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Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina
O processo de adoecimento, na visão de indígenas de SC
Artigo analisa o entendimento de índios xokleng sobre o surgimento da Aids numa comunidade indígena de Santa Catarina
O antropólogo Flávio Braune Wiik aborda, em artigo publicado no Caderno de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz, edição Março/Abril de 2001, o modelo explicativo dos índios sobre a origem da doença, que engloba tanto elementos presentes na cosmovisão e na sua etnomedicina quanto elementos macroconjunturais, como as alterações que a construção de uma barragem na aldeia provocou na população. A partir da análise dos episódios de Aids que acometeram os xokleng em 1988, o artigo relaciona fenômenos de doença a rupturas e transformações socioculturais ocorridas nesse universo com base na história de contato com a sociedade abrangente - os não-índios. De acordo com o resumo do artigo, "a interpretação e a análise da relação estabelecida são feitas à luz de teorias antropológicas acerca da centralidade que corpo, corporalidade e processos corporais degenerativos ocupam nas sociedades indígenas brasileiras. Propõe-se que corpo, sociedade e agentes macroconjunturais são articulados pela práxis; por isso, devem ser relacionados nos estudos socio-antropológicos concernentes aos fenômenos de doença". Wiik descreve as epidemias advindas com o contato com os não-índios, tentando vinculá-las aos contextos históricos específicos que o marcaram. Categorias da etnomedicina, cosmologia e corporalidade xokleng são associadas à organização social e aos casos de Aids. O enfoque principal trata da ligação estabelecida pelas transformações ocorridas no universo xokleng em função da construção da Barragem Norte em suas terras.
O capital gerado pelo comércio de madeira, estimulado pela construção da barragem nas terras indígenas, fez com que as pessoas começassem a agir de forma diferente, naturalizando as inovações sociais e econômicas. Foram estas inovações ideológicas que reformularam temporariamente a práxis xokleng - e, em decorrência, a sua organização socioeconômica - tal como foram estas inovações que, aos olhos dos Xokléng, trouxeram a Aids até eles. O antropólogo observa que, ao associarem a origem da Aids à barragem, os indígenas estão exercendo um raciocínio claramente empírico, cravado nos efeitos surtidos desde a sua construção, a exemplo de: entrada dos brancos trabalhadores da barragem, que mantinham relações sexuais com suas mulheres ou que se casavam para poder ter direito de explorar a madeira; brigas e fissões entre as famílias; entrada de dinheiro como mediador das relações sociais e sexuais; divisão da comunidade; fracionamento da terra indígena em "frentes de exploração" para comercialização da madeira por famílias nucleares; e, por fim, abandono dos preceitos da Assembléia de Deus.
- Leia a íntegra do artigo.