferência pessoal por determinados assuntos. A escolha da profissão
se faz pela possibilidade de interferir, aconselhar, assistir, ter uma
relação direta e atuante com as pessoas, uma forma da pessoa
se sentir ao mesmo tempo útil e importante.
Suas
nuances entre as quatro turmas se referem à qualificação
desse próximo a ser ajudado. Para o 1º ano FCMSCSP, pessoas
necessitadas, indefesas. Para o 5º FCMSCSP, as pessoas, meu semelhante.
O 1º UMC não menciona a palavra próximo, mas os outros.
O 5º UMC qualifica o próximo como aqueles que não tem
condições de ter o que eu tenho.
Diferenciam-se
também os DSC no tipo de ajuda que se quer dar. A ação
de ajudar é vaga no 1º ano FCMSCSP e no 1º ANO UMC se
define como aliviar o sofrimento, passar informações. No
5º ano FCMSCSP, embora a ajuda seja definida apenas pela forma, direta
e atuante, é acrescentada a possibilidade de aprender com a experiência
de vida de cada paciente, o que pode indicar uma concepção
de maior reciprocidade na relação de ajuda. O 5º ano
UMC também define o tipo de ajuda pela forma: sem discriminações,
o que pode indicar uma percepção das desigualdades e dos
direitos sociais.
Nas
falas do primeiro ano da FCMSCSP, na sua maior disponibilidade de expressão
e talvez por um estímulo do próprio curso, vislumbra-se um
traço de reflexão crítica, quando o sujeito reconhece
como motivo da escolha a expectativa de se manter um pouco herói.
O
DSC da ajuda ao próximo se caracteriza como tal pelo que tem de
comum às quatro turmas: o sentimento de prazer, de satisfação
pessoal nessa ação de ajudar. As diferenças apontadas
indicam diferentes graus de criticidade e de possibilidades de mudança.
A
representação social da medicina como um ideal de ajudar
o próximo pode ser uma forma de lidar com a convivência com
a desigualdade e a exclusão, de pagar uma dívida social por
pertencer a um segmento privilegiado da sociedade. Trata-se de uma idéia
ligada à de sacerdócio, como a da vocação.
Suas raízes podem ser encontradas nos valores que caracterizam o
início da medicina como prática moderna, como o ideal de
serviço e a imagem de austeridade e despojamento. É evidente
o contraste entre essa visão e o pragmatismo e o imediatismo que
nas sociedades de mercado são a tônica não só
da medicina, mas de quase todas as práticas humanas. Esse contraste
remete aos mecanismos da economia das trocas simbólicas descritas
por Bourdieu, nos quais o interesse na troca não é explicitado,
transformando relações de dominação em paternalismo,
com a anuência tanto dos dominantes como dos dominados.
A
idéia de profissão de "ajuda aos pobres e necessitados" é
uma das que estão presentes nas representações sociais
de estudantes de Serviço Social sobre essa profissão, guardando
as diferenças determinadas pelas origens do Serviço Social
na caridade cristã e na assistência aos pobres.Nela,
"o Serviço Social é percebido como profissão interventiva
que, por responder a situações de carências dos pobres,
a ajuda privada é interpretada como bonita, humanitária,
ligada à religião e à caridade cristã". O modo
de atuação profissional é associado a "rituais do
fazer fenomênico cotidiano, em volta de um idealismo romântico
e religioso: 'cuidar dos pobres', "tirar os meninos da rua", "aconselhar",
"orientar". Nele, a ajuda não se restringe à ordem material,
mas ao reconhecimento do diálogo, do apoio, do aconselhamento, como
instrumentos de ajuda aos pobres". Os instrumentos de trabalho do profissional
são descritos como habilidades pessoais: "compreensão", "disponibilidade',
"respeito" e falta de distinção entre características
pessoais e profissionais. (TEIXEIRA 1998)
3.1.3.
O
Discurso Cidadão
Ligado
também a uma visão humanista, mas denotando alguma consciência,
por parte dos sujeitos, da necessidade de uma ação social
e não apenas individual, o Discurso do Desejo de ser Útil
à Sociedade, ou Discurso Cidadão, se apresenta nas quatro
turmas, com maior força nos primeiros anos e nos grupos femininos.
3.
O DISCURSO CIDADÃO |
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Acredito
que cursando medicina e exercendo minha profissão com amor e seriedade
posso ser útil à sociedade. Encontrei na Medicina, mais do
que em qualquer outra profissão, uma forma de pagar a dívida
social que adquiri por ter tido a oportunidade de estudar. Poderei me realizar
como cidadão ao contribuir para a melhora da nossa sociedade.
|
Estou
fazendo o curso de medicina porque quero contribuir com meu trabalho para
melhorar a sociedade.
|
Estou
fazendo o curso de medicina porque quero fazer algo de bom pela sociedade,
contribuir como cidadão ativo para corrigir os erros do sistema,
para melhorar as condições do mundo, através das condições
de saúde.
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Estou
fazendo o curso de medicina pela vontade de fazer alguma diferença
na sociedade. Médicos podem fazer muito para ajudar a comunidade
e melhorar nosso país.
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Esse
discurso tem alguma semelhança com o da ajuda ao próximo:
refere-se a uma intervenção que seja útil e confira
importância ao profissional, o que fica claro numa expressão
do 5º ano UMC: fazer a diferença. Contribuir para melhorar
a sociedade é a expressão mais comum deste discurso, nas
quatro turmas. Uma forma de pagar a dívida social, é a expressão
que diferencia o 1º ano da FCMSCSP.
É
mais expressivo nos primeiros anos e, neles, no grupo feminino. Nos quintos
anos das duas instituições de ensino só foi encontrada
uma expressão do grupo masculino para cada turma, o que parece indicar
que os valores relacionados a uma ação social estão
enfraquecidos nos estudantes do quinto ano.
Quanto
à menor adesão dos quintos anos a este discurso, pode-se
levantar a hipótese de que o contato com a realidade da profissão
bloqueou a necessidade dos alunos de quinto ano de se dedicar a uma causa
(ERIKSON 1978) que nos primeiros anos se manifesta declaradamente.
3.1.4.
O
Discurso da Inclinação para as Ciências Biológicas
Relacionado
a aspectos mais objetivos - a ciência, o funcionamento do corpo,
a possibilidade de acumular conhecimento - é um DSC comum às
quatro turmas pesquisadas.
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Sempre
soube que queria seguir carreira de biológicas, devido ao meu interesse
e curiosidade cada vez maior pelo funcionamento do corpo e da mente humana.
O curso de medicina me proporcionará o prazer de estudar e desenvolver
atividades científicas na busca desse conhecimento.
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Estou
fazendo o curso de medicina porque sempre gostei de Biologia e em especial
pela curiosidade de entender como funciona o corpo humano. Conhecer um
ser humano quase que completamente parece básico e fascinante ao
mesmo tempo.
|
Estou
fazendo o curso de medicina porque adoro a área de Biológicas,
gosto de realizar pesquisas e de estudar o corpo humano, suas possíveis
deficiências e entender certas aflições do ser humano.
O corpo humano é uma máquina, tudo se encaixa. Admiro o volume
de conhecimento que um médico tem que ter.
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Estou
fazendo medicina porque tenho afinidades com a área de biologia/
biomedicina.
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Este
DSC apresenta diferenças nas Expressões Chave do grupo feminino
e do grupo masculino. As do grupo masculino se referem mais a uma visão
cientificista ou tecnicista da Medicina, a uma visão compartimentada
do ser humano. As expressõesconhecer
o mecanismo de funcionamento do corpo humano, desenvolver atividades científicas,
objetividade da profissão médica ilustram essa visão.
A
expressão o corpo humano é uma máquina, nele tudo
se encaixa, caracteriza, com propriedade, essa visão tecnicista.
Uma visão limitada pela falta de conhecimento do que diferencia
um organismo, ser vivo, de uma máquina, que é um sistema
primitivo, onde a relação dominante entre as partes é
fundamentalmente mecânica.
No
grupo feminino, essa visão compartilha o espaço simbólico
com outra, mais próxima de uma visão da integralidade, nas
Expressões Chave relacionadas a uma visão mais integral do
ser humano, como a pessoa em si, a compreensão do corpo humano e
da mente.
É
interessante notar que no primeiro ano da UMC, tanto no grupo feminino
quanto no masculino, aparecem expressões ligadas ao interesse pela
pesquisa, pela produção de conhecimento e à admiração
pelo volume de conhecimento que um médico deve ter.
Esse
discurso, identificado também no trabalho de Zaher (1999), pode
estar relacionado com a imagem tradicional do médico, digno de admiração
pelo seu saber exclusivo sobre o ser humano. Mas também é
influenciado pelos valores mais contemporâneos de progresso científico
e tecnológico e pela pressão para se atualizar constante
no meio médico.
3.1.5.
O
discurso do desafio de curar e salvar vidas
A
idéia do desafio de lidar com a vida também aparece nas quatro
turmas.
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Por
que gosto do desafio de curar. Sempre tive interesse em poder "mexer" com
a vida. Gostava do ambiente hospitalar, me preocupava com as doenças
dos familiares. O curso me permite adquirir conhecimentos e práticas
sobre o corpo e a mente humana e aprender a preservar o maior bem do ser
humano: a saúde.
|
Estou
fazendo o curso de medicina porque gosto de lidar com a doença e
a morte e acho maravilhoso poder curar, salvar uma vida.
|
Estou
fazendo o curso de medicina porque por meio deste curso poderei entender
como ocorrem as doenças, diagnosticar e tratar doentes. É
um curso que responde à minha paixão, que é salvar
vidas e lidar com pessoas. Adoro ambientes médicos e me agrada muito
ser útil na hora em que a pessoa chega a um Pronto Socorro precisando
de ajuda.
|
Estou
fazendo medicina pela possibilidade de cuidar da saúde doas pessoas.
Sempre tive curiosidade de conhecer as doenças e os tratamentos;
o desafio de curar e salvar vidas me agrada.
|
Estes
discursos foram construídos com as respostas que continham as expressões:
doença, saúde, hospital, vida, morte, curar e salvar.
A
idéia de curar doenças é mais presente do que a de
cuidar da saúde, que se expressa apenas no 5º ano Universidade
de Mogi das Cruzes, o que talvez possa estar relacionado com uma visão
de saúde como ausência de doenças, compreensível
nos primeiros anos, mas inesperado nos quintos.
Este
DSC, pelas expressões desafio, acho maravilhoso, paixão,
tem, como o DSC da Vocação, um sentido de deslumbramento,
de uma perspectiva idealizada das possibilidades profissionais. Tem em
comum com o DSC da Ajuda ao Próximo a satisfação de
ajudar, mas dele se diferencia por enfatizar a satisfação
pessoal, mesmo o orgulho pelo conhecimento que dá o poder de curar.
É
um discurso sem grandes diferenças entre os sexos e as séries
do curso. Mais concentrado nas turmas de primeiro ano. Talvez a maior proximidade
com a prática médica no dia a dia, no caso dos quintos anos,
contribua para diminuir a expectativa de um conhecimento quase milagroso.
3.1.6.O
Discurso da Influência Familiar
Encontrado
em todas as turmas, exceto no primeiro ano da Universidade de Mogi das
Cruzes, que apresentou apenas uma expressão relacionada, ele se
compõe exclusivamente das respostas que apresentam a influência
familiar como uma das razões de escolha do curso.
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É
um curso que escolhi desde pequeno, sabendo dos sacrifícios e da
dedicação necessária, por influência dos meus
pais ou familiares, que são médicos, por não ter uma
idéia de como eram as outras profissões e por admirar muito
o trabalho dos médicos.
|
Estou
fazendo o curso de medicina, entre outras razões, por influência
de parentes médicos com os quais convivo desde criança.
|
Não
há.
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Estou
fazendo o curso de medicina, entre outras razões, por influência
de parentes médicos com os quais convivo desde criança.
|
Não
há diferenças significativas nem entre primeiros e quintos
anos, nem entre homens e mulheres. A influência familiar, de modo
geral, é mais referida ao convívio com o ambiente médico
desde a infância e à admiração por pais ou familiares
do que uma pressão sobre o estudante para escolher a medicina. É
uma escolha já identificada em outros estudos, como nos de Zaher
(1999).
No
entanto, trata-se de uma categoria que foge ao escopo dessa análise
na medida em que expressa-se em um discurso que não descreve as
idéias sobre a profissão..
3.1.7.O
Discurso do Status Social e Financeiro
A
imagem do curso de medicina como uma forma de obter status social e financeiro
aparece em três turmas.
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Porque
é uma carreira que oferece um amplo mercado de trabalho, garantia
de emprego, boa remuneração, além de prestígio
social. Mas não foi este o principal motivo da escolha do curso.
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Estou
fazendo o curso de medicina pelo status da profissão, que pode me
proporcionar um bom mercado de trabalho e estabilidade financeira.
|
Não
há.
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Estou
fazendo o curso de medicina por ser uma profissão que oferece status
social e financeiro e maiores possibilidades de emprego.
|
O
reconhecimento do interesse pessoal pelas vantagens financeiras e de prestígio
social que o profissional de medicina pode obter é expresso, sempre
acompanhado de motivos mais “nobres”, em todas as turmas, exceto no primeiro
ano da UMC. Ele é mais claro e direto nos quintos anos, mas mesmo
aí, numa das expressões masculinas, aparece na forma de negação:
“O que não me preocupa nem um pouco é pelo fator de ganhar
ou não dinheiro. A única coisa que desejo é ser bom
médico para nunca prejudicar nenhum dos meus pacientes.”
No
primeiro ano da FCMSCSP se apresenta, em algumas expressões, com
ressalvas ou na negativa: mas não foi este o principal motivo da
escolha do curso; acho que hoje o status social oferecido pela medicina
é pequeno, e não considerei um fator, assim como o status
econômico; a ascensão social é vista como secundária,
mas não deixa de ser importante.
3.2.
Discursos do Sujeito Coletivo referentes à Questão 2.: Qual
a maior qualidade de um médico?
Foram
encontradas três Idéias Centrais nas respostas a essa questão,
comuns a todas as turmas.
Do
primeiro ao quinto ano, nas duas instituições e tanto no
grupo feminino quanto no masculino, as respostas individuais são
ricas em detalhes e sem grandes diferenças de conteúdo.
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A
maior qualidade de um médico é sua capacidade de comunicação,
de conseguir entender o paciente no seu ambiente bio-psico-social, ser
respeitoso e solidário com ele e ajudá-lo como se fosse uma
pessoa e não uma doença.
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A
maior qualidade de um médico é sua capacidade de estabelecer
uma relação médico paciente atenciosa, vendo o ser
humano como um todo complexo, sabendo ouvir, compreender, se aproximar
e ganhar a confiança do paciente para poder intervir na vida dele
de forma positiva.
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A
maior qualidade de um médico é deve ser a compaixão.
Um médico deve ter o dom de entender e de se condoer, para ajudar
o próximo sem esperar algo em troca. Deve saber ouvir e não
discriminar ninguém.
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A
maior qualidade de um médico é seu interesse e amor pelo
ser humano, o respeito e a atenção que dedica aos pacientes,
suas famílias e amigos. A sensibilidade para tratar do paciente
“como um todo”, com amizade, mesmo que ele não tenha condições
de pagar.
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O
DSC do Relacionamento Humano com o Paciente como a maior qualidade de um
médico, corresponde ao da Ajuda ao Próximo como motivo de
escolha de profissão, estando ambos centrados na relação
médico-paciente. Ao tratar essa relação isolada do
contexto sócio-econômico em que se insere, esses DSC negam
as condições de trabalho atuais nas quais essa relação
se estabelece.
Embora
ainda evidencie, nos seus componentes simbólicos, a idealização
do profissional de medicina, o DSC do Bom Relacionamento com o Paciente
se próxima de algum grau de objetividade, ao detalhar as qualidade
do profissional que se relaciona bem com o paciente, em três aspectos:
Capacidades
pessoais: comunicação, saber ouvir, conseguir entender e
ser entendido.
Concepção
de ser humano: visão integral do ser humano incluindo corpo, mente,
meio ambiente.
Postura
ética: ser respeitoso, paciente, solidário, generoso e não
preconceituoso.
Este
DSC, ao mesmo tempo em que se refere a uma imagem idealizada de médico,
contém elementos que indicam uma disponibilidade para a construção
de um padrão de relacionamento profissional que leve em conta a
subjetividade.
3.2.2.O
Discurso da Capacidade de Curar e Salvar Vidas
A
capacidade de curar e salvar vidas é considerada a maior qualidade
de um médico em todas as turmas que responderam o questionário,
independentemente da série do curso e do gênero.
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A
principal qualidade de um médico é a maravilhosa capacidade
de salvar vidas e aliviar o sofrimento, bem como de impedir a propagação
de epidemias, o que o torna um ser diferente na sociedade, portador de
um dom divino. Essa capacidade envolve ainda o preparo para agir em situações
científicas delicadas, apoiado num rígido código moral
e ético.
A
maior qualidade de um médico é sua capacidade de salvar vidas
e de curar ou melhorar a qualidade de vida do paciente. |
A
maior qualidade de um médico é sua capacidade de ajudar as
pessoas, seu poder de aliviar o sofrimento e de curar ou salvar vidas.
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A
maior qualidade de um médico é a sua capacidade de usar o
que sabe para descobrir e curar doenças, seu poder de discernir
o que é bom e o que é ruim e de salvar vidas.
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Não
há.
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É
descrita como competência, capacidade de diagnosticar, boa formação
teórica e prática, necessidade de atualização
constante. Relaciona-se com o da Inclinação para as Ciências
Biológicas, por valorizar o conhecimento. Nele a questão
do saber como capacidade ou poder se explicita mais claramente nas expressões
ter
o poder de aliviar a dor, dom divino, lidar com o limiar entre a vida e
a morte. Deixa entrever, inclusive, um desejo de controle que fica
muito evidente na expressão de um dos sujeitos do 1º ano Universidade
de Mogi das Cruzes: A maior qualidade de um médico deve ser ....
não salvar vidas, pois biologicamente isso é impossível,
o nosso legado é fatal, mas garantir que as mortes que aconteçam
sejam justas.
3.2.3.O
Discurso do Altruísmo
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A
maior qualidade de um médico é sua dedicação
aos estudos e ao ser humano, mesmo que em detrimento de si próprio,
de sua vida pessoal. É estar sempre disposto a atender qualquer
pessoa, independente do sexo, cor e classe social e empenhar-se ao máximo
para garantir boa qualidade de atendimento aos seus clientes.
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A
maior qualidade de um médico é o altruísmo, o fato
de amar aquilo que faz e colocar o bem estar dos outros acima do seu.
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A
maior qualidade de um médico é estar sempre disponível
para cuidar da vida das pessoas, buscando sempre saber mais, sempre aberto
a novos pontos de vista, dedicando sua vida à sociedade.
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Amaior
qualidade de um médico é saber se doar, se desprender do
dinheiro para ajudar as pessoas sem se preocupar com o retorno.
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A
afirmação do altruísmo como principal qualidade é
mencionada com mais intensidade nos primeiros anos das duas instituições.
No quinto ano da FCMSCSP aparece apenas no grupo feminino. Essa diferença
parece indicar que o curso contribuiu para enfraquecer a representação
social do altruísmo como capacidade inerente à profissão
médica. Uma influência que, pelo menos no 5º ano da FCMSCSP,
atingiu mais os homens do que as mulheres.
O
altruísmo é descrito como dedicação, colocação
do bem estar do paciente ou da profissão adiante dos interesses
pessoais, abdicação da vida pessoal, dedicação
aos estudos, atendimento não discriminado de quem procura ajuda.
Caracteriza-se também pelas expressões "sempre disposto',
sempre disponível, que exacerbam a idéia da qualidade de
abdicar da vida pessoal.
3.3.
DISCURSOS DO SUJEITO COLETIVO REFERENTES À QUESTÃO 3. QUAL
É O PIOR DEFEITO DE UM MÉDICO?
As
respostas a essa questão deram origem a três discursos do
sujeito coletivo, a partir de idéias similares por oposição
às da questão 2: a falta de consideração com
o paciente, a arrogância, a prepotência e a 1ganância.
11.
DISCURSOS CONTRA A FALTA DE CONSIDERAÇÃO COM O PACIENTE |
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O
pior defeito de um médico é a distância que mantém
do paciente, a falta de respeito pela pessoa como um todo. É não
cumprir os cuidados físicos e o apoio emocional que deve ao paciente,
é não ter sensibilidade para ouvir o que o paciente diz.
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O
maior defeito de um médico é a visão meramente biológica
do paciente, o descaso, a pressa no atendimento, a intolerância e
a discriminação do paciente por motivos sociais ou econômicos.
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O
pior defeito de um médico é tratar seus pacientes com frieza,
desatenção ou displicência.
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O
principal defeito de um médico é o desrespeito pelo paciente,
que se expressa por indelicadeza, impaciência, desatenção,
negligência, menosprezo pelo que o paciente diz.
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Corresponde,
na forma negativa, ao discurso do bom relacionamento como o paciente como
maior qualidade do médico.
Não
apresenta grandes diferenças entre primeiros e quintos anos, mas
as expressões relativas a esse discurso são mais numerosas
no grupo feminino.
3.3.2.
O
Discurso contra a Arrogância e Prepotência
12.
O DISCURSO CONTRA A ARROGÂNCIA E PREPOTÊNCIA |
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O
pior defeito de um médico é ser arrogante, não ter
consciência de seus limites, achar que é um ser superior,
dono da verdade, que não precisa de ajuda, e assim trazer más
conseqüências para os pacientes. É a vaidade de se sentir
um semideus, com poder sobre a vida e sobre as pessoas, como se sua profissão
fosse mais digna do que as demais.
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O
maior defeito de um médico é ser arrogante e achar que sabe
tudo, desprezar o que outros profissionais pensam, chegar a ponto de se
achar um semideus.
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O
pior defeito de um médico é achar que sabe tudo, não
admitindo seu desconhecimento ou seus erros. É achar que é
superior aos outros profissionais pelo fato de lidar com a vida, chegando
a pensar que é Deus. Essa falta de humildade resulta num comportamento
arrogante e prepotente.
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O
pior defeito de um médico é achar que sabe tudo, julgar-se
poderoso como Deus, um ser que nunca comete erros. A vaidade de considerar
sua profissão melhor do que as outras.
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Esse
discurso também está presente nas respostas das quatro turmas
de estudantes, mais marcadamente nos quintos anos das duas instituições
de ensino.
A
prepotência e a arrogância são palavras de significados
semelhantes e que se confundem na fala dos sujeitos. As expressões
chave que definem estes discursos são, basicamente: achar que é
dono da verdade, sentir-se um semideus, não ter consciência
de seus limites.
Esses
dois defeitos são referidos à relação com o
paciente, com os colegas e com o próprio conhecimento.
São
o oposto da qualidade da Humildade e indiretamente também o oposto
da Capacidade de Curar e Salvar Vidas, na medida em que grande parte das
expressões sobre Arrogância e Prepotência se referem
aos maus resultados desses defeitos para a saúde do paciente.