Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina 

Educação  em Saúde e a Reforma Sanitária: Subsídios Para Discussão
Texto elaborado em 1987 permanece atual e provoca  reflexões entre educadores e profissionais de saúde



Debatido em assembléia de educadores em saúde do estado de São Paulo 87, o texto"Educação em Saúde e a Reforma Sanitária: Subsídios Para Discussão" foi reformulado na época e continua suscitando discussões entre os trabalhadores da área da saúde. O documento cuja íntegra apresentaremos a seguir foi recuperado a partir de uma cópia da educadora da Secretaria de Saúde de Santa Catarina, Lisete Contin, e teve sua primeira versão elaborada na extinta Divisão Nacional de Educação em Saúde do Ministério da Saúde, de acordo com depoimento de Darcy Ventura, da Fundação Nacional de Saúde. Darcy lembra que a diretora da DNES/MS era Sophia Sarmento
e que o texto incorporou conceitos de diversos trabalhadores, como Joaquim, da Escola Nacional de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz, e a já falecida Cecília Donângelo, do movimento sanitário.

"Introdução
A Reforma Sanitária é compreendida como um processo, um movimento de construção de uma nova política de saúde que enfatiza a necessidade, entre outras, de desenvolver um maior compromisso do setor saúde com a melhoria das condições de vida da população.
A proposta da Reforma não ocorreu por acaso, não será realizada por força de Lei Constitucional, nem imediatamente, mas através de uma longa caminhada, difícil, de lutas, de conquista de direitos em vários setores sociais e que necessariamente passe pela construção de um projeto político-pedagógico transformador. Neste sentido, a Educação em Saúde como ação institucional assume papel fundamental.
Dentro desta perspectiva á que apresentamos este documento para ser incorporado ao debate da Reforma Sanitária.
Compartilhamos o conceito de Saúde como processo resultante das condições de vida, tal como foi considerado na 8a Conferencia Nacional de Saúde.
Por essa concepção, o direito de saúde significa a garantia, pelo Estado, de condições dignas de vida e  de acesso universal e igualitário às ações e serviços de promoção, proteção e recuperação de saúde. Ela representa um avanço, uma vez que, historicamente, as concepções institucionais quase nada ou nada tinham a ver com a vida das populações.
Quando falamos sobre Educação, nos referimos ao desenvolvimento das pessoas desde de que elas nascem e durante toda a vida nos seus processos de busca de satisfação de suas necessidades. Este desenvolvimento ocorre nas relações sociais de forma difusa ou organizada. É por elas determinado e se traduzem como ação de intervenção política que pode ser utilizada como instrumento de dominação ou libertação. Na história da Educação no Brasil, ela vem sendo predominantemente um instrumento de dominação.

Evolução da Educação em Saúde Pública
A Educação e a Saúde são duas práticas sociais, portanto, estão dentro de um projeto político mais amplo que interfere na dinâmica social.
Refletindo momentos históricos da sociedade brasileira, a prática da Educação e a da Saúde assumiram um caráter predominantemente conservador e reprodutivista, traduzindo o individualismo, o autoritarismo, o liberalismo, o assistencialismo.
A Educação em Saúde foi introduzida nos serviços de saúde quando as questões que hoje consideramos como de caráter social eram tratadas em termos individuais. Entendia-se dessa forma, em termos de “homem”, o que devia ser entendido como questões com raízes estruturais e econômicas. A Saúde era vista como fruto da consciência individual. Nesse contexto a Educação em Saúde assume o papel de transmissora de conhecimento - “dos que sabem” “para os que não sabem”(pedagogia tradicional) - objetivando a consciência individual.
lncorporando a concepção biologizante de Saúde Pública vigente, a Educação em Saúde se traduzia em ações de higienização, normatização, destacando o papel de professores para este trabalho, surgindo o profissional educador sanitário.
Após o discurso higienista, foi enfatizada a organização de comunidade, com algumas experiências isoladas, fragmentadas e não registradas em sua maioria. Tinham em geral, o objetivo básico de obter aceitação, adesão aos programas do governo e maximização dos recursos. Excepcionalmente, graças à visão política de alguns profissionais, algumas experiências transcenderam as propostas institucionais no sentido de maior capacitação da população para enfrentar seus problemas de saúde.
Em outro momento priorizou-se a divulgação e a mobilização comunitária em função da proposta de campanhas.
Posteriormente enfatiza-se a racionalização da aplicação de recursos e começa a era do planejamento burocraticamente realizado; os profissionais de saúde assumem assim as tarefas burocráticas do planejamento. O educador desempenha o papel de administrar a Educação em Saúde, reduzindo sua ação direta com a população - fazem planos de ação educativa em seus gabinetes para serem realizados por outros - a equipe de saúde, para outros - a população. Isto foi visto como forma de modernização visando à eficácia, eficiência e efetividade nos serviços de saúde.
A este período segue-se o do planejamento participativo, quando o governo usa no seu discurso a palavra participação, porém, com o propósito de cooptar, para suas propostas, o movimento social emergente.
Posteriormente, a Saúde Pública incorpora o conceito de história natural da doença de Leavell e Clark; os serviços de saúde pública assumem o planejamento na linha dos orçamentos-programa, fragmentando as ações de saúde e colocando o ato médico como atividade central das ações de saúde. A Educação em Saúde caminha para a linha tecnicista,da educação programada, educação por objetivos, sendo vagamente definida como apoio aos programas de saúde.

Repensando a Educação em Saúde
Com as mudanças sociais, econômicas, políticas e principalmente o fortalecimento dos movimentos populares no Brasil, os profissionais de saúde, entre eles os Educadores de Saúde Pública, começam a repensar a Saúde e a prática educativa nos serviços de saúde.
Os educadores de saúde pública se obrigaram a repensar mais profundamente seu papel, sua prática nos programas e serviços de saúde.
Das reflexões sobre a sua prática, feitas à luz de teorias críticas, surge a necessidade de romper com a prática pedagógica que se vem perpetuando. Assim como a educação é um instrumento de transmissão de ideologia dominante - de reprodução -, ela pode tornar-se historicamente e predominantemente um instrumento de transformação social, junto com as lutas sociais mais amplas.
Para que a Reforma Sanitária não se constitua, na prática, numa simples reorganização dos serviços de assistência médica, é fundamental que “a produção de serviços de saúde se realize em bases coletivas sendo a equipe de saúde, e não os profissionais isolados, a unidade produtora desses serviços”. Para tanto é necessário que os projetos de educação continuada visem a que os trabalhadores de saúde sejam:
- capazes de sistematizar sua experiência de vida, de mundo, de refazer seus valores, de potencializar sua prática existencial, de dimensionar sua consciência pessoal. Isto significa partir de uma prática concreta de vida;
- profissionais atentos aos eventos históricos, econômicos, políticos, sociais e culturais com condições de interpretá-los criticamente e de agir individual e coletivamente;
- profissionais comprometidos organicamente com a causa popular, com a melhoria das condições de vida e saúde da população;
- profissionais capazes de compreender o processo ensino-apredizagem que ocorre entre as pessoas, grupos e classes sociais, com postura não dogmática;
- profissionais que busquem informações científicas e tecnológicas vigentes em nossa sociedade, tornando transparentes seus objetivos e seus comprometimentos ideológicos.
Portanto, “faz-se necessária também a criação de condições favoráveis que permitam o envolvimento de todos os trabalhadores de saúde nos diversos níveis, para que o saber, o conhecimento e a informação sejam horizontalizados, garantindo que a democratização do saber e do conhecimento se processe na pratica das ações de saúde, sendo compartilhada com a população”. Isso implica na adoção de uma concepção pedagógica e metodológica que privilegie efetivamente os princípios de participação e democratização, caminhando para o fim das práticas autoritárias.
A prática educativa é comum a todos os profissionais de saúde. Porém, para que ela seja um instrumento de transformação nos serviços de saúde é necessário um acompanhamento contínuo sobre como ela vai se expressando enquanto ação institucional. Exige um profissional preparado para subsidiar e participar do processo de reflexão e desenvolvimento das práticas educativas em saúde e trabalhar na organização do projeto pedagógico que faz a mediação entre as equipes de saúde e os grupos da população.
 Entende-se por mediação as ações que visam a apropriação por esses grupos sociais das questões de saúde que se referem às suas condições de vida e de trabalho e que, no plano do setor de saúde, implicam na sua participação no processo de decisão e utilização dos serviços de saúde.
A organização do projeto pedagógico, a partir da reflexão sobre a relação pedagógica que se estabelece nos serviços de saúde e entre equipe e população, constitui o núcleo de ação do Educador de Saúde Pública. Para a organização do projeto pedagógico é fundamental:
1. Garantir a realização de estudos e pesquisas da dimensão educativa das práticas de saúde, entre outros:
- como as pessoas se educam
- como as mudanças de comportamento expressam e implicam mudanças sociais
- de que maneira o projeto social afeta a qualidade de vida, as questões de saúde/
doença nas representações coletivas
- como se desenvolve o conhecimento dentro do qual todos se reconhecem, em termos de teoria
 e prática
2. Reelaborar conceitos, metodologias e práticas no processo de educação em saúde nos serviços de saúde, a partir do projeto de vida das populações, conhecimento produzido ao nível dos grupos de trabalho e da população.
3. Participar do processo de planejamento e de organização dos serviços, das decisões, da elaboração de propostas de desenvolvimento de procedimentos que propiciem a desmonopolização do saber.
4. Viabilizar processos participativos das organizações governamentais e movimentos  populares no planejamento e na implementação das ações de saúde.
5. Promover discussões da dimensão educativa das práticas de saúde nos diferentes níveis da rede com a equipe e população.
6. Assessorar a produção e utilização de recursos pedagógicos, envolvendo os grupos aos quais se   destinam.
7. Assessorar e prestar assistência técnica aos diferentes serviços e projetos populares.
8. Supervisionar e avaliar a prática da educação em saúde desenvolvida nos diferentes níveis do sistema.
9. Participar da elaboração, execução e avaliação de projetos de capacitação de pessoal dentro das perspectivas colocadas neste documento.
Com este documento queremos enriquecer o debate sobre as práticas educativas no setor saúde do ponto de vista dos Educadores de Saúde Pública, destacando a educação continuada, a metodologia de trabalho, a democratização das relações de trabalho. Temos clareza, porém, de que a implementação da Reforma depende principalmente de decisão política, de gerenciamento, de medidas administrativas, de capacitação de profissionais de todos os níveis para o compromisso com o social e da participação efetiva da população.

Este documento foi elaborado por Lenita P.de Vasconcelos, M.Bernadete Arantes, Olga L. Salomão, Sara G. Dölhnikoff, Sophia M.G. Sarmiento e Toshiko H.Sassaki. Foi discutido em assembléia dos educadores de saúde pública do Estado de São Paulo em 15 de setembro de 87 e reformulado por Adelina N.S. Lamanna, M.Ignez L'Ambert, Olga L. Salomão, Sara G. Dölhnikoff, Shizuko Oki e Toshiku H. Sassaki.

                                                                                             São Paulo, setembro de 1987."
 

BIBLIOGRAFIA
1 Ministério da Saúde,  Anais da 8ª  Conferencia Nacional de Saúde, Brasília, 1987
2.Ministério da Saúde. Divisão Nacional de educação em Saúde. Ação Participativa: Perspectivas de atuação dos educadores de saúde pública. Brasília, 1984
3.Ministério da Saúde. Secretaria de Recursos Humanos. Relatório final da Conferência Nacional de Recursos Humanos para a Saúde. Brasília, 1986.
4.Ministério da Saúde. Divisão Nacional de Educação em Saúde. Relatório do Grupo de trabalho sobre currículo mínino para cursos especialização de educação.


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